terça-feira, junho 28, 2016

UM CONTO FANTÁSTICO...


Caído o pano e apagadas as luzes, distendeu os músculos e ergueu-se da poltrona, onde gradualmente deixara as emoções da estreia, enquanto os ecos, aplausos e “encores” se esfumavam nas células nervosas, em ondas cada vez mais distantes.

Valera a pena! Não seriam necessárias as críticas nos jornais do dia seguinte para ter a certeza que o espectáculo fora um sucesso. Sabia, porém, que nas emoções do momento, naquela cartografia de sentimentos díspares, na osmose de sensibilidades em que durante meses se envolvera, secundária fora sua pessoa e pouco contara o seu tão proclamado talento: o apuramento de uma deixa, aqui ou ali, um acerto de luzes, um pormenor de guarda-roupa, uma leve correcção de marcação ou no registo de vozes, por vezes indispensáveis.

Porém, o teatro eram ELAS, essas duas mulheres sublimes, que por amor a elas, entrara naquele projecto, onde discretamente soubera imprimir a sua marca estética...

A ACTRIZ, vibrátil e intensa, transfigura-se no palco; e no nervo e no sangue de seu corpo, frágil e sensível, todas as culpas se redimem e todas as glórias, prazeres ou depravações mundanas, alcançam a beleza sublime do “Cântico dos Cânticos”...

A AUTORA coloca no coração da escrita a alegria fecunda da sua criatividade participativa, exposta e vulnerável, tantas vezes graciosa, onde flutuam, num jogo infinito de espelhos, heróis e vilões, sentimento calmos e funestas paixões...

Como não amar aquelas duas MULHERES? Por amor a elas, comete pequenas/grandes traições, como aquela de, na encenação da peça, alterar o “final feliz” de deixar a heroína banhada em lágrimas, coberto o corpo nu com um lençol, como se tálamo nupcial fora, ao arrepio do que o público (e autora) esperaria. Mas a verdade é que não admitiria outro final, mais púdico, pois não suportaria vê-la assim exposta nos braços de outro homem...

Ama as duas, com paixão e ternura. Receia deixar fluir, um qualquer dia, a sua loucura mansa e, com o pano caído sobre o palco, com elas ensaiar a peça única das suas vidas. Sem outro guião que não seja a expressão livre do Desejo e sem outros aplausos que não sejam a cumplicidade erótica à solta.

Depois do Teatro, a Ceia – Cena II

Possuído pela paixão, como se fora um veneno doce, que tolhe a consciência e despreza quaisquer outras emoções que não sejam o deleite de mergulhar nas suas ondas, o ENCENADOR, frente ao espelho, maquinalmente ajustou o smoking.
Olhou-se nos olhos e acendeu nos lábios o leve sorriso de ironia, que a si próprio dedica em ocasiões como aquela, em que sabendo-se embora senhor de si, não pode, contudo, deter os fios da corrente do destino e, por isso, o “sim” ou o “não” se jogam numa centelha de intuição, mais que num exercício deliberado de inteligência.

Não, não iria à faustosa ceia, que o MECENAS, no seu palacete recentemente restaurado, decidira organizar para seu gozo pessoal e em homenagem a toda a companhia. Claro que tinha boas razões para ir. ELAS lá estariam requestadas, soberbas de charme e inteligência, dominadoras nesse palco sofisticado de mundanidades e prazeres fugazes. Mas não iria...

Não lhe agradava, especialmente nessa noite de consagração, ter de sentir-se refém do seu talento, escutar cumprimentos, brandir sorrisos, responder às perguntas imbecis dos jornalistas “culturais”, que certamente estariam em peso. Mas, sobretudo, preferia evitar o espectáculo do sorriso predador do MECENAS, cobrindo de elogios e atenções aquelas duas mulheres, alfa e ómega de seus êxtases. Se havia algum sucesso a comemorar deveriam ser apenas os três: qualquer intromissão seria perturbar o divino sopro do equilíbrio perfeito...

Não iria, pois! Num gesto brusco desfez o laço e libertou-se do smoking, enquanto se dirigia para o seu recanto predilecto na biblioteca. O sangue, porém, continuava a latejar de inquietação. Bem sabia ele que o MECENAS as desejava tanto, quanto ele próprio. E que sua momentânea desistência seria pretexto suplementar para os “avanços” do adversário. Mas não contaria com ele naquele espectáculo de sedução. Ponto final!...

Sempre assim fora a estranha relação entre os dois...

Eram amigos desde sempre!... Oriundos, ambos, de uma certa aristocracia arruinada da província, percorreram meio século de vida, adivinhando-se nos caminhos, nem sempre dóceis, trilhados por um e por outro. Fora assim no liceu, na faculdade, mais tarde em Paris, partilhando estudos, gostos, aventuras e mulheres - como se vida de cada um fosse réplica da vida do outro. Melhor: como se, por um qualquer acidente do destino, a vida de cada um realizasse neles o mesmo percurso matricial!...

Apenas o rosto e a profissão os distinguia. E, evidentemente, a ostentação da riqueza material. O sucesso empresarial fizera do MECENAS um homem prodigiosamente rico...

Em vão, buscava o ENCENADOR, envolvido no turbilhão destes pensamentos, refrigério para o estado febril e para aguilhão do desejo que, em sua imaginação exacerbada, teimava em queimar-lhe a carne. Afastou, assim, com os dedos, as gotas de suor que, como orvalho matinal sobre pétalas, lhe ornavam a fronte e retirou da estante o LIVRO.

Sempre o mesmo livro quando, como agora, a alma delira e o corpo requer o calor de outro corpo. Abriu, assim, ao acaso, as páginas do “Fausto” de Goethe e soletrou, intimamente:

Fausto: -“Batem? Entre. Alguém me vem amofinar”.
Mefisto: - “Sou eu!...”
Fausto (enfadado): - “Entra lá!...”
Mefisto: - “Ora assim é que é falar, acho que vamos dar-nos bem...”

Não teve mais tempo para prosseguir a leitura. O portão da entrada ribombava de impaciência. Abriu. ELAS ali estavam, cobertas de glória. A AUTORA envolta num esplêndido vison castanho. A ACTRIZ com uma estola de arminho sobre os ombros, fazendo ressaltar o azeviche dos cabelos.

