quarta-feira, março 30, 2016

MAGNÓLIAS EM FIM DE TARDE...


Colhe o tempo magnólias em fim de tarde
Latência de um perfume que se inala como ópio
Às golfadas depois do esplendor
E persiste como vibração estreme
Ardência ainda mas já nuvem
Sem retorno...

Essa opulência outrora transbordante
É agora cadência volúvel que percorre os trilhos
Alvoroçados do mel silvestre
E das amoras
Ainda agora palato
E língua...

Sucos destemperados
Que resistem...
Ou paleta de mostos
Que os dedos amassam
Na flor dos dias gastos...

E sucumbem
Na incandescência operática
De um “encore” antes do pano...

E se transportam incrustados
Na desbotada pele das horas
Que estremece desmaiada...

E vibra ainda
Como linha encurvando-se
Antes do fecho...


Manuel Veiga

"Do Esplendor das Coisas Possíveis" - Poética Edições - a publicar em breve


domingo, março 27, 2016

FRAGMENTOS XIV - Rua, Disse Ela II


Assim, o País, de sul a norte, ou norte a sul, conforme o ponto em que nos observem, fora então atravessado pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, aqui e agora, nome de aeroporto, como um vendaval esperança que rasgou clareiras e fecundou os caminhos de libertação da Pátria, na madrugada redentora de 25 de Abril.

Essa onda de entusiasmo e esperança atravessou todo o País e atingiu também a capital do distrito, onde, uns quantos “reviralhistas”, reunidos em torno do velho “Centro Republicano” e uns professores do Liceu tresmalhados, desterrados por colocação do atento ministério da Educação, para o “cú de judas” que, por esse tempo, a cidade era, onde, na perspectiva do regime fascista, menos danos poderiam causar à juventude, então, obrigatoriamente, encarneirada na Mocidade Portuguesa.

Antes, porém, o jovem Manuel Caetano e que pequeno herói iria ser, pelo menos, na férrea opinião do Padre Casimiro, a quem a amizade e a provecta idade tudo desculpavam, herói portanto, antes da garbosa figura de Alferes de Cavalaria e do fogo da guerra colonial, terminara o jovem, com fama de excelente aluno, o 2º Ciclo do Ensino Liceal, pelo que com o diploma do 5º ano dos liceu nas mãos, se abria ao jovem a possibilidade de procurar emprego numa qualquer Repartição Pública, hipótese essa logo afastada, já que herdeiro que era do nome de seu avô e seu padrinho, Manoel Caetano, e que para ele, mediante o eloquente simbolismo do baptismo, haviam sido transferidos, o conjunto dos valores éticos, políticos e intelectuais, inscritos no âmago do nome primevo e, se assim fora, isto é, se destino do jovem fosse ser serventuário do regime, os ossos de seu avô erguer-se-iam da tumba e, do alto do seu republicanismo, a ira do octogenário Padre Casimiro fulminaria, como um raio furibundo, toda a família.

Houve, pois, que reunir o “Conselho de Família” para decidir o futuro do jovem, mas de imediato, como sempre acontece nas grandes decisões deliberativas, se verificaram vincadas divergências. As piedosas tias, Maria do Amparo e Teresa de Jesus, ambas solteiras e virgens e zeladoras do Santíssimo Sacramento, que, com a Graça de Deus, aspergiam bênçãos sobre a cabeça do infante e, devotas de Nossa Senhora do Divino Despacho, a Ela se entregavam na apostólica tarefa de lhe encaminhar os passos, defendiam que o rapaz deveria ficar por perto, livre dos perigos do Mundo, que estando perto, nunca bênçãos lhe faltariam e sempre elas poderiam providenciar para que o necessário em bens materiais também não lhe faltasse e que Professor Primário era uma bonita profissão, a Escola do Magistério ficava lado a lado com o Liceu onde fora bom aluno e fizera amigos, por isso, “salvo melhor opinião” – a lançarem de soslaio o olhar para o irmão e cunhado, António Caetano, pai do rapaz - o “menino” devia continuar na mesma cidade e ao fim de dois anos sairia professor acabado, para prestígio da família. 

A mãe, Maria das Neves, inclinada pelo coração a que o filho, que era seu o encanto, ficasse o mais próximo possível de seu regaço, protegido por aquele tão cálido, extremoso e plural gineceu familiar, não podia também esquecer que, além de mãe, era esposa e que respeitar e obedecer à vontade do marido era mandamento de Deus, a que toda a mulher digna desse nome, deve obediência, pelo que a sua vontade estava fundadamente tomada “aquilo que o seu António disser estará bem dito”... Então, o Pai, alargando o passo para além da perna, falou, numa fala digna do Patriarca Abraão “Já que, quando terminou a 4ª Classe, o quisestes tirar da lavoura, onde bom jeito me fazia e bem necessário era, pois então o rapaz vai para Coimbra e será doutor juiz; e, assim, filho meu escusa de aturar os filhos dos outros...”.

