sábado, janeiro 31, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LV


Babilónia está exausta, mas é um alfobre de magos - das Finanças!... E no top do topo, Hannibal, o “perentório”!...

Ainda está para nascer, perentoriamente, quem como ele saiba vender “lebre por gato” (ou “gato por lebre”, conforme os tempos).

Que o digam os espoliados da sábia sentença do Mago – que eram pepitas de oiro (ou dádiva do Espírito Santo) os excrementos do “Pássaro Verde” que infectam a cidade...
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A Praça agita-se. E os babilónicos entreolham-se, incrédulos. O “peremptório” mastiga em seco - e dá o dito por não dito.


sexta-feira, janeiro 30, 2015

terça-feira, janeiro 27, 2015

POSTAL DE ATENAS...


Generosos são os deuses que tecem filigranas
No corpo da noite...

Sempre ali estiveram as ilhas. Meus olhos
É que tardaram nessa bebedeira do sonho...

O voo é esta reclinação do tempo. Dispo-me
De mim e mergulho no magma. Como outrora
A cobiça dos impérios criava tempestades...

Pepitas luminosas no colar de Athena
As ilhas sempre ali foram. Homens e impérios
As profanaram no impudor da guerra. E no delírio
Das vitórias.

Gargantas bárbaras por onde escorre vinho
Generoso. Subtil veneno que entorpece
Como lento remoer da insubmissa espera...

Sou herdeiro desta miragem. Da infinita doçura
Que sara os golpes. E da mão que vinga.
E do apolíneo gesto que rasga a pedra.

E do bronze da história que clama.

E que reclama...
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Regresso agora. Ítaca reinventada. Pátria minha.
Ferida aberta...


Manuel Veiga – in “Poemas Cativos”


sábado, janeiro 24, 2015

sexta-feira, janeiro 23, 2015

QUE A PALAVRA SEJA INÓSPITA...


Talvez o caos seja apenas a rosácea
Antes do fogo que os dedos tecem no cinzel
E a pedra seja absurda permanência da forma
Em si fechada...

Talvez a poalha do tempo fecunde novas cidades
E as ínfimas coisas se ordenem e expludam
Como corolas em delírios de cristal...

Talvez a vontade dos homens seja excesso
E rasgue as veias das galáxias
E o surdo rugir do mundo inunde a consciência
Dos escravos...

Talvez a Palavra seja inóspita
E os hinos sejam a derrocada das muralhas...


Manuel Veiga – in “Poemas Cativos”

terça-feira, janeiro 20, 2015

NO LIMITE DA PALAVRA...

Para além do Além. No limite da Palavra
Onde o sentido colapsa. E desamparado é partícula.
Ou onda. Ou centelha estrelar.
Ou combustão fria...

Nesse território inacessível em que o Verbo
Se faz Desígnio. E as imaculadas coisas
São apenas o expectante barro das origens.

Nessa caligrafia selvagem do Fogo
No íntimo da pedra. Antes da sarça.

E na inocência dos sinais (pre)nunciados
 - Arrepio de prazer, tempestade ou grito –
Primeiríssimo acto de nomear o Outro. Em que Luz se faz.
E o Tempo se ergue para além das Trevas
E dos Abismos...

Nesse mágico momento de parto da Memória
E o Desejo é Dor. E História. E mar revolto.
E rapto. E a Montanha grito.

Arrebato meus grilhões de poeta acorrentado.
E ergo-me. E tombo. E derramo meu sangue.
Faminto.

E dissolvo-me na Voz que solto.
E no rumor da Palavra em que me digo.
E comungo a Hora. Infecta. E o destino
Dos homens. Demiurgo.

Manuel Veiga
  


sexta-feira, janeiro 16, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LIV


Havia em Babilónia uma “Passarola”. Que voava, voava... - e levava os babilónicos pelas “sete partidas do Mundo”...

Um dia, o deus “Mercado” murmura ao ouvido de Hammurabi, o legislador, que a ufana “Passarola” não passa de uma carroça desconjuntada - que Hammurabi se apresta, então, a vender, conforme a inspiração divina...

Sem que, ao menos, os babilónicos saibam por quanto...

E manda dizer por um “ajudante” que permanece azul o céu de Babilónia – os babilónicos bons continuarão na “Passarola” e os maus serão defenestrados...
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E este vosso escriba, roído pela úlcera – “que outro nome se poderá dar aos filhos de uma cadela”?...

terça-feira, janeiro 13, 2015

UMA MANTILHA SOLTA...