Da penumbra do hall, sem cerimónia, o MECENAS irrompeu e gargalhou, numa reprimenda fingida: - “Como não quiseste estar na minhaaaa Ceia - sublinhou – viemos nós celebrar contigo...”

Depois da Ceia o Jogo – última Cena

Entraram. O MECENAS balanceava ainda o corpo na gargalhada e ocupava todo o espaço no jeito peculiar de seus movimentos felinos. ELAS, com um brilho especial nos olhos, prenunciador das grandes explosões luminosas que, uma e outra, guardavam na subtileza e graça de seus gestos.

- “Jogamos?...” – perguntou a ACTRIZ num murmúrio, enlaçando-o. Sentiu o ENCENADOR a carícia doce de seus cabelos na face e o lume dos olhos negros devassando os seus.

Pressentiu, então, uma peça cujo alinhamento desconhecia. E a AUTORA, num sorriso de cumplicidade, entre irónica e decidida, acompanhando as palavras com um beijo: - “Viemos aqui para jogar, sabias...”

Contrariado, com o olhar interrogou o MECENAS: - “Não te vires para mim, estou tão inocente quanto tu...” – disse este, rindo com gosto, suspendendo, por momentos, o gesto de abrir o champanhe. “Mas por mim, aceito jogar!”- acrescentou, sublinhando a intensidade da gargalhada.

O ENCENADOR compreendeu que estava “cercado”. E, se pretendia dominar a cena, teria que tomar a iniciativa.

- “Seja!.. Joguemos, pois!”, concordou. E, libertando-se do abraço: - “Mas já que jogamos, façamos deste jogo uma obra de arte!...”

E, em passadas largas pela sala, frenético, em súbita iluminação, descreveu cenário e as regras do “espectáculo”. Jogariam, como se aquele jogo fosse o último acto de suas vidas. Nus e com máscaras, como se toda a vida passada se desfizesse em pó nos passos percorridos...

Portanto...

Ao centro, a mesa de jogo com pano verde cuidadosamente aberto. Apenas a luz crua da lâmpada solta reflexos doirados sobre os rostos, cobertos de máscaras barrocas: o MECENAS, com uma máscara estilizada de Dionísios; o ENCENADOR, com a ”carranca” de um velho Fauno.

ELAS, mais subtis, escondem o rosto em mascarilhas de seda... Azul, uma, sob a qual espreitam os olhos de uma luminosidade intensa. Negro e branco a outra, sugerindo, vagamente, o esboço de um Pierrô...

- “Para quê jogar se conhecemos o resultado?” – exclama, num sorriso melífico, Dionísios. – “Depois do jogo” – esclarece, misterioso – apenas sobrará o esboço ténue de nossas máscaras, flutuando no espaço...”

- “Jogaremos!...” – teima categórica a mascarilha azul, que bem conhece as subtis ironias de Dionísios e as suas blagues para lhes conceder qualquer importância. E assertiva: - “todos nós, os quatro, somos jogadores e apreciamos o jogo pelo prazer de jogar...” 

E, empolgando-se: - “Já que Deus não joga aos dados, enfeitemo-nos nós de deuses e joguemos!...”

E o velho FAUNO, que outra coisa não quer que não seja o calor dos corpos na intimidade do jogo e a colheita sinuosa das almas, em cada lance, declara, enfático: - “Joguemos, pois!... E saibamos guardar a memória do jogo, como o vinho guarda o perfume da vida...”

Toda a noite jogaram, intensos e vibrantes. Subindo mais e a parada. Como se cada lance, fosse o orgasmo primordial. Ou, como se o universo se esgotasse na energia fálica dos dedos sobre a mesa de jogo...

Raiava o dia, naquele casarão decadente nos arredores da grande urbe: -“Ficamos por aqui!... “ – declara, categórica, a mascarilha azul – “o sol não tarda a nascer e eu quero estar em casa, antes das crianças irem para o Colégio...”

Ganhara. A mascarilha azul ganhara um bom pecúlio de letras. Jogara inteligente e contida e ganhara, pois bem sabia que nunca se jogam emoções num primeiro jogo e, sobretudo, numa única jogada.

- “Saio contigo!...” – diz a mascarilha “pierrô”, alvoroçada com os preparativos de uma viagem em perspectiva. Como jogadora exímia, acumulara também emoções às emoções que trouxera!...

Restaram DIONÍSIOS, com seu riso sardónico, e o velho FAUNO, que abatido se levantou e tirou a máscara. Atravessou, com elegância o salão até ao candelabro, onde se finavam as velas. Acendeu uma cigarrilha negra, juntou o polegar com o indicador e apagou, uma a uma, as chamas com os dedos.

Liberto assim da sua condição ou destino de velho FAUNO, voltou-se o ENCENADOR, num arrepio de gelar corpos e almas. Perplexo, deparou com a máscara tombada de Dionísios. E, em vez do MECENAS, em seu lugar, o seu próprio corpo de ENCENADOR e seu rosto duplicados!..

Cumpria-se, finalmente, o drama órfico de seu destino paralelo, tantas vezes prenunciado...

Soou, então, uma voz cava, vinda de além do Tempo: -“No delírio dos corpos, quiseste colher almas!... Espero que esta derrota te ajude a compreender a tua...”

No ar pairava intenso odor a enxofre. Como espectros, AUTORA e ACTRIZ acenavam do espaço, sem bem se saber, se como chamamento ou como despedida...De um canto da sala, Mefisto, saído de uma qualquer página do “Fausto”, esguichou uma gargalhada (ihihihih) e desapareceu envolto em fumo denso...

E este pobre narrador, que não é um homem justo e que, por vezes, tem a pretensão de jogar aos dados com a vida, declara que ateia fogo, em praça pública, às palavras e cenas atrás (d)escritas, em expiação, não de seus pecados ou culpas, mas de seus exageros...

Manuel Veiga


domingo, junho 26, 2016

POEMA QUASE-NADA....


Despenha-se o poeta no vórtice
Qual sarça onde a palavra nasce
E reina. E arde labareda
Feita carne. E lume.

E o olhar rodopia.
Cascata de fogo
E água.

Agora é chama. Que reclama.
E se evapora na distância.
E na ausência-presença
Que se cuida. E guarda.

Poema
Que sendo quase-nada
Se declina. E se proclama
Sinfonia.

