domingo, outubro 30, 2016

... e No Entanto, Nego-me.


Bem sei que minha liberdade é o pequeno passo
Que vai da mira ao alvo.

Bem sei! – e, no entanto, nego-me
Ao disparo. Certeiro.
Que arremessos
Eu não faço.

E de pedras apenas as que a mim se afeiçoam
Como letras de poema espúrio.

Ou aquelas outras em que me sento:
- Átrio de mim mesmo - ou não sendo minhas
Balizam meu caminho.

Por isso, nego-me. Não quero ferro que mate
Nem pedra que desbaste – apenas fisga
No bolso e olhar firme.
Sem glória
Ou acinte.

Afasto então as folhas mortas
E bebo água de meus dias.
E nego-me.

Não gosto do odor dos pântanos.
E bem sei que quem com beijo mata,
Em seu veneno morre – solidão ferida.

Evoco assim meus deuses - e nego-me.
E do castelo negro em que habito
Peço e rogo. E meço e estilhaço
E, solene, proclamo.
E atesto

Que meu espelho
Nunca me servirá de máscara
Nem muito menos me será tumba
Um dia.

Manuel Veiga
30-10-2016


sexta-feira, outubro 28, 2016

FRAGMENTOS XXXVI



Encurtemos razões, então, pois é mais que evidente o enfado. Maria Adelaide, o alfa e o ómega, o norte e o sul, a mão que fustiga e o braço que embala, de seu berço africano pouco lhe importa, neste agora de “África Minha”. Depois do sal das lágrimas e das amarguras e dos frustres dias, com a grande derrocada do retorno e as usuras de um tempo adverso que isto de Revoluções, tendo suas causas, razões e justiças e sonhos vivos no toque dos dedos e naquele abraço que muitos de nós guardamos, são também cratera aberta que devora e tudo igualha, ganhos e perdas no jogo da vida e, assim também nesse trepidante lance da história pátria de um “25 de Abril” alvoroçado, em que Maria Adelaide perdeu a fortuna e percurso lento de menina mimada e seus cuidados e ganhou, entretanto, o tempo maior de seu tempo de Mulher emancipada.

De África, pouco lhe resta. Memórias cálidas, que vêm à superfície e ela sacode, pois que a vida no seu presente infinitivo, é (agora) outra e não vale a pena chorarmos por leite derramado, de sorte que apenas a foto da bailarina seminua, no Maxime, sentada ao colo do pai, encontrada ao acaso, em caixa de papelão, por entre medalhas e distinções que Salazar lhe dispensava a ele, senhor seu pai e outras bugigangas também mortas, apenas tal foto a tem intrigado como mistério de verdade pressentida e replicada, sabe-se lá, a sépia e com moldura, na vida de Dona Rosalinda, no seu percurso de chinela no pé e canastra à cabeça, rua a baixo rua acima, a apregoar peixe fresco, fazendo uma perninha no fado e outros jeitinhos bem mais fogosos, num bar rasca do Cais Sodré, couto de marinheiros e vadios, antes de o seu Armando, para mal de seus pecados, a arrebatar num tango e presa a mil promessas e a um sonho de amor lindo e logo ela, Rosalinda, fartinha de conhecer crápulas e a levar num mar de promessas e enganos. Mas cada um é para o que nasce e uma mulher decente e trabalhadeira também ferve de cio e a lábia de alguns homens é bem capaz de transformar mulher séria em fêmea perdida. E assim Rosalinda se perdeu e deixou tudo para trás, mãe, irmãos, o bar e a vida pobre, mas limpa e até o sonho íntimo de ser cantadeira para se enfiar naquele buraco do fim do mundo, nos confins da Guiné e entregar-se aos caprichos de seu Armando em que mais tarde entrou também o diabólico Gaspar, que dela fizeram gato-sapato.

