segunda-feira, novembro 30, 2015

FRAGMENTOS XVII - o "Assobio" em Cena!...


O “Assobio”, que chegou com três dias de atraso, como encomenda extraviada, provinha dos picos da serra da Gardunha, sem outra vida, nem oportunidade dela que não fora guardar ovelhas, ao serviço de uns tios de alguns parcos recursos, que o acolheram quando, aos três anos de idade, ficou órfão de pai e mãe, arrebatados ambos pela “Ceifeira”, na mesma funesta hora, quando a mulher, já noite dentro, alumiados pela tremulante luz da candeia, procurou salvar o seu homem, engolido pelos vapores e pelo cangaço das uva, em fermentação de vinho. Ambos lá ficaram, no lagar, abraçados um ao outro, vítimas da mesma hora de má sorte, quando aos corpos cansados por um dia trabalho sol a sol, se exige ainda um “um pouco mais de azul”, perdão, se exige um pouco mais de esforço, antes do sono reparador. A irmã, um tudo nada mais velha, foi recolhida por umas instituição religiosa, feita noviça e freira, a quem se perdeu o rasto...

Pastor de ovelhas, desde criança, nos despovoados montes da serra da Gardunha, o “Assobio”, que ainda não era, passou, portanto, os dias da sua jovem vida, durante largos períodos (semanas? meses? anos?), sem ver vivalma, que não fossem as criaturas de Deus que, “poverello”, estavam a sua guarda e apascentava como destino, que a vida, afinal, é uma escura gruta, onde, episodicamente, pequeníssimas intermitências de luz e sombras habitam nossos olhos, vindos esses pequeníssimos grãos de claridade sabe-se lá donde e onde, em tal gruta, os homens apenas captam a imagem invertida de si mesmos e a sua grandeza se reduz afinal à dimensão das “urgências” que a natureza reclama. De vez em quando, qual “padre padrone” saído de um filme dos irmãos Vitorio e Paolo Tavaniani, o tio, no mesmo acto de avaliar cordeiros e outros ganhos, deixava também o pão negro e o parco conduto, que, por largas temporadas, o jovem pastor teria que administrar com zelo.

Perdido, portanto, nos cumes da Gardunha, nem Regedor, nem Padre cuidaram ter em boa nota o “aviso” de incorporação militar do jovem mancebo, tão naturalmente era aceite, na comunidade, a sua não existência cívica, pois que, enjeitado pela sorte e guardador rebanhos perdido nos montes, como os animais que guardava, era mera res nullius, isto é, coisa nenhuma.

De forma que a instituição militar, na falta do mancebo, tratou de o mandar procurar, se vivo ou morto estaria, para a elaboração dos competentes autos e tramitação subsequente, tarefa que o posto da GNR daquela circuncisão cumpriu com prontidão e, assim, passados três dias e três noites, sobre a expedição da ordem militar, entregue por estafeta, com os respectivos códigos e assinaturas de reconhecimento, uma garbosa patrulha daquela força ordem, fazendo jus à sua divisa “pela Pátria e pela Grei” e que, noutros contemporâneos espaços, se traduzia em zurzir à bastonada uns estudantes barulhentos e contestatários, ou uns quantos recalcitrantes operários que teimavam em comemorar o 1º de Maio e o “Dia do Trabalhador”, eis que a gloriosa GNR, esmerando-se nos seus deveres para com a Pátria, entregou o jovem mancebo manus militari, quer dizer, aos desígnios do recrutamento militar, não sem que antes, porém, tivesse sido desinfectado, no pátio do picadeiro, com exigente banho de agulheta e corte das crinas, como se alazão, ainda não desbravado, se tratasse.

E assim chegou o “Assobio” ao quartel, compelido pelo zelo das instituições, que foi para isso que elas se fizeram, para meter em “ordem unida” a vida em sociedade e a natureza espúria dos homens rebeldes e incivilizados, sejam eles “apoucalhados”, ou génios incompreendidos. E, manifestamente, o Assobio, que em breve iria sê-lo, era garantidamente um “apoucalhado”.