E, assim, sem mais quaisquer razões ou assentimentos, o futuro do Rapaz ficou traçado e o assunto ficou definitivamente arrumado, cada uma das dulcíssimas senhoras, sem tugir, nem mugir, rumou aos seus bordados e as suas piedosas orações, a mãe às lides domésticas, donde não devia ter saído para inúteis discussões e o Pai, “padre-padrone”, atarefado, rumou aos seus afazeres, que já estava a fazer-se tarde.

Foi, assim, neste exemplar e genuíno processo democrático de predestinação, em que, como é da naturezas das coisas, o equilíbrio dos poderes decaiu ligeiramente em favor do poder executivo, que o jovem Manuel Caetano ascendeu ao topo do ensino liceal, que havia transportar o Rapaz para a “galeria das celebridades”, como Padre Casimiro não se cansava de elogiar, sempre que a oportunidade surgia e que haveria ditar, conjuntamente com o lastro de seu nome, Manuel Caetano, inscrito na memória de seu avô e padrinho, que haveriam ditar, dizia-se, a eloquente e peremptória resposta às zelosas preocupações da senhora Dona... ,tia da celebrada menina Gertrudes, mais conhecida por “Papa-Alferes”, quando, escassos anos volvidos, num tempo outro, em que a narrativa é quartel de Cavalaria e em que o jovem, ainda não Alferes era, no entanto, carne para canhão para a guerra colonial, tempo em que o sangue fervia e se fez prova provada, que “lume ao pé da estopa, vem o diabo e assopra”.

A coisa requer ainda uns quantos esclarecimentos complementares. Então o Rapaz, que Alferes ainda não era, mas inscrito, porém, no devir dos acontecimentos e nos liames da história e do tempo longo que detém a chave do futuro dos homens e o haveriam lançar, sem remissão, nem glória, e sem que as orações de devotas tias o pudessem evitar, nas bolanhas da Guiné, frequentava o Rapaz, Manuel Caetano de sua graça, com outros dois bem comportados jovens de sua idade, à volta dos 15/16 anos, qual “camarilha de reguilas alfacinhas”, de passo trocado em desfile do 6ºano do liceu, o Rui Monteiro, filho de médico, porta com porta, com a residência de seus afastados parentes, onde se aboletou durante os sete anos do Liceu, circunstância que os fez amigos desde as incipientes aulas do 1º ano e o Tozé Madureira, filho do juiz corregedor, que naquela cidade fora, nesse mesmo ano colocado, pelo que o Tozé veio acrescentar, de dois para três, o número de alunos do 6º ano, alínea e), destinados prosseguir na Universidade os estudos de Direito, ele, Manuel Caetano, por destinação da família e passada mais larga que a perna de seu pai e eles, o Rui, filho de médico, e o Tozé, filho de juiz corregedor, por estar inscrito na ordem natural das coisas serem juízes ou advogados. De forma que, esta camarilha “avant la lettre”, apascentava os livros, transversalmente, pelas diversas turmas, acrescentando os seus nomes, conforme os horários, às diversas turmas da área de Letras desde, das meninas de Românicas (Latim e Literatura) e às meninas de Germânicas (Alemão), passando pelas turmas mistas de Histórico-Filosóficas (História e Filosofia)

Era então esse tempo, tempo de cerejas e borbulhas, atravessado por um tempo-outro, mais fecundo, onde se jogam os veios da História, em que a campanha eleitoral do General Humberto Delgado para a Presidência da República foi uma insurgência espectacular de entusiasmo e confiança. A pacata cidade, remoendo, em suas entranhas, mesquinhas maledicências e pequenos prestígios, ou moles velhacarias, mas também expressivas generosidades, empolgou-se com a passagem da caravana do General Humberto Delgado em campanha eleitoral e saiu à rua, uns tantos por convicção, certamente, outros mera curiosidade ou levados pelo entusiasmo envolvente e, por entre as filas, excitados e eufóricos com a gritaria, a trupe de futuros doutores em leis, o Rui, o Tozé e o Manuel, como se um “grupo de reguilas alfacinhas” do Bairro da Alcântara fossem, a “pinchar” as ruas de Lisboa com frases revolucionárias, gritando a plenos pulmões Viva o General Humberto Delgado, num entusiasmo desmedido, que transportaram para a sala de aulas.

Assim, no intervalo da aula de História para a aula de Língua Alemã, impulsionados pelo alarido das ruas, escrevem no quadro, com giz vermelho, a toda a largura “Viva Humberto Delgado, o General sem medo”. Gera-se o natural bulício entre os alunos, quer dizer, entre as alunas, que o curso de língua germânica era coisa de mulheres, umas quantas mais aguerridas, buscando as boas graças dos três rapazes, tidos como excelentes alunos e heróis de momento, num chinfrim de gritinhos e aplausos. E outras, as beatas, encolhidas na carteira escolar, não tugindo, nem mugindo, mas com a perturbação e o medo ruborizados no rosto. O professor de alemão era o saudoso Dr. Eduardo Filomeno, que, como ninguém, declamava, na língua de Goethe, longas estrofes do imortal “Fausto”

“Surgis de novo, figuras fugidias
Que ao curvo olhar vos mostrastes outrora.
Cabem em meu coração tais fantasias?
Serei capaz de vos reter agora?
Quereis entrar! Seja, reinais sem peias,
Vós, que subis das brumas da memória;
A minha alma renasce, emocionada
Pelo sopro mágico de vossa cavalgada”...

