domingo, julho 31, 2016

OS ÓRFÃOS DE ALEX....

 
Gosto de locais e pessoas com carácter. Por vezes, são ligeiríssimas marcas, que traçam as linhas de fractura da “arqueologia” dos tempos sociais sobrepostos. No outro lado do rio, Cacilhas ou a Trafaria, são desses locais de culto.
 
Há tempos atrás, almocei em Cacilhas. Almoço de Domingo de famílias completas - avós, filhos e netos à mesma mesa. O encontro semanal das solidões compartilhadas no breve espaço da refeição. Incontornáveis aqueles rostos-testemunho, abertos ao exorcismo da memória. Os velhos de rugas marcadas e de olhar alto, órfãos de Alex e de Bento Gonçalves, perscrutam a minha mesa, com a altivez e dignidade. São velhas árvores que morrem de pé!...
 
Os filhos saídos do bojo dos estaleiros ou do arsenal, barcos carcaças nas margens do progresso e da reconversão económica, afogam na espuma da cerveja, a utopia mobilizadora de outrora. Os filhos, adolescências sem fronteiras - a cidade do outro lado, em incursões nocturnas e brinco na orelha. A ganga, agora, é “t shirt” em algodão de feira!...
 
(Donde esta minha dor?)
 
Corria em passo de trote (qual cavalo amestrado em picadeiro) o empregado de mesa. Não andava de pressa, corria mesmo, em passo de corrida, cadenciado, sem um momento, sequer, perder o ritmo por entre as mesas. Ligeiramente corcunda. Quarenta/cinquenta anos, talvez!... Longe o tempo de “marçano”, subindo escadas e galgando ruas com os caixotes de mercearia às costas. Empregado de mesa era seguramente promoção social...
 
Fixei-me no homem, seguindo as evoluções circenses de pratos e travessas. Tentando (re) escrever, na minha fantasia, o percurso da sua vida e vislumbrar onde o homem teria chegado na sua determinação, se porventura tivesse sido “outra pessoa”, quer dizer, tivesse tido outras condições de vida. Enfim - desabafava eu intimamente – “o homem é ele e a sua circunstância”.
 
E, talvez, por aí me ficasse, descendo ao peixe grelhado e ao vinho branco...
 
Então, minha mulher que conhece os meus silêncios e, por formação, conhece a morfologia da repressão e do medo, intrometeu-se no meu desvario: - “imagina os estalos que este homem apanhou em criança para, nesta idade, correr assim, com tamanho zelo!”...
 
(Uma gorjeta calará a minha angústia?)
 
Manuel Veiga

"Notícias de Babilónia e Outras Metáforas" - pág.92 - Modocromia Edições - Lisboa 2015

sexta-feira, julho 29, 2016

A COLHER A BRISA...


Dedos abertos a colher a brisa. E o frondoso rio.
E as margens. E o benigno freixo
A estender a sombra
Sobre a tarde.
Mítica.

Capturo esses reflexos no suspiro de Lydia
E nos dedos tombados no regaço
Antes da flor e da pétala -
Espera pura.

E o prenúncio de passos nessa escuta.

Os dedos entrelaçados. Agora.
E o deslassar de um tempo mudo. Melancólico
Sorriso do poeta. De cachimbo apagado.
Como se Ricardo fora.

Perfume evanescente de um vinho raro.
Gota que seja. E a garganta ressequida
Depois do trago. Sonho de sonho
A bater a asa.

E o frémito
De sol quente descendo
Em curva.

Manuel Veiga



 

quarta-feira, julho 27, 2016

O XICO MARIAZINHA ou A Ultima Cena da Ofélia

 
Não sei ao certo como o “Xico Mariazinha”, com a Ofélia a tiracolo, apareceu no grupo. Sei, porém, da inegável estima que meu amigo e vosso conhecido Zeca, alentejano de Beja, solteirão impenitente e protector de donzelas desvalidas, dedicava ao jovem casal. Na verdade, para alguns de nós, aquela amizade tornava-se suspeita. Aquilo ali ainda acabava mal!...
 
