quarta-feira, setembro 30, 2015

O Tempo é Malho e Forja...


Solta-se a cratera e os afectos
Desenham indeléveis traços. Breves esquissos
Moldando os rostos. Resolutos...

Bêbados os olhos das crianças
Que não sabem ainda. O dia claro.

E os pais caudal imenso. Rio que desatam.
Comportas abertas em peito uníssono.
Gargantas que o sonho embarga
No aluvião sem margens. De seus passos.

O tempo é malho e forja. E o balançar de barcos
Fundeados sobre o Tejo. E os diversos ritmos. Cruzados.
E a viagem que teima. Caravelas.

E fio dos dias...

E os pulsos abertos.
E pão que dói. E a ferida azada. Procelas.
E o sal que salga. E a mágoa...

E as vozes que libertas não se calam.
E os homens que resistem...

Manuel Veiga

quinta-feira, setembro 24, 2015

PAISAGENS...


Inesperadas paisagens me visitam
E guardo com devoção de caminheiro

Vêm de longe. As paisagens.
Por vezes murmúrio. Outras, grito solidário
Abrindo-se em eco sem fronteiras...

Montanha e mares fundidos. E o desgarrado voo.
Que teima. Sortilégio ainda. Cores matizadas.
Mais que trama. Ou ledo engano.

Apenas o azul e a distância
Lhes dão forma. E o sopro  
Que inflama.
  
Caçador, eu fora. E perder-me nos abismos.
De pés rasgados e, em febre, a mente.

Assim, porém, me perco. Desenho miragens
Como quem colhe o declive ameno.
Nem falcão, nem presa.
Nem o tenso arco.
Apenas a seta e
A curva
Descendente.

Lavando a alma
Nas paisagens que colho
No momento.

Manuel Veiga



segunda-feira, setembro 21, 2015

PLANANDO DE ENCONTRO AO VENTO...


Talvez o momento avaro seja voo de milhafre
Planando de encontro ao vento. Ou estultícia minha
Em filtrar o Tempo. Pelos dedos...

Talvez seja vertigem. Ou pequenos nadas..
Ou profusão de sentidos descendo como os braços do salgueiro.
Ou seja talvez moinho em canto d´água.
Ou a pedra de soleira...

Talvez o momento seja a brusca passagem das horas
Já passadas. E murmúrio de oração em lábios já finados.
Ou mulheres de negro embiocadas: -
Penélopes sem viagem
E epopeias de silêncio...

Talvez sejam as cálidas mãos dos homens. Agora
Pousadas sobre a mesa. E o pão repartido.
E a criança atónita espreitando o ritual
E o vinho nas gargantas ressequidas.
E o delírio da festa.
E as colheitas...

Talvez os corredores da memória
Sejam espaço afadigado em estertor de ave
Já sem ninho. E que no entanto teima o calor das penas...

Assim o vento se solte em novas profecias.
E todos os rostos venham em coro
Entoar bênçãos em teu nome

António!

Manuel Veiga

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sábado, setembro 19, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXXIII


Vive-se em Babilónia um ritual consagrado. De quatro em quatro anos, Hammurabi, o legislador, despe-se de sua majestade e mergulha nas águas do grande rio, em “happening” com os babilónicos...

As águas fazem o milagre – e Hammurabi muda de máscara e, por vezes, de rosto...

O deus Mercado, benigno, manda dizer, por arauto celeste, que Babilónia continua lixo, mas agora lixo perfumado com um toque de “essências chinesas”!...

Hammurabi ajoelha, piedoso - e seu séquito entoa loas, desvanecido...
................................... 
E um velho alquebrado, mas rijo e sábio: “Babilónicos, a hidra tem mil cabeças e Hammurabi mil caras – preparem o golpe e não lhes façam o jogo, nem lhes aparem o lixo...



quinta-feira, setembro 17, 2015

FRAGMENTOS XI - Tabanca à vista!...


A viagem prosseguiu em seu ritmo pachorrento. De facto, a estrada, se estrada era, não passava de um rasgão na savana, terra batida que os camiões dos madeireiros e o transporte da mancarra haviam aberto e consolidado, com alguns trabalhos de engenharia a superar terrenos mais alagadiços e linhas de água. Com a guerra em crescendo e a paralisação do negócio, a estrada foi, em grande parte, engolida pela vegetação, ficando, em extensos troços, apenas o registo da passagem das populações locais, em estreito carreiro como se apenas picada fosse, no interior do matagal.