Cada um é para o que nasce é bem verdade, dona Rosalinda, capacho do Gaspar e do Armando, seu marido, mas com nome registado e pia baptismal. E uma história. Negra, bem se sabe, a história, mas a deixar rasto e pegada, ténue que seja, e uma vida também, simples, sonho ainda, a derramar-se na generosa dádiva de corpo e na maternal devoção ao Alferes que adoptou, “que lindo és, meu filho”, como tábua de salvação de um naufrágio, ou sublimação de afectos abortados.

Sim, Maria Adelaide, sei que é cruel expor assim descarnada, como fístula de alma, essa dor íntima e calada que trazes presa, o embaraço e a raiva que a recordação de tuas condiscípulas no Colégio de freiras, adolescentes como tu, a inquirirem, com sorrisinho maldoso afivelado nos lábios, elas com nomes frondosos, a escorrer da libré dos criados e, em seráfica postura de santidade, a soltarem precoce peçonha, “coitadinha não tem mãe” e “vive com os pretos”, “como são os pretos?” e tu a aguentares até ao limite do suportável as afrontas, a conteres a raiva e, com os nervos tensos e a lágrima em seco, a disparares, desbragada na tua rebeldia, como um murro de eloquência naqueles ardores feminis da adolescência: “queres saber como é preto? é homem como branco, mas tem c. maior” e a excitação dos gritinhos, e a Madre Superiora, e a reprimenda e a carta para teu querido pai, dando notícia de tua rebeldia e do teu mau aproveitamento escolar e o abandono compulsivo do Colégio e o apartamento nas “avenidas novas”, guardada por zelosos parentes da província, que de ti cuidaram, o Liceu Maria Amália, as tuas verduras e frescuras, a faculdade de Letras, os plenários na “Cantina Velha”, então apenas e tão só – a “Cantina” – as cargas da polícia, a propaganda clandestina do Movimento Estudantil transportada, sem teres verdadeira consciência da gravidade, no teu automóvel com chauffer fardado. as aulas, os exames medíocres e muita treta tua, o João, promissor advogado com lábia para teu pai e blandícias para ti, o casamento, o nascimento de teu filho, o momento de nosso encontro, claro que sim, Maria Adelaide, tudo o que és e tudo o que foste e essa dor maior, dissimulada no peito e denunciada nos teus olhos, a ausência de Mãe na tua vida, de que guardas apenas a cálida esperança de a veres vertida na foto gasta de uma mulher seminua no colo de um homem que sabes ser teu Pai, sem mais nada, apenas o nome próprio que te disseram, Amélia, sem apelido, nem registos, que assim te falaram, quando perguntavas, que morrera com teu parto. Sabe-se lá porque tramas da vida, a vida de uma mulher pobre! Do Maxime e de uma foto desbotada de uma mulher seminua e de um homem careca, de bigode e charuto que a tem ao colo, babado de gozo, e de uma menina, no percurso de dor e da sua vã evocação do sagrado nome de Mãe, ficamos a saber. E que mais? No buraco negro desse absurdo, que é nascer e morrer, e nos liames que à tona da vida nos mantêm, antes dona Rosalinda, não é verdade, Maria Adelaide? Sempre saberias onde escorar a tua perda e depositar a dor funda da tua orfandade.

Neste escarpado trilhar de pedras de Maria Adelaide em que seu pessoalíssimo itinerário de dor, tão íntimo e sofrido, se derramou, nenhum discurso narrativo poderá resistir à prova da verdade, nem autor, se autor houvesse, que não se vergue e arrepie caminho. Deixemos pois respirar o tempo e o modo deste luto e guardemos silêncio de outros personagens, pois que, nem Tabanca, nem Alferes, nem a vaidade ofendida de Sanhá Mané, filho de Régulo e Comandante-Chefe de Todas as Milícias e Tropas Auxiliares do Comando Territorial da Tabanca, nem sequer o “senhor Gomes”, que na sábia palavra de Dona Rosalinda os pretos respeitam e os brancos escutam ou escutavam, antes desta maldita guerra meter tudo “de pernas para o ar” têm agora ocasião ou momento no palco dorido da narrativa.


terça-feira, outubro 25, 2016

CALIGRAFIA ÍNTIMA.


