quinta-feira, fevereiro 25, 2016

ABSURDO ABISMO! ...


Depois da implosão das palavras: absurdo abismo!
Eco evanescente ou deserto que se extingue
Porém vivo. Estertor de água e fogo.
Miragem de cinza atordoada
Registo ainda.

Euforia e mágoas. E abandono. Qual cabana
Destroçada. E o fogo aceso. Ou veredas percorridas
A que se perdeu tino.

São as palavras pedras vivas: ainda que mortas!
Que sob o frio da pedra as palavras se agitam
Flor que se nega e fenece – flor ainda.
Flor em rebeldia...

Carrascos das palavras nelas nos jogamos.
E nos salvamos. E por elas, tantas vezes
Nos perdermos...

Guardo de todas as palavras, as palavras-outras.
Aquelas que lacradas são sacrário. E velas a arder
Em coração devoto.

Ou lume branco. A derramar-se
Como incêndio.

Manuel Veiga



Chopin, Nocturnos. Maria João Pires, piano

CAMÕES LÍRICO - Sete Anos de Pastor...




Sete annos de pastor Jacob servia
Labão, pae de Raquel, serrana bella:
Mas não servia ao pae, servia a ella,
Que a ella só por premio pertendia.

Os dias na esperança de hum só dia
Passava, contentando-se com vella:
Porém o pae, usando de cautella,
Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.

Vendo o triste Pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua Pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começou a servir outros sete annos,
Dizendo: Mais servíra, senão fôra
Para tão longo amor tão curta a vida



Camões na prisão de Goa
.


terça-feira, fevereiro 23, 2016

José Afonso - "Menina dos Olhos Tristes"

PERCORRO OS SINAIS...


Percorro os sinais letra a letra e recolho
O reverso do poema em danação das horas
Qual Fausto a arder
E as esferas imperturbáveis
E frias me acolhessem.
Órfão em meu pacto.
E meu palco.

E as portas, sem saída, nem entrada, esbarram-se
Em patético delírio de luz fria
Em mim trancada...

Percorro os sinais como corsário sem barco
Que de ilha em ilha se reveste de bruma
E dardeja raios e gritos
Porém perdidos.

Oceânicos abismos e espectros a dançar
Como se poeta fosse náufrago.
Ou do Destino,
Gargalhada.  


segunda-feira, fevereiro 22, 2016

"LADRÕES DE BICICLETAS" - Serralves



"Pensava que os exércitos de operárias e operários pobres e explorados que contribuíram para a acumulação primitiva do capital industrial têxtil que pagou a folia e o requinte de Serralves estavam finalmente justiçados com a abertura do jardim e do museu à res publica. Engano. O Estado e os tios e tias dos fundadores da fundação mais as suas empresas e piedosas obras de mecenato e outras manobras de distinção e tudo que lhes dá um verniz de arte contemporânea e de empenhamento social decidiram apoiar esta decisão inteligente e oportuna num tempo em que a entrada grátis ao domingo de manhã era mais que justificável (...)

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sábado, fevereiro 20, 2016

FRAGMENTOS XI - Nos Braços da "Papa-Alferes"...


Para que serve um soldado se ele se nega, visceralmente, a dar um tiro? Essa a preocupação dominante, porém, momentânea, do Comando da Companhia de Cavalaria, perante o agudo conflito do “Assobio” com as armas de fogo. Havia, assim, que encontrar solução rápida e prestável, antes que o Comandante de Companhia desse o dito por não dito e o “Assobio”, qual encomenda mal enjorcada e sem préstimo, fosse devolvido à procedência, isto é, ao cumes da serra Gardunha, onde a mão longa do Exército e as necessidades da guerra o foram desencantar.

Ora bem se sabe que o Exército, qual fábrica de enchidos, não desperdiça matéria-prima e assim o conflito íntimo do “Assobio” com as armas, se é certo que o libertou do terror da carreira de tiro, não deixou por isso de o atirar às chamas e aí temos então o “apoucalhado” recruta sem as agruras da carreira de tiro, mas, porém, lançado às labaredas da cozinha para onde eram atirados os básicos, dos mais básicos, recrutas.