Houve assim que fazer sucessivas paragens e estabelecer as indispensáveis medidas de defesa, com duas secções, nas margens da estrada, ladeando a coluna de viaturas, em posição de vigilância, enquanto os restantes militares procediam, sob um sol abrasador, ao corte do capim, ramos e arbustos, ou a trabalhos de pá e picareta a nivelar o terreno, sulcado por frondosas chuvadas.

Assim, a cálida fantasia do Alferes, sob os céus de Lisboa e o macio devaneio ao volante do descapotável, cedo se desvaneceu no confronto com a exigente realidade de comando, disfarçando a apreensão, estimulando os mais sornas, reclamando a urgência das tarefas, zelando pela segurança, avaliando a distância e o tempo para a noite não surpreender o grupo, desprotegido na estrada, sem alcançar o destino e o aquartelamento almejado.

Como toada de fundo, o grasnar de pássaros coloridos e aves e o grito de pequenos símios sobre as árvores ou o inesperado bando de gorilas, em desafio, qual pelotão perfilado, atravessando a estrada, de um lado ao outro, como que a lembrar aos intrusos que a lei da selva lhe confere o direito elementar de não serem importunados. E que, conforme as leis da vida (e da história), as lógicas impostas de fora ou as narrativas de domínio pela força são práticas cruéis, que violentam as razões da Natureza e a linguagem primordial das coisas criadas. E que a espécie humana e o homem “civilizado” são apenas o registo emancipador de todas elas, bem se sabendo que a dramática passagem do “reino da necessidade ao reino da liberdade” é um processo inacabado, que arrasta consigo todas as escórias e todos os lampejos.

Eu sei, Maria Adelaide, que não aprecias particularmente estes incisos, esta propensão em entrar por caminhos, que não digam de nossos passos, estas derivações da narrativa, esta insistência em África que não seja a tua meninice e, sobretudo, te fazem sorrir, em inocente ironia, as evocações vagamente pretensiosas, a que chamas de “erudição vagabunda”, certa como és de que a vida é para viver à flor da pele, inteira, na tensão do inesperado, sem angústias metafísicas, cultivando os momentos bons e sofrendo os maus como inevitáveis. Mas tu sabes que é em ti que todas linhas se cruzam, todas as palavras são preenchidas e que, mesmo não sendo és, ponto nodal da escrita, que para ti vive, num jogo especular da tua imagem derramando-se em cada vereda, na profusão dos acontecimentos, ou no traço grosso do desenho, ou na surpresa, ou na amarga dor dos dias, como se o “tempo literário” outra coisa não fosse senão advento (de um tempo outro em que irás erguer-te).

Entretanto, desafiavas tu, em tua rebeldia, a autoridade familiar e os princípios e valores em que foste educada e, sem bem saberes como, “perdeste-te” na euforia da contestação universitária, acabadinha de chegar à Faculdade de Letras. Aos olhos de teu pai, “salvou-te” o João, que fiel à sua promessa de ”casar rico”, de ti se aproximou e, poucos meses depois, te levou ao altar, para sossego de tua família e glória e proveito do próprio, recém-licenciado pobretana, dando os primeiros passos no exercício da advocacia.

Noutra latitude, a Lia, a sereníssima e imperial Lia de minhas brincadeiras e jogos de infância, era entregue pelos irmãos “à protecção” do “Chefe de Posto” de uma vila ignorada de Angola, que desde que a conhecera cobiçava seu corpo, “órfã” que ela ficara do Padre Francisco, que não resistiu, em sua crónica tísica, às febres tropicais e a deixara pouco menos que ao abandono, com o filho nos braços. Imaginas tu, porventura, Maria Adelaide, este seu novo calvário, sob o domínio do tiranete, que ao longo dos anos lhe infernizou a vida? A cada um os liames que a vida tece, por vezes bem ingratos.

Deixa, por isso, que o Alferes prossiga viagem e que a Tabanca reine, por algumas páginas, como centro do universo. E, por favor, recolhe esse traço de contrariedade, que te desfeia o rosto...

À distância, fora de rota, de vez em quando, uma silhueta humana esbatia-se no horizonte, ou desaparecia encoberta pelo capim e pelo mato. E assim, avançava a coluna militar, cautelosa, vagarosa, corpos tensos e rostos fechados, sob um sol ardente e o monótono ronronar dos motores, cortado, por vezes, com uma gargalhada geral e uma graçola ou outra, a descomprimir a tensão e o cansaço.

