domingo, dezembro 28, 2014

EM LOUVOR DE LYDIA...


Em seu desenfado no Olimpo jogam os deuses aos dados
E concedem-nos esta hora...

Ergamos a taça. E celebremos, Lydia!...

A flor que colho poderia não ser.
Bastaria que outra fosse a cor
Com que enfeito teus cabelos...

Mas os cabelos são loiros e vermelha a flor.
Isso nos basta!...

Recolhe pois a inquieta ruga. E o arrepio.
Que o Universo é apenas filosofia.
Uma infinita forma abstracta por onde descemos
Até ao rio que nos leva
E a brisa que nos guia...

Entrelacemos os dedos, Lydia!

Que o rosto dos homens é frágil tela
Por onde a Sombra perpassa.
E a água se derrama e se mistura
Com a cor das dores
E da alegria...

Beijemo-nos!

Que a hora passa, Lydia,
E a tarde cai.
E há fios de Sol
A bailar em teus cabelos.
Ainda!...

Manuel Veiga

Nota – Como se sabe, Lydia é uma criação literária de Ricardo dos Reis.
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Votos de Bom Ano!...
Carpe diem!




sexta-feira, dezembro 26, 2014

SUAVES SORTILÉGIOS...


Falam-me estes dias de suaves sortilégios
Quando os olhos sorriam na ternura de um afago
E teu regaço, Mãe, era altar e refrigério…

Não havia profusão de cores. Nem artificio.
Tudo se resumia à singeleza de teus dedos
Ajeitando o musgo sobre a pedra.
E a imaginada gruta onde construías o milagre
Aninhando-se em mim: – Deus menino!...

Que o outro Menino era apenas pretexto.
Natal que tu não sabias, então, Mãe, mas eu sei.
Hoje!...

E em que incréu teimo!...

E a mãe celeste era a amorável devoção
Com que enfeitavas o caminho. E deitavas
Nas palhinhas o meu olhar deslumbrado
E o doce encantamento…

E a liturgia imaculada do presépio!...
E esta eterna dor da ausência. E tua presença
Iluminada que pressinto em cada passo!… 

Manuel Veiga  

terça-feira, dezembro 23, 2014

sexta-feira, dezembro 19, 2014

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXVII


“Gloria in excelsis Deo...”

Gosto de pessoas. Por vezes próximas, respirando ao mesmo ritmo!.. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nada que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que exigem que os soltemos, de tão intensos...

Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!...

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue. O cepticismo cria raízes e uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surge tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada que humaniza e reconforta. Que nem sempre estamos disponíveis para ver e que, outras vezes, guardamos como refrigério de alma...

Falo-vos de uma viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré. Na curta distância, cenas dignas de um pintor impressionista - o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta. Nada que seja diferente de outras viagens.

Até que...

Uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face as intempéries e os balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!)

Acomodou-se a “minha" jovem Madalena (era, de certo, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse a sua novel maternidade, a jovem soltou o seio da blusa (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dádiva!

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Vi ternuras caladas e inesperados silêncios. Vi orações pagãs em cada sorriso!...

E, em época natalícia, a minha alma ateia, entoou um cântico de vida - "Glória in excelsis Deo!..."

Manuel Veiga  


FELIZ NATAL!...



quarta-feira, dezembro 17, 2014

terça-feira, dezembro 16, 2014

CURVAM-SE OS DIAS...


Curvam-se os dias. E no declive
A íntima inquietude de meus passos...

Amável embora a sombra espraia-se
Em azul neutro. Névoa desprendida
A derramar prenúncios. Quase tímida.
Dulcificando a erosão da cor e abrindo-se
Vagabunda ao seu destino espúrio...

Sem alardes. Que nada pode a subtileza do voo
Nem a coada luz da nuvem...

Apenas a rota das trevas e a imanência do sopro
A moldar a curva e a frágil senda
E os calcinados sonhos
Do poeta...

