quarta-feira, agosto 31, 2016

APARIÇÃO DO MILAGRE Sobre a Mesa...

Desdobra-se a paisagem e o verde
Agora é apenas a mantilha descuidada,
Na placidez da tarde, sobre os ombros
Da mulher. E o solícito gesto.

E a brisa é a breve perturbação
Da face, na carícia,
Alongando-se na nuca
Como promessa
E resistência tímida.

Raio de sol perdido
No percurso
E a bailar
De chama em chama
Acesa. Como bocas nuas.
(Itinerário íntimo)
Aparição do milagre.
Sobre a mesa.

Manuel Veiga
Caldas de Monchique, 31.08.2016

quarta-feira, agosto 24, 2016

MÓNICA ou a Revisitação de Stefan Zweig


Entre os escritores de culto, na minha juventude, Stefan Zweig, tinha lugar de referência. Os romances “Amok ou Carta a Uma Desconhecida”, “Angústia”, “Confusão de Sentimentos” ou “24 Horas na Vida de Uma Mulher” povoavam então o meu imaginário, pela descrição de ambientes, pelo recorte dos personagens e pela subtil vibração dos sentimentos, que perpassa em toda a sua obra literária, testemunho do tempo crepuscular, entre as duas grandes guerras mundiais do século XX.
 
“Caçador de almas” como alguns estudiosos o consideram, Stefan Zweig revela grande fascínio por aqueles seres especiais que atravessam a vida com a inocência primordial dos sentidos, muitas vezes questionando a superioridade do génio face a “humana humanidade” do medíocre ou do vencido – o derrotado da vida, que, em sua redenção, atinge, um valor bem superior ao dos triunfadores.
 
Como se sabe, o escritor austríaco Stefan Zweig não foi apenas novelista. Foi também ensaísta, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo de grandes figuras da história da humanidade, designadamente, de Dostoievski, de Nietzsche, Maria Antonieta, Fouché, Romain Rolland, entre outros.
 
Judeu, humanista, pacifista e crítico do nazi-fascismo, teve os seus livros proibidos e queimados na praça pública. Com o nazismo, Stefan Zweig foi assim obrigado a deixar a Áustria e iniciou então uma peregrinação pelo mundo, acabando por se fixar no Brasil.
 
Em 1942, deprimido com o crescimento da intolerância e do autoritarismo no seu país e o triunfo na Europa da besta nazi, descrente no futuro da humanidade, Stefan Zweig escreveu uma carta de despedida e suicidou-se, em Petrópolis, com a mulher.
 
Agradece ao Brasil “a gentil e hospitaleira guarida” e termina a sua carta de despedida do mundo: ”Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite - eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes".
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Nestes dias crepusculares de um final de Verão, na acolhedora paisagem da instância termal que, por uns breves dias, me acolheu, saindo como uma fantasmagoria de uma qualquer página da obra de Stefan Zweig, irrompe a personagem incontornável de Monika.
 
Fora eu “caçador de almas”, ou tivera um pouco do talento do grande escritor e a Monika entraria directamente para a galeria das grandes criações. Assim, permanecerá imperecível, no anonimato da vida que escolheu e no nostálgico gesto das minhas evocações literárias.
 
E no prazer de convosco compartilhar os impressivos traços que, perante o meu olhar, esboçam o perfil festivo de Monika e o seu status nas hierarquias e nas redes do espaço social daquela instância termal.
 
Vestida de longas e coloridas saias, com flores pintados no rosto e fitas de papel a enfeitar-lhe o cabelo, Monika oscila entre um arlequim e uma hippie dos gloriosos anos sessenta, que certamente viveu com intensidade.
 
Farmacêutica, cedo abandonou a profissão, mal compreendeu que os interesses da “indústria” se sobrepõem às necessidades sociais. Austríaca por nascimento (como o meu autor) e cultivada em Viena de Áustria, vive em Portugal (no topo da serra algarvia), onde chegou perseguindo ervas medicinais e o amorrrr, como confessa com um sorriso cândido, em sua pronúncia carregada de “rrrr”...
 
Hoje, rodeada de filhos e netos... E de galinhas e ovelhas (e do “filósofo”, velho burro carregado de anos) que amorosamente alimenta e cria nos escassos hectares que cultiva por suas mãos.
 
Na época estival, desce ao vale percorrido pelas águas termais e pelas instalações hoteleiras, onde numa acanhada arrecadação instalou o “Kids Club” um pequeno atelier de artes performativas, para glória da pequenada e descanso de pais e de avós. Ao mesmo tempo, vai mediando afinidades, que o seu olhar atento e arguto sabe descobrir entre hóspedes.
 