Tanto mais que a Ofélia, quando o Zeca chegava desfazia-se em blandícias com o “seu Xico”, mas era o Zeca quem devorava com seus belos olhos negros, acesos como carvão incandescente... Sempre a primeira a rir-se das suas piadas, a procurar estrategicamente o lugar na mesa do café, de forma que a perna, inadvertidamente se aproximasse do joelho do Zeca. E sempre, claro, de atenções redobradas com o “seu Xico”, como quem esconjura pensamentos secretos...
 
Enfim, pequenos prenúncios de sangue ardendo nas faces de Ofélia, quando o meu amigo Zeca elogiava um pormenor ou outro da sua toillete ou as “façanhas” escolares de Xico, esforçado estudante de Direito!...
 
Um dia, na ausência do casal, meio a rir meio a sério, entre duas imperiais, alguém insinuou que ele, Zeca, “um dia ainda acabava por saltar para a espinha da Ofélia”.
 
-        “Tu és parvo ou quê? “ – indignou-se o Zeca – “eu sou amigo do gajo, ouviste?”
 
Naquele tempo, as amizades sobrepunham-se a quaisquer caprichos, ou “ganhos de causa” por sedutores que se apresentassem.
 
Era assim o Zeca. O belo sexo merecia-lhe classificação escatológica, tipo pirâmide invertida: a mãe e a irmã, (fora da escala, como é natural), as mulheres ou namoradas dos amigos (que eram intocáveis), e as “outras” (que o Zeca desfrutava); e, no final da escala, uma suprema categoria, que o pudor impede de nomear.
 
Ora, conhecendo o Zeca há anos, eu próprio ficava intrigado com o fraternal desvelo que dedicava ao jovem casal de namorados. Em rigor, nenhuma afinidade. O “Xico Mariazinha” era filho único de um militar de carreira e de uma abastada proprietária rural. A educação estivera a cargo de um tio padre, na ausência do pai em diversas comissões de serviço.
 
A Ofélia, vizinha e amiga da família e, portanto, desde sempre se conheciam. Seria motivo de grande alegria familiar, o dia em fosse “entronizada” como esposa do Xico, o que apenas a conclusão do curso adiava...
 
Foi assim, na dupla qualidade de namorada e “vigilante” dos bons costumes e da salvação da alma do Xico, que a Ofélia fora “destacada” para a Capital, onde mal frequentava um curso de enfermagem... O “seu Xico”, porém, era o seu mundo. Mexia-lhe o açúcar no café. Administrava-lhe a mesada. Escrevia-lhe a limpo os apontamentos. Lembrava-lhe os deveres religiosos. Passava-lhe as camisas... Enfim, uma dedicação de extremos maternais.
 
Que tinha o Zeca a ver com isto? - Interrogava-me por vezes...
 
O Xico, apesar de tudo, quer dizer, apesar da sua beata educação, era de sangue na guelra. É, por isso, natural que a virginal Ofélia fosse um sufoco. As birras e amuos eram, pois, frequentes por “ciumeira” da Ofélia. Solícito, lá estava, então, o Zeca dando conselhos, tentando compor as coisas...
 
Numa ocasião, porém, as coisas não iam ao lugar. Desesperada a Ofélia – contou-me o Zeca bons anos depois – telefonou e propõe-lhe um encontro. Mais que nunca precisava de apoio, choramingava do outro lado do telefone. Que ele, Zeca, não lhe faltasse neste momento de aflição. Que por amor de Deus... Que pela sua amizade, viesse. Que seria esposa do Xico ou de nenhum outro... Que se matava!... Tinha, aliás, uma proposta irrecusável, que o convenceria a interferir a seu favor.
 
Entre contrafeito e intrigado, o meu amigo Zeca foi. Encontram-se no Lar em que a Ofélia estava instalada, na salinha confortável das visitas, onde poderiam ter uma conversa delicada, sem os ouvidos indiscretos das colegas ou das freiras.
 