Manuel Veiga



segunda-feira, dezembro 15, 2014

sexta-feira, dezembro 12, 2014

FLAMEJANTES OS MASTROS...


Flamejantes os mastros. E as colinas.
Em nuas confluências
De abraços. E de pétalas...

Derramam-se na cidade rios e memórias.
E soltam-se os poetas. E os murais...

Em gesto largo sobre o gume dos olhares
Maiakóvski – vindo de um Futuro grisalho
De saudade e de tanta persistência! –
Abre-se no palco...

E grita em seu jeito gutural e bárbaro:
-“Este é o meu Povo. Ainda!...”

A seu lado, a Mulher de Vermelho
Solta a lágrima da fome
E a criança loira das espigas...

E
- Palavra de cristal em riste! -
Arranca os olhos e rasga-se em febre
E pitonisa inflama-se na língua e nos prenúncios  
E ergue-se na aurora dos dias que hão-de vir...

Na densa nuvem alvoroçada
A multidão ignara ri e chora...

E um velho caminheiro alquebrado -
De fadigas e da idade - sobe então ao mais alto dos mastros
E ascende em lume o rubro das bandeiras...


Manuel Veiga


terça-feira, dezembro 09, 2014

Corrosão da água sobre a pedra...


Derrama-se a palavra no corpo da escrita
Sem mais nada.

Leve fissura apenas. Milimétrica.
A imiscuir-se na tensão da espera. Como se arqueologia fora.
A corroer por dentro
Sem plano
Ou guia...

Mistura dissolvente. Benigna.
Corrosão de água sobre a pedra.
E alquimia do verso fugidio
E do incauto morfema...

Como se a inesperada espera fosse
Bicho alado. Já não apenas pedra.
Inquietação do poeta a engendrar 
As cores do poema...

E a dissolver a água e a pedra
Nas dores da hora.
E na escrita maior
Do Mundo!...


Manuel Veiga

domingo, dezembro 07, 2014

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXVI


Mais que “case study”, Babilónia é um caso estudado...

Hammurabi, o legislador, com o mar a bater na rocha, dos babilónicos faz alegres mexilhões...

Vende anéis e os dedos – e garante que os “vistos de oiro” são a salvação da Pátria...

A Praça encolhe os ombros. E, ávida, sorve o grande Espectáculo. Que as atribulações da justiça e os média alimentam - "sabidamente..."
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E uma ostra empedernida, com o Futuro no ventre: “Babilónicos mergulhem fundo e aguentem as ondas – não há parto sem dor, nem amanhãs sem trabalho...”

quinta-feira, dezembro 04, 2014

SÃO DE BRUMA OS TEMPOS...


São de bruma os tempos. E de barcos destroçados.
E gemidos que os escravos embandeiram
Como hinos...

São de bruma os tempos: apocalípticos...

Nas galés os cães devoram-se nos restos
E os sacerdotes queimam as vestes
E cobrem-se de cinzas
No interior das praças...

A cidade treme: são de bruma os tempos!...

No céu baralham-se as estrelas.
E as bússolas rasgam o norte no ventre das pedras
E na sede dos homens.

São de bruma os tempos!...

E nas inesperadas sarças
E no cume das montanhas
E no sol encoberto ainda desta aurora
E no vento de todas as profecias
E na insubmissão do grito
E ardor de todas as batalhas

E no azul das crianças famélicas e nuas
E na enxada de esperança
E nas torrentes da memória
E nesta safara...

São de bruma os tempos: ainda!

E planto a dor. E a bruma. E minha árvore – fio de água -
E minha palavra avara.
E celebro.
E rasgo.
E ilumino.

E proclamo da alvorada dos tempos
A fecunda claridade
Dos dias peregrinos.


Manuel Veiga


terça-feira, dezembro 02, 2014

Do Fim da História à Rarefacção dos Acontecimentos...