Detesta arrogâncias. Foi-lhe por isso penoso, quando a placidez do local foi invadida por grupo norte-americano, que o privilégio do dinheiro lhes permitiu escolher o lugar para um exuberante casamento. Quiseram, porém, os benignos deuses do lugar que a sobranceria fosse castigada por uma arreliadora quebra de energia eléctrica, que manifestamente lhes estragou a festa para gozo íntimo dos indígenas preteridos na esplanada e nas piscinas do hotel e o sorridente e irónico olhar de Monika...
 
Monika, na singeleza das suas escolhas, representa, porventura, talvez sem o saber, a realização prática da ideia de "vida boa" que, desde Aristóteles, os espíritos mais lúcidos perseguem. E que é a antítese do "deus-fetiche" - o dinheiro...
 
Há ainda seres assim, que planam sobre a vida. Tão reais, que mais parecem ficção...
 
Manuel Veiga
 
in "Notícias de Babilónia e Outras Metáforas"
Edição MODOCROMIA - Lisboa - Abril 2015
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Até breve. Vou visitar a minha amiga Mónika.
Beijos e Abraços

 
 

 

segunda-feira, agosto 22, 2016

MEUS OLHOS SÃO MEUS PASSOS.


Meus olhos são meus passos. E meus portos.
Sede e água a percorrer o declive da tarde
E o fio deste azul tão breve que se derrama
Plangente como o zarpar do barco na distância muda
A acenar lonjuras e a prosseguir a rota sem mapas.
Nem bandeiras. Ou mestres a quem sirva.

Capitão de meus silêncios, administro amoras do tempo
Colhidas no alvoroço dos dias. E meus dedos
Esgravatam os sinais e as fissuras da condensação
Da rocha captando por vezes as vozes e os timbres
Na vibração das formas e nos percursos que existem
Na memória das coisas que entre si se acolhem
Qual pauta inscrita na música que entoam.

Secretos são os milagres que os deuses concedem.
Apenas a inocência lhes colhe a espuma.
Que não a barbárie. Nem a frívola dança das estrelas.
Nem os poetas, a procurarem salvar o mundo
Que o mundo não se salva. Apenas perdura.
E se transforma. E gloriosamente se reinventa...

Explodem os corpos nesta ilusão de sol
A crepitar na pele. E neles mergulho neste bailado
Que arrasta qual turbilhão de cores furtuitas e macias.
E nesta plangência de tons e gestos que entram
Pelos poros e consomem os dias em registo lúcido
De um poente altivo e um azul benigno e calmo.

Manuel Veiga

sábado, agosto 20, 2016

METÁFORAS E PALAVRAS EMBOSCADAS.


Sou um sujeito de palavras (e espero também que os meus amigos me tenham em conta como um homem de palavra.) Quero dizer que, desde que me conheço, as palavras têm sido meu alimento, não pelos livrinhos publicados, mas como ferramenta de trabalho no exercício de meu múnus profissional.
 
Algumas palavras, eu amo. Outras nem tanto. Outras, engasgo-me com elas. Mas julgo poder dizer, sem excessiva presunção, que a todas elas sei usar, com propriedade, no momento e nos locais certos.
 
E, confesso-vos, que ultimamente trago engasgada a palavra “metáfora”, tal é a profusão de metáforas, que empanturram nossas vidas. Mais de que uma moda, são uma autêntica praga! Não acreditam? Basta espreitar as “metáforas do consumo” (p. exemplo, as marcas, as embalagens, etc.)  ou alguns blogs (ditos literários) e teremos “metáforas” para todos os gostos, algumas das quais, embora emproadas, não passam intragáveis charadas.
 
Não imaginam, por exemplo, como depois da consagrada e certeira “Jangada de Pedra”, a “pedra” medrou no mundo das charadas, perdão das metáforas. Um verdadeiro filão. E quando digo pedra é pedra mesmo – não calhau! Calhau não tem dignidade de metáfora. Pode até, (no mundo das metáforas, está bom de ver) descobrir-se, no interior da pedra, “um coração ardente a palpitar” – mas calhau, nunca!...
 
Por isso, proponho-me daqui em diante, prestar mais atenção às “palavras emboscadas”, ou seja aquelas que verdadeiramente “determinam o sentido do discurso, sem porém o dizerem”. É que se as metáforas “reluzem”, as palavras emboscadas seduzem-(me).
 
Como se sabe o sentido metafórico, é sentido figurado, cujo efeito se extingue no momento em que a metáfora é lida. É uma espécie de embalagem reluzente que atrai a leitura, mas se deita fora, mal a mensagem “metafórica” seja decifrada.
 