O Zeca esperava uma mulher desfeita em desgosto. Ficou, por isso, perplexo quando lhe apareceu uma Ofélia sorridente e “negligé”, em toillete de trazer por casa, onde sobressaíam uma camisa de dormir curtíssima e a mal disfarçada nudez das coxas, no robe flamejante de cor e sensualidade...
 
O Zeca pasmava. Sobre o motivo da visita, a páginas tantas, a Ofélia, fazendo sempre grandes protestos de amor pelo “seu Xico”, entre dois descruzar de pernas, foi sugerindo ao meu amigo Zeca, alentejano de Beja, solteirão impenitente e protector de donzelas desvalidas, que ela, Ofélia, seria sua amante, desde que este “lhe trouxesse o seu Xico de volta”.
 
-        “Imagina  tu aquela gaja!...” – ferveu o Zeca com uma gargalhada de raiva indignada...
 
Foi o fim da macacada. O Zeca, leal aos seus amigos, não resistiu e contou a cena ao “Xico Mariazinha”. E este nunca lhe perdoou a franqueza e a amizade desfez-se.
 
Depois disso, o Xico e a Ofélia desapareceram de circulação. Soubemos que a Ofélia casou, passado pouco tempo, com um tipo da Marinha Mercante. Nas horas de solidão matrimonial, dedicava-se a promover umas festarolas divertidas, na sua residência, em Cruz Quebrada.
 
O “Xico Mariazinha”, mal terminou o curso, voltou às berças. Casou, já advogado reconhecido, (e hoje advogado próspero) com uma menina da terra. Casou com uma, mas ficou com duas... Mas isso são contas de outro rosário, de que um dia contarei, se vier ao caso...
 
O Zeca é que, ainda hoje, não engole bem a última cena da Ofélia e o esfriar da amizade com o Xico.
 
- "Há coisas que um gajo prefere não saber, pá!”: desabafa!
 
Filósofo o meu amigo Zeca, hein?!
 
 
 
 

segunda-feira, julho 25, 2016

AS ESTRELAS NÃO AMAM...


As estrelas não amam. Brilham.
E no seu brilho se cumprem. Como cinza quente
De vulcão extinto...

Delas guardamos por vezes a órbita
Enquanto esfriam. Outras são balões soltos.
E lonjura que os olhos não abarcam mais.

(Crianças doridas pelo cais)

Vertigem que as alturas incendeiam
De ti, poema meu. Em cada trago
Colapso de estrelas
Em que (te) ardo.

Manuel Veiga



 

sábado, julho 23, 2016

UMA PEQUENA VAIDADE...

 
InVersos decidiu  gravar o meu poema "Quase-Nada", publicado recentemente neste blog.  Um privilégio totalmente inesperado, de que acabo de ter conhecimento.
 
Fico muito honrado e sensibilizado. E, naturalmente, muito agradecido. A excelente composição - música, leitura e uma voz com belíssimo timbre dão, sem dúvida, novo fulgor ao poema.
 
Ora, oiçam
 

sexta-feira, julho 22, 2016

MAGNÉTICAS AS LINHAS ...


 Esferas, em rota muda, adornando o silêncio
Destino a que se acorrentam -
Que nada no horizonte frio além
Da sombra.
 
Vácuo de que se reclamam
Os autoproclamados céus
Apenas o latir surdo
Da noite eterna.
 
E, no entanto, em sua dolência,
Solfejam o venerável canto mudo
E o grito do fogo
As imperturbáveis
Esferas...
 
Magnéticas são as linhas
Que se anunciam
E as trajectórias
(A)simétricas.