E foi a partir da cozinha que o “Assobio” iniciou a sua imparável progressão militar que o levou, em escassos três meses, das insígnias de “orelhas de burro”, com que fora brindado no pelotão, quando “apoucalhado” e “Assobio” não era, por como tal não ter sido nomeado ainda pela cáfila de alfacinhas de Alcântara, até às flamejantes dragonas vermelhas e alamares doirados sobre casaca branca, distintamente envergada no invejável posto de impedido na messe dos oficiais, a servir à mesa e a aviar whiskys aos oficiais do Batalhão, por entre umas paradas de poker ou uns sofisticados lances de bridge.

Caso não saibam, este percurso militar sem mácula, do soldado “Assobio”, já não recruta, arvorado que fora em dragonas e alamares, está indelevelmente ligado ao funesto percalço que atirou o Alferes, que em breve iria sê-lo em luzidia cerimónia militar, a dois dias de embarcar para guerra nas “bolanhas” da Guiné, para os braços da menina Gertrudes, conhecida, no universo militar, urbe et orbe (excepto o Alferes) como faminta “Papa Alferes” e a não menos célebre senhora Dona Miquelina, sua extremosa tia, que velava, com zelo apostólico, pela virgindade e respeitabilidade da menina.

Ora, esguardai.

O valente Valentim, também, ele também Alferes da Companhia Cavalaria, unha com carne, como bem se sabe, com o Alferes, herói, se herói houvesse, destas prosas fragmentadas, era filho de professores primários, razão em que porventura se funda a sua determinação em conseguir implantar no Quartel uma “escola regimental”, que funcionando fora das horas regulamentares de instrução militar, pudesse ensinar a “ler, escrever e contar” os recrutas analfabetos, com apoio e a dedicação, naturalmente, dos oficiais, sargentos e praças que estivessem dispostos a embarcar nessa aventura.

O Coronel “cuequinhas”, que mais tarde assim haveria ser nomeado, com uma  já medalhada carreira militar, traçada nas chancelarias diplomáticas e nos corredores do poder político, topou o furo e, na inédita iniciativa do valente Valentim e nos relatórios que, a propósito, expeditamente haveria de fazer chegar aos gabinetes do Estado-Maior, vislumbrou razão bastante para brunir, ainda com mais brilho, os seus doirados galões e, por isso, nem por um momento hesitou em conceder a necessária autorização e o indispensável apoio do Comando da Unidade Militar, sob sua égide.

E, nesta auspiciosa e notável confluência de linhas do Destino, traçadas, sabe-se lá em que acaso, ou que por dedo invisível ou em que espaço sideral, o “apoucalhado” serrano, já não apoucalhado, mas antes soldado “Assobio”, viu-se alcandorado, dos picos da Serra da Gardunha, às supremas luzes de uma incipiente escola regimental, enfileirando, com dezenas de outros recrutas, no magno desígnio de aprender a “ler, escrever e contar”, que a tanto bastava, como bem se sabia, por determinação doutrinária do regime fascista vigente e seu acrisolado fervor pela instrução dos portugueses.

Em abono da verdade deve dizer-se, que para surpresa geral, o “Assobio” seria um dos alunos mais empenhados nos estudos e um ás na aprendizagem das letras, tendo, num ápice, percebido a reversão fonética das letras em sílabas e destas em palavras, cuja sonoridade e processo de articulação - imagina-se! – seria certamente cântico ou assobio de pássaro no seu cérebro, qual floresta ainda virgem e inexplorada, pronta a despontar.  E, senhor da chave ou a gazua, assim rapidamente intuída, que permite destapar a estrutura dinâmica das frases e do texto e o processo de apreensão do sentido, eis o recruta “Assobio” a desatar a ler como um danado, largando, definitivamente, as escórias e o labéu de “apoucalhado”.

E também nas contas o “Assobio” foi rápido, que o treino dos dias e noites nos cumes da Gardunha, a contar ovelhas e cabras e o tempo, no registo do “deve e do haver” das horas circulares, que eram sua vida, lhe permitiu compreender, de cor e salteado, ainda que por marcas e sinais ou pelos dedos fosse, a “gramática” dos números e a utilidade da adição e da subtracção.