Não falava, grunhia. Apenas duas palavras audíveis, “sim e não”. O restante discurso, embora coerente, exigia esforço desumano de atenção para se poder decifrar, em sua cantilena e cerrado sotaque, palavra de cristão. Os movimentos eram desarticulados, também. A garbosa meia volta, que em Cavalaria, se exige que seja modelo de aprumo militar, com os movimentos cadenciados e lentos, rondando sobre a ponta de um pé e o calcanhar do outro, um, dois, e o bater forte do tacão das botas ao movimento um, era para o Assobio um tormentoso movimento brusco de rotação completa sobre o próprio corpo, a mais da vezes desequilibrando-se e, depois firme e hirto, cheio de brio, perante a admoestação do instrutor e a gargalhada geral da maralha – ah, seu grandaaaaa nabo!...

Nem esquerda, nem direita, pois que os sinais de referência e orientação para o Assobio eram o sol e as estrelas, não as mãos que apenas servem para o uso que delas fazemos ou com elas tecer afagos e carícias, que no caso não subiriam além dos instintivos movimentos com que celebrava o seu próprio corpo num jacto de prazer solitário e, para o efeito, tanto servia a mão esquerda como a direita. De forma que, à voz de comando volver esquerda ou volver direita, o Assobio nunca acertava na mão e, era então certo e sabido, que sairia desenfiado, no seu andar desconjuntado, para um lado e pelotão a marchar para o lado oposto. Enfim, uma paródia de tropa...

“Ora cá temos nós a tirada neo-realista em que te resguardas, meu caro Manuel, como crença literária, quando a narrativa engasga e te debates nas encruzilhadas, prisioneiro na tua própria teia, pois que não deverias ignorar que o leitor não mais pretende que uma boa história, numa escrita linear, com antes e depois, amores desencontrados e um final feliz, pois que se a vida é o que é, cada um, ao menos em fantasia, pretende amenizar a sua. Mas tu teimas, no teu gosto pelo melodrama e em teu jeito de levar as emoções ao limite, em cerzir tempos, memórias e espaços e fundir a narrativa num amálgama desconexo e contraditório de vidas e emoções passadas, marionetas que te propões recuperar, como quem num museu de figuras cera, pretendesse colher a flor viçosa, “creme de la vie”. E depois essa tua petulância, desculpa o desagradável adjectivo, de te negares como autor e negares as tuas próprias personagens mais não é que uma manifestação tardia dos arquétipos culturais que te moldaram a mente e de que ficaste prisioneiro. Mas a vida e a literatura mudaram, meu caro! Que diabo, estamos na segunda década do seculo xxi! Será que não dás conta? Será que nada tens a dizer dos dias de hoje? Será que te intimidam, assim, tanto? E já agora que soltei o verbo, “intimo-te” a dizer que teima essa em “inventar” palavras? “Apoucalhado”? Em que dicionário foste descobrir? Ser “apoucado” não basta?

“Touché, minha amiga! Compreendo muito bem, Maria Adelaide, esta “feroz” estocada. De que não me queixo, pois bem sei que a veemência é proporcional ao grau da tua frustração. E, como se não bastasse eu deixar-te um pouco fora de cena, pois, realmente, apenas foram verdadeiramente nossas escassas páginas, esquecidas lá atrás, sentes-te abandonada na narrativa, tu que foste talhada para ocupar o centro. Receio porém não ser apenas isto a causa do teu mau humor, pois sabes de ciência certa, que voltarei a ti sempre e que ocuparás o espaço que ocupas, plenamente, pois a ti pertence a glória desta narrativa em que me “engasgo” – como sugestivamente proclamas – pois não fora tua a “estória”, nem fora o acaso de nosso encontro e, sobretudo, os casos de nossos desencontros, a narrativa, neo-realista ou “post moderna”, seja o que for, não existiria. Mas pressinto que a verdade é outra. Dona Rosalinda e a sua “estória” intrigam-te, não é? Não por qualquer ciumeira sem sentido, que sempre muito bem soubeste superar, mas estiveste – pressinto – a remoer memórias e os objectos feitiche que povoam como mistério por desvendar algumas zonas mais guardadas da tua vida? Estiveste a revolver, não é verdade? a caixa onde entre bagatelas, misturadas com a condecoração com que Salazar distingui teu pai com o vistoso título de comendador, foste também descobrir, em final da tua adolescência a “famosa” fotografia no Maxime, onde reconheces o senhor teu pai, com uma bailarina, emplumada e semi-nua sentada nos joelhos? Quem será essa mulher? E tens um negro pressentimento que a vida de Dona Rosalinda se possa replicar noutras vidas...