Manuel Veiga



sexta-feira, junho 24, 2016

A SÃOZINHA VOLTA A ATACAR ...


Certo dia, naquilo que foi o seu último “ataque”, a Sãozinha telefonou com quase quinze dias de antecedência. Do lado da linha, o Begin balbuciou : - “Mas Sãozinha, sei lá eu o que faço amanhã, quanto mais!”...

A Sãozinha cortou, célere: -“Arranja-te! Tens-me aí no dia tantos de tal!”.

Que pode um homem fazer face a tão peremptória intimação? “Arranjar-se”, como puder. A dar ordens, de facto, a Sãozinha não admite réplicas. E o Begin “arranjou-se”, portanto. E no dia aprazado, a Sãozinha aí estava extrovertida e ansiosa como nunca!- “Tenho que te contar, esta não podes perder!” – disparou, mal se dependurou, em beijinhos melosos, agarrada ao pescoço do Begin.

Que estranhou. As grandes “revelações” costumavam vir depois, já quando ela extinguira o fogo e os corpos pedem confidências. Mas desta vez não. Exigiu que o Begin se sentasse. - “Imagina tu, que o meu vestido de seda verde está todo estragado!”...

Vocês, sabiam? O Begin nem imaginava!... Mas não teve tempo para protestar. Nessa altura, a Sãozinha já ia em velocidade de cruzeiro. E, de uma fiada, estendeu o drama completo do vestido de seda verde: “que lhe custara bom dinheiro!...”

Afinal, o vestido da Sãozinha acarretou consequências políticas profundíssimas. Como sabemos, os grandes lances da história, definem-se em pequenos detalhes. Como o tamanho do nariz de Cleóptera, por exemplo. Tentarei explicar este verdadeiro drama histórico, na minha cidade natal, em que o vestido da Sãozinha foi ocasional instrumento.

Ora esguardai. O "status quo" político andava estrategicamente à procura de um verdadeiro líder da oposição, para quando no País a alternância chegasse, os interesses locais permanecerem os mesmos, como sempre. A escolha recaiu sobre um jovem professor do Politécnico, natural da cidade, com mestrado fresco numa dessa múltiplas engenharias, que por aí proliferam.

Filho de taverneiro, porém, haveria que lhe limar modos e maneiras. Tarefa a que a Sãozinha se prestou com devoção e empenho. E eis o drama: numa selecta recepção, com a Sãozinha a tiracolo, o novel iniciado, sustentáculo futuro dos pergaminhos da cidade e dos egrégios valores dos seus cidadãos, “tropeçou” no atavismo da sua condição de filho de taverneiro. Dum trago, emborcou o cálice de vinho fino, sacudindo para o lado as últimas gotas, como se um rural fosse na velha tasca, donde saíra. E, azar dos Távoras! ... – os restos expelidos do colorido líquido, extravasando as conveniências, apanharam em cheio o vestido da Sãozinha.

- “Aqui mesmo!” – elucida ela segurando o indicador direito do Begin a esfregar no seu empinado mamilo esquerdo – “Uma nódoa enorme!...”, alargando agora o gesto à macieza de todo o seio. -“Vê lá tu, aquele burgesso. E eu que depositava tantas esperanças nele” -  desabafa em lancinante suspiro

E num doce revirar de olhos, no mais perfeito “rosa rosae” de seus lábios: -“Ainda, se ao menos eu te tivesse lá, meu Príncipe!...”, - suspiro e desejo que o Begin  compreendeu como subtil convite a futuro líder da oposição local. -“Mas não tens, Sãozinha!... E se tivesses, terias que me fazer bispo!..” – desatou, terminante,  o Begin numa saborosíssima gargalhada.

A Sãozinha, porém, não se importa de perder com o Begin. E, entrando no jogo de subentendidos: -“Báculo já tu tens, meu depravado!..” - rematou ela, atirando-se ao fecho das calças e à braguilha do “coitado” do Begin, cada vez mais roído pela úlcera.

O dia estava quente. A Sãozinha banqueteou “son compère” com uma entrada de presunto e melão polvilhado de gelo moído e canela, seguida de uma salada de bacalhau. Essa mesmo, a que estão a pensar - : a célebre “punheta” de bacalhau.

“Uma especialidade - Sãozinha dixit – e é boa para quem anda fraquinho. Na próxima vez faço-te uma gemada...”

Uma gemada, imaginem. Que enjoo...




terça-feira, junho 21, 2016

OS FIGOS DA SÃOZINHA...


A Sãozinha mantinha então a frescura indecisa de uma balzaquiana bem cuidada. A pele fresca e os seios juvenis. Chama-lhe “príncipe” em saboroso recorte queirosiano... “És o meu príncipe!”- Suspira, melodramática. Do marido, garante, nunca mais deixou tocar-lhe, depois da cena com o enfermeiro: - “Aquele cabrão panilas!” - solta  com asco.

Mas toda ela se dá “ao seu príncipe” em arroubos amorosos e deliciosas indecências. O “Begin” pasma de tanto talento! “Quem tal diria!?” - Sorri para os seus botões.

Ela gosta de o mimar. Traz-lhe novidades da terra e petiscos regionais. Que gostosamente cozinha para ele. Em dada ocasião, foram morangos. “Os primeiros da quinta”, como garantiu. Comidos na cama, enquanto, em pelota, desfilava a cidade: o labrego do presidente da Câmara, o negócio de carros importados do Governador Civil, a última amante do Bispo, verruga de Fulana, a unha encravada de Sicrana. Um desfile de cortar a respiração. Que ele aceita com um sorriso complacente. E, quando termina, quer um beijo. - “Chega por hoje!...” – diz ele, evitando a boca...

Assim correram uns tempos. À medida que se intensificavam as visitas da Sãozinha, mais a tese do doutoramento deslassava. E o “Begin” a ficar cada vez mais enfastiado.

Um dia, já em fase de refluxo, não se sabe por que artes, a Sãozinha soube da presença do “Begin” na cidade. A verdade é que mal acabara de se sentar numa esplanada, rodeado de jornais, quando telemóvel deu sinal.

- “Tens que vir ao meu “paraíso”! – intima a Sãozinha, sem aviso prévio. O “Begin” ficou apavorado. Naquela manhã, apetecia-lhe antes ficar por ali, deambulando pelos locais e pela memória, sem outro compromisso que não fosse consigo próprio. Mas quem resiste a um apelo da Sãozinha?