 ... e que  nutria com o trio de juristas, armados em camarilha de reguilas alfacinhas, particular simpatia, não pelo interesse que os jovens revelavam pelas declinações gramaticais da língua alemã, para as quais solenemente se borrifavam, mas pela circunstância espúria de encontrar eco naquelas almas virgens para a poesia de Goethe, Shiller, Rilke ou Hölderlin, e – helás! - também, Brecht!

Ora, acontece que depois de largos anos de ostracismo, a que fora votado pela cidade, obrigado a ficar retido em casa e alimentar a numerosa prole com umas esparsas explicações a alunos cábulas, pois que esta coisa de partilhar “ideias subversivas” tinha seu preço para um jovem professor do ensino oficial que se nega a prestar o juramento de fidelidade à ordem estabelecida com o Estado Novo, o Dr. Filomeno ensaiava então a recuperação socioprofissional, primeiro, durante um bom par de anos, como professor contratado no Colégio, propriedade da Diocese, onde, ao que parece terá dado provas de regeneração e, naquele mesmo ano, a que os narrados factos se faz menção, como professor interino do Liceu Nacional.

Ó, vós que passais” julgai vós das razões do Dr. Filomeno!... Que, com a ressurreição dos mortos, “o da Barca” o encaminhe para o reino dos Justos, pois que para o trio de futuros juristas o julgamento ficou desenhado no rosto atónito do Dr. Filomeno, em diversos tons de verde e amarelo e a sua voz cava e trémula, como se, num tempo literário, outro, Fausto se erguesse da tumba e perante o espectro de Margarida declinasse sua traição e sua dor: “Apaguem “aquela frase” no quadro, imediatamente!... Vocês não queiram destruir vossas vidas, nem do vosso professor...”

Não se sabe ao certo qual dos jovens tomara a iniciativa de escrever, no quadro negro “aquela frase”Viva Humberto Delgado, o General Sem Medo! Apenas se conhece que os três jovens, que juristas ainda não eram, se ergueram em uníssono e que eles, Rui, Tozé e Manuel, proclamaram que, por sua iniciativa e convicção o haviam escrito, subscreviam e mantinham e iriam apagar a frase pelo muito respeito que ele, Dr. Filomeno, lhes merecia como professor, mas nunca o fariam por cobardia. E assim o acontecimento desceu à cidade e comentado, acrescentando-se sempre um ponto

Tudo visto e ponderado tanto bastou para que, na amizade sem mácula do bom Padre Casimiro, o Rapaz, que Alferes, anos mais tarde, haveria de ser, num quartel de Cavalaria, onde por um acaso, ditado por desatinado recruta apoucalhado, sob seu comando, haveria conhecer uma tal menina Gertrudes e sua zelosa tia, tanto bastou, dizíamos, para que o Padre Casimiro, unha com carne com seu avô, Manoel Caetano, guindasse o jovem para a “galeria das celebridades”, circunstância essa, conjuntamente com o lastro de seu nome, Manuel Caetano, inscrito na memória de seu avô e padrinho, haveriam ditar, como em breve se irá saber, a eloquente e peremptória resposta às zelosas preocupações da senhora Dona... ,tia da celebrada menina Gertrudes, mais conhecida por “Papa-Alferes”, eloquentemente expressa em carta com registo ao Pároco da freguesia na qual a ilustre senhora impendia a Sua Reverência para que lhe fossem prestadas informações fidedignas sobre o rapaz e sua família, enfim, coisas de pequena monta, que uma tia tem obrigação de conhecer, antes de entregar a sobrinha a um Cavalheiro e Oficial de Cavalaria, tais como o montante dos cabedais, terras, influência social, comportamento respeitador de Deus e do próximo, etc., etc... do jovem oficial e cavaleiro e de sua excelentíssima Família.

Foi por determinação divina que a carta da augusta senhora caiu nas mãos do Padre Casimiro, que amigo da família, nos termos sobejamente conhecidos e que nutria pelo jovem esmerada afeição. Do alto dos seus 80 anos, zeloso do nome e da memória de seu amigo, Manoel Caetano, avó e padrinho do rapaz e fiel guardião dos princípios, valores e regras que vigoravam naquelas paragens e assim seria, enquanto a saúde e força dele, Padre Casimiro, o permitissem,  continuariam a vigorar naquelas terras, sobre a quais, depois de Deus, ele decidia, compreendeu de imediato os danos que tal carta poderia provocar na ordem estabelecida da pequena comunidade rural e, sobretudo, no futuro do Rapaz, neto e afilhado de seu dilecto amigo, Manoel Caetano, e que, o Rapaz, ele próprio, por "feitos valorosos" se guindava, tão novo, à fama dos predestinados. 