As palavras emboscadas são “coisa” diferente. Não se exibem, actuam. Não proclamam, “decidem” a significação e o sentido. E até o contexto(s) de leitura. Estão presentes, mas não gritam. Podem até conviver com metáforas e usá-las e desventrá-las, mas “o seu reino é de outro mundo”- as palavras emboscadas fingem o que (não) são! E negam-se. Negam-se, sempre! Qual “poeta fingidor/ que finge tão completamente/ que até parece ser dor/ a dor que deveras sente...”
 
Ou se quiserem, de uma maneira mais prosaica, as palavras emboscadas fazem lembrar certas senhoras da sociedade, que garantem, juram e trejuram que nunca comem carne à Sexta-feira. E que, surpreendidas e engasgadas, com bife filet mignon, garantem, juram e trejuram que comer carne, à Sexta-feira, é outra coisa...
 
Claro que as palavras emboscadas são “perigosas”, porque seduzem e convencem. Talvez por isso são tão queridas da publicidade e da política (de alguns políticos, helás!, que muitos são tão básicos que, nem sequer sabem de metáforas). E na literatura também. São elas que revelam os escritores de talento. E definem as obras-primas.
 
O problema é que, as palavras emboscadas, como qualquer outro signo linguístico, se prestam ao engodo e à trapaça. E quando assim é a literatura não passa de uma farsa. Ou ainda mais grave, de mera agência de recados literários, ou outros.
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Garanto não existirem, neste texto, palavras emboscadas. Mas se descobrirem alguma, NEGO!
 
Manuel Veiga.
 
 
 

quinta-feira, agosto 18, 2016

SENTEMO-NOS DISTENDIDOS ...


Sentemo-nos, distendidos, António!
Que a Vida não espera e a mesa
Sempre se alonga
Quanto baste.
 
Bebamos o vinho. E o pão repartido
Seja nosso (des)conforto
Pois que a ninguém
Seja negado.
 
Sentemo-nos, António!
E que a alegria seja dia
E a noite seja tarde.
 
Sentemo-nos, sim, António!
Sem remorso. Que as mãos
São limpas.
 
E a vida é um trago!

Manuel Veiga
 
 
 
 
 

segunda-feira, agosto 15, 2016

INCENDIAR DE AZUL O MOVIMENTO


Declino o nome e a boca
É dança de cores a percorrer
O corpo. Arco iris de fogo
 
A incendiar de azul o movimento.
Das ondas. Libertas.
 
Labareda os dedos marcando
As sílabas. Poema-outro
E percurso da voz
Na modulação
De palavras
Nuas...
 
Captura do silêncio
No alvoroço do poema
A germinar por dentro
 
Manuel Veiga...

 



 
 

quarta-feira, agosto 10, 2016

FORMOSURA (S)...


Dois rectângulos concêntricos e uma rua perpendicular em direcção à praia, definem a centralidade da simpática vila. Bordejando o rectângulo exterior, restaurantes e amplas esplanadas que, nas noites encaloradas, regurgitam.
 
Ultrapassada linha da rua, o rectângulo exterior encolhe, proporcionalmente, em cada lado, e define uma praça aprazível, onde a criançada se solta e os velhos se sentam, reclinados em bancos de alvenaria. Ao centro, um fontanário sem água...
 
E são, agora, os artesãos e artistas a colorir o rebordo interior da praça. Jovens, alguns deles com crianças pela mão, que, no jogo da vida e na falta de emprego estável, fazem seu ganha-pão, na vontade decidida de não baquear, derrotados. Comovente esta determinação...
 
A rua principal, descaída para o lado esquerdo estende-se, por uns cinquenta metros, em direcção ao marulhar das ondas, escondendo, lá ao fundo, na rarefacção da luz, sabe-se lá que amores ou pecados... De um lado e outro da rua, restaurantes e lojas de quinquilharias, hierarquizados no gosto e na qualidade, à medida em que se desce e se afastam o centro...
 
Do lado sul, encostada ao limite exterior da praça, uma capela setecentista convive, separada apenas por estreita quelha, com um apreciado bar, onde, uma vez por outra, se ouvem canções em voga. Cá fora, para compensar a limitada lotação no interior, um balcão provisório, em plena esplanada, que serve em pé, caudais de cerveja e outras bebidas.
 
Como se compreende, este é o centro daquele espaço fervilhante...
 
Acresce que, a escasso meio quilómetro, um parque de campismo alimenta, em vagas sucessivas, a fornalha crepitante dos corpos misturados. Nada os distingue, apenas o olhar atento. A grande fractura é apenas a idade...
 