Por isso, antecipadamente vencido gracejou o Begin: - “Mas tu tens um “Paraíso”, Sãozinha?...  E, divertido, dando asas ao jogo de alusões queirosianas – que ela tanto cultiva – “Que se saiba, tu não te chamas Luísa, nem eu uso bigode”, evocando, assim, no fio do sorriso, o célebre “Paraíso”  e o celebrado “beijo francês” do primo Basílio.

- “E que te disse a ti que és meu “primo”?” – carregou ela, numa subtil passagem semântica de “primo” para “primeiro”... E numa gargalhada provocatória: - “Não te armes em esquisito e aparece! Reservo-te bem melhor...”- acrescentou, jocosa.

Foi, claro!...

A instituição de que a Sãozinha é administradora, directora executiva, consultora cultural e investigadora emérita está sediada na parte velha da cidade, numa colina sobranceira, cujo imóvel, nos seus usos, acompanhou as vicissitudes da história pátria. Convento franciscano na Idade Média, “casa da roda” com o constitucionalismo liberal, acolhimento de pobres e de órfãos na primeira República. O Estado Novo acabou (como todos sabemos) com os pobres e os órfãos e instalou no edifício a Legião Portuguesa e o Arquivo Distrital. Depois de 25 de Abril, foi sede de uma Associação Revolucionária e Popular, cujo projecto de Creche e Lar da 3ª Idade cedo estiolou, como a euforia democrática.

Arrostando golpes e caprichos da História, o vetusto edifício foi assim dando testemunho de si e dos tempos. Foi, digo bem!... Até que a Sãozinha lhe deitou a mão. Como um furacão!...

Do histórico edifício resta apenas o casco. Madeiras exóticas e mármores importados substituíram os castanhos embutidos e as pedras seculares. E abriram-se corredores e salas em toda a extensão. Mas está certo. A Sãozinha merece o melhor e a Câmara é rica... Então não é mesmo uma glória aquelas portas automáticas abrindo-se em alas, a passagem da Sãozinha, em majestade?

Imagina-se quanto o “Begin” terá ficado deslumbrado com tamanha modernidade... A Sãozinha segurou-o pela mão e atravessaram gabinetes, auditórios, salões, estúdios. Todos, naturalmente, desertos... Mas não pensem que a Sãozinha não trabalha. Trabalha, pois!... A Sãozinha tem um adjunto. Um “burgesso”, - como ela afirma – mas em qualquer caso um adjunto, que essa manhã, expeditamente, enviara a “despacho” com o Presidente da Câmara.

E, enquanto atravessam portas, salas e corredores, a caminho do “paraíso”, a Sãozinha explica-lhe tudo.

O adjunto é uma cunha sagrada. Intocável. Do outro lado da serra quem pontifica na política é padre Sarzedello (com dois “ll”, não confundam). O Padre domina uma boa mão cheia de votos. Como poderia – digam-me! - o Presidente da Câmara dizer não  a tal  “empenhoca”? Para todos os males da Sãozinha!... 

O adjunto é assim protegido do padre. Um primo afastado, mas as parecenças são tantas, que há quem diga que o parentesco é bem mais chegado. Da fama, pelo menos, não se livram o padre e o adjunto. “Mas certamente apenas umas “bocas” da gente mal formada” – acrescenta a Sãozinha, piedosa.

O Begin ouvia-a, distraído, entre o deslumbre os “melhoramentos” e o gozo antecipado da gulodice que o esperava, no desvelo da Sãozinha. Contava, então, ela que, de início, dera o seu acordo. Uma licenciatura em Antropologia Social e uma boa figura, era mesmo o que ela precisava para aliviar as tensões do cargo.- “Todo o santo dia juntos os dois, metidos naquele casarão, alguma coisa deveria acontecer!...” – suspirou a Sãozinha, encostando a cabeça no ombro do Begin.

Mas os dias passaram, monocórdicos e não se “passava” nada. Então a Sãozinha começou a olhar o adjunto com outros olhos. – “Com olhos de ver!...” – sublinha.

A Sãozinha, não é parva de todo, como por certo, já notaram. Desde que o adjunto lhe começou a aparecer, pela manhã, de olheiras fundas e sobrancelhas depiladas que ela andava desconfiada. Mas agora tem a certeza.- “ Imagina tu” – exclama, eufórica, detendo-se, no meio do salão, perante o ar divertido do “Begin”– “Imagina que um destes dias se apresentou, vestindo umas calças sem braguilha! Um laço, no lugar da braguilha, aquele burgesso!”- exclama, indignada.

E completamente abatida: - “Já viste a minha sina!..."

De facto, uma má sina parece perseguir a Sãozinha. O “Begin”, no entanto ria, torcendo-se de gozo. O destino não pode pregar uma partida desta à Sãozinha... Um adjunto com calças sem braguilha? Francamente!...

E mais animada, afastando a contrariedade com um sorriso melado: - “Quem me vale és tu, meu “Príncipe” que me compensa de todos os meus desgostos!...” E, assim, atravessaram o edifício. Ela dependurada no braço do “Begin”. Ele dependurado de um sorriso de desconforto e um vago tédio, que lhe escorria dos lábios.

Passadas as instalações da velha cozinha, finalmente, o “Paraíso” da Sãosinha. No espaço ajardinado do que fora a antiga horta conventual, à sombra de um velho freixo, entre uma figueira e uma nogueira frondosas, a Sãosinha mandou instalar, presa no tronco de duas árvores, uma rede de baloiço, onde, como uma diva concupiscente, enquanto zela pelo bem-estar cultural da cidade, sonha com arroubos poéticos e outras fantasias.

No centro do espaço, uma mesa de pedra, com um vistoso cesto de figos. “Mandei o “burgesso” colhê-los. Para tu os comeres, meu Príncipe!...” - disse, enquanto repenicava um beijo...

Sentou-se o Begin, de antemão arrasado, no banco de pedra. Ao colo a Sãosinha. Puxou-lhe então a mão para as coxas, por debaixo da saia plissada, que ele cedo percebeu nada mais esconder além da pele, enquanto, ela esfolava, perdão, com seus delicados dedos retirava a pele dos figos. Então, em boquinha “rosa rosae” debicava primeiro levemente os figos e introduzia depois, um a um, partidos ao meio, na boca do Begin, entre beijos frenéticos e gargalhadinhas de prazer.