No pórtico da Palavra onde – marés vivas –
Todos os sentidos se dizem e se desfazem
E todos os naufrágios se arrimam
E todos se revestem de alegrias frustres.

Nesse lugar de imponderáveis e de riscos
E de matriz de água e incêndios alvoroçados.
Devolvo ao mar – a grande Cloaca que tudo devora –
O náufrago nome infrene
E lhe ofereço todos os salvados
E todos os “nocturnos despojos”.
E todas as miragens.

E todas as palavras mortas
E todas as palavras ainda por dizer.

E numa caligrafia íntima – minha flor de sal –
Deixo que meu próprio sol
Se derrame à flor da pele – carícia breve!
E bálsamo seja. E limpe.
E arda.

Fogo-fátuo a iluminar por dentro
Os dias de porvir.

Manuel Veiga

23-10-2016

sexta-feira, outubro 21, 2016

PAIXÃO ADOLESCENTE.


                                                                                                          
Para minha Mulher.


Urgência de teus olhos assim tão fogo
Que tão líquidos se derramam e mil silêncios
Os consomem. E mil fios. E mil teares e enredos.
E mil anos os dizem. E mil helenas e mil tróias.
E mil penélopes os resguardam.

E mil “mulheres de Atenas” – verbenas!
E mil cantos. E mil rezas. E mil lágrimas colhidas.

Sou o pórtico desse fogo e a barcarola do sonho
Sou o rumo e ancoragem. Sou abrigo.
Sou o brado. Sou o grito. Sou incêndio
Das pontes. E as águas que correm no rio.

Sou a carne insubmissa. Sou a miragem!
Sou a memória perdida. Sou a fonte.
Sou origem. Sou quase tudo
No olhar em que sou cativo.

Meu amor, meu amor, sou o poema
Em que te digo.

Manuel Veiga












terça-feira, outubro 18, 2016

FRAGMENTOS XVIII

(...)
Mas se a vontade dos homens guia seus passos, o acaso ou imprevisto, ou um qualquer absurdo e interminável jogo de dados determinam os desígnios individuais e colectivos, em que a vida se esgota. Desejava nessa manhã encantatória conhecer o mistério do desterrado “senhor Gomes” sai-lhe a caminho Sanhá Mané, filho do Régulo, “Alferes” do Corpo Auxiliar do Exército Português, o laureado “Comandante em Chefe de todas as Milícias e Tropas Auxiliares do Comando Territorial da Tabanca”

FRAGMENTOS XVIII

Eu sei, Maria Adelaide como te enfastia este rodeio, este dobrar de esquinas há muito ultrapassadas, este comprazimento em espremer o que gasto está e o tempo não devolve, bem se sabendo que das nossas vidas não contam outros passos que não sejam aqueles que juntos percorremos, como se os restantes não fossem outra coisa que não seja o amaciar dos caminhos e a ponte que nos leva ao alvoroço e ao destino de nossos corpos na fusão do acaso nosso, que tu eu, no fervor dos sentidos e no encantamento do inesperado, quisemos arrancar do limbo das possibilidades para a memória intima, em que agora nos derramamos, num fingimento de verdade, que verdade se torna mais viva por cada fingimento que nos arrasta, neste jogo que inventamos para melhor nos dizermos e assim melhor podermos esticar o tempo (o nosso) vivido.

E também sei, Maria Adelaide, que te deixei lá trás, suspensa de um beijo e de uma resposta, com um livro roubado na mão (lembraste do título?) “exigência” tua, em teu jeito de perversidade gaiata e mimada de me levares aos limites e que eu sorvia na avidez rapace, em que me despenhava e que por ti fervia. Bem sei, Maria Adelaide que é esse o tempo que buscas, o Eldorado sentimental e o “Rosebud” em que te revês, a pulsão que te anima neste regresso de dizer-te por linhas e portas travessas, em fingimento de mim e de ti, que a vida, outra coisa não é que não seja o Grande Fingimento, que tudo devora. E, por isso, com teus braços cálidos envolvendo-me e teu olhar luminoso e felino queimando-me por dentro, insistes num murmúrio vindo do Além – “amas-me?”