Aí voltaremos, Maria Adelaide, à  tua materna orfandade e à dor que dói e aos passos, que não sendo nossos, os nossos determinam. E voltaremos à Tabanca e à Dona Rosalinda, pois se algum lugar existe, esse é lugar mítico, em que a narrativa se justifica.

Mas por enquanto, não. Deixemos ainda brilhar o Alferes, que ainda não era, e se aclare o “mistério” da alcunha do “Assobio” . 


quinta-feira, novembro 26, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXXV


Para se salvar, Babilónia muda de rumo. Os babilónicos, exauridos, decidiram empurrar o barco e afastar os que sempre quiseram secar o rio...

Democraticamente defenestraram Hammurabi, “o legislador” e as suas “inevitabilidades” e concederam o poder a um novo Príncipe – Sir Tony, “o dos Sete Costados”...

E, com renovada alegria, anseiam voltar a amassar o barro...

Hannibal, o “coiso raivoso”, geme rancores e debate-se, como amiba, em estertor catatónico...
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E um velho intelectual, algo empolgado, evocando sabedoria antiga: “as dívidas devem ser diminuídas, a arrogância das autoridades moderada, os pagamentos ao estrangeiro reduzidos para a nação não ir à falência; e as pessoas devem, novamente, aprender a trabalhar, em vez de viverem por conta pública...” (Cícero)


terça-feira, novembro 24, 2015

segunda-feira, novembro 23, 2015

Discurso do (pequeno) filho da puta - Alfredo Pimenta



 "O pequeno filho da puta
 é sempre
 um pequeno filho da puta;
 mas não há filho da puta,
 por pequeno que seja,
 que não tenha
 a sua própria
 grandeza,
 diz o pequeno filho da puta.

 No entanto, há
 filhos-da-puta que nascem
 grandes e filhos da puta
 que nascem pequenos,
 diz o pequeno filho da puta.
(...)
 O pequeno
 filho da puta
 tem uma pequena
 visão das coisas
 e mostra em
 tudo quanto faz
 e diz
 que é mesmo
 o pequeno
 filho da puta.
(...)
 No entanto,
 o pequeno filho da puta
 tem orgulho
 em ser
 o pequeno filho da puta.
(...)
 Todos os grandes
 filhos da puta
 são reproduções em
 ponto grande
 do pequeno
 filho da puta,
 diz o pequeno filho da puta.

 Dentro do
 pequeno filho da puta
 estão em ideia
 todos os grandes filhos da puta,
 diz o
 pequeno filho da puta.

 Tudo o que é mau
 para o pequeno
 é mau
 para o grande filho da puta,
 diz o pequeno filho da puta.

 O pequeno filho da puta
 foi concebido
 pelo pequeno senhor
 à sua imagem
 e semelhança,
 diz o pequeno filho da puta.

 É o pequeno filho da puta
 que dá ao grande
 tudo aquilo de que
 ele precisa
 para ser o grande filho da puta,
 diz o
 pequeno filho da puta.

 De resto,
 o pequeno filho da puta vê
 com bons olhos
 o engrandecimento
 do grande filho da puta:
 o pequeno filho da puta
 o pequeno senhor
 Sujeito Serviçal
 Simples Sobejo
 ou seja,
 o pequeno filho da puta".

Alfredo Pimenta


sábado, novembro 21, 2015

O ROSTO DOS DIAS LACRADOS...


Desato o rosto dos dias lacrados
E amanuense de horas ardidas, recolho uma a uma,
As folhas secas. E as pétalas.

E, náufrago, esbracejo.
E comovido rio de margens soltas
Reaprendo que nada é definitivo
Apenas a corrente que nos leva sem destino.

Certo, certo apenas o amor (tardio que seja)
Que ódios são apenas carência de afectos
E emocional peste.

Talvez um dia, numa Primavera qualquer
A sagração do nome seja inscrição da palavra
E o fogo, alimento dos homens.

E os desertos sejam oceanos a percorrer
As veredas do Mundo. Fecundos.

E meus olhos jardim em que me guardo.

Manuel Veiga



quarta-feira, novembro 18, 2015

FRAGMENTOS XVI - O pré-anúncio do "Assobio"...


“O Assobio” foi o último militar a integrar o pelotão de recrutas. Chegou com três dias de atraso, como uma encomenda extraviada.

