domingo, fevereiro 05, 2017

(novo) Noivado do Sepulcro


Quando um dia for poeta quero ser
Poeta – porém, poeta “insurgente”
E mergulhar em seus abismos.

Então meus dedos hão-de calar os ventos
E serei hóspede de infinitas tempestades
E criarei inimizades. (Que meus amigos
De mim sabem. E assim me querem
Desabrido. E claro.)

E serei aquele cego das esquinas.
A tocar concertina e exibir fístulas.
E arremedar jaculatórias piedosas. E sem rima.
E a piscar – brejeiro - o olho.
E a apalpar meninas - desprevenidas –
Está mais que visto!...

E a fazer grosso manguito à moeda
Que lhe atiras…

Pois meus  versos hão-de arder – vivos.
Ou rasgados. Ou serem papel nas latrinas.
Mas nunca usarão barbas.
E metáforas? Serão poucas.

E hei-de rir com meus botões.
Até que os cães acirrados
Se cansem de ladrar à toa
Tão frustrados quanto o dono
A morderem a própria cauda
E a declamarem em uníssono
“O (novo) Noivado do Sepulcro”.

Manuel Veiga

  

8 comentários:

Teresa Almeida disse...

A poesia sempre foi voz da luta por valores e tu és poeta que sabe esgrimir a palavra.
Parabéns, Manuel.
Beijinho.

Agostinho disse...

"Mas nunca usarão barbas", está visto.
Uma clara face será sempre mais aceite na bolsa das metáforas. Será isto.
Um poeta descarado, fingidor como (P)pessoa, que não diz coisas à toa e que morda as canelas aos cães com o hábito da cauda a abanar, cumpre a missão.
Põe-nos a dançar (a eles), Poeta. O morder da pulga é que lhes encurva o rabo (a cauda).
Abraço.

LuísM Castanheira disse...

Ser Poeta é...Ser aquilo que É!
"[...] (Que meus amigos
De mim sabem. E assim me querem
Desabrido. E claro.)"
E num claro e redondo vocábulo, de metáforas ausentes, mas com ironia presente, vais espalhando folhas de pura poesia.
(disseste que a poesia anda na rua, em qualquer dia, mas a ti ela procurar-te).
Um forte abraço e uma semana prometedora, Manuel.

CCF disse...

Fez-me lembrar Bocage, a quem fica muito bem o uso da palavra desabrido:)
~CC~

Odete Ferreira disse...

E és poeta insurgente, sem aspas. Desabrido, há que sê-lo. E claro (e contundente) és e serás, como o atestam as 3ª, 4.ª e 5ª estrofes. E assim te conheces; eu, leitora atenta, certifico-te e acrescento: nunca serão vãs as tuas palavras, assim como a sabedoria de as colocar no devido lugar.
Aproveitei a deixa e fui revisitar Soares de Passos...
Bj, Manuel :)

Odete Ferreira disse...

Esqueço-me de referir o som que escolhes; ouço sempre com prazer e deixo uma palavra de apreço pelo bom gosto.

graça Alves disse...

Se veio o ser tudo isto, não sei, mas lá que é bom é ;)
bj

José Carlos Sant Anna disse...

Há muita verve neste poeta desabrido, mas é o mesmo poeta conspirando com as palavras ou atravessando paredes sem a intenção de nos iludir. Deixa vir a poesia em teu rio a correr, poeta!
Forte abraço,