Prestou-se, por momentos, ao jogo o Begin. Depois, já um pouco saturado (os figos são indigestos), soltou-se da Sãosinha e perguntou meio sério, meio a rir, numa ironia amarga, que o ia roendo por dentro: - “Oh, menina tu queres empanturrar-me de figos? Olha que depois eu não me mexo!...”

Então a Sãosinha, inesperadamente, dobrou-se sobre a mesa, levantou até à cintura a saia plissada, com os dedos abriu o abismo de suas carnes, assim expostas como figo maduro. E, num suspiro de lúbrico, gemeu ali, frente ao nariz do seu Príncipe:- “É teu! Dou-to! Come-o!... “

Que pode um homem fazer perante tão solícito pedido? O Begin ergueu-se e comeu-o. E, possivelmente, chamou-lhe um figo!...

Do meio da folhagem, um melro soltou um assobio trocista. - “Que alarve de pássaro” – resmungou o Begin para os seus botões...

(Não consta que os figos tivessem excitado a úlcera do Begin. Mas, pelo sim e pelo não, apressou o regresso a Lisboa para extremosa dieta familiar...)

segunda-feira, junho 20, 2016

domingo, junho 19, 2016

FIOS DA AUSÊNCIA...






De novo a montanha e o gosto íngreme.
E o arfar do peito na gesta de colhê-la. Íntima.
Em veredas de vento. E ervas. Por vezes daninhas.
Que nem sempre o verbo amar se declina
Em harmónicas litanias...

A paisagem porém é mar. Braços derramados
No horizonte que cega. E os olhos barcos.
Alados. Na transfiguração dos cumes.
Que voam. E as cores agora
São a vertigem dos dias.

O poeta é ave em seu voo planado.
Argonauta de uma rota traçada
Em alvoroço. A fender o espaço.
Aberto. Como destino.
E o eterno grito
Desamparado
A rolar
No eco...

E do outro lado da paisagem
Onde o milagre reina
Como ilha plana
Os fios da ausência
A macerar a hora
E a dedilhar
A espera.

Manuel Veiga

segunda-feira, junho 13, 2016

Cores Sobre o Balcão dos Dias


 Alquímicas cores debruçadas sobre
O balcão dos dias.

Nesta ternura de sol poente
Perfeitas são as horas. Murmúrio dos lábios. Apenas.
Calando o tempo.

E o arfar descuidado do poema
Sobre o peito. Como ave migrando.
Contrafeita...

Manuel Veiga





BREVE AUSÊNCIA! ATÉ JÁ ...

Beijos e Abraços!...



sábado, junho 11, 2016

Estórias da Fogosa Sãozinha


A Sãozinha era a menina mais aplicada da turma. Declinava o “rosa, rosae” como nenhuma outra. A boquinha em botão, em pudor de rosa por abrir, a Sãozinha era um anjo saído da talha dos altares barrocos - que aliás frequentava com esmerada devoção...

O “Begin”, em fim do ensino liceal, pouco se prendia à Sãozinha e ao latim. Eram a iniciação aos poetas proibidos e os seios da Nanda, que queimavam em seus dedos e sua imaginação. É verdade é que, por vezes, na fantasmagoria da noite, com os beijos da Nanda, se misturava o “rosa, rosae”, dos lábios da Sãozinha. Mas, nesse jogo alucinado, a Nanda levava sempre a melhor...

A Universidade separou-os. A Sãozinha foi aluna brilhante, com auspiciosa carreira académica, não fora o sagrado apelo do matrimónio. Casara nova, com um distinto clínico, director do Hospital local e a investigação académica perdeu-se na fecundidade dos laços matrimoniais. Ganhou, porém, a cidade uma extremosa esposa e dedicada mãe, santas tarefas acumuladas com beneméritas obras de caridade e cargos de prestígio.

Passaram anos. E a juventude. E grande parte da vida vivida. O “Begin” - amável alcunha do Liceu em que o narrador teima - subia à cidade natal de longe, em longe. A Sãozinha era então incontornável. Um modelo virtudes familiares, lhe contavam prazenteiros os antigos condiscípulos, em vaga evocação de juvenis derriços.

E nessas raras idas e vindas, os dias se cumpriam. A Sãozinha bem instalada no topo da sociedade local, como aliás o seu estatuto de menina exemplar de outros tempos fazia prever, e o “Begin” arrostando penosamente códigos e leis, como enxada e arrimo, noutras paragens, bem mais áridas.

Eis senão quando, inesperadamente, para pasto maldizente da cidade, rebentou a notícia de que o marido da Sãozinha, ilustre clinico, epígono da política local e deputado da República, uma noite fora surpreendido pela GNR, numa estrada escusa, dentro do automóvel, em descompostas posições, com um enfermeiro do hospital.

Ao desgraçado soldado da GNR, que buscava contrabando, saiu material bem mais quente. Que na sua boçalidade, não soube tratar com o devido cuidado – não aceitou (como devia) a robusta nota com que o clínico lhe acenou. Tal imprevidência, só não provocou a queda do “Carmo e da Trindade”, pelo facto de nem a Trindade, nem o Carmo terem sido achados em tal assunto, mas, sobretudo, porque a provinciana cidade não teria espaço para tamanho estrondo.

Em qualquer caso, foi uma nódoa imensa naquela impoluta cidade, a exigir limpeza rápida... O “pasquim” da oposição “ladrou” por uns tempos, o jornal do bispo clamou sobre “campanhas torpes contra cidadãos impolutos”. E do púlpito o clero vociferou-se contra o pecado da calúnia.

Entretanto, o comandante da GNR local foi transferido, o incauto soldado que meteu a boca no trombone antecipou a reforma, reformado compulsivamente e, a breve trecho, a paz voltou ao reino, quer dizer a santa beatitude do burgo.

Hoje, apenas uns inveterados “más-línguas” recordam o episódio, em surdina, para seu gozo incréu e maledicente. Mas também a beatífica Sãozinha não perdoou, como vos darei conta.