Naquele tempo o País era pobre e pobre continua. Mas naquele tempo, no auge da guerra colonial, o País, além de pobre, era lúgubre e o Exército abocanhava a juventude, que resistia à emigração ou ao exílio político e, após uns escassos meses de treino acelerado, despachava-os para a guerra, donde muitos regressavam num caixão de chumbo, ou por lá ficavam, em cemitérios de ocasião, fazendo de pasto a hienas e a outros bichos e animais necrófilos.

O Alferes não era ainda. Era apenas Aspirante, exibindo os seus gloriosos galões doirados de Oficial Miliciano, então em diagonal, sobre os ombros, em simbólica demonstração de que, em meio ano de exercícios físicos e umas noções teóricas sobre “guerra subversiva”, de mistura com umas aulas de equitação e uns conhecimentos vagos sobre o funcionamento das “Panhards” e outros “Carros de Combate”, a Escola Prática de Cavalaria era produtiva fábrica de oficiais milicianos e o nosso Alferes, então ainda Aspirante, estava apto a comandar tropas.

Foi pois o então Aspirante, antes de ganhar os almejados galões de Alferes e a decorrente mobilização para a guerra, chamado a dar provas da sua aptidão como Oficial do Exército e, para tal colocado em um dos dois quartéis da bela cidade de Castelo Branco, um dos locais onde se dava a recruta aos mancebos incorporados no Exército, uma espécie de linha de montagem de enchidos, onde, numa ponta, entravam jovens camponeses e operários e, do outro lado, saía carne para canhão, destinada a uma qualquer das três frentes de guerra.

Pese embora a circunstância de Castelo Branco se localizar no interior do País, a fornada que calhou ao nosso novel Aspirante a oficial, provinha da região de Lisboa, fundamentalmente, dos populares bairros de Alcântara e do Alto de Santo Amaro, bem como das zonas industriais limítrofes, desde os arredores de Sintra até Vila Franca, pelo que o pelotão instrução que coube ao nosso “não ainda Alferes”, mas apenas Aspirante, era constituído, sobretudo, por jovens que sabiam ler, escrever e contar, que a tanto se bastava a Escola e a consigna salazarista, alguns dos quais expressavam sinais de consciência social e política, e que, portanto, como o jovem oficial, iam para a guerra com a mesma vontade quanto a rês vai para o açougue, isto é, presos pela arreata, como em tempo outro, já não de guerra mas de festiva Liberdade, o “já não Oficial”, mas o Aprendiz de Advogado pode comprovar, no prazer dos reencontros em manifestações políticas e outras formas de participação cívica, quando, inesperadamente, do meio da multidão saía o chamamento e o esfusiante abraço: “O meu Alferes nunca me enganou! Sabia que um dia haveríamos de nos encontrar numa ocasião como esta!...”, depois pretexto para uma cerveja e o avaliar do estado da Revolução, ou lembrar alguns episódios da tropa, numa camaradagem sem fronteiras e hierarquias. Que maior glória militar ou mais distinta condecoração, digam-me?

Mas por enquanto, não. Era tempo ainda de os homens se medirem, presos aos remos do mesmo barco. Não foram fáceis, por isso, para o novel oficial os primeiros dias de instrução dos recrutas. Com mais ou menos zelo, a maioria do pelotão seguia a voz de comando e suas ordens e instruções; mas havia um grupinho de meia dúzia de mancebos, que numa sornice ostensiva, por vezes, a rasar a insolência, fazia gala em executar os exercícios, no tempo e no modo que bem entendessem, como quem diz “se queres comandar-nos, tens que merecê-lo!”

Claro que ao alcance do jovem Aspirante sempre estariam presentes meios militares para obrigar os recalcitrantes a entrarem na linha: um serviço suplementar de faxina às cozinhas, uma carecada, ou uns fins-de-semana cortados, retidos no Quartel, sem poderem pavonear-se pela cidade ou os mais sortudos, como meios para tal, poderem ir visitar a namorada e a família ou, em caso extremo, a participação formal ao comandante de Companhia seriam suficientes para os chamar à razão. Mas tais opções disciplinares nunca foram consideradas. Aquilo ali era mais sério que a mera disciplinar militar – mexia com o brio do novel Aspirante! Digamos, “Aquilo era desafio solitário: de homem para melro!...”, em espaço e tempo outros, que não de cálidas memórias da infância.

Começou, por isso, jovem Aspirante pelo óbvio. E pelo que lhe pareceu justo, pois que, aprendera por consagradas “Sebentas” em segunda mão, em esforçadas noites, na vetusta Lusa Atenas, que “Justicia est constans, ac perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi”, ou seja, mal comparado, que “a Justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu”.

