quarta-feira, fevereiro 25, 2015

QUINQUILHARIAS EM BELÉM...


 Sob e estridência do sol a oliveira
E esta ilha de sombra. E a cigarra descuidada.
Arremedando a ceifa. Como se a cidade seara fora.
Apenas feira …

Os corpos distendidos embora.
Derramados na canícula. Inertes na estridência dos sons.
E o Palácio ao fundo…

O Tejo segue seu curso. Caravelas agora
São os turistas que passam. E pasmam.
E velharias coloridas. E o fado nosso que de eterno
Tem apenas a velhice. E a sornice…

Que venham pois os poetas da cidade
Com O´Neill à cabeça. Ou a Pátria de Junqueiro
Pois embora não pareçam ambos são
Quinquilharias…


Manuel Veiga – in “Poemas Cativos”

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Breves dias ausente de vosso convívio...

Beijos e Abraços.

sábado, fevereiro 21, 2015

SOU SOPRO DE BANDEIRA...


Sou o linho estendido sobre a pedra. (Como mesa...)
E o suor dos rostos em círculo. Como mito. Sei agora...
E o pão avaro.
E o rito das mãos de boca em boca
E as gargantas ressequidas.
Sou o vinho...

E sou a sombra. E a gota de água.
E a agitação do freixo. Sou a canícula e sou a raiva.
E a boina descaída sobre os olhos – basca.
E a precária sesta na aragem do dia.
Sou a ceifa...

Sou os tordos espantados de meus olhos.
E a voz do amo.
E o sol que já declina...

Sou os corpos debruçados sobre a terra
E o crepitar do caule e da espiga.
Sou o fio da revolta
Que não sabe ainda...

E neste horizonte de mágoa
Sou sopro de bandeira.
Sou esta linha quebrada que explode
E me incendeia...

Sou este signo vazio de tudo ou nada.
E o canto das cigarras que teima...

Manuel Veiga


quinta-feira, fevereiro 19, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA - LVIII- "A Bela e o Monstro"



Existe em Babilónia uma alforreca. Encrustada no casco do navio – afundado! ...

Alguns dizem ser uma excelente cozinheira – de swaps!...

Por isso, Hammurabi, o legislador, a terá nomeado almoxarife-mor do reino.

Como num conto infantil, sabe-se agora que se baba toda - quando o mastim – guardião do tesouro da merkolândia – rosna...

A “bela e o mostro” - suspiram almas piedosas...
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E um velho “calinas”, confiando o bigode: “que saudades do canal 8 – onde a pornografia era explícita – e ninguém se babava!...”

terça-feira, fevereiro 17, 2015

ÍTACA - KONSTANTINOS KAVÁFIS



Ítaca

Quando abalares, de ida para Ítaca,
Faz votos por que seja longa a viagem,
Cheia de aventuras, cheia de experiências.
E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,
O irado Poséidon, não os temas,
Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre
Emoção tocar tua mente e corpo.
E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
Nem o fero Poséidon hás­de ver,
Se dentro d'alma não os transportares,
Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.
As manhãs de verão que sejam muitas
Em que o prazer te invada e a alegria
Ao entrares em portos nunca vistos;
Hás­de parar nas lojas dos fenícios
Para mercar os mais belos artigos:
Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,
E sensuais perfumes de todas as sortes,
E quanto houver de aromas deleitosos;
Vai a muitas cidades do Egipto
Aprender e aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.
Hás­de lá chegar, é o teu destino.
Mas a viagem, não a apresses nunca.
Melhor será que muitos anos dure
E que já velho aportes à tua ilha
Rico do que ganhaste no caminho
Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.
Sem ela não te punhas a caminho.
Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.
Tão sábio te tornaste, tão experiente,
Que percebes enfim que significam Ítacas.

Konstantínos Kaváfis, poeta grego – 1863



segunda-feira, fevereiro 16, 2015

domingo, fevereiro 15, 2015

UM BREVE PRENÚNCIO...