Mas talvez ainda não esteja amadurecido o tempo, nem apurado o momento. Deixa por isso, Maria Adelaide que as palavras, sem caminho traçado, nem sujeito em que se digam, sigam seu capricho e em seus enredos se despenhem nos tumultos e acasos que te requerem. Tão inquietos e solícitos – os acasos vividos.

Mas, por enquanto apenas uma resposta, ainda agora tão só pergunta:

 “Que fazer com este Sanhá Mané, que em chão de África espreita para dentro da narrativa?”

“Meu querido Manuel como tu continuas a comprazer-te neste jogo de escrita sem te dares conta de que porventura estarás a levantar ondas mais altas que as marés e assim acabes derrubado na praia qual náufrago da epopeia da letras. Ainda se tu ao menos fosse um vate que as sereias protegessem, como Camões no naufrágio do Indico, sei lá, mas isto de sereias e ninfas modernas foram todas alugadas para alguma festarola no Algarve ou então debicam banhos e mergulhos perfumados em alguma piscina mixuruca, na Costa da Caparica, com se praia privativa fora, de tal forma que corres o risco de ali ficares na praia exposto a lamber sozinho tuas feridas e mazelas. Porque, meu querido, as tuas amadas Valquírias perderam seu tempo (onde os guerreiros que as sirvam?) e hoje mais não são que adereço de um qualquer teatro de bairro. Certo que eu nunca te negarei um afago seja qual for o transe ou dor por que possas passar, mas a vida tem-me ensinado a ser cautelosa e a prevenir em vez de cuidar. Por isso te previno, com alguma autoridade na matéria, que a tal me obriga algum tempo de estudo (e deixa ficar para lá esse teu esse sorriso que bem conheço e tanto me irrita) e a minha Licenciatura em Literatura e Línguas Modernas e não apenas “licenciatura em línguas” como tu velhacamente insinuas, com autoridade académica, portanto, te previno que esta xaropada, que pomposamente designas por Fragmentos de um “Objecto Literário” se está a transformar num “albergue espanhol” onde tudo cabe na tua pulsão tudo puderes dizer, não deixando margem ou pé de leitura que se aproveite. Deixa-te por isso de despejar aqui novos figurantes que nada têm para dizer e limita-te ao óbvio, a saber, aprofunda com mais detalhe alguns dos teus personagens, alguns dos quais, no traço grosso das suas vidas conhecidas, bem interessantes se mostram. Porque não trazes a Lia para a ribalta, que essa sim, no percurso de sua vida, com alguém que não tu, com verdadeiro talento poderia erguer como heroína e sua vida uma epopeia 

( “ e porque não de uma saga neo-realista, Maria Adelaide? – desculpa a ironia e a intromissão”)

A tua ironia, meu querido, é evidente sinal de que estou a bater certa. Deixa, portanto, para outros, que não para mim, que eu bem conheço teus artifícios, essa balela de não haver tempo, nem autor, que possa predeterminar destino da escrita, pois será sempre o “dedo invisível” do escritor a traçar as margens do discurso literário.

E por amor da santa da tua devoção que não é nenhuma bem sei, meu empedernido herético, que não te traga incómodo a pergunta lá atrás em que dizes sou dependurada, pois, meu querido, as respostas a perguntas íntimas têm seu tempo de validade, findo o qual, embora as perguntas permaneçam, deixaram de ter importância as respostas.

Assim falou a drª Maria Adelaide, licenciada em Literatura e Línguas Modernas, como se uma lição fora, ou quiçá, um esboço de tese para apresentar na Academia de Ciências, na “Classe Letras” está bem de ver, que ela tem conversa para dobrar qualquer júri. 

Veremos, pois, que merecimento as suas doutas opiniões, nesta descosida narrativa.








segunda-feira, outubro 03, 2016

EM LOUVOR DAS BARCAS...