Ora, nada mais justo, então, que fossem os prevaricadores, e não outros, a arcar com as consequências dos seus actos, pelo que, assim empolgado pelos altos desígnios da Justiça retributiva, mandou o Aspirante, ainda não Alferes, que o grupinho de reguilas “pagasse” com o corpo, as suas tropelias e fizessem os exercícios militares, com o restante bem comportado pelotão a observar em descanso, de forma a que os mancebos do grupelho à parte repetissem os exercícios, em frente dos camaradas, tantas as vezes quantas as necessárias até, finalmente, serem executados em rigorosa perfeição.

A estratégia, porém, saiu furada. Na realidade, para o grupinho seria de todo insustentável ver os camaradas do pelotão a laurearem-se com o prémio do merecido descanso e apenas eles, os recalcitrantes mancebos, a darem o corpo ao manifesto, pois que, pudesse embora tal situação constituir, na óptica dos consagrados canhenhos universitários, a mais lídima consagração da Justiça retributiva, a verdade é que a realização de tal Justiça não lhes agradava, pois não servia os seus objectivos, a saber, a conquista de prestígio e do ascendente sobre os restantes camaradas de pelotão, em prejuízo naturalmente da autoridade do novel oficial e a consequente subversão da ordem estabelecida.

De sorte que, o grupinho dissidente, logo à primeira tentativa, por mais difícil que fosse exercício, de ordem unida ou de ginástica de aplicação militar, logo, à primeira vez, era executado na perfeição, como se nunca aqueles malandros tivessem feito outra coisa na vida.

Porém, integrados no pelotão, nicles!... A sornice e a insolência do grupinho regressavam, como onda a bater no mexilhão, sendo que o mexilhão seria o novel oficial, seus brios militares e suas angústias jurídico-metafísicas... E, está bem de ver, no rosto dos recrutas, até então obedientes e sensatos mancebos, alargavam-se o sorriso e os evidentes sinais simpatia pelos rebeldes, com os inevitáveis danos no exercício dos poderes de mando e de comando do jovem Aspirante.

“Que fazer?” - Interrogava-se, pois, o Aspirante nesse lance decisivo. E depois de uma noite de consulta ao travesseiro e uma troca de ideias com seu amigo Valentim, a passar por momentos idênticos com o seu pelotão, decidiu então que os fins justificam os meios, em antevisão de futuras leituras de livros heréticos, sobre o poder e a sua natureza, em que a superior realização dos princípios da Justiça decai na “humana, demasiado humana” realização dos interesses próprios de quem o poder detém, bem como os seus mecanismos de efectivação.

Pagariam, portanto, com o seu corpo todos os mancebos e não apenas os prevaricadores! Enquanto um qualquer mancebo não satisfizesse as exigências do comando, todos os recrutas do Pelotão, “os bons e os maus”, executariam os exercícios, não apenas os recalcitrantes, as vezes que fossem necessárias até todo o Pelotão respondesse afinado, como se apenas um corpo único fosse. É bem certo que o expedito Aspirante mandou a Justiça às urtigas, mas devolveu ao grupo de sornas reguilas o ónus da condenação e do (injusto) castigo dos seus camaradas. Cumprissem eles e todos, no mesmo barco, seriam salvos.

E a ordem militar regressaria. Ámen!...

Ó da barca! Em que barca seguirá o Aspirante, ainda não Alferes? Na barca do Céu? Na barca do Inferno? Que o digam os leitores, que não tu, Maria Adelaide, que és suspeita...

Era este o clima do Pelotão, quando o “Assobio” chegou, com três dias de atraso, como encomenda extraviada.

O “Assobio” não falava, grunhia, como veremos...    


sábado, novembro 14, 2015

sexta-feira, novembro 13, 2015

ANUNCIAM-SE AS COISAS...


Anunciam-se as coisas (ou o que delas vemos)
Sem rosto ou permanência
Como se o tempo fora espera pura
Ou esfinge em rota de ventos
Por abrir...

Prenúncio apenas...

Nada demove o silêncio assim dobrado
Como vara de profetas: que de tão denso se recolhe
E de tão pródigo se distende
Em profusão de promessas
Rarefeitas...

De âmbar e sal estas veredas maceradas
Ferida aberta no corpo solar dos dias
Rebeldes as sílabas no palato das palavras
Que soltas se condensam em olvido.