O vento. Um nome.
Uma mantilha solta. Sem outra cor...

Apenas a pele. A letra soletrada.
A flor estendida. A oferta.
E o carmim do beijo antes dos lábios...

Apenas o gesto. Não a pétala.
Nem a rosa profanada...

Apenas brisa em mão aberta.
E um raro perfume escondido. E o sonho da montanha.
Trepando. E o lago dos olhos. Alagando-se...

Apenas um rubor mal desperto.
Ainda...

E este alvoroço da tarde
Em azul aberto. Que de tão ténue
Resiste...

Manuel Veiga



sexta-feira, janeiro 09, 2015

SOLTO TUAS BÊNÇÃOS...


A tua bênção, Pai
Antes que as margens se afastem infinitamente
E o rio seja o turbilhão de lava
Frio de nada...

Calo a lágrima
E beijo a terra na ubérrima mão
Do que por ti fomos
E das lonjuras que logramos...

Na flor tatuada dos dias
E na vara do tempo onde gravamos solstícios
E os nomes
E as sombras
Entrelaço a folhagem do carvalho
Em tua fronte
Como templo...

E soletro o frio
E a amargura da Hora
E calo o peito...

E ergo-me
Medianeiro
Encruzilhada de torrentes e dos invisíveis fios
E da seiva que somos...

E evoco os caminhos
E a voz do sangue
E os passos que são
E os passos que se anunciam...

E solto tuas bênçãos
Na carne da minha carne
E no sorriso da criança com teu nome:
  - António.

Manuel Veiga


quinta-feira, janeiro 08, 2015

INTEGRISMO(S)...



“Entretanto, não é despiciendo que a Humanidade no seu todo, se me for perdoada a redundante tautologia, colha mais esta sangrenta lição que aponta para a urgência de progressiva e incessante diminuição das assimetrias que, no mundo todo, geram os pântanos insalubres onde medram tão abjectas criaturas como aquelas que ontem, em Paris, dispararam infamemente contra homens desarmados, cujo único senão era o de pensarem de modo diferente...”
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O texto é de meu amigo Jorge Castro em Sete Mares




quarta-feira, janeiro 07, 2015

Yves Montand - Paris Canaille




"JE SUIS UN PARISIEN..."

segunda-feira, janeiro 05, 2015

DE NOVO A MONTANHA...


De novo a montanha e o gesto amável de colhe-la.
Gregoriano o canto. E a ave o abismo. E meus olhos
A flutuação da brisa. Cegos na imensidão da cor
Em que se despenham...

Estendo os braços. E o sol desbotado é eco
Que devolve o prodígio. E os inaudíveis sons
São o bailado da memória. Fio de água a desenhar
A paisagem cá por dentro.

E a pedra-parideira e o teixo. E o tempo destilado
Gota a gota. Ruínas e calcário que se negam.
E se condensam. Fogo que circula
No interior da pedra...

E a poeira líquida – fios de prata por onde escapa
A flor sem nome.
Tão frágil
Que hesita
E se verga
Como se a hora
Fora plena.

E a gloriosa tarde fosse eterna...


Manuel Veiga




domingo, janeiro 04, 2015

sexta-feira, janeiro 02, 2015

NOTICIAS DE BABILÓNIA LVIII


Percorrem Babilónia tempos estranhos...

É necessário que os poderosos sejam presos para a Praça se indignar com a iniquidade das prisões – “aqui-d´el-Rei que os direitos humanos são violados!...”

Promove-se então a peregrinação e o culto – “gramática” de uma narrativa para iniciados, visando a “salvação” (moral?) dos prisioneiros (poderosos).  

E o “Espectáculo” devolve a imagem invertida da realidade – os babilónicos comovem-se e querem acreditar que a Justiça é igual para todos!

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E um jornalista calejado e um pouco cínico: “Fosse todos os dias preso um poderoso e teríamos um sistema judicial mais justo...”






quinta-feira, janeiro 01, 2015

COLHE A DIFERENÇA SUBTIL...


Vicejam flores em teu regaço?
Espalha-as em qualquer terreiro ou tece grinaldas
Na fronte curvada dos vencidos...

Como o perfume de rosas
Derramado nos espinhos -
 - Coroa que se rasga em dor no corpo insano...

E de permeio...

Colhe a diferença subtil da perda
(ou daquele ganho) – que a hora passa!


Manuel Veiga – “Poemas Cativos”