Manuel Veiga



 

 

quinta-feira, julho 21, 2016

FRAGMENTOS XV

 
Não há, tempo, pois, nestas “estórias”. Nem muito menos tempo contínuo, liso de contornos. Se, porventura, tempo existe será apenas poliedro de múltiplos efeitos, onde a realidade se veste e transveste conforme a feição ou capricho da Memória. As comportas abrem-se então e solta-se a lava, arrastando na passagem lugares, paisagens, momentos, ausências, lembranças ou dores até fixar-se, num clarão inesperado, ou centelha, que arrebata por dentro e volta a superfície, decantada, a marcar a fluência do devir. O tempo é uma então uma metáfora. Apenas.
 
E, se Autor houvera e a narrativa em que, dizendo de outras coisas, te digo, Maria Adelaide, numa recorrência de águas profundas que atrai todos os afluentes, se houvera autor, dizia, a Memória seria então dócil e a palavra se afirmaria soberana e não apenas escora, em que a narrativa se embala, como se capricho de ave fora, ensaiando o voo, desfiando nossas vidas, na precariedade de outros rostos, quando bem sabemos dos sulcos.
 
Regressemos pois à Tabanca. Fixemo-nos no Alferes em suas deambulações por território desbravado, que é como quem diz, pelo corpo marcado e a solicitude de Dona Rosalinda, que aqui há-de emergir como sibila de um percurso de sabedoria, como se fora a luz limpa, que desfaz a névoa e guia nos meandros da alma e no conhecimento dos homens.
 
"Come, meu filho, come a canja. Outra tigela? Aposto que não comes uma canja assim há muito tempo. Se é que alguma vez comeste. Tua mãe faz canjinha para ti? Claro, claro meu filho, que as mães fazem sempre canja saborosa para seus meninos. Eu que faço canja tão boa... e aquele cabrão nem, ao menos, um filho me fez. Uma maldição, desde que aqui chegou o bastardo do Gaspar, por conta da C.G., que a mim nunca enganou, não só pelo ar de rufia de que estava farta de conhecer no bar do Cais Sodré antes do meu Armando me fazer largar tudo, a venda do peixe, as minhas amigas do Bar e a família, mãe e irmãs que de pai nunca soube, para correr atrás dele, atrás de mil promessas, como uma fêmea com cio e logo eu fartinha de conhecer vadios. Mas que queres tu, o amor é uma porra e, quando bate forte, não há quem lhe acuda e cada um é para o que foi feito e eu nasci para acabar meus dias entre pretos.
 
Ao princípio não foi mau. Festa rija de casamento no Hotel Central, em Bissau, mandou fazer esta vivenda de pedra e cal, respeitava-me, nunca me ouviu para coisa nenhuma, claro, mas não me faltava com nada, dois ou três pretos ao meu serviço cozinhavam e faziam a lida da casa. Se não era uma rainha tinha tudo o que precisava e até, às escondidas dele podia enviar dinheiro para a família.
 
O negócio da mancarra dava, naquela altura. A C.G. era dona disto tudo em toda a Província, arroz, mancarra, banco, nada mexia sem a autorização dos seus capangas, acabara por aumentar o preço do amendoim e, por mais uns “pesos”, uma ninharia, os pretos passaram a cultivar mais amendoim que aqui recebíamos e entregávamos nos armazéns, em Bissau. Assim, durante anos. Depois esta ruína da guerra, que, como doença maligna, se foi infiltrando pouco a pouco. E, se como não bastasse a guerra, o rufia do Gaspar chegou, quis em nome da C.G comprar os armazéns e o negócio. Não deixei. Foi a primeira vez que me bateu, aquele sacana”.
 
O Alferes que até então se limitava a apascentar as emoções dispersas, num torpor que o tolhia, preso na memória de outras cautelas e outros caldos de galinha, rompeu o silêncio íntimo e indagou num estremecimento: “E batia-te porquê? Que lhe fizeste?”
 