Problema maior, porém, foi o desenho das letras e o domínio da escrita, a que seus dedos trôpegos se negavam, quais braços e pernas se haviam negado à ginástica, ou aos exercícios de “ordem unida”, ou à exigente precisão e rigor nas movimentações da arma, cerimónias militares.

Mas se o “Assobio”, por obra e graça do recruta “Bonanza” e de seu séquito de reguilas alfacinhas, se ultrapassou a si próprio e, depois das tormentas iniciais, dobrou o Cabo da Boa Esperança da sua circunvalação cinética e navegava agora, tão bom como os melhores, nas calmarias da marcha, da parada, da ginástica de “aplicação militar”, ou em quaisquer outras performances militares, também os dedos trôpegos se iriam dobrar às exigências da escrita, com vontade e treino e a solícita colaboração do fechado grupo de reguilas alfacinhas, que o reconheceu a ele, “apoucalhado” recruta, como a um deles e como “Assobio” o nomeou.

E quando, finalmente, na ardósia negra, o recruta “Assobio” a si próprio se nomeou, escrevendo bem legível seu nome, Eusébio da Silva Ferreira, um acontecimento soberbo se elevou sobre a terra, como se um clarão inesperado tivesse iluminado toda a galáxia ou uma estrela supernova tivesse nascido, com assinaláveis efeitos colaterais no espaço-tempo da narrativa: - o “apoucalhado Assobio”, agora partilhando seu nome com outro “apoucalhado”, por essa época chegado de Moçambique e que viria a ser consagrado herói do pontapé na bola, com direito, anos depois, a mausoléu no Panteão Nacional ao lado de Sofia, catapultado das alfurjas da cozinha para as dragonas e alamares no casaco imaculado e os salões da messe de oficiais e o Alferes, que ainda não era, mas em breve iria sê-lo, para os braços da menina Gertrudes, mais conhecida por “Papa-Alferes”.

Como em breve, prolixamente, se saberá...  


quarta-feira, fevereiro 17, 2016

DESIGUAIS ARMAS...


No pórtico do Desejo, no outro lado. Na oceânica 
Convulsão dos deuses. Onde Eros e Thanatos se confrontam
Em negra Servidão - e desiguais armas!

Nesse absoluto magma onde Luz e Sombra
Se fundem. E se confundem. E todos os detritos
(diurnos e nocturnos) são combustão e miasmas.
E onde sem razão ou capricho oníricas formas
Se buscam.

E se desenham sinais e se atam os fios do Todo
Inominado ainda. E o Tempo é suspiro -
Notas de um ruído surdo de Solidão e Vácuo.

Nesse lugar infecto em que todas as finitudes são
Luminescências do Acaso. Vida e Morte que se anunciam.
E o Desejo que se franqueia a este lado.
Tempo matricial, embora. E o absurdo que se nomeia
Como Mito. E a Palavra que se anuncia.
Interdita. Ainda.

Erguemos então as colunas. Nesse lugar.
E as aras. E as vestes. E a redenção da Palavra.
E erguemo-nos do Nada. E mergulhamos na Tragédia.
E na euforia. E no Prazer frustre.
E decaímos.

E nos celebramos. Divinos.
Fogo e Água. Senhores do Nada. Negreiros.
Receptáculo dos deuses. Por onde assoma
O Suor. E a eterna Lágrima.

Manuel Veiga


domingo, fevereiro 14, 2016

sábado, fevereiro 13, 2016

"Ajoelha e Serás Crente..."


“Ajoelha e serás crente!...”
 – Escreveu Pascal um dia
Em seu fervor jansenista...

Assim o poeta
Invocando a graça
A arder na sílaba
Letra a letra...

E na fonte de água pura
Onde a sarça se incendeia
E os lábios
Peregrinos
São sede e beijo
O poeta recolhe o nome
E grita
E se imola
Na ara interdita
Do Desejo.

Espada e gume
Rasante em sua dor
E teima...


Manuel Veiga

terça-feira, fevereiro 09, 2016

FRAGMENTOS XIII - Um Diálogo Com Maria Adelaide...