Pouco a pouco, a estrada ia ficando mais transitável, os trilhos mais marcados, manadas de vacas brancas ou cinzentas ou vagamente malhadas, a pastar nas imediações, campos de mancarra e milho abertos na savana, os primeiros acenos e sorrisos de grupos de mulheres esbeltas, com os filhos atados às costas, debruçadas no amanho da terra, ou então, em difícil exercício de equilíbrio, com enormes “balaios” na cabeça, a transportar o alimentos e os produtos indispensáveis. As mulheres - pois claro! – que “os homens-grandes”, em breve o saberíamos, debaixo do frondoso embondeiro, no centro da Tabanca, mastigam folhas de coca, passajam os dedos em contas de sândalo, a murmurar o Corão ou apascentam prestígios, contados pelo tamanho da manada de vacas e pelo número de mulheres que possuíam.

Enfim, a Tabanca estava próxima. A verdadeira “viagem” iria começar agora...   


"LEVANTA-TE E PENSA...."

segunda-feira, setembro 14, 2015

GRITO PRESO NA GARGANTA...


O grito preso na garganta
E a criança nos braços. Morta. Como lâmina.
Marés de ódio e lama...

E o grande Espectáculo.
E a Miséria. E a Guerra. E seu mortífero Esplendor.
E a banalização da Tragédia
A escorrer da Pantalha.

E a indignada revolta. Assumida.
E o Horror até à Náusea. E o suspiro desmaiado.
E as asas do esquecimento. Breve que venha.
Pois incomoda. Tanto. A ferida que não sara ...

Do Extermínio que ora se incendeia
Não o Crime, nem Castigo que seja.
Apenas medida. Doseada. Desta Justiça fingida.
E dos falsários desta Hora. Amarga.

As vítimas são lepra. E os carrascos
Mão que embala...

Como libertar este cerco? E esta raiva?
E soltar este grito? Que de tão vivo emudece
E de tão urgente se rasga...

Manuel Veiga
POEMAS CATIVOS II - a publicar

sábado, setembro 12, 2015

FRAGMENTOS X - Rumo à Tabanca...


Aprestadas as diligências na sede do Batalhão, recebida a “ordem de operações”, perfilado o pelotão, na parada, em fato de combate e a protocolar revista do Comandante estava tudo a posto para o Alferes poder rumar à Tabanca, à frente da sua coluna militar. Dois camiões, carregados de sacos de areia e com os bancos virados para o exterior e armas municiadas, transportavam os trinta homens do “pelotão de combate”, a enquadrar a secção de engenharia do Furriel Serrão. À frente da coluna, o Alferes, em jipe de quatro lugares, acompanhado do seu condutor permanente, o cabo radio-telegrafista e um enfermeiro.

À distância, uma bordadura solidária de dezenas de militares acompanhava o roncar dos motores. O Valentim, camarada de armas e amigo de todas as horas, destacou-se da espessa muralha humana e vem, ao início da coluna, dar um abraço ao Alferes numa emoção calada, que ele bem soube disfarçar na sua jovialidade costumeira: “Cuida-me desses ossos, pá! Não vão eles servir para engrossar o almoço de um qualquer turra!...” E, repetido o abraço e voz tremulante: “Que falta me vais fazer, parceiro do “bridge” e do “king”...”

Viaturas em marcha e, das entranhas da garganta, desfazendo o nó da emoção solta-se, na parada, o grito rouco e solidário de dezenas de homens, marcados pelas dores da guerra e a precariedade da vida – “Hurra, hurra!...”

O Alferes ergue o braço em agradecimento e despedida e sem mais delongas, a coluna militar fez-se ao caminho, que escassos minutos depois se perdeu de vista, na primeira curva da estrada. Distende então as pernas no espaço acanhado do jipe, ergue os braços sobre a cabeça, faz estalar os dedos num gesto de descontracção e desabafa para seus botões, num suspiro de exagerada (in)sinceridade: - ” Finalmente, vou ver-me livre daquela cambada, por uns tempos!...”, disfarçando assim as emoções de última hora e a visar, com o desconchavo, o ambiente claustrofóbico do quartel, onde, apesar da cordialidade entre camaradas de armas, assumida e cultivada, por mais que se possa fazer em contrário, se acaba sempre por esbarrar com as mesmíssimas caras, repetindo os mesmos gestos, tiques e rotinas.