Estamos confrontados – dizem os historiadores – não com o fim da História, mas porventura com algo mais catastrófico, ou seja, com uma espécie de “rarefacção dos acontecimentos” perante a qual a história se tornou impossível.

Explicitemos esta ideia. Com a queda do Muro de Berlim e a falência do sistema soviético, o capitalismo “canibabilizou” todo o sentido de negatividade. Onde até então existia dialéctica ergue-se agora um percurso de sentido único. Onde até então a densidade dos factos se projectava nas consciências e empolgava militâncias, hoje os factos despenham-se na sua profusão e nos efeitos especiais com que a comunicação social os apresenta, banalizando-os, encharcando o quotidiano com marasmo do idêntico por toda a parte.

Na política, na cultura, nos média, na moda e até nas próprias causas que, mesmo quando se apresentam como “fracturantes”, são as mesmas, seguindo o mesmo padrão de sentido único...

Hoje, tudo se passa em tempo real. Já não há mais lugar à verdade real dos acontecimentos. Tudo se resume agora à coerência dos factos, imediatamente apreensível no alinhamento dos telejornais. Sabemos tudo, a toda a hora, na espuma do quotidiano...

A história fica paralisada, não por ausência de acontecimentos, mas pela lassidão das consciências, empanturradas de informação. As chamadas maiorias silenciosas, a imensa indiferença das massas humanas, a falta de mobilização cívica têm certamente diversas explicações. Mas a inércia social não resulta seguramente por falta de motivos para acção cívica e política...

Nesta espécie de auto dissolução da história, todos os mecanismos da democracia política se degradam. E, nessa degradação, se precipitam valores políticos, cívicos e morais. As próprias exigências do exercício da liberdade e de respeito dos direitos do homem não passa de um simulacro.

“A democracia planetária dos direitos do homem está para a liberdade real está como a Disneylandia está para imaginário social” – escreve Jean Baudrillard num livro célebre (A Ilusão do Fim – ou a greve dos acontecimentos).

Se com o colapso do sistema soviético, o capitalismo devorou, como uma paródia universal, a dialéctica e a história, ao assumir todos contrários, numa grotesca síntese sem alternativa, é porque, na sua veleidade de dominação totalitária, devora a própria substância do ser humano para o reduzir à sua essência de ser produtivo...

Salva-se, porém, a cultura da liberdade e dos direitos do homem! Mas salva-se?...

Que os digam os milhões e milhões de “gente descartável”, que à escala planetária são afastados, como excedentes (mercadoria, portanto) do processo de produção e de consumo.

Que o digam as prostitutas na Tailândia, os índios no Brasil, os escravos na Mauritânia, as crianças e as mulheres em Ceilão, no Paquistão ou na Índia! Que o diga África! Que o digam, nos Estados Unidos da América, os muros de milhares de quilómetros electrificados e a vigilância electrónica (e os rifles) apontados aos emigrantes mexicanos!...

“Da liberdade já só resta a ilusão publicitária, isto é, o grau zero da ideia, a que regula o regime liberal dos direitos do homem" (...) – exclama o autor referido, ou seja, “a promoção espectacular, a passagem do espaço histórico para o espaço publicitário, passando os média a ser o lugar de uma estratégia temporal de prestígio...”

Construímos a memória síntese dos nossos dias, mediante a profusão de imagens publicitárias que nos dispensam da participação dos acontecimentos realmente transformadores da vida e da sociedade

Nesta antecipação publicitária, se canibaliza o futuro e se procede à reciclagem dos "detritos" da história e dos mitos. Também os pais fundadores da nação norte americana, em nome da liberdade, permitiram a escravidão!...

Resta-nos a convicção que, ao longo dos tempos, sempre os escravos se revoltaram... E que, em seu "surdo ruído", a História prossegue seu caminho.

Bem se sabendo quão duras são suas dores...


Manuel Veiga