 Desprende-se o poema. Brevíssimo sopro.
Ou colisão ínfima que estremece. E se agita. Inesperada.
No absurdo silêncio do Mundo.

Murmúrio de sarça. Arde. Como inflamadas cores
Sobre a Árvore do Tempo. Ou toda a vida
No sopro do instante – meteórica luz divina...

Desprende-se o poema. Sem resguardo.
E nessa agitação volátil um breve prenúncio. Ou esboço.
E o rosto invisível das coisas a rasgar
A finíssima placenta.

Que a Palavra então seja criatura
Arrostando as dores do Universo
E testemunho do humaníssimo Grito.

Ou polifónico Cântico a antecipar
O dia claro...

Manuel Veiga

15-02-2015



sexta-feira, fevereiro 13, 2015

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LVII


Babilónia entrou definitivamente em cataplexia. E aguenta, aguenta - o barco afundado e até mesmo pesporrências de Hannibal, o “perentório”...

Um olhar de águia que não enxerga além do seu umbigo. E que, “perentório” esquece a esmola que recebe - e, impante de soberba, grita o óbolo que estende...

É o que se chama “cuspir na sopa” – dizem alguns – lembrando a aragem que corre em volta. Outros fazem contas à vida...
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E um velho camponês de mãos calejadas e espírito arguto: “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu...”


terça-feira, fevereiro 10, 2015

SOLIDARIEDADE COM O POVO GREGO



    Domingo, 15 de Fevereiro às 15:30
    Representação da União Europeia em Lisboa: Largo Jean Monet  -  Lisboa
    https://www.facebook.com/events/794058010673361/?pnref=story

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

DIAS SATURNINOS...


Sob a dominância dos escombros e dos dias gelados
Tacteiam os dedos a fina película dos muros
Em que a metamorfose da cal se desvanece
Como palavras gastas ou fomes caladas
Sem reverso...

Somos esta profusão de sombras por onde sobem
Como larvas tecendo o casulo e a teia nossas dores
Na amargura dos dias e no degredo das paisagens
Clarins sorvendo a alvura do silêncio
E sem nada mais restar que o sopro
E a inversão metafórica das vozes em polifónicos
Cânticos calcinados...

Nada sugere outra luz ou outra vibração
Que não seja o lusco-fusco e a palidez dos dias saturninos
Ou auroras de frio...

E no entanto o grito sufocado dos dedos
E os lábios gretados balbuciam inesperadas correntes
E águas soltas e margens extravasando percursos
Percorridos.

Subtis incandescências no topo das montanhas
Ou o delírio de pássaros
A balancear o voo...


Manuel Veiga - in "Poemas Cativos"


sábado, fevereiro 07, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LVI



Babilónia é uma flor sem tempo - imperturbável...

Uma leve brisa em redor faz agitar as águas. Mas o barco permanece afundado – como se nada fosse...

Hammurabi, o legislador, teima na sua teima – que o barco está salvo!...

Sir Tony, o dos sete costados, faz pressurosos diagnósticos. E acredita que a sua hora há-de chegar - mas nada diz da aragem em redor, nem do barco afundado...

A Praça diz que sim, ou talvez não – como de costume!...

Os babilónicos mastigam dores e desenganos – como se nada fosse...



segunda-feira, fevereiro 02, 2015

SINAIS DE FOGO...


 No dorso das coisas imperecíveis um frémito
Uma ligeira agitação como se invisíveis dedos
Profanassem sua quieta permanência...

Uma subtil ruptura tímida que oscila
Sem ser fenda nem passo. Ainda.
Apenas dança
A abrir-se
Em promessa
Contida.

E o palco. Aberto. Esquivo
Nesta espera.

Sinais de fogo
Em luta corpo a corpo
Entre a fria noite
E o claro dia
A (re)fazer-se ...

Manuel Veiga