“Como tu és lindo, meu filho, com teu interesse por esta velha carcaça a gemer suas dores e amargura sobre teu rosto, ainda menino, quase imberbe, e que tão a sério se leva na sua pose de homem adulto e autoridade militar. Meu filho, os homens não precisam de razões para bater em mulheres. Quem lhes vai à mão, mais a mais aqui neste cu do Mundo? Os homens batem nas mulheres, por que lhes apetece, porque estão bêbados, por hábito, porque estão para ali virados, batem por tudo e por nada, mas batem, sobretudo, por que têm medo. Medo, medo, sim, medo maluco de ficarem impotentes, medo deles próprios, medo da morte. O meu Armando bateu-me, pela primeira vez quando chegou o rufia do Gaspar e quis ficar com a venda em nome da C.G. de Bissau. Disse-lhes a minha parte não venderia, era o que faltava. Com o rufia do Gaspar a acicatar, “não tens mão na mulher, és um banana, que em “casa com galo não manda galinha” e o meu Armando aos gritos, primeiro vieram os insultos, “sua esta, sua aquela”, não calei, que isto de uma mulher como eu aguentar calada dói e custa, barafustei também e foi a primeira chapada e os pontapés a seguir e a ameaça do cinto depois, e eu teimar “que não assinaria papel nenhum” tudo na presença do Gaspar, ali sentado naquele cadeirão, com um copo de whisky na mão, a cuspir um sorriso velhaco, como uma cobra-cascavel. Com meu corpinho amassado de tanta porrada e a sangrar da boca, por fim lá se levantou, passou o braço pelos ombros do meu Armando, segredou alguma e saíram os dois, abraçados um ao outro, cada um com sua garrafa de whisky e foram meter-se no armazém da mancarra a beber e a gargalhar com um bando de putos pretos e umas “bajudas”, umas lambisgóias que nem seios têm e que, por umas bugigangas ou a troco de uns pesos, fazem o que, nem muitas mulheres adultas são capazes de imaginar.
 
Sabes porque os pretos chamam “kamenino” ao Gaspar? Porque gosta de garotinhos que a troco de umas guloseimas lhe frequentam a casa e lhe apagam os ardores. Passa a vida a assediar os pretitos “anda cá menino” e ninguém se importa, nem a pretalhada sem lei, nem roque, uns selvagens ao sabor da natureza, nem as autoridades. Apanhei muita porrada por querer por cobro a esta pouca vergonha, o meu Armando acabou por apanhar-lhe o gosto e seguir as passadas do rufia do Gaspar. Quem me valeu muitas vezes foi o senhor Gomes, daquela venda aqui em frente, o primeiro branco chegado a esta terra, que os pretos respeitam e as autoridades em Bissau, antes do estupor desta guerra, escutavam.”
 
O cérebro do Alferes era fornalha, o sangue a latejar nas têmporas, a palavra presa no interior da indignação, apenas o torrencial discurso da mulher ganhava asas como via-sacra percorrida de vidas sem retorno, o nojo, a banalidade do mal em carne vida, assim exposto, em monocórdica e neutra palavra, como fel seco, que não adianta revolver e do qual apenas se guarda o estertor e que agora era subterrânea água e emergir naquela ternura solta, como redenção espúria e migalhas de uma vida inesperada.
 
O Alferes era então um melro esquivo a povoar-lhe a mente e os dedos da mãe alisando os caracóis e o beijo a beber as gotículas que deslizam na sua testa, inesperado orvalho em pétalas de açucena e a familiar cantilena da água em sobressalto. E agora a mão a cobrir-lhe os olhos e a esconder do menino a dor e os gritos de aflição de Rosalinda, “acudam-me, quem me acode, que o meu homem mata-me...” e as dores partilhadas de mulheres de negro vestidas em luto permanente, e a mãe a larga-lo e correr para aflição “ó homem, ó Xico a bater dessa forma desalmada na tua mulher, não tens vergonha!...” e a intrometer-se e a procurar segurar-lhe o braço e o empurrão do homem que a fez tombar ”meta-se na sua vida, que aqui não é chamada” e o choro agora do menino a ajudar a mãe a erguer-se e mais pessoas a acorrerem aos gritos e a travar o Xico, cinco filhos pequenos uma parelha de jericos umas jeiras de terra arrendadas nas ladeiras para semear centeio que mal chegava ao Natal – puta de vida!
 