Sobre tranquilas águas, suaves vão as barcas.
Nada as perturba. Serenas.

Não insídias, nem pedras atiradas, nem acenos.
Nem descaminhos. Nem glórias -
Sobranceiras águas!...

Nada perturba – as barcas!
Serenas vão. Sem outros passageiros – as barcas!
Que não sejam aqueles que elas queiram.
Sobre tranquilas águas.
E suaves deslizam. Cisnes brancos
Caprichando. Em serenas águas.

Por vezes recolhem-se. As barcas.
E das margens se contam pelos dias. Tranquilas barcas.
Sobre águas cristalinas.

E se humanizam – são rosto das gentes que passam!
E se despojam. As barcas. E se desenham
Apenas águas.

E se fecundam – sobranceiras barcas!...
E se reclamam tranquilas. E se dizem cativas
No deslizar das águas.
Cristalinas.

E um frémito percorre então as barcas
Voo de cisne em que a paisagem ferve
Sobre o sereno deslizar das águas.

E das cativas barcas. Consumindo-se
Tranquilas. Em febre
Sobre as águas.


Manuel Veiga

domingo, outubro 02, 2016

"FRAGMENTO XVI "...


O toque de clarim acordou o Alferes de seu torpor. Ajustou a farda e os cabelos e saiu apressado ao encontro dos deveres militares. O “Assobio”, graduado em ordenança do comando, acompanhado pelo “cabo cozinheiro” aproximava-se de tabuleiro em riste para prova do rancho.
 
Cá fora, alinhados na parada, os militares aguardavam ordem para a última refeição do dia.

FRAGMENTOS XVI

Não sabe o Alferes dos dias contados na Tabanca. Os trabalhos de alargamento e preparação das instalações militares prosseguem sobre a orientação competente do furriel Serrão, sobrando tempo ao Alferes para apascentar suas leituras e ócios, bem avisado, porém, que a sua participação, pequena que fosse, no movimento académico de contestação ao regime, fora seguramente notada pelas forças repressivas e que, por isso, sabia ser o exercício (provisório) do comando militar da Tabanca, medido e escrutinado pelo agente da Pide, que “zelava” por aquela fronteira do império para que a “ordem e os bons costumes” reinassem nos mais remotos recantos, tarefa em que era graciosamente acompanhado pelo Gaspar, seu permanente acólito após a morte do Armando, que o Diabo levou para as profundezas do Inferno e, no dizer da palavra certa e justa de Dona Rosalinda, bom seria que, para descanso das suas dores de corpo e da alma, o Diabo tivesse feito obra completa e, do mesmo golpe, tivesse também arrebanhado o Gaspar e o maligno senhor Antunes, torcionário de 1ª classe da famigerada Pide, que escassos anos mais tarde, num tempo de enganadoras Primaveras, em que o regime colonial-fascista se enredou e se pretendeu regenerar, em vã tentativa de ultrapassar o isolamento internacional, os torcionários da Pide foram reciclados em zelosos funcionários da Direcção Geral de Segurança, sendo que merda era e merda ficou, porventura, mais fétida ainda.

Tinham, assim como se compreende, outro fito (que não lembrar correrias à frente da polícia) os passos do Alferes naquela manhã, emoldurada a oriente por um clarão de fogo e, em redor, a sinfónica chilreada que lhe chegava da mata e do capim, prenúncio de um dia a crestar a pele da terra e o corpo dos homens.

Colhia-se no despertar da Tabanca, a atmosfera e os odores acres e os esparsos sinais da humidade da noite a fecundar o viço das flores e plantas rasteiras e em alguma ou outra ave descuidada ou caprichosa que teimava em por ali ficar em voo perdido e no choro disperso da crianças e no som cavo dos monocórdicos pilões moendo os escassos grãos e na revoada de mulheres, dirigindo-se para as colheitas na bolanha, em seus risos em cascata, despidas em coloridos panos e vestidas de frescas gargalhadas.