São de mar e fel, assim doridas
Na distância que as abarca e nas areias que as sorve
Combustão estrelar em noite infrene
Tão negra que implode e se faz brilho
De tão fria...

E no colapso das trajectórias perturbadas
Nos desertos devorados pelas dunas
Talvez a distância se faça
E expluda em flor carnívora.

E seja safra...


Manuel Veiga

terça-feira, novembro 10, 2015

FRAGMENTOS XV - "o Assobio" no Proscénio ...


Para além da vivenda de Dona Rosalinda, arvorada, daí em diante, em sede do comando militar Companhia de Cavalaria, da qual o Alferes e o seu pelotão de bravos era guarda avançada, o núcleo central da Tabanca era constituído por meia dúzia de edifícios coloniais, de diferentes tamanhos e portes, construídos de “pedra e cal”, que os portugueses vieram para ficar, à volta do qual se alargavam, em círculos desordenados as palhotas indígenas.

À entrada, descaído para o sul, que dizer, no lado oposto à fronteira, um edifício quadricular e térreo, construído em adobe de barro e tapado, em lugar de telha, por folhas de zinco, que cobriam, além do telhado, o alpendre em volta da casa, esteticamente inspirado na opulenta vivenda de Dona Rosalinda, onde nas noites cálidas, espreguiçava uma mão cheia de mulheres indígenas, de diversas idades e numerosa prole e, lá dentro, estendido sobre um baloiço de pano, de lés-a-lés, atado nas pontas às colunas que suportavam o tecto, um homem sem idade, abanado em seus calores e caprichos por um jovem (eunuco?), digno cenário certamente do prodígio das “mil e uma noites”.

Efabulava, assim, o Alferes, num registo irónico, “a arqueologia dos saberes e das distâncias”, oscilando, por momentos, em suave gozo intelectual, entre a inefável “permanência das estruturas culturais” e o “lastro sociológico em que se despenham” transfiguradas e degradadas, mediante o “mergulho no real histórico”, como se a opulência do Xeique das Arábias decaísse em pindérico Régulo guineense.

“Nada é perfeito, nem sequer o perfeito mundo das formas!” – desabafou o Alferes, filosoficamente, para os seus botões, em seu percurso íntimo, rumo à vivenda de Dona Rosalinda, onde esperava poder negociar as suas instalações privadas, certo como estava, que seu corpo continuaria pasto de diversos jejuns da generosa senhora, destino aliás que, benevolente consigo próprio, estava resignado a aceitar, pois de alguma forma, desde as suas peripécias amorosas, ainda Portugal, no decorrer da recruta, em Castelo Branco, com a célebre “Papa Alferes” estava vacinado contra ironias e zombarias dos seus camaradas de armas, sejam eles o seu amigo Valentim, seja o próprio comandante do Batalhão.

E, como em tudo da vida, mesmo nas situações mais incómodas se pode tirar sempre algum ensinamento ou vantagem, na mente um tanto ou quanto precocemente perversa do Alferes, reconheça-se, começava a germinar a ideia de que, da “exigente missão militar” que o leito de Dona Rosalinda era campo de exercícios e aplicado treino, talvez, cismava o Alferes, talvez pudesse daí advir ganho de causa, pois que a excelsa senhora, com sua longa permanência, conheceria, certamente, por dentro e por fora, a Tabanca e, sobretudo, os percursos de vida, quiçá, os segredos e os esconderijos de alma dos seus concidadãos brancos, que o nosso denodado jovem oficial, qual Mata Haari de másculos calções, se propunha arrebatar, aprendiz de caçador de almas, que desejaria ser um dia...

Calo-te a pergunta, Maria Adelaide, que te queima os lábios: “Mas donde saiu agora esta “Papa Alferes”? Não te parece excessivo o pendor femeeiro da tua escrita? É que não há narrativa que resista a tão aceso desígnio literário, nem paciência de leitor que o suporte...”

Eu sei, eu sei, Maria Adelaide, que a “apaixonante” Dona Rosalinda te caiu “no goto”, desculpa plebeísmo, nem sempre pelas melhores razões, pois que o que te move na tua urgência, é apenas o capricho de mulher mimada, que julga as figuras literárias pelo seu próprio figurino, a que, no teu caso, acresce África e as suas voltas e revoltas e os destinos e caminhos que marcam o itinerário da tua vida. Descansa, Maria Adelaide, esquece a “Papa Alferes”, que nada traz de interessante, apenas incidente, mera passagem, ponto de referência ou ponte para outras margens, que alimentam o descuidado fio da narrativa. A urgência agora é outra, que em tua pulsão ansiosa e os teus cuidados com Dona Rosalinda e o que dela esperas para dulcificar teus caminhos, não te permite sequer um desprendido olhar de interesse.