E também a náusea agora a apanhar por dentro o Alferes e os espasmos no estomago e o vómito incontido que se solta como purga e a evocação de Lia de sua meninice e suas brincadeiras infantis e seus impúberes seios abocanhados, abastardados, emporcalhados pelo falsete do riso e pela baba e a peçonha e o gozo alarve e malsão do “kamenino” e o verdete do ódio a estoirar no peito e o asco e o grito rouco, espontâneo como trovão justiceiro, impotente em sua angústia – “filho de uma grande p. que merecia ser castrado!”
 
E a maternal devoção de Dona Ermelinda a desaguar em seus olhos húmidos e a beijar-lhe a mão “como és lindo, meu filho!”...
 
O toque de clarim acordou o Alferes de seu torpor. Ajustou a farda e os cabelos e saiu apressado ao encontro dos seus deveres militares. O “Assobio”, graduado em ordenança do comando, acompanhado pelo “cabo cozinheiro” aproximava-se de tabuleiro em riste para prova do rancho.
 
Em devida forma, os soldados alinhados aguardavam revista para entrarem, no refeitório, para a última refeição do dia.
 
 
Manuel Veiga

quarta-feira, julho 20, 2016

EU SOU TURCO (rebelde)

 
 
 
 
 
A Europa dos "direitos humanos"
capturada pelo medo!...

terça-feira, julho 19, 2016

FRAGMANTOS XIV - Excertos


(...)

Mas tu sabes muito bem, minha querida, que as nossas divergências são de superfície e que toda a minha narrativa, por mais desordenada que se apresente, nos tempos e modos percorridos, ou por mais voláteis que te sejam as palavras e a “irrealidade” dos sentimentos e comportamentos, tu sabes, Maria Adelaide, que és o veio e a seiva que alimentam a minha escrita e esta narrativa que, sem rebuço, dizes entediante.

Pois dir-te-ei que se autor houvesse tu serias ficção, personagem privilegiada, naturalmente, pois que, sendo única, ocuparias, no plano da narrativa, o lugar nobre da figuração do coro, como acontece nas encenação das tragédias gregas, que para além de dar “passagem” aos diversos quadros em que desenvolvem a dramatologia funcionarias também como “um espectador ideal que se responsabiliza pelo equilíbrio das emoções e pela moderação do discurso”. Então sim, brilharias como o teu pezinho de cetim e bailado, tantas vezes te requer...
 
E, minha querida, mesmo que “trambolho da escrita” – ainda que lúcido, hélas! – seria fácil ensaiar uma narrativa, como deve ser, com sujeito, predicado e complemento directo e o tempo e modo bem alinhadinhos, (primeiro, o “antes” e o “depois” ... depois!), na qual encenássemos os momentos mais quentes na tua casa de praia em cenas tórridas e houvessem cenas de traição e vingança e ciúme e crime, está bem de ver, e até droga, porque não? e então tu serias vedeta a sério, sabe-se lá se como direito a entrevista em todos os suplementos culturais (ainda existem?) ou capa de um jornal de referência. Mas assim alinhadinhos, basta-nos o alinhamento das narrativas no telejornal (e as telenovelas também, Maria Adelaide, onde espreitas de vez em quando), ou a filas paradas na AE 5, ou na 2ª Circular, ou no Eixo Norte/Sul ou as linhas de montagem das fábricas falidas, as filas para o subsídio de desemprego, ou a sopa dos pobres.
(...)
Não tiveste pois sorte, minha querida Maria Adelaide. Nem nos amores ou desamores de que te não salvei. Nem na figuração que te calhou nesta mal cerzida narrativa com “passada mais longa que a perna” (onde já se disse isto?), narrativa circular, redonda, obtusa, assumidamente narcísica. Se autor houvesse e o tempo fosse, tu serias vedeta...
 