Este mosaico de cheiros, sons, movimentos e cores imiscuía-se, como música apetecível, na sensibilidade do Alferes, tão empolgado e descontraído se sentia, por efeito de contágio, que ensaiou um assobio de pássaro e um subtil piscar de olho para o “apoucalhado” mancebo da Serra da Gardunha, que um dia, não distante, mas com o peso de séculos, como mancebo “apoucalhado” chegou para recruta ao Regimento de Cavalaria e depois adoptado por um bando de reguilas alfacinhas do Bairro de Alcântara e com eles renascido na fecunda dádiva da camaradagem e da amizade e hoje, então “apoucalhado”, se reconhece no glorioso nome de Eusébio da Silva Ferreira, seu nome de baptismo, arvorado, com tal nome, em “ordenança do comando”, por ordem de serviço lida em parada, a que acumula, por sua vontade e alta recreação, as garbosas funções de “impedido da messe oficiais” e, para o Alferes, mais que impedido, leal “escudeiro”, agora ambos embarcados naquela lide, provisória que seja, da “governaça” político militar da Tabanca.

Acontece então que o Alferes, após a cerimónia do hastear da bandeira e do briefing diário, com a mente a martelar nas palavras que Dona Rosalinda, em suas amorosas preocupações e desvelos maternais, por entre robustos e devoradores beijos e meladas carícias, o alertava para os perigos do mundo e as “emboscadas” da vida numa Tabanca longínqua, em seu entender bem mais funestas que as da selva “meu filho, tu és bonito por dentro e por fora, tens uma alma linda e já provaste que tens fibra, mas nem imaginas a ruindade da gente com quem tens que lidar, por isso, meu filho vai falar com o senhor Gomes, ele está velho e gasto, quase não vê e mal pode andar, mas vai falar com ele, vê se lhe arrancas o segredo da sua vida e as razões por que os pretos o respeitam e os brancos o escutam, ou escutavam, pois esta porra da guerra meteu o mundo de pernas para o ar e já não se sabe quem é quem, mas vai falar com ele, tu és lindo também por dentro e o senhor Gomes vai gostar de ti, estou certa, e em alguma coisa há-de falar que tu precises saber para lidar com essas bestas do Antunes e do Gaspar que tudo farejam e pretendem dominar, seja pela força, seja pela perfídia, como aconteceu na provocação com a cena da bandeira portuguesa mal hasteada pelo Sargento de quem fazem gato-sapato, pelo Antunes e pelo Gaspar congeminada e que tu, tão novinho e tenro, soubeste desenvencilhar-te, com desenvoltura”.

Proponha-se pois o Alferes seguir o conselho avisado de Dona Rosalinda, tanto mais que fervia em determinação para conhecer “senhor Gomes”, o primeiro colono a estabelecer-se no local e, como corria a meia voz entre a oficialidade do Comando Territorial da Guiné, à Tabanca chegara décadas anteriores, para cumprir pena de degredo naquelas inóspitas paragens tropicais, pagando com o corpo a “ousadia” de ser rebelar contra a injustiça, ele brioso cabo da marinha, com o sangue na guelra e com o sonho no olhar altivo, “embarcou” com outros seus camaradas, oficiais, sargentos e marinheiros na acção revolucionária, que haveria ficar conhecida como “Revolta dos Marinheiros” de 1936.

Mas se a vontade dos homens guia seus passos, o acaso ou imprevisto, ou um qualquer absurdo e interminável jogo de dados determinam os desígnios individuais e colectivos, em que a vida se esgota. Desejava, pois, o Alferes, nessa manhã encantatória, conhecer o “mistério” do desterrado “senhor Gomes, como sábia e amorosamente Dona Rosalinda o incentivava, e saiu-lhe a caminho Sanhá Mané, filho do Régulo, “alferes” do corpo auxiliar do Exército Português e consagrado Chefe das milícias da zona de intervenção da Tabanca, a reivindicar o “comando”, não das milícias, que detinha, mas o comando militar de todo destacamento, como veremos.

Manuel Veiga