Agora ali estava livre de rotinas e sujeições. E, no entanto, levemente inquieto, entregue ao seu destino e à “solidão” do comando da sua coluna militar. A liberdade, sempre relativa e precária – vem sabê-lo mais tarde – acarreta, por vezes, um insuportável peso, que transcende a estrita dimensão das escolhas. Ou as circunstâncias que nos cercam. Mas por enquanto, não. Não sabia então ainda, o Alferes.

Acendeu assim um cigarro, afastou com um gesto as inquietações, assumiu ele próprio, em transgressão dos regulamentos, a condução do jipe e, ei-lo, glorioso, como se em pleno Verão lisboeta, conduzisse, na marginal do Estoril, um reluzente descapotável!...   



quinta-feira, setembro 10, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXXII


Vivem-se em Babilónia festivos torneiros florais – que alguns dizem crepusculares e, outros, alvorada.

Na primeira escaramuça, sir Tony, o dos Sete Costados, derrubou, por três vezes, Hammurabi, o legislador - que saiu lambendo as feridas!...

A Praça deslumbra-se com o colorido das plumas e o apuro das vestes. E, ululante, tanto apupa, como aplaude ou grita...
.....................................
 E o poeta-vário, um tanto toldado e grãozinho na asa: “Babilónicos, sois espada e sois baínha!...”

E, exorta: “Em vossas próprias mãos erguei a espada e a vitória será vossa... “
  


segunda-feira, setembro 07, 2015

Tua Bênção, Pai...

A tua bênção, Pai
Antes que as margens se afastem infinitamente
E o rio seja o turbilhão de lava
Frio de nada...

Calo a lágrima
E beijo a terra na ubérrima mão
Do que por ti fomos
E nas lonjuras que logramos...

Na flor tatuada dos dias
E na vara do tempo onde gravamos solstícios
E os nomes
E as sombras
Entrelaço a folhagem do carvalho
Em tua fronte
Como templo...

E soletro o frio
E a amargura da Hora
E calo o peito...

E ergo-me
Medianeiro
Encruzilhada de torrentes e dos invisíveis fios
E da seiva que somos...

E evoco os caminhos
E a voz do sangue
E os passos que são
E os passos que se anunciam...

E solto tuas bênçãos
Na carne da minha carne
E no sorriso da criança com teu nome
António.

Manuel Veiga

in POEMAS CATIVOS II – a publicar em breve.


FRAGMENTOS IX - Acumulação de Sinais


Assentemos que também não existe lugar a fixar as personagens num território que as proteja ou lhes molde as emoções ou lhes defina o percurso ou que, como herança de passos percorridos, delas faça alimento ou perda, ou inventário, ou sereno declive dos dias. O espaço é apenas arquétipo, registo de sinais contaminados pela erosão, linhas figurativas que se ligam e se religam e se demandam e se desmancham como fios invisíveis, na movimentação livre dos diversos tempos em que as personagens se derramam e as palavras ousam o(s) sentido(s) da escrita. Pois se lugar houvera, aquele seria o corpo consagrado da Derrota, inscrita na pele dos dias e das coisas, como todos os sinais permitiam profetizar.

A Tabanca, naquele tempo, era o “o fim do mundo”. E fora também local de degredo. Em cima da linha da fronteira, alargava-se em círculo, no interior da área continental, a leste da colónia, região que até final do século XIX, integrava o “reino de Gabu” que, da colónia portuguesa se estendia pelo território de Casamança, no Senegal e atingia a proximidade do território da Guiné Equatorial.

Linha de fronteira, portanto. No entanto, era sabido que as populações indígenas, mais do que por linhas de arbitrárias das fronteiras, traçadas pelo colonialismo europeu, se movimentavam livremente pelas respectivas áreas de domínio ascentral, sem considerações de “ordem burocrática” por fronteiras ou países.

As fissuras e divisões no interior da sociedade indígena eram, naquele tempo, determinadas, sobretudo, pelos despojos da história, quer dizer, pela matriz da guerra e da conquista que, no caso, se exprime em vagas sucessivas de ocupação por etnias provindas do norte e nordeste que empurraram as populações autóctones, ou há mais tempo estabelecidas, em direcção ao Atlântico, cerzindo assim o território em diversificado painel de etnias e “chãos”: os Bijagós, nas ilhas com o respectivo nome, os Balantas a sul, os Manjacos mais no centro, os Felupes, acantonados a nordeste junto ao Atlântico, os Mandigas e aos Fulas no centro-leste do território, entre outras etnias de menor expressão.