E, então, se bem o pensou, melhor o fez e, depois de consultar secretamente os santos da sua devoção, o bom do Padre Casimiro, conhecedor do mundo e das armadilhas da vida, respondeu à esforçada senhora, tia da menina Gertrudes, a consagrada “Papa-alferes” que a família do rapaz, Oficial e Cavalheiro, num Quartel de Cavalaria, algures no País, além de ferozmente ateia, estava falida (o que não andava longe de ser verdade) e acrescentou ainda o glorioso Padre Casimiro um conjunto de outras indignidades que o decoro não permite referir (o que era manifestamente um exagero).

Que pode então uma tia fazer que não seja gritar: “Rua, ponha-se na rua, seu estafermo!...

E um Alferes, que ainda não era, encolhendo os ombros rumo ao quartel - “sic transit gloria mundi!...”
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Maria Adelaide bate o pé de impaciência - vamos fazer-lhe a vontade, antes do regresso à Tabanca, onde, pacientemente, outros personagens nos aguardam .... 


quinta-feira, março 24, 2016

CÂNTICO DA PÁSCOA


“Que querei daqui, vós portentosos sons
Que do Céu vindes procurar-me no pó?...
Soai antes onde há corações bons
A mensagem bem a oiço, porém, falta-me a fé
E milagre é da Fé o filho amado...”

“Àquelas esferas não ouso aspirar
Donde me vem a boa e doce nova;
Mas quando o som se renova
À vida novamente quero voltar...”

“Então descia em mim a benção
Do Céu, na paz do Sábado, serena
E a voz dos sinos, de presságios plena;
E era um prazer fogoso a oração...
Um indizível anseio me impelia
A floresta e campos correr
E, entre lágrimas ardentes, sentia
Que em mim um mundo começava a nascer...”

"O Canto veio lembra-me os jogos de infância
Da primavera a festa livre da alegria;
O ânimo infantil sustenta-me a lembrança
Que do derradeiro passo me desvia...”

“Ressoai, ressoai doces hinos do Céu!
Lágrima, corre!... Terra, aqui estou eu!..."

 Johann Wolfgang Goethe – in "Fausto"


terça-feira, março 22, 2016

TORNA VIAGEM...

Encobre-se o poeta em seu nome
E assim emboscado
Recolhe a graça
E se faz Mar
E barco...
E se unge
E se alcança
Marinheiro...

Torna-viagem de si próprio arde.
E na amurada do sonho funde as rotas
E todos os mapas. E em todas as praias
Aporta. Peregrino...

Em cada enseada se derrama.
E em todas as ilhas cativo.
E é mastro altaneiro. E gávea.
E é o alvoroço inaugural das ondas.
E o corpo em flor de Nereide.
E o canto enfeitiçado...

Tece em seu diário a ortografia da viagem.
E o assombro. E a vertigem.
E em registo cifrado
Tabelião de desacertos
Resguarda-se.

E desdizendo-se se faz rota.
E do sangue incendiado
Se faz Grito.

É companheiro de brumas
E Argonauta de todas as demandas.

E de todas as âncoras
O prodigioso dia!...

Manuel Veiga

in "Do esplendor dos dias possíveis" - no Prelo - Poética Edições





segunda-feira, março 21, 2016

NO PRUMO DOS DIAS...

Quando no prumo dos dias
Os passos em zénite
Desafiam a distância
Como asas...

E as montanhas se abrem
Ao eco de indizíveis nomes
Que soletro e
Esgravato na urze
E no cardo... 

Quando o sol se verga. E em curva
A sombra se avizinha no pastoreio
Da memória...

Quando a coruja de Minerva
Solta seu grito. E seus prenúncios...

E o bronze dos portais
Se abre aos murmúrios. E ao cântico
De velhas e novas carpideiras...

Afasto o bordão do tempo
E nas entranhas
Das aves
Exorcizo meus presságios...

E ergo minha taça
De vinho e fel...

E no rosto cansado dos homens
E no negro das mulheres
De outrora.

Inscrevo minha insígnia
De cinza e água. No pórtico indefinido
Dos dias claros...


Manuel Veiga

in "Do esplendor dos dias possíveis" - no Prelo - Poética Edições




domingo, março 13, 2016

FRAGMENTOS XIII - Rua, Gritou Ela!...


Sabemos, pois, como o Alferes (que ainda não era) ficou a conhecer, por expressiva demonstração prática, que as coisas boas da vida acabam depressa e, por isso, foi com bonomia, que o ainda imberbe oficial aceitou a debandada da praça-forte. O que se passara?