Assim somos, tu e eu, aquilo que (não) somos. Ou a persona em que encenamos as nossas vidas, que não sendo, são e não sendo, se dizem. Não para se comprazerem ou para se lamentarem, mas como testemunho livre da escrita, ainda com odor a placenta, por vezes doendo, outras com o rosto inocente das palavras inesperadas ou das veredas que se rasgam, quando se julgava apenas atalho. Assim se querem estas “estórias”, sem ponto de equilíbrio, navegando pelas palavras, que vidas foram, como quem caminha sobre um fio-de-prumo a ligar os diversos tempos”.

Voltemos a África, Maria Adelaide em busca de espaços amplos. E respiremos...

 

sábado, julho 16, 2016

PROVA DE VIDA


Dizem-me que o teixo, árvore em vias de extinção (disse “árvore”, que de aves falaremos, se for o caso) acompanha as dores da humanidade desde tempos bíblicos. Garantem-me até (livros heréticos) que esta espécie arbórea foi o único de todos os seres criados que escapou às bem-aventuranças do Éden e que surgiu independente do sopro criador divino. Claro que a circunstância arredia de nascer fora dos cânones, determinou consequências funestas – o teixo não dá flor, nem fruto. Em compensação, as folhas são perenes e venenosas. E a madeira resistente e docilmente maleável.
 
De alguma forma pode dizer-se, que a maldição do teixo é o segredo da sua longevidade. O teixo reproduz-se nas suas raízes profundas que rebentam em caule e folhas à medida que a árvore mãe, centenas ou milhares de anos depois, se extingue.
 
Porque morre então o teixo? Conhecer o seu “mistério” é conhecer a sua história. Quando há milhares de anos, os orgulhosos predadores não passavam de humanóides assustadiços, o teixo era uma árvore sagrada. O veneno das folhas anestesiava os animais herbívoros, assim os transformando em presas fáceis. E a dócil e resistente madeira cedo evoluiu para zagaias e setas e outros utensílios e armas. Quem poderá garantir que o fogo não surgiu, à face da terra, na fricção da dureza do teixo?
 
A maldição da árvore aconteceu, apenas, largos séculos mais tarde, quando homúnculo tímido ousou a pastorícia e a agricultura. As apetitosas folhas dizimavam o gado e o teixo, por acção do “homo economicus”, foi então o remetido para os pináculos das serras, onde menos danos poderia causar na agricultura emergente e na pastorícia.
 
Na Idade Média, o teixo teve seus momentos de glória. As grandes pelejas militares, tantas vezes vencidas por acção de exércitos de archeiros, foram tributárias da elasticidade, resistência e da leveza do arco e da flecha, que a madeira do teixo permitia. Mas também as folhas, sobre as quais recaiu o interesse de ervanários e curandeiros, que, no seu veneno, descobriram mezinhas param muitos males, designadamente, para carecas e males de amores.
 
Aliás, algumas feiticeiras, foram zurzidas na praça pública, (ou mesmo queimadas) por má avaliação das doenças, ou por confundirem nome dos pacientes e, assim, se baralharem na dose do filtro adequada.
 
Perdida, passo a passo, na idade moderna, qualquer utilidade económica, a tendência da milenar árvore é, pois, de auto extinguir-se. Por quê sobreviver se já nem sequer bordão de romeiro? Nem, muito menos, como  varapau de varrer feira” (ou procissão). Hoje em dia as grandes bordoadas são apenas virtuais.
 
Quiseram os fados que eu fosse dono de um teixo. Nos cumes da minha serra adoptiva, onde, por vezes, o poeta “se derrama no horizonte que cega”.
 
Como se compreende trato com todo o esmero a minha árvore. Ainda agora, nestes dias de pastoreio de um tempo sem horas, a visitei em devoção e me senti compelido a vedar, com grade de ferro (como se Memorial fora) as duas graníticas rochas de arredondadas e simétricas formas, no meio das quais se ergue o corpo macerado de meu teixo, hirto e firme, ostentando, orgulhoso, tenros rebentos, como quem diz “venha o mais pimpão, que comigo se meça!...”
 