Que patético, meu amigo!... Porventura te darás conta, Manuel, que a tua escrita, com a tua tendência em extremar sentimentos, mais que estimular, pode simplesmente provocar tédio! Nessa dicotomia de pensamento em que, por formação e devoção, estás instalado, limitaste a ver a vida conforme o padrão de luz e sombra, como se a vida vivida, assentassem sempre na tensão, que te comprazes em designar como “tensão dialéctica”, sem te dares conta dos matizes em que a vida se resolve e da relatividade de cada uma das nossas emoções e sentimentos, ou mesmo dos factos e acontecimentos que, em sua permanência, tendemos a considerar como absolutos.

Eu sei, eu sei... Tens dificuldade em aceitar a “décalage”! Os valores “absolutos”, as verdades tidas como “indiscutíveis” colapsaram e tu, meu querido Manuel, ainda não sei bem se por “cegueira”, se por acirrada teimosia de “moicano”, que não aceita o desmoronar do mundo à sua volta, projectas agora na literatura a expressão da vida que te fintou.

Mas, (admitindo que alguém, além de mim, irá ler-te) que ganhas com isso? Nada podes meu amigo contra a rasoira compressora que estabelece os caminhos por onde caminhamos!

Eu explico-me melhor e devolvo-te a pergunta, tão acintosamente formulada, que não fora eu conhecer bem o teu gosto pela “provocação”, me ofenderia seriamente, ao questionares a crueldade da “nódoa negra” no meu rosto, nódoa essa, bem real e bem concreta, e o sofrimento que meu divórcio me trouxe, face a brutalidade (meramente ficção literária, só pode) da guerra colonial em que te remóis, escrevendo.

E, então, a pergunta é esta: Que dizer da tua perplexidade indignada e da genuína dor do teu inseparável “Bonanza”, face à fatalidade da morte a sangue frio de uma criança de meses, em teatro de guerra, quando hoje estamos empanturrados de morte, aqui às portas da tua amável e civilizada Europa e quando o brilho das suas capitais se enegrece nas pulsões do medo e na abjuração dos princípios de liberdade e democracia, que lhe moldaram o rosto? Que dizer das dezenas, se não centenas de crianças, que flutuam mortas nas águas do Mediterrâneo, ali à nossa porta, algumas tão tenras como a tua criança, na savana de África, com o crânio esfacelado por de um “tiro de misericórdia”.

Quem se interessa por um “episódio de guerra” quando em tempo de paz, a violência espirra sangue e dor, na pantalha das televisões, num Espectáculo alucinado, que nos aprisiona. E que vamos, de uma maneira ou outra, aguentando sem fazer tragédias e vivendo a vida, nos seus cambiantes, afastando a monotonia do “preto e branco” em que tanto te comprazes

Se desejas tanto escrever, motivos não faltam, aqui e agora. Porque desenterrar traumas antigos e fissuras que ainda hoje atravessam a sociedade portuguesa. “O que passou é passado”, proclamavas, tempos atrás, tentado arrastar-me das minhas recaídas!

Por isso estranho, estranho-te... 

Muito bem, Maria Adelaide. Há muito tempo que assim não vinhas, grave e solícita, bafejando-me com a lucidez da tuas opiniões e fazendo vacilar minhas certezas, elas próprias tão frágeis e aptas a voarem ao primeiro confronto com a realidade. Fizeste uma bem-sucedida prova de vida!

Mas atenção, Maria Adelaide, o único critério de verdade é a nossa “autenticidade”, a tua e a minha, e o nosso corpo a corpo com a vida e não os clichés que, no mercado das opiniões, fazem passar gato por lebre. Que é isso de “décalage”, de “valores absolutas”, “verdades indiscutíveis”, “teimosia de moicano” (onde raio já ouvi isto?), ou “monotonia a preto e branco” e outros brilhantes epítetos com que me mimoseias, numa implícita crítica às minha inabaláveis convicções políticas? Isso é que eu estranho...

Não quero ofender-te, nem levemente que seja, mas não resisto à provocaçãozita, porventura de mau gosto, que me dança nos lábios: quer parecer-me que o Pedro, teu actual marido, que segundo dizes “navega nas minhas águas”, anda um pouco distraído na tua “educação sentimental”. Será que ainda faz milagres? Não precisas de responder. Eu saberei um dia destes...