A velha e devota senhora Dona  ....  percebendo que o namoro da sobrinha com o Alferes “pegara fogo”, assumiu-se, em plenitude, como fiel zeladora da virgindade da menina Gertrudes e, aceitando como divina a sua missão na Terra de lhe proporcionar dote digno da sua beleza explosiva, escrevera ao padre de uma aldeia ignorada, algures no norte do País, onde o Alferes viera ao Mundo e, envolto em toalhas de linho preciosamente bordadas, por devotas e imaculadas tias, zeladoras do Santíssimo Sacramento, não podendo ele próprio, bebé de escassos meses, gravar na pedra (ardósia escolar que fosse) seu próprio nome, foi baptizado e seu nome Manuel Caetano outorgado, no exercício de seu múnus sacerdotal, pelo velho e santo padre Manuel, tio de Lia, replicando, na cerimónia mágico-religiosa do baptismo, o nome próprio de seu avô, Manoel Caetano, nome que, sendo uno, são dois e, dois (nomes que sejam), valem mais que um, e, assim, ungido por sagrados óleos e pelo ritual e pela devoção, para o novel infante “iniciado” foram transferidos, em sua dimensão simbólica, o  conjunto dos valores éticos, políticos e intelectuais, inscritos no âmago do nome padroeiro, seu avô e seu padrinho.

Mas vamos à questão que aqui nos trás. Que problema sério ou salvação de alma seria aquela urgência tão premente que determinasse a piedosa senhora, tia da menina Gertrudes, a solicitar favores e perturbar a placidez daquelas longínquas e ignoradas paragens e, mais a mais, a incomodar os deveres religiosos ou as santas leituras do pároco da Freguesia? Requeria assim, a excelsa senhora, tia da “Papa-Alferes”, perante o escaldante namoro de sua sobrinha com o Alferes de Cavalaria, ostentando como local de nascimento aquela Paróquia, que Sua Reverência, lhe concedesse o obséquio de prestar informações sobre o rapaz e sua família, ao mesmo tempo que a missiva desfiava o rol detalhado das intimidades em que os havia surpreendido, ele Alferes que ainda não era, abusador de sua boa-fé e da sua hospitalidade e ela inocente, virgem e recatada, como compete a menina de boas famílias. Enfim, pretendia a distinta senhora conhecer pequenas coisas que uma tia tem a obrigação de saber antes de entregar a sobrinha a um Cavalheiro e Oficial de Cavalaria, prestes a embarcar rumo à Guiné, em defesa da Pátria. Em resumo, pretendia a senhora a pequena coisa de ser informada do montante dos cabedais, terras, influência social, comportamento respeitador de Deus e do próximo, etc., etc... do jovem oficial e cavaleiro e de sua excelentíssima Família.

Em sua sabedoria, Deus, nosso Senhor, que administra, mesmo errando, o justo e o injusto, poupou o saudoso padre Manuel, do desgosto e do opróbrio da resposta, pois como ficou dito, foi por sua mão que o Rapaz recebera o sagrado sacramento do baptismo, mas também a primeira comunhão e o crisma e fora ele, com suas devotas tias a fazerem coro, que o encomendara à Virgem Maria, quando feito com distinção o exame da Quarta Classe, sua família decidiu – sabe-se lá que aventura – a enviar o dócil rapazinho, que ostentava o nome Manuel Caetano, como seu tonitruante avô, para a cidade mais próxima, entregue aos cuidados de parentes afastados, que por ele velaram, durante os sete anos de frequência do Liceu e caíam agora, vindas sabe-se lá de onde, tão agudas e perturbadoras preocupações de uma senhora que não se sabia quem era, mas por certo ofendida, tão negras eram as cores que tingiam o carácter do garboso oficial que, certamente, teriam despachado o santo Padre Manuel para o outro Mundo, não fora a Divina Providência e dedo de Deus, terem-no levado antes, roído de uma ferida ruim, que dia após dia, em resignado sofrimento, lhe roeu a garganta até à morte.

Não existia, pois, pároco na Paróquia, pois que, tendo o Criador levado o Padre Manuel para o seu divino regaço, como acontece a todos os justos, também o jovem e macilento Padre Francisco, nomeado que fora, por decreto bispal e entronizado, com o regozijo dos paroquianos, para lhe suceder, também o novo Pastor havia abandonado à sua sorte o rebanho, para debandar, rumo a África, num final de Verão, depois da homilia dominical, num carro ligeiro, por entre solavancos, poeira e enjoos de Lia, grávida de alguns meses, que levava em seu ventre, como única bagagem,  o fruto sagrado de seus amores pecaminosos. (E de tua solidão, Lia...)