Não direi que o meu teixo seja um rei, pairando, lá do alto, sobre a paisagem. Em qualquer caso, não deixa de ter a dignidade de uma estátua do Cutileiro a dominar o Parque Eduardo VII, em Lisboa, que causa invejas por esse mundo fora.
 
Assim, decidi proteger meu teixo. Não por temer pela sua vida, mas por recear que alguma cabra atrevida lhe cobice o viço, lhe prove o veneno e venha, depois, de tamancos, um qualquer ocasional dono a pedir-me contas pelas dores da cabrinha.
 
Ou, então, que algum “vallet de chambre”, mais castiço e zeloso dos caprichos de sua dama, venha cobiçar as vergônteas do meu teixo para mutuamente se fustigarem (intelectualmente está bem de ver), enquanto, generosos, rogam pela paz eterna da minha alma perdida – ainda viva! ....

Ainda se, ao menos, fossem meus herdeiros!


 

segunda-feira, julho 04, 2016

A RAZAR O ZÉNITE ..


Desintegram-se as palavras e todas as caligrafias
E o sentido em que se arrumam. Poalha
E redemoinho de uma galáxia nova
Fluindo sem estrutura ainda
Promessa apenas.
 
Ou nuvem que arrebatadora se insinua
Qual flor liberta que se inaugura na cor
Em que arde.
Ponto-queda
Ou nova dança
Ou poema
A germinar
Por dentro.

Inaugural o discurso
Que se alimenta dos abismos.
E dos espaços abertos.
E se rompe
E se inventa.

E livre explode.
E que devora
Em espasmos de infinito
A tocar o nada.
E a rasar o zénite

Manuel Veiga



 

 

sexta-feira, julho 01, 2016

Um Pardalito Desajeitado ...


Há uns anos atrás tinha um "cliente" especial à minha janela, com quem mantinha um cumplicidade estranha...

Um pardalito desajeitado e ladino teimava em fazer-me negaças!... Com uma regularidade de fazer inveja, saltava para o parapeito e aprimorava-se a olhar-me em desafio. Se me levantava ou lhe falava arrancava de lá um grosso manguito e desandava...

Se me concentrava e fingia não lhe ligar, tratava de me provocar com um atrevimento inaudito!...
 
Suspendia então as teclas e os códigos e, de olhar bovino, impávido, fixava-me nas suas cabriolas; olhava-me então (pressentia-o terno) de cabeça inclinada, dava uma bicadas imaginárias, "amandava" uma substancial borradela e asas para que vos quero!... Como um risco de fogo, atravessava então a poalha doirada de um sol outonal, e entre guindastes e fios lá ia ele perdendo-se sobre o Mar da Palha!...
 
Depois desapareceu. Pensei eu que para sempre, embrulhado numa daquelas saudades maiores, que duram eternamente.
 
Estive, assim, anos seguidos sem mais o ver...
 
Apareceu esta manhã, novamente, à minha janela. Fazendo negaças, está claro. E deixando a monumental borradela.
 
Pareceu-me feliz. E juro que deixou tombar um sorriso na minha alma de poeta – seca e fria. Talvez para me lembrar que há amores eternos, que nunca se perdem...
 
E ainda por cima, com todo o desplante, deixou o poema que se segue:
 
Descem as águas em rios secos
Até à raiz de nada.

Apenas a enrugada terra
E a sequiosa greta
E a viçosa flor
Encantada
A espreitar
Lesta
Como
Se nada
Fora...

Ou sacrário
De vida
Resguardada:
Cópula de sol
Com gota de água...

E ansiada espera
Que a chuva
Cai-a
Agora.

Ma vie? Ça vá!...”
..........................................

Então não é que o sacana do pássaro sabe francês? Quem diria...
M.V.