Não quero, entretanto, passar em claro sobre as incómodas questões com que me confrontas e na aproximação que lucidamente fazes, ao devir da nossa actualidade e à violência que nos submerge.

Estamos, de facto, empanturrados de morte. E empanturrados de miséria e de fome. E também de consumo. E empanturrados de “efémero”. E da volatilidade dos acontecimentos que a si próprios se devoram, sem tempo para deles nos apossarmos, fugidios e “neutros” que são. E empanturrados também “da contemplação passiva das imagens” que substituem o “vivido” e o “poder de autodeterminação dos próprios indivíduos”, como alguns autores (heréticos) não se cansam de nos alertar...

Ora, minha querida amiga, ambos sabemos que, até em meus exageros e excessos, eu sou um tipo frugal e que os “empanturramentos” de todo o tipo me causam azia. Talvez, sim, talvez a minha fuga para o passado, que tanto te incomoda ou escandaliza, tenha por fundamento esse “trauma” ao empanturramento, quer dizer, talvez eu procure uma nesga, um estreito lugar, uma ligeira brisa no rosto, que nos salve desta lassidão que, como vírus, nos corrompem e mata, julgando nós “viver”. 

E, então, que a indignação seja algo mais que suspiro do sofá e a revolta seja propósito de acção colectiva.

Mas quem, face à violência em massa dos dias de hoje, se ergue, qual “Bonanza”, não digo para esganar, mas, ao menos, para interpelar o capitão?

A narrativa está a ficar coisa séria e seguir caminhos inesperados Teremos que aliviar o tom, Maria Adelaide senão ainda corremos o risco de ficarmos a falar sozinhos, não?

Entretanto, a anunciada “Papa Alferes” bate o pé de impaciência. Façamos-lhe a vontade e que suba ao palco. Porventura, nestes tempos de cenas espectaculares e comunicação “on line”, a ilustre menina seja uma metáfora antecipada dos dias de hoje.


sábado, fevereiro 06, 2016

SINAIS DE FOGO...


No dorso das coisas imperecíveis um frémito
Uma ligeira agitação como se invisíveis dedos
Profanassem sua quieta permanência...

Uma subtil ruptura tímida que oscila
Sem ser fenda nem passo. Ainda.
Apenas dança
A abrir-se
Em promessa
Contida.

E o palco. Aberto. Esquivo
Nesta espera.

Sinais de fogo
Em luta corpo a corpo
Entre a fria noite
E o claro dia...

Manuel Veiga






quinta-feira, fevereiro 04, 2016

VAGA PAISAGEM MUDA...


Desce o nevoeiro na paisagem
E o rio é manto de olhos encobertos...

(Dolente a música do cello
E meus passos...)

Tombam imaginárias folhas
Sobre o chão alcatifado. E as janelas
São órbitas entreabertas. No entanto baças.
Ou destino vago das horas...

E as árvores agora são súplicas isoladas
São ausências ou linhas precárias.
Perfis esvoaçantes apenas 
A teimarem lá fora...

Nem gritos, nem memórias.
Espera pura. Folhas no íntimo do caule.
E dos dias...

E minha inquieta presença catando o poema.
E “o piolho da existência”.

Qual quadro sem moldura!...

Manuel Veiga


quarta-feira, fevereiro 03, 2016

FRAGMENTOS XVII - Que sabes tu de um abraço?


Não, não, o Tempo não existe, devorado que é pela Memória, enorme sanguessuga ou esponja que tudo absorve, por vezes, buraco negro ou fornalha de luz branca, combustão de todos os detritos, magna corrosivo apenas, e que, em suas escorrências, lampejam, de vez em quando, momentos, luminescências soltas ou ondas que se esbatem e que, na aridez do quotidiano, a elas nos agarramos como salvados da catástrofe em que teimamos, impelidos pelo sopro do acaso e acarinhando o piedoso desejo do “que é nosso a nossos braços vem ter – até a morte”. E, por vezes, sem se saber como, inesperadamente, quando a condição surge, dessa cratera vazia, dessa grafia invisível, dessa corrente subterrânea solta-se, como fogo fátuo ardente a iluminar o gesto ou gesta, solta-se – dizia - toda a significância que se condensa nesse pequeno nada, discurso congelado que explode em sentido, ou janela de claridade a revelar toda a extensão das encruzilhadas em que decaímos.