Desta sorte, preparava-se o carteiro para devolver a missiva, quando alguém lembrou o Padre Casimiro, residente numa aldeia vizinha, que sendo padre, não tinha, nem nunca tivera, nem paróquia, nem missa certa, pois que a obrigatória missa diária da sua condição de clérigo, ele a celebrava quando muito bem lhe apetecia, para criados e serviçais na capela do seu palacete oitocentista, um pouco decadente, é verdade, mas ainda de pé e, assim, mais que clérigo, se considerava o Padre Casimiro como Lavrador, não um lavrador ou padre quaisquer, mas lavrador abastado de terras e cabedais e padre, mais dado a prazeres da carne, que às penitências da santidade, e que, em casos extremos, fossem tais casos ditados por amizade, ou ditados por piedade, se via constrangido a oficiar uma ou outra cerimónia religiosa, designadamente, na aldeia da naturalidade do Alferes, onde mantinha vastas terras e amizades sólidas. Assim, por destino ou capricho da sorte, ou da Divina Providência, a missiva da augusta senhora, tia da menina Gertrudes, a consagrada “Papa-Alferes”, que tanto alvoroço causara na pacata povoação, foi parar às abençoadas mãos do Padre Casimiro, amigo do peito que fora de Manoel Caetano, viúvo e, entretanto falecido do avô do Rapaz, agora Alferes de Cavalaria, companheiros dilectos ambos, Padre Casimiro e Manoel Caetano, de farras e noitadas e, ombro com ombro, ambos fortes e rijos, de não raras zaragatas de varrer a feira, quando razão surgia e o calor do álcool apertava. Aliás, vezes sem conta, depois da morte de seu avô, Manoel Caetano, que Deus ou o Diabo, ou talvez os dois, Deus e o Diabo, o houveram levado cedo, o Rapaz ouvira da boca do padre Casimiro, lá do alto de seu feroz republicanismo, a roçar o “reviralho”, de cada vez a façanha contada, a acrescentar um pormenor e esquecendo outros, pois que a memória não é sempre a mesma e os factos variam, conforme o registo que deles temos, sem se saber, porventura, muito bem se os factos são realidade ou ficção, mas dizíamos que, vezes sem conta o Rapaz ouvira da boca do Padre Casimiro a heróica façanha dele, Casimiro Augusto Cordeiro Vasconcellos Mendes e de seu amigo, Manoel Caetano Cleto Alves da Veiga, eram eles jovens e feros, por ocasião das incursões monárquicas do Paiva Couceiro, terem apenas os dois, à força de bordoada, corrido com a secção de monárquicos aboletados na vila e restituídos os símbolos da República à sede da Administração do Concelho.

Ora, como se não bastassem os inquebrantáveis vínculos entre as duas famílias, forjados, ao longo de anos, na apascentação dos interesses comuns de domínio social, naquele microcosmo fechado, estruturado numa rede de dependências mútuas, como se não bastassem, então, tais vínculos de sólida amizade entre as duas famílias, verificava-se ainda um pequeno must, um quase-nada, que aos olhos do bom Padre Casimiro transportava o Rapaz para a galeria das celebridades e que lhe permitia, a ele, Padre Casimiro, dizer, com expressiva convicção, que estava garantida a “velha estirpe” dos “Caetanos”, já que também o Filho e o Pai naquela trindade de Caetanos, baptizado e, em todos os registos, figurando como António, “Caetano” era também, se não pelo nome matricial, o era, no entanto, pela alcunha em que verdadeiramente era reconhecido por todo o Concelho. Havia, é certo, um pequeno senão, pois que Rapaz não tinha a envergadura física de seu avô, Manoel Caetano, mas, na verdade, o “feito” do jovem era de monta a ponto de poder superar, com vantagem, essa ou quaisquer outras debilidades e ilustrar assim os pergaminhos da família.

Acontece que, meia dúzia de anos atrás, num tempo outro, que já não tempo da narrativa, mas num tempo outro, mais fecundo, que determina os passos dos homens e onde se jogam os veios da História, acontece, sim, acontece, que nesse tempo de longo ciclo, de luz e de sombras, o negrume desses tempos de escuridão, de atraso, de fome e de medo, era atravessado, pela persistente luta de milhares de homens e mulheres e por lampejos de verdadeira heroicidade, que mantinham viva a esperança em melhores dias.

Assim, o País, de sul a norte, ou norte a sul, conforme o ponto em que nos observem, fora então atravessado pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, aqui e agora, nome de aeroporto, como um vendaval esperança que rasgou clareiras e fecundou os caminhos de libertação da Pátria, na madrugada redentora de 25 de Abril.

(...) Continua, já, já ...


terça-feira, março 01, 2016

FRAGMENTOS XII - A Papa Alferes em seu esplendor..


Temos, pois que o “Assobio” inscreveu, literalmente na pedra, quer dizer, na ardósia, o seu próprio nome, a si se nomeando Eusébio da Silva Ferreira. O nome de baptismo – Eusébio – em verdade o seu único ou “próprio nome”, consagrado no simbólico banho da água Jordão a jorrar na Pia Baptismal e nomeado por “Aquele que não tem nome” mas tudo nomeia, e assim estabelece a “a ordem” de toda a criação e ungido também o infante-menino, agora Eusébio, com os Santos Óleos nas aberturas de seu corpo para selar tais abertura às perfídias o Maligno, a que os registos (canónico e civil) acrescentaram os apelidos de seus honrados pais, pessoas humildes, mas dignas. E, neste acto inaugural de nomeação, quer dizer, da outorga mítico-religiosa do nome, o “Assobio”, autoproclamando-se agora Eusébio, por sua própria mão, a deslizar sobre a ardósia, no acto também ele mágico da escrita - nome de santo o seu - Santo Eusébio, Papa e mártir, deposto e deportado por imperador romano nos “idos” de 300 d.C., e a si próprio se concede como que uma espécie de carta de alforria e se atribui o direito ao nome, e se ergue no centro todas as coisas criadas como “pessoa”, quer dizer, estabelece e fixa o sinal, mediante o qual a sociedade o irá interpelar e a reconhecer; e, desta forma, o Apoucalhado Assobio, agora Eusébio, dará consagração prática à consigna jurídica que a modernidade introduziu na História de que “todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos e (por força do nome, seja ele nobre ou plebeu) as distinções sociais não podem ser baseadas senão na utilidade comum”, donde decorre, com meridiana clareza, que o nome da pessoa Eusébio, jamais poderá ser objecto de outorga, quer dizer, jamais poderá ser imposto por uma arbitrária vontade individual, chama-se ela, essa vontade, sacerdote, rei, general ou coronel, nem por desígnio ou por decisão de uma classe ou de uma qualquer “ordem” social. Nem sequer por grupo de reguilas alfacinhas... Nem, também, sequer - ó escândalo herético! – por “Aquele” que “não tem Nome, mas que tudo nomeia...”