Por razões que não interessam à história, quis o acaso que, uns alguns anos após, o nosso “Begin” tivesse a honrosa missão de apresentar a Sãozinha a uma pequena assistência, disposta, enfim, a escutar os feitos de um apagado vulto da primeira República, originário da cidade, que em Lisboa fora vagamente jornalista e assanhado carbonário, mas que a sociedade local, com o deslassar dos anos e por força do clericalismo reinante, ignorava. E que, por uns quantos, era até considerado como epígono do “trauliteirismo” monárquico que, à época, grassara na região.   

Entretanto, com o 25 de Abril, a família do ignorado republicano retirou do sótão a sua correspondência e outros documentos, que foram doados a uma instituição cultural, de que inevitavelmente a Sãozinha era zeladora. E que, como historiadora emérita, a estudara meticulosamente, queimando seu precioso tempo e prodigiosos neurónios. Estava, portanto, a Sãozinha com avalizadas provas, apta desfazer o equívoco e repor a verdade histórica.

E, antes de subir aos meios académicos e aos corredores do poder cultural, numa espécie de ante estreia, quis a Sãozinha bafejar, com sua erudição, a colónia de emigrantes, seus conterrâneos, residentes na Área Metropolitana de Lisboa. Um acto prenhe de sentido, como compreenderão, pois que mergulhar, culturalmente falando, nas “bases”, permitiria à estulta Sãozinha refazer, perante o poder revolucionário da época, a sua imagem de beata e mulher conservadora.

Um gesto de grande iluminação, portanto. Primeiro degrau - dir-se-ia - na ascese da consagração futura...

Foi neste contexto, portanto, que Sãozinha e o nosso “Begin” se reencontraram anos depois dos eczemas da juventude. Ele, vagamente esquerdista e algumas pretensões, presidindo à cerimónia. Ela apta a brilhar em Lisboa, esmagando com sua graça e saber.

Passou-se, assim, o reencontro, como vos passo a dizer.

Uma vistosa colcha cobria a mesa completamente. Ao centro, um ramo de cravos vermelhos. A bandeira da República e o estandarte da instituição entrelaçados armavam o décor, imprimindo solenidade à cerimónia. Na sala, uma escassa dezena de pessoas, que se estendiam pelo amplo salão, cochichando murmúrios e bocejos. Na mesa, apenas os dois, a Sãozinha e o “Begin”. 

Desembaraçados os cumprimentos, passou-se “a substância” da coisa, com o “Begin” a tecer rasgados elogios, perante o leve rubor a adornar a face da Sãozinha, sobretudo, quando o improvisado presidente da cerimónia evocou a sua devoção ao estudo, bem como o exemplo de suas virtudes familiares e – the last, but not the least - a sua consagrada beleza, que faziam dela a menina mais requestada da turma.

O sorriso cândido e enternecido deixava antever o prazer da Sãozinha e quiçá novos e mais fecundos desenvolvimentos nessa amizade da juventude.

De facto, ainda o preâmbulo da oração ecoava e já perna esquerda da Sãozinha se engalfinhava no joelho direito do nosso “Begin”, agora respeitável cidadão e paradigma elogiado de “bonus pater familia”!

- “Que fazer?” - Perguntava-se, naquela emergência, o “Begin”, entre perplexo e divertido, sentindo a perna da Sãozinha cada vez mais afoita. Aguentar o despudorado assédio, não havia outro remédio. Seria um escândalo!... E quem se atreveria a tal? Tanto mais que, de vez em quando, a Sãozinha para ele se revirava, com um sorriso inocente, pedindo assentimento para as suas palavras sapientes.

Que ele dava, claro!... E assim durante quase duas horas até a perna do “Begin” se sentir, por fim, aliviada. A Sãozinha arrasou literalmente a assistência, naquele espaço suburbano, onde muitos cabeceavam, despertos certamente para empolgantes discursos políticos, feitos carne da Revolução, mas pouco dados a escutar, na voz monocórdica da Sãozinha, as peripécias republicanas de um tipo qualquer que, a maioria deles, nunca tinha ouvido falar.

E a cerimónia passou a história. Dela restou apenas a suave pressão da perna esquerda da Sãozinha, a soltar perturbantes rugidos eróticos no nosso pacato “Begin”. Descansem, assim, as almas mais generosas e compreensivas. O nosso “Begin” e a Sãozinha festejaram, mais tarde, o prazer do reencontro

E, por motivos óbvios, a Sãozinha passou a frequentar Lisboa com maior assiduidade. Compreendam os mais cépticos (ou os mais cínicos) que a sua erudita tese a tanto a obrigava, sabe-se lá com que sacrifício dos seus deveres familiares.
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NOTA - A Sãozinha e suas estórias são inventadas, Qualquer "aproximação" a realidade será assim mera coincidência

quarta-feira, junho 08, 2016

Grão de Fogo. Rumor Íntimo...


Arrasta o canto itinerários de água
Caligrafia oculta que os gestos percorrem
Em fervor. E se desenham no rosto inconformado
Dos dias. Solstícios embora é o calcário
E a sombra a articularem a matriz e a semântica.
Estalactites de sangue a irromperem
Como raízes abandonadas. Fio apenas
A crescer nos dedos e a dar forma
À subtil condensação que se ergue
Na rota do peito onde desagua – canto ainda.

E em rebeldia se desnuda.
Litania agora. E sobressalto e mágoa
A tatuar sinais e a exorcizar o tempo
Escasso. Ponto de redenção e fuga –
Sopro e voo. E o cântico. E a marca de água.
Em que o poeta se inaugura.

Grão de fogo. E rumor íntimo.
Concertados.

Manuel Veiga






segunda-feira, junho 06, 2016

A MINHA AMIGA SÃOZINHA...


Sem se fazer anunciar, a Sãozinha apareceu em Lisboa. Eu deveria ter previsto, mas que querem? Com o passar do tempo sou cada vez mais distraído aos caprichos da Sãozinha. Embora, devesse adivinhar que viria. Que me lembre nunca houve Governo do país, cuja posse não tivesse o luzimento da sua presença. Porque seria agora diferente? Como compreendem a Sãozinha, adoraaaaa!... O brilho das toilettes, o perfume da intriga sussurrada, o telintar das lantejoulas, o sobressalto do reconhecimento público é fascínio a que a Sãozinha não resiste.