Cuspiam fogo os “lança-chamas” como se fossem dragões apocalípticos, cloacas a expelir enxofre ardente, ou chumbo ou infernal mistela que arde e queima e derrete terra, feras, animais e gente e pedras ou árvores, corpos fumegantes, gritos, choros, pragas, ranger de dentes de carrascos e vítimas, misturados na mesma euforia de dor e abismo, armados até aos dentes os carrascos e as vítimas, velhos, mulheres e crianças ficando para trás, fugindo alquebrados, presa fácil do fogo exterminador, que auto se proclamava de fogo justiceiro, os homens de rosto enegrecido pela tinta e pelo fumo e pelo horror desencadeado, tremendo por dentro e por fora uns e outros, sem outro tempo, nem modo, nem objecto que não fora aquele fantástico vendaval de destruição massiva a disparar, a incendiar, a arrasar, a vandalizar, pois que “tudo que mexer é para morrer”, assim a palavra de ordem, repetida, vezes sem conta, durante os dias de mentalização para combate.

O fogo, no entanto, era apenas um sopro. Depois dos aviões e do napalm e as chamas enegrecidas das palhotas, elevando-se aos céus em cornucópias feéricas, festival operático, com Wagner em fundo, como se ficção fora, em eloquente filme de outras guerras, o horror era agora a Companhia de Cavalaria, em linha de centenas de metros, com seus três grupos de combate estendidos pela savana, fuzilando manadas de vacas, incendiando a extensão dos milheirais, mancarra, arroz, frutos ou mel, tudo o que, do trabalho do homem e da generosa terra, ubérrima, ou miserável semente caída no fraguedo e no suor do rosto dos homens, que daquela fome hão-de comer, era passado pela ceifeira da morte, fosse ela nomeada lança-chamas, espingarda G3, faca de mato ou a hábil catana em mãos das milícias indígenas, também elas instrumentalizadas nessa bebedeira de destruição, pois que “tudo que mexe é para morrer”.

Por três vezes, o “Bonanza”, dedicado protector do apoucalhado “Assobio”, de abraço e afectos soltos, a incomodarem, numa pastelaria em Lisboa, a sensível pituitária social de Maria Adelaide, no acaso de um encontro, num tempo outro, já refeitas as mazelas da guerra, anos de vida depois, mas agora ainda o cabo radiotelegrafista “Bonanza”, alto e ruivo, possante como um toiro, carregando com todos os apetrechos de transmissões com os aviões e com a Companhia de Cavalaria em terra, por três vezes, o leal e competente “Bonanza”, braço não armado, mas extensão viva das comunicações de comando, por tês vezes, o “Bonanza”, perante a orgia de destruição, sacudindo a indignação e calando o desespero, por entre dentes, essa fresta estreita só pelos dois perceptível, deixava escapar a exasperação, “mas há necessidade disto tudo, meu Alferes? esta chacina? não fui feito para matar...”

E o Alferes, tão acorrentado, como ele, “Bonanza”, cabo radiotelegrafista, à impotência e ao desespero, a murmurar para dentro bíblicos salmos, como refúgio ou expiação “Não matarás!”... “Amassarás o pão com o suor de teu rosto!...” Mas quem aqui foi feito para matar?... Pobres camponeses e operários que apenas o pão da vida almejam e o sossego dos dias... E, inflamando o peito de prosápia militar, não se sabendo para quem falava, se para aplacar as angústias do “Bonanza”, se para ele próprio Alferes, comandante do “pelotão de comando” da Companhia de Cavalaria, se enganar: “Não é nada, não é nada! daqui a pouco não é nada... Apenas uma cena de um filme... Amanhã terá passado tudo, pensa noutra coisa...”.

E, por três vezes, o “Bonanza”, em sua verdade, se negou ao seu destino de matador...