Na realidade, como bem se sabe, o nome constitui, a partir das Luzes, um direito natural, de que todos os homens sem excepção, são sujeitos, sejam eles “apoucalhados Assobios”, provindos dos cumes da Serra da Gardunha, sejam eles doutores ou engenheiros, coronéis “calcinhas” ou generais comandante-chefe, capitães de cavalaria de monóculo e pingalim, alferes contrafeitos, ou sargentos ou praças, ou reguilas alfacinhas, quer dizer, portanto, que o nome igualiza todos os homens, colocando-os, ao menos no plano formal, em lugar idêntico perante o Direito...

Sejamos então claros. O acto do Assobio, que no gesto inaugural da escrita, inscreveu o seu próprio nome na ordem das permanências e do reconhecimento mútuo e, portanto, se assumiu por inteiro como Pessoa fez estoirar a ordem estabelecida que até então à sua volta se moviam e, por certo sem o saber, estabeleceu, no que a si diz respeito, uma nova grelha de sociabilidade no espaço sócio militar que o envolvia, extraindo, assim, da sua condição de Apoucalhado, os filamentos da nova personalidade, ou seja, da identificação e individuação pessoal que para sempre o irá vincular à sua vivência e ao mérito (e ao demérito) da sua participação social futura, no espaço da cidadania.

Mas se a ordem jurídica, reconhece todos homens como iguais e os igualiza, em razão do nome que ostentam, a ideologia porém os distingue e diferencia de tal forma que o mesmo nome Eusébio da Silva Ferreira pode, em concreto, referir-se a dois homens tão díspares, sem no entanto os confundir – catapultado um, Assobio toda a vida, das alfurjas da cozinha para as dragonas e alamares nos salões da messe de oficiais e o outro, catapultado de um bairro negro de Moçambique para as paragonas do Mundo e, qual “Pantera Negra”, para as altura dos modernos heróis, prova provada de que Portugal era grande e único, que ia do Minho a Timor, cumprindo, fosse qual fosse o remoto lugar, seu destino glorioso de integração de todas as raças.

Como bem se conhece as conversas são como as cerejas, palavra puxa palavra, uma ideia prende-se a outra ideia de tal forma que a narrativa é um discurso descosido, largando pontas e procurando outras, “anarquia narrativa” que agora nos levaria por outros rumos, mas Maria Adelaide está manifesta contrariada, ansiando o regresso a África e ao enigma de suas origens e a menina Gertrudes, conhecida, no universo militar, urbe et orbe, como faminta “Papa Alferes” protesta, ansiosa por subir ao palco.

Vamos, por isso, ao que interessa...

A "Papa alferes" devia a sua expressiva (e merecida) alcunha a um mero acidente. Residia do outro lado da praça mesmo em frente da porta de armas. Ora digam-me qual donzela casadoira, bem dotada pela natureza, poderia resistir aqueles corpos suados em aplicação militar ou em desfile brioso de ordem unida na parada do quartel? Quem, de sexo feminino que atire a primeira pedra. Ela, menina Gertrudes que, manhãs inteiras, espreitava gulosa por entre as persianas ou como generosa oferta de fruta madura, todo o seu corpo gritava "colhei-me!", assim também ela parecia gritar aos garbosos milicianos, ao fim da tarde, quando brunidos os metais da farda e luzidas as botas de montar, sacudiam as esporas e o cio em predadoras cavalgadas pelas ruas e na casa de chá da pequena cidade.

O quartel, como ficou dito, era uma eficaz "fábrica" de carne para canhão, que no auge da guerra colonial, preparava vagas sucessivas de tropas expedicionárias em África, de tal sorte que, de três em três meses, havia reposição de stocks de milicianos. Quem tirava partido dessa profusão de militares era a "papa alferes". Em cada leva fazia sempre uma ou duas "recrutas"!... Um autêntico debaste nas fileiras!...