Mais a mais, tem responsabilidades. Convém estar nas boas graças dos governantes que tutelam a “sua” Instituição. É verdade, que, desta vez, a Sãozinha ficou um pouco descoroçoada. Ela, que gosta de cirandar de beija-mão em beija-mão, foi compelida a ficar acantonada, com reduzida hipótese de borboletear na flama do poder.

- ”Faz uma pessoa todos estes quilómetros, para isto!” – exclama, manifestamente agastada.

Dou-lhe razão, claro. E para a confortar gabo-lhe a toillete. Um conjunto de saia casaco, rosa choque, com o corpo torneado da Sãozinha dentro, todo ele ressumando blandícias e desejos.

- ”Gostas?! Não achas a minha abertura pequena...” – inquiriu, coquette, voltando-se de costas, esquecida já do contratempo da cerimónia frustrada.

Ora eu que, sobre a abertura da Sãozinha tenho opinião altamente favorável, disse-lhe com um sorriso divertido: “Mas a tua abertura, minha querida, é absolutamente fabulosa”!... E, alargando o sorriso: “Não me digas que o novo governo se propõe lançar imposto sobre o uso das aberturas femininas...

Com a minha gargalhada, a Sãozinha abriu o jogo dos subentendidos e, de dedo em riste, advertiu-me: “Deixa-te de ser perverso, afinal eu estou “apenas” – enfatizou – a falar-te da racha da minha saia, capice!

(Capice é interjeição, com sabor a “bom-bom” na boquinha “rosa rosae” da Sãozinha)

E, sem me dar tempo a corrigir o equívoco, a Sãozinha, passou ao ataque num fôlego: “Imagina tu que o burgesso do meu adjunto acha que tenho a abertura pequena...”

E, ante a minha perplexidade, contou indignada. Numa visita recente de altas individualidades do Estado à cidade, a instituição da Sãozinha foi, como era de esperar, o centro nevrálgico da digressão. Reuniões e briefings, durante toda a manhã, com a Sãozinha dirigindo, prevendo, dando ordens, deslumbrando Suas Excelências, em prol da cidade e do prestígio da instituição.

À partida para almoço, com a caravana formada, polícias e bombeiros em guarda de honra, a Sãozinha, em lugar destacado, dirigiu-se para a viatura oficial, onde, perfilado, “o burgesso” lhe abria a porta. Oh drama! Oh maldição! Por duas vezes, a Sãozinha alçou a perna para entrar na viatura. Por duas vezes, a saia da Sãozinha subiu às coxas roliças, em exposição pouco digna... Apenas à terceira tentativa foi possível entrar na viatura, entre sorrisos (mal) contidos de polícias e populares.

- “Nunca me senti tão vexada” – garantiu-me. “E o burgesso, em vez de me ajudar, atreveu-se a dizer-me que eu tinha a racha pequena! Aquele “rachado”!... – rematou, indignada.

Não é adorável a Sãozinha? Que outra coisa pode um homem fazer que não sejas tira-la de embaraços futuros e fazer o trabalho que o “burgesso”, pelo visto não faz, isto é, dar a sua (modesta) contribuição para a alargar a racha da Sãozinha.

Da saia, evidentemente – “mal y soit qui mal y pense”. Um dia destes apresento-a a meu amigo Zeca. Que vos parece?

Manuel Veiga


sexta-feira, junho 03, 2016

LONGA ESPERA...




Regresso
E encontro a mesa posta
E teu sorriso
E o leito aberto
E as cambraias 
E o linho...

E o perfume de teus cabelos
A ungir os pés doridos...

Venho mais pobre -
Que um homem perde-se
Nos caminhos que trilha...

A guiá-lo apenas o céu aberto
E o tesouro de teus olhos
A incendiar a noite
E os corpos

E a longa espera
Num bailado de quimeras...

Manuel Veiga








quarta-feira, junho 01, 2016

BRASIL, IMPEACHMENT É UM GOLPE



Gleisi Hoffman
Senadora do Partido dos Trabalhadores  do Brasil

«A Presidente Dilma foi afastada pelo Senado da República num processo de impeachment, que nós consideramos um golpe, por não ter base constitucional. Acusam a Presidente de um crime que não existe. A sua destituição foi casuística, foi pensada para a incriminar e só vai servir para ela, para este caso, porque não configura um crime de responsabilidade.

A presidente teve 54 milhões de votos e quem assume hoje o poder, para além de não ter recebido quaisquer votos dos brasileiros, mudou radicalmente o programa que foi eleito nas urnas em 2014: nós hoje temos um vice-presidente que assumiu interinamente com um programa económico liberal e posições conservadoras nas áreas sociais, políticas e de comportamento.

A nossa democracia ainda é muito frágil. Nós saímos de uma ditadura militar há cerca de 30 anos e nesse tempo conseguimos construir uma democracia para conquistar direitos para a maioria da população. Em 1988, foi aprovada a Constituição Cidadã, que garante o mínimo de direitos à população brasileira, que só foram efectivamente colocados em prática quando o presidente Lula assumiu o governo em 2003.

Esses direitos podiam ter sido muito maiores, mas pela conjuntura e pela correlação de forças não foi possível. Apesar disso, o Brasil conseguiu reverter o seu quadro de miséria, retirando 40 milhões de pessoas da pobreza extrema; conseguiu ter dignidade através de um salário mínimo que tem ajuste pelo valor real; conseguiu colocar milhões de pessoas na previdência; conseguiu ampliar o ensino público superior; conseguiu fazer programas voltados para as pessoas mais pobres, como a «Minha Casa, Minha Vida», com mais de três milhões de casas entregues à população; conseguimos fazer programas de saúde, com a ajuda dos mais de 16 mil médicos cubanos que actualmente atendem o povo brasileiro.

Todos estes programas correm o risco de serem interrompidos e diminuídos. O governo que substituiu a Presidente Dilma tem compromissos com o capital financeiro, com os que sempre dominaram o Brasil e nunca fizeram nada pelos mais pobres.»


Depoimento recolhido na sessão de solidariedade com a América Latina, promovida pelo CONSELHO PORTUGUÊS PARA A PAZ E A COOPERAÇÃO 
17 de Maio de 2016, na Casa do Alentejo, em Lisboa






UMA PEQUENA VINGANÇA ...