Tive sorte naquela noite. Acabadinho de chegar à apinhadíssima esplanada, vagou uma mesa bem encostada ao bar, em local estratégico, que permitia desfrutar, em grande plano, o horizonte da praça e, em pormenor, olhar os rostos, assim próximos, na moleza da noite estival
 
Enquanto bebericava um moscatel do Douro (cuidado com as imitações) e minha mulher o inevitável chá de ervas, dei-me conta do quarentão casal da mesa em frente, acompanhado de duas filhas, naquela idade indefinida entre juventude e a adolescência.
 
Todos enormes - não direi gordos, pois o excesso de “bagagem” era harmoniosamente distribuída por todo o corpo. Direi até que, nos gestos e no porte, transparecia uma certa elegância que fazia esquecer o óbvio excesso de peso...
 
À frente de cada um, uma vistosa taça de gelado. Que, com manifesto prazer, cada qual, saboreava, em seu estilo peculiar. Quase ao mesmo tempo terminaram, deliciando-se com a última gota...
 
Foi, então, que o homem, até aí de costas, se levantou. Dirigiu-se ao bar e, passados minutos, enquanto as mulheres tricotavam uma qualquer conversa, surge, glorioso, ostentando enorme e festiva travessa, engalanada com gelado de todas as especialidades, mediante as palmas das filhas e o sorriso dos circunstantes.
 
Como em ritual pré-estabelecido, cada um, com sua colher, atacou a montanha de gelado. Deliciados e indiferentes...
 
Pressenti alguma incomodidade inicial no olhar com que a menina mais nova, de vez em quando, me brindava. À medida, porém, em que o gelado se derretia, também seu olhar. A vaga irritação deu lugar a uma discreta volúpia de gestos, em que o gelado e a boca, se transfiguravam em metamorfose do Desejo.
 
- “Talvez Eros seja um deus voraz e efémero, como gelado em noite de Verão”- murmurei para os meus botões...
 
(Fora eu escultor e gravaria, em pedra, o momento)
 

Manuel Veiga

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Crónica revisitada. Como peregrinação a um local de culto.
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Procurarei administrar, o melhor possível, "ausências" e "presenças" até Setembro.

Beijos e Abraços

 

domingo, agosto 07, 2016

TRÊS POEMAS DE RICARDO REIS...


A FLOR QUE ÉS, NÃO A QUE DÁS...
 
“A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço?
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
 
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perene
Sombra errarás absurda.
Buscando o que não deste.”
 
NÃO SEI SE É AMOR QUE TENS...
 
Não sei se é amor que tens ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.

Pouco os Deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
E a te crer me resigno.

NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA...

“Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam quem, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos Deuses”

Ricardo Reis

“Poemas Escolhidos” – Portugália Editora
Colecção Instrumentos para a Melancolia 

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Uns dias ausente de vosso convívio!
 
Beijos e Abraços.

 

sexta-feira, agosto 05, 2016

SOU SOPRO DE BANDEIRA...


Sou o linho estendido sobre a pedra. Como mesa...
E o suor dos rostos em círculo. Como mito. (Sei agora)
E o pão avaro.
E o rito das mãos de boca em boca
E as gargantas ressequidas.
Sou o vinho...
 
E sou a sombra. E a gota de água.
E a agitação do freixo. Sou a canícula e sou a raiva.
E a boina descaída sobre os olhos – basca.
E a precária sesta na aragem do dia.
Sou a ceifa...
 
Sou o tordo espantado de meus olhos
E a voz do amo
E o sol que já declina...
 
Sou os corpos debruçados sobre a terra
E o crepitar do caule e da espiga.
Sou o fio da revolta
Que não sabe ainda...

E neste horizonte de mágoa
Sou sopro de bandeira
Sou esta linha quebrada que explode
E me incendeia...

Sou este signo vazio de tudo ou nada
E o canto das cigarras que teima...

Manuel Veiga

“Do Esplendor das Coisas Possíveis” – pág. 127
Poética Edições – Lisboa – Abril 2016


 



 


quinta-feira, agosto 04, 2016

DESDOBRA-SE O POEMA...


Desdobra-se o poema em seu itinerário de luz
Antes de explodir
E na branca claridade dispersa
Depois sopro
Advinha-se a poeira dos dias
Côncavos
 
Inerte
Em bruxuleantes acenos
Como se a distância
Fosse apenas o toque
Dos dedos ou o gesto suplementar do voo
Ou as palavras seta…
 
Desdobra-se o poema
E em seu destino volátil e alado
Devolve-se à carne dos dias
E retoma cativo
A matriz de água e o grito
Latejante no peito arfante
Do poeta...

Manuel Veiga

“Poemas Cativos” pag. 17 – “Poética Editora”
Lisboa 2014