Com o desmembramento do reino de Gabu, em finais do século XIX, na sequência da guerra e prolongados conflitos entre Mandigas e Fulas, a etnia fula passou a ser dominante na região, empurrado os mandigas para as regiões periféricas.

Mandingas e Fulas, irmãos desavindos por qualquer capricho, não da história, que o “tempo da História” ali ainda não era então, apenas tempo recuado e lento em que o instinto de sobrevivência explode, como matriz de vitória e submissão, mandigas e fulas, dizíamos, eram oriundos da região do Mali e, mais ao norte da Mauritânia, povos invasores, portanto, arabizados, o que permitia atribuir-lhes pelo colonialismo português “ascendente cultural” sobre as restantes etnias. Seja como for, enquanto a sul, a guerrilha fervilhava e infligia pesadas derrotas ao exército colonial, a leste do território a guerrilha era ainda incipiente, impulsionada fundamentalmente pelos mandigas.

Era, assim, aquela zona de quadrícula militar ponto nevrálgico na estrutura de guerra e do evoluir das operações, em virtude da sua localização e, sobretudo, pela sua geografia humana e étnica, com a predominância e a dominância fula, que a tropa colonial iria procurar comprometer, perseguindo a sua cumplicidade activa com as forças coloniais ou, pelo menos, a sua neutralidade no conflito.

Pressinto o teu suspiro de enfado, Maria Adelaide, bem sabendo eu quanto te são fastidiosos os pormenores, que não sejam dulcificados pelos afectos em que a tua vida se move, onde não entram, por razões tão tuas, nem teatros de guerra, nem muito menos a convivência com fugidias classificações das etnias africanas. Negro é negro, acabou-se!... Assim era no leite que bebeste na infância e nos caprichos com zurzias a pachorrenta “nurse” que te criou e trouxeste para Lisboa, por capricho maior, quando em rebeldia, recusaste o internato nas Doroteias e teu querido Pai te instalou no apartamento da Avenida de Roma, com tua “mãe negra”, órfã de mãe branca que eras, a apaparicar-te e a supervisão de uns afastados parentes da província, que passaram a servir-te, ela como veladora do teu bem-estar e zelosa informadora das tuas tropelias de adolescente mimada, que, para mal dos pecados de teu pai, evoluíram, quando o seu tempo chegou, para uns normais pecadilhos da juventude tão ao jeito da época, e ele, guarda-republicano aposentado, guarda-costas e “chauffeur” em teus percursos diários para o Liceu Maria Amália.

Bem sei Maria Adelaide que seria mais prazeroso delinear a matriz, percorrer esse tempo, sem tempo ainda, de menina adolescente, seguir a pulsão de nossos afectos, antecipando o registo e o discurso dos dias que hão-de vir e a narrativa de um tempo amadurecido de nossos encontros e desencontros. Mas como o coração tem razões próprias, também as razões da escrita nos levam por caminhos travessos e rodeios, por vezes inesperados, na esperança de que, mais adiante, o cerzir das palavras ganhe expressividade e todos os sentidos sobrepostos sejam a linearidade do entendimento.

E então deves compreender que, neste destapar do “ruído da escrita”, a Tabanca que o acaso elegeu é apenas território utópico, uma ilha inventada, onde os fios se cruzam e outras personagens se irão desenhar e atravessar, em perdição ou glória, a língua de fogo, que separa a cinza ardida de coisa nenhuma, de que o nosso Alferes, em suas peripécias e vagas dissertações e em seu desajeitado voo demiúrgico, é compère e cúmplice.

Deixemos assim o Alferes a “narrar-se” na primeira pessoa e na acumulação sinais, que lhe tombam sobre a cabeça, reconhecer suas pesadas circunstâncias, dele e de milhares de jovens enfileirados à força e, na aprendizagem de si mesmo, nas suas perplexidades e nas dores e horrores da guerra, na erosão do tempo actual, aprender a amassar um tempo outro, futuro ainda não maduro, que um dia, não muitos anos depois, há-de explodir como flor vermelha em solo sedento de liberdade.


quinta-feira, setembro 03, 2015

Por que Gosto da Festa do Avante...