O Alferes, que ainda não era, acabadinho de chegar da Escola Prática, com seus imberbes galões doirados atravessados nos ombros, e tenro de casernas, acabou filado (como era de esperar) pela gula proverbial da "papa alferes" e de sua tia, com a qual vivia no segundo andar do pequeno prédio burguês. A causa próxima de tal desastre anunciado, foi o sempre desastrado comportamento do apoucalhado Assobio, que não soube moderar o seu ímpeto de sangue serrano e, na dispensa ao recolher obrigatório, com a camarilha de seus amigos reguilas alfacinhas, já noite comemoravam a carta de alforria e o reconhecimento dos seus iguais pela inscrição na pedra, que dizer, na ardósia escolar, o seu mítico nome de Eusébio.

Regressava então o grupelho ao Quartel, qual bando de pássaros da Gardunha, já noite de Fevereiro caída, quando a menina Gertrudes, por certo inadvertidamente, pois que outros eram seus horizontes, se atravessou no caminho e o grupo, com o sangue na guelra e toldado pelos copos ingeridos, aproveitou a sombra de uma esquina e encostou a menina Gertrudes à parede, numa série de apalpões e sugestiva linguagem gestual, em que sobressaiu o desastrado Assobio, não apoucalhado, mas sem dúvida atrasado na iniciação em corpo de mulher, de tal sorte, que no dia seguinte teríamos no Gabinete do Comandante da Unidade, as duas excelsas senhoras, a tia apresentando a queixa indignada e menina Gertrudes, “corpo de delito”, exibindo uns aranhões em suas roliças coxas.

Foi então o Alferes chamado, já que os recrutas em causa estavam sob seu directo comando e o Comandante, após a perfilada continência, ordenou, numa indignação exagerada, “esta é uma situação intolerável, homens sob meu comando não molestam senhoras, quero esse bando de arruaceiros com um castigo exemplar! E, fazendo uma eufórica pausa no inflamado discurso: “Nosso Alferes, é a Justiça Militar que o exige, mão rija – desenrasque-se!...

E o Alferes desenrascou-se, como em seguida se dá esclarecida nota. O “Auto de notícia” ordenado requeria frequentes audições das ofendidas, pelo que a presença da menina Gertrudes e sua santa tia eram frequentes e como se sabe o “fogo ao pé da estopa vem o Diabo e assopra”, como noutro tempo e espaço narrativo, outro “apoucalhado” anunciou, de tal forma que a pertinaz indignação da menina e sua tia iam esmorecendo na proporção das vezes que eram chamadas a depor.

Entretanto, o Carnaval estava a próximo. A menina Gertrudes com autorização de sua tia, organizou um “assalto” em casa para onde convidou as suas amigas mais próximas e alguns amigos, no rol dos quais incluiu o Alferes, a nova coqueluche do seu círculo do salão de chá do hotel Turismo.

Encurtando razões o namoro surgiu naturalmente, com a menina Gertrudes e sua tia a esquecerem a ofensa e o fogo pegar na estopa, como se irá ver. A tal ponto a coisa era badalada, que uma tarde, à hora do brigde e do conhaque, o Comandante da Unidade, visivelmente satisfeito com a resolução do caso, soltou uma “boca” digna de militar com largos anos de serviço, por entre a gargalhada geral da messe repleta: - "Veja lá, nosso Alferes, se me aparece aqui no quartel com algum bocado a menos!"...

Farei o possível por defender honra do regimento, meu comandante!" - resposta pronta do novel oficial, num marialvismo de caserna, adequado às circunstâncias.

O namoro seguia pois seu curso. A "papa alferes" era pródiga de carnes e afectos e a tia óptima cozinheira. Porém, os assaltos do rapaz à praça-forte eram insistentemente repelidos... Que não! Que era uma rapariga séria e os militares uns malandros! Que só se prometesse que casariam, antes de embarcar para Africa!

Que pode um militar fazer, quando a fortaleza almejada se esquiva ao brioso lidador? Prometeu! Prometeu que sim que casariam!... E mais não prometeu, por que mais não foi necessário: a vitória consumou-se quando uma tarde, estando de “Oficial de Dia”, recebeu do aprumado ordenança, um bilhetinho perfumado: -" vem, tia teve que se ausentar para Lisboa!"...

Foi. O Alferes trocou de serviço com valente Valentim, camarada e amigo de todas as horas e... foi. Em boa hora!... Foi uma noite gloriosa, entoada nas mais bem orquestradas melodias de amor. Nunca o rapaz sentira, como dessa vez, os cambiantes maravilhosos do corpo de uma mulher inspirada e... experiente!

Porém, o que é bom acaba depressa, lá diz o ditado. Uma noite, já com a tia de regresso, o rapaz foi chamado de urgência! - "Seu pulha!" - Gritou a velha, mal o Alferes assomou à porta. "Ponha-se fora desta casa!”..."O que se passa?”- balbuciava, atónito, o Alferes. ”Rua, rua”-  gritava a velha!

“Seja, pois, a rua!" - diz, filosófico, o rapaz  para os seu botões. E foi, rumo ao quartel, meditando na precaridade das coisas boas da vida.

Que se passara? Em breve saberemos