... E o menino, nessa noite de Agosto e de luar, fora incêndio! Os sinos a tocar a rebate, o grito asfixiante na noite “ÁGUA!... ÀGUA...” que as Eiras estão a arder!”... e homens e mulheres, velhos e novos, estropiados ou doentes, tudo eles acorrentado à tragédia, a saltar da cama, descalços e seminus, que não há tempo a perder, cântaros, baldes, enxadas, imprecações, correrias desenfreadas, orações, choros, promessas ao Divino Senhor, Santo Cristo, para aplacar a ira de Deus, pois que só por castigo divino o pão de todos os dias poderia ser levado em chamas, num capricho do destino, num acaso, num descuido, com o fogo a reduzir a cinzas o suor dos homens e a esperança de melhores dias... Nesse ano, a fome iria chegar mais cedo...

À distância, duas crianças de mão dada, assistindo, em deslumbramento infantil, à primeira consagração do “belo-horrível” no espectáculo das chamas e aprendendo, bem cedo, a impotência dos homens e a crueldade da Natureza.

Partilhando da ansiedade e da impotência dos militares que comandava, presos que todos eram, oficiais, sargentos e praças, às grilhetas de sua servidão militar e aos horrores da guerra, buscava assim o Alferes lenitivo no esfumar da Memória e em tragédias antigas para a raiva e a tragédia presentes. E, então, inesperadamente, um choro aflitivo de criança, certamente, de escassos meses, tão virginal era o balido e tão desamparado o grito, a sobrepor-se ao latir das armas e ao espavento das chamas, arrastou o Alferes de seu torpor e das arrecuas pela torrente onde mergulhara. Donde o choro? Interroga-se, embargado pela emoção do abismo, memória ardida e evocação dum tempo outro, a esfumar-se como labareda apagada, em que o Alferes era tão-somente, frágil menino, nem sequer esboço ou esquiço, mas indefinida linha nos dedos do tempo.

E antes que soubesse do choro, ou grito, ou balido, ou desamparo de criança negra no fragor da dantesca destruição, no cérebro febril do Alferes ressoa o estampido seco e inconfundível de uma pistola Walter, paralisando o Céu e a Terra e as portas do Inverno e todos os raios e todas as maldições foram engolidos no eco daquele estampido seco e no súbito silêncio do choro. Ali a dois passos, por entre os escombros da destruição, o corpo exangue da jovem mãe, ainda fumegante, o rosto carbonizado e o ventre aberto pelas chamas e o bebé de meses, ao lado, com o crânio esfacelado pelo tiro da pistola e o capitão, hirto e pálido, com os braços estendidos ao longo do corpo e arma ainda fora do coldre, ombros caídos, como o anjo negro da Tragédia e todo o pelotão, todos os homens, um a um, aproximando-se, rodeando a cena, alguns benzendo-se, outros enxugando a mal disfarçada lágrima, outros ainda virando a cara e evitando olhar o macabro espectáculo e o capitão Mascarenhas, perante o rosto incrédulo do  Alferes e a indignação calada e a muda acusação dos homens sob seu comando: “Que queriam vocês, seus merdas!... Que ficasse para aí abandonado, a servir de pasto à fome ou aos dentes de uma hiena? Era apenas um bicho!... Acabou-se! ”

(Ó da Barca! Ó da Barca!... Na hora de verdade, em que Barca o capitão passará o rio? Na Barca do Inferno? Ou qual a Barca?...)

E o “Bonanza” que desejava que “dali o tirassem” e, por três vezes, negara a sua condição de matador, pois que, consabidamente, não fora feito para matar, saltou como um tigre sobre o capitão “eu mato este gajo, esgano-o com minhas mãos!” Num impulso instintivo e com numa energia que não se sabe de onde brotara, interpõe-se o Alferes entre a fúria do cabo radiotelegrafista e a perplexa passividade do Capitão Mascarenhas e, num abraço profundo dali arrasta o ímpeto assassino do soldado que, em colapso, deixa escorrer então as lágrimas e a raiva no ombro do Alferes, os dois ali fundidos, num corpo único, que assim são os homens, feitos do mesmo barro, um explodindo em angústia e dor e o outro serenando as lágrimas e abrindo o peito como, se o soluço calado, fosse bálsamo ou fortuita consagração da vida sobre a morte.

Que dizer de uma nódoa negra no rosto (ainda que belo)? Ou das minudências do processo de teu divórcio? Que sabes tu de um abraço, Maria Adelaide?...