E terás, porventura, razão. Que importância tem o “apoucalhado” soldado básico, graduado na mais baixa condição militar, como “ordenança” do comando da Companhia, e que se reconhece na alcunha “O Assobio”, a que os seus camaradas de armas, em prova de insólito privilégio e admiração, o promoveram, perante a crepitosa Dona Rosalinda e seu lúbrico desvelo pelo Alferes? Mas não te vais livrar de “O Assobio”, Maria Adelaide , por muito que o teu enfado me seja penoso.

E, no entanto ....


domingo, novembro 08, 2015

LETRA PARA UM HINO - Manuel Alegre


Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre

Para os meus amigos(as), numa noite "acordada" e prenhe de esperanças!
M.V.

sexta-feira, novembro 06, 2015

FRAGMENTOS XIV - a Tabanca. Ainda.


Dormiu o Alferes, mas pouco tempo, que o tempo do sono (e do sonho) não se medem pela mesma medida do tempo vivo. Porém os minutos que foram de sono e o desvelo de Dona Rosalinda retemperam as forças e o ânimo do Alferes que, de supetão, largou o aconchego quente dos envolventes braços e saiu do amantíssimo leito, espicaçado pelo aguilhão do Dever que o reclamava, pois bem sabia que os seus homens, recolhidos no velho armazém de mancarra, elevado agora à categoria de caserna militar, esperavam suas instruções.

Entretanto, o “Ordenança” do comando, conhecido em todo o Batalhão pela expressiva alcunha “O Assobio” que, por razões que adiante se saberão, mantinha pelo Alferes uma devoção a rasar o incómodo, havia depositado o pesado malote militar, onde o Alferes acomodava a escassa roupa, fardas e livros, nas mãos do maiato negro de Dona Rosalinda, que discretamente o deixara à porta do quarto. Pode assim o Alferes cobrir o corpo distendido de roupa limpa e envergar a farda nº 2, na sua versão africana, de cor castanho claro, apenas calções e camisa colonial, com largos bolsos no peito e presilhas nos ombros, onde, solicita, Dona Rosalinda ajudara a enfiar seus doirados galões de oficial.

- “Vai, meu filho, vai aos teus deveres! E não esqueças que, também aqui, tens muito trabalho para fazer...” – Aludia, com um sorriso, Dona Rosalinda, em sua inesperada ironia, não apenas ao trabalho suplementar, em que as circunstâncias por si escolhidas e alimentadas, haveriam aprofundar a educação erótico-sentimental do Alferes, mas também ao trabalho oficial, tal como fazer inventário de todo o recheio, elaborar o registo para memória futura e assinar o auto de recepção da vivenda, cuja expropriação fora, de comum acordo, negociada pelo Comando do Batalhão, em nome do Estado-maior do Governo Militar da Província, destinada, perante o novo quadro de evolução da guerra, ao corpo de comando da guarnição militar da Tabanca.

Dona Rosalinda, em seu instinto de sobrevivência, bem sabia que os tempos idos eram tempos passados, sem regresso possível, e, por isso, tratou de salvar o que havia a salvar, vendendo, por bom preço, a espaçosa vivenda ao Exército. Para isso contaram, certamente, os bons contactos que mantinha no Palácio do Governador Geral da Província e que as suas quase três décadas de residência na colónia ajudaram a consolidar.

Lá fora a tarde finava-se. Depois da violência da tempestade, o regurgitar dos sons da savana e o sol, em sua esplêndida majestade, a declinar no horizonte, por entre farripas de nuvens alaranjadas. O Alferes, em passada larga, galgou a distância até ao armazém, agora caserna militar. Os soldados circulavam, dentro e fora, a descontrair os músculos e a comentar o espectáculo da trovoada, rodeados de crianças negras e os adultos, mais longe, como que medindo, com o olhar, o momento de iniciar a aproximação.