Meu amigo Zeca, alentejano de Beja, era entroncado e moreno, de barba espessa e bem cuidada, lábia pronta e ligeiro sotaque. Um desatino no engate, como já dei a conhecer. Quando jovens, eu vegetava à sua sombra, em contraste com ele, magricela e desengonçado. Calhava por vezes, que amiga tem amiga, sair sozinha dava então mau aspecto, de forma que sempre eu ia “facturando” uma namorada ou outra, à pala do meu amigo Zeca. Como pendura, está bem de ver...

Conhecemos na Praça da República, em Coimbra, em noites de fantasias várias, nos idos de sessenta. Em Lisboa, onde por razões idênticas, concluímos a licenciatura, aprofundámos a nossa amizade. O Zeca nunca casou, como sabem. Em verdade, receio que as únicas mulheres que verdadeiramente amou fossem a mãe e a irmã, pelas quais nutria desvelos comoventes.

E as restantes mulheres?! Bem, as restantes “ou eram, foram ou para lá caminhavam”. Não me perguntem para onde, que não me atrevo à curta palavra que o Zeca, sem rebuço, lhes chamava. Quando, em grupo famélico de lobos sem freio, alguém do nosso grupo comentava os hábitos mais ou menos “liberais” desta ou daquela, era certo e sabido que o Zeca desbocava: - “que Deus a faça cada vez mais e que a mim toque alguma coisa” – gargalhava.

Um predador este Zeca. Mas de uma generosidade espantosa e amizade à prova de bala!...

Quis o destino que uma tarde de Junho, já em Lisboa, em plena Feira do Livro, o Zeca embicasse com duas desprevenidas gazelas, que de stand em stand se bamboleavam... - “Vamos àquelas!...” - atirou-me, felino em plena caçada. E meu dito, meu feito: passados minutos estávamos os quatro a comer pastéis de nata na esplanada do Parque Eduardo VII.

Eram a Diana e a Andreia, nomes fictícios, como calculam, pois à época ainda não haviam “dianas”, nem muito menos “andreias”, com que modismos posteriores vieram colorir o arco-íris dos nomes femininos. Naquele tempo, as mulheres eram todas santinhas, quer dizer, ostentavam, quase todas, gloriosos nomes de santas e mártires. Mas que importa agora o nome? Assentemos, portanto, que se chamavam Diana e Andreia...

Durante umas semanas, saímos os quatro. Umas matinées, umas idas à Sanzala, no Campo Grande, para umas tardes de calor tropical, umas saídas para a praia, etc. ... Enfim, todo o percurso de um engate “à maneira”. Com o Zeca como maestro, está claro. A determinada altura, porém, as coisas entre Andreia e o Zeca deixaram de funcionar, enquanto eu estava todo filado na Diana...

Habitava eu, então, o apartamento de um militar em comissão de serviço na Guerra Colonial, em África, que a troco do pagamento da renda, consentira que o irmão e uns amigos (nos quais me incluía) ocupassem o apartamento. Uma pechincha e um luxo. Havia mobília, cozinha, tv e gira disco e até uma pequena biblioteca, que o militar era dado a leituras... E polícia à porta, pois no prédio residia um ministro. Circunstância que, aliás, trouxe mais tarde a nossa desgraça, que dizer, nosso despejo sumário, como um dia contarei, se vier ao caso...

Por ora importa referir, que apesar de todo esse luxo, não havia maneira de convencer a Diana a conhecer o famoso apartamento. Que não, que sem a Andreia, nada feito! (vá lá entender-se as mulheres), de forma que não tive outra hipótese senão abrir-me com o Zeca e propor-lhe que retomasse o namoro com a Andreia, ao menos durante um fim-de-semana...

O Zeca ainda torceu o nariz, mas, na sua generosidade, soltou: “está bem, sou mais que teu pai; mas promete que não me deixas ficar mal e “comes” a gaja!...”. Confesso, que havia semanas que não pensava noutra coisa; porém, não era assim tão categórico quanto à certeza do desfecho. Mas, enfim, convenci o Zeca que sim, “que comeria a gaja!”...

Finalmente, a noite “D”. As meninas tiveram o talento de convencer a madre superiora de uma urgência familiar que as obrigava a ficar fora nessa noite e eis o quarteto (não o de Alexandria, é evidente... rss) no celebrado apartamento. Na fase da cerveja e dos pregos tudo esteve bem. A Andreia e o Zeca estavam amorosos. Até pareciam um par de noivos, como irónica, a Diana sugeria. Findas as libações, a dança... Soltam-se emoções do gira-discos, na voz delicodoce de Adamo (lembram-se?). Tacticamente (ou não estivéssemos nós em terreno militar), escolhemos cada um de nós sua divisão da casa. Dançava-se já, sem música no gira-discos, em inércia de corpos em ebulição, segregando prazer por todos os poros. No encontro de coxas, das línguas, das mãos...

Eu sentia-me em glória nos sorrisos e nos doces lábios da Diana...

Inesperadamente, como um raio numa noite quente, o bater seco da porta de saída: o Zeca desaparecera e a Andreia estava debulhada em lágrimas! Nunca percebi as razões, nem o Zeca alguma vez me contou. O certo, porém, é que receei o pior, que dizer, que a minha estratégia militar redundasse no maior fracasso e o crepitoso corpo de Diana ficasse apenas, mais uma vez, como promessa de batalha adiada.

Uma dramática situação, de facto. Voltar ao lar nem pensar, soluçava a Andreia. Que explicação daria às freiras? Logo seguida do assentimento da Diana, que solícita lhe limpava as lágrimas. Eu descorçoava: via a minha vida a andar para trás e elas não descolavam uma da outra. Aos beijinhos e outras pieguices...

De súbito, a Diana luminosa e salvadora: “Ficamos os três!...” E eu, gaguejando: “mas... mas... os três?!... os três como, Diana?!..."

E a Andreia decidida: “Ora, ficamos os três na mesma cama!...”

Ficamos. Uma noite gloriosa e um pequeno favor que devo ao meu amigo Zeca, como ele não imagina. E uma pequena vingança que os deuses me propiciaram!...

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E, quando palhaço (pobre) dos deuses, o senhor Álvaro de Campos, engenheiro, e seu Poema em Linha Recta, amargos, me vistam

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada/todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo...”

a evocação da Diana e da Andreia e essa “noite gloriosa”, abrem-se em bálsamo florido a escorrer pelo túnel da Memória.

Manuel Veiga