A Festa do Avante, promovida pelo jornal do Partido Comunista Português, celebra-se, anualmente, na Quinta da Atalaia, no Seixal, com a participação de milhares e milhares de pessoas, de todas as idades e condições sociais, vindas de todos os cantos do país (e muitas do estrangeiro) para três dias de encontro e confraternização.

“Não há festa como esta” dizem, com razão, os seus promotores e militantes. E não apenas pelos seus eventos culturais (com o melhor que se produz no domínio da música – para todos os gostos - das artes plásticas ou da literatura), ou por esse mosaico de gostos e paladares que são a culinária e os vinhos nacionais, ou pela multifacetada expressão do artesanato regional, ou pelos exaltantes momentos de participação política.

Claro que haverá sempre diversos olhares sobre a Festa. É natural que haja. Apenas a engrandecem aqueles que por preconceito, ou por função e missão, dela desdenham. Mas para quem, com olhar límpido, quiser ver não poderá ignorar o imenso sortilégio que a Festa do Avante exerce sobre quem a frequenta, independentemente, das opiniões políticas.

E é caso para nos interrogarmos sobre as razões de semelhante sucesso, numa sociedade eivada de um anticomunismo larvar, permanentemente instigado pelos aparelhos de dominação ideológica – na comunicação social, nos modelos de sociais, nos padrões de consumo, na política, na profusão das imagens que encharcam o nosso quotidiano.

Por que razão o “efeito” Festa do Avante excede o horizonte da mera militância política e seduz tanta gente? Digam-me. Tenho claro que a Festa do Avante é antítese perfeita da chamada “sociedade do espectáculo”, em que andamos mergulhados. Dai as razões do seu sucesso...

Deixem que tente explicar-me. Como sustenta Guy Debord, as modernas condições de produção apresentam-se como uma imensa acumulação de espectáculos, onde “tudo o que até então era directamente vivido se afastou numa representação”.

Assim, o espectáculo será, no dizer deste autor, “ao mesmo tempo o resultado e o projecto do modo de produção existente”. Sob todas as suas formas particulares - informação ou propaganda, publicidade ou consumo, ou divertimentos - o espectáculo constitui o modelo da vida socialmente dominante, numa “afirmação omnipresente da escolha já feita na produção e no consumo”.

Forma e conteúdo do espectáculo são, assim, a justificação total das condições e dos fins do sistema de produção existente. Numa frase lapidar, “o espectáculo será o discurso ininterrupto que a ordem dominante faz sobre si própria, ou seja, o seu monólogo elogioso” .

O processo de alienação será permanente: quanto mais o espectador contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. “A exterioridade do espectáculo em relação ao homem concreto revela-se nisto - os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta”.

Pois bem, a Festa do Avante escapa a tal lógica. A Festa do Avante pertence literalmente dos seus construtores. É trabalho voluntário que ergue os seus pilares. Trabalho livre, sem salário. Com o tempo e a forma que cada um escolha, motivado apenas pelo desejo de “fazer” a festa. Trabalho desalienado, portanto. Que subverte o sistema de produção dominante, pois é demonstração prática (precária que seja) de que outro modo de produção é possível.

Por outro lado, a Festa do Avante pode ser usufruída sem mediação, nem filtros, por todos aqueles que nela participem. O espectáculo, (que Festa do Avante também é) e as imagens que projecta na sociedade portuguesa e, em especial, em que têm o privilégio de nela participar e compreender, correspondem à vivência real dos homens concretos, como “discurso” alternativo à ordem social alienante.

Por momentos, nos três dias da festa, será a libertação do Desejo e do Sonho, (“de focinho pontiagudo”), sondando os dias do Futuro. E a vida real de milhares pessoas, alargando o horizonte da consciência social de cada um e o caudal da consciência colectiva de que é possível uma vida melhor.

Gosto, sim, da Festa do Avante. Muito. Como paradigma de uma sociedade diferente. Mais justa, solidária e fraterna. Como lampejo da Utopia, que as mãos, a luta e o suor dos homens, libertos das contingências de modo de produção dominante, um dia poderão erguer...

Manuel Veiga in “NOTÍCIAS de BABILÓNIA e Outras Metáforas”

MODOCROMIA Edições – Lisboa, Abril 2015