Na presença do Alferes, os militares perfilaram-se em continência, no cumprimento de uma regra que obriga a todos, sejam eles soldados, sargentos ou oficiais, perante um militar de classe ou posto superior, praxe essa que o permanente convívio dos militares em campanha tornava cada vez mais lassa. Então o Alferes, “paisanamente”, dispensou a continência e, num gesto largo, erguendo a voz, ordenou a entrada dos militares para o interior do edifício. A criançada, num ápice dispersou e os adultos seguiram-lhes os passos.

Lá dentro, ao abrigo de olhares e ouvidos estranhos, o Alferes assumiu um ar grave (bem se sabendo que exagerado fingimento) chamando particular atenção para as suas palavras aos respectivos comandantes de secção do pelotão e do veterano Sargento Fernandes, todos informalmente sentados em círculo, falando da sua desilusão pela promiscuidade a que lhe fora dado assistir entre militares sob seu comando e a população local e evocou então dois princípios da “doutrina” estabelecida no quadro da Companhia, face às contingências da guerra, que todos conheciam, mas nem sempre tinham presente. E, como remate, o Alferes determinou que, como uma tribo guerreira, todos proclamassem, de pé e em voz alta: 1º “Nas instalações militares não entram civis; 2º os militares podem tudo, menos ofender os paisanos!...”

Após o que houve lauto festim colectivo, na base de ração de combate, com as inevitáveis conservas, celebrado, porém, com uns garrafões de vinho tinto, que o sargento Fernandes ciosamente guardava e que, num gesto que o redimiu, colocou ao dispor dos seus camaradas de armas.

Silenciava-se a savana, com o aproximar da noite. E a população indígena recolhia-se nas palhotas. De terra, elevava-se um odor profundo e acre a terra molhada. Aqui e além uma poça de água lamacenta, à espera de ser absorvida pelo solo quente e pela brisa da noite estrelada.

Conforme a rotina de meses, o veterano sargento Fernandes acendeu os luminosos candeeiros “Petromax”, colocados estrategicamente em redor da caserna. O Alferes, acompanhado do seu estado-maior, quer dizer, dos seus furriéis, comandantes de secção, a que o sargento Fernandes se juntou, atravessou o largo da Tabanca, campo de jogos e parada militar e, com sua corte, entrou no edifício que, em tempos fora instalação dos incipientes Serviços de Saúde e que, com a guerra e a retirada do enfermeiro civil, somava agora também espaço de messe e o dormitório dos sargentos.

Num breve briefing foi aprovada a escala de serviço, repartida entre os furriéis e respectivas secções para as funções de vigilância nocturna e prestação de serviços colectivos à unidade militar, bem como definidas as tarefas imediatas para cumprimento da missão - ou seja, a instalação dos 120 homens da Companhia completa - bem se sabendo que as obras de fundo requereriam articulação permanente e briefing diário. Ao veterano Sargento Fernandes e os seus homens, em final de comissão de serviço, ficavam reservadas as funções de limpeza e intendência ao serviço da unidade militar.

Adivinho, Maria Adelaide, o teu tédio perante esta prosa sincopada, tipo relatório militar, bem se sabendo da tua permanente pulsão em interferir no rumo da narrativa, aliás com todo o direito, pois que texto e contexto são emanações espontâneas de um discurso, onde “o autor não existe”, e o tempo e o espaço se dobram e desdobram ao serviço das personagens como um magna sem destino aparente, mas que no fundo obedecem a lei da gravidade universal em que a linguagem (literária?) se despenha. Mantém, por isso a pose e o desejo de irromper, apaixonada, como no tempo outro, que haveria de chegar, do Chiado e da Bénard, em que, em véspera de eleições, te deliciavas com “éclairs” e lembravas, numa ironia doce, “no Domingo, não te esqueças em ir votar!...”

Mas, por enquanto, vá la saber-se por que ocultas e forçadas razões, Dona Rosalinda reina, o “Assobio” requer atenção e a Tabanca é palco. Ainda.





quarta-feira, novembro 04, 2015

PODEMOS! ...


Que o gesto seja faúlha na bigorna
E prenúncio da batalha.
Por agora...

E o canto clamor dos homens
Larva ainda...

Que o surdo rumor do Mundo e os dias
Sejam a inquietante superação das horas
Na esperança breve das coisas
Que colhemos...

E a dissonante música seja eco na anca dos escravos
E os punhos sejam febre no olhar
Dos timoratos...

E que o Tempo germine
E que os sonhos tenham asas...

E, então, sim 
Podemos!...


Manuel Veiga