segunda-feira, março 31, 2014

OS LIVROS DA CRISE...


Gosto de me mover no meio de livros. Um ritual que, por alguma qualquer razão, me apazigua. A verdade é que sempre gostei de livros, (mesmo antes de o saber), desde que, maternalmente, aprendi a soletrar as primeiras letras, em jornais atrasados, ou outro qualquer papel, servindo de cartilha.

De facto, existiam poucos livros lá em casa, nos tempos da minha meninice. Apenas, na estante do oratório, debruada a linhos e bordados, como sacrário que se oferecia, no gineceu da casa, a femininas devoções e novenas, uma Bíblia já gasta e um precioso “Livro de Horas” de capa lacada. Ou algumas biografias de santos com folhas soltas e rasgadas e outras publicações religiosas, herdadas de tias de piedosas.

Talvez o gosto pelos livros provenha daí, desse afago quente e cúmplice das primeiras letras e dessa inacessibilidade primeva ou do deslumbramento infantil perante a iconografia daquele santuário familiar.

Seja como for, hoje, os livros mantêm uma espécie de aura, que gosto de frequentar. Ao longo da vida tenho adquirido alguns, não tantos como por certo desejaria, mas bastantes para ter a certeza que muito deles não terei tempo para ler.

Ultimamente, surpreendo-me a adquirir livros como quem faz testamento. Isto é, como quem deseja que, depois de mim, fique o registo de que de mim fale, na falta de outra glória, riqueza ou talento que me acompanhe. E tenho esperança que os livros serão lidos. Será, de alguma maneira, a minha forma de moldar o futuro...

Sabem, por certo, os meus amáveis leitores que Jorge Luís Borges, num conto fantástico (A Biblioteca de Babel), afirma que o Universo é uma Biblioteca por onde peregrinamos em busca de um livro (ou será o Livro?), mas a biblioteca é interminável. Não ouso assomar sequer, quanto mais percorrer, os escaninhos labirínticos da Biblioteca de Borges, mas não me coíbo de passar os dedos pelas lombadas dos livros ao meu alcance, leve que seja o desejo e o entendimento.

Deambulo, portanto, sempre que a ocasião se proporciona, pelas livrarias; não com a pretensão de um dia encontrar a decifração da verdade, mas em qualquer caso, para procurar algum alento contra a mentira.

E, nestas peregrinações, me vou gastando e melhor conhecendo o Mundo...

Há alguns anos a esta parte, surgiram em Lisboa, em algumas estações do Metropolitano espaços de venda, onde os livros se derramam numa espécie de bric-à-brac horizontal, como se um capricho invisível tivesse apeado a imponência majestosa das velhas livrarias e a Biblioteca de Babel fosse, já não a infinita cornucópia labiríntica de que fala Borges, mas antes a rasoira implacável do deus-consumo, que tudo expele e degrada. Até os livros...

No entanto, nesses espaços de reciclagem, por entre restos e lixo editorial, descobre-se, por vezes, uma pérola ou outra, que como caçador de tesoiros me gratifica e conforta, breves que sejam os momentos...

Na sequência de uma dessas incursões colhi um singelo apontamento do quotidiano, que passo a narrar, um quase-nada, um pequeno detalhe tão denso de significado que, como breve centelha de esperança, ilumina a vida e preserva intacto o futuro. Pelo menos perante meus olhos, nunca cansados de deslumbramento e de surpresa...

Ora vejam...

Foi uma tarde de Domingo, pelas 16 horas da tarde. O centro comercial, regurgitava. Massas humanas atropelavam-se numa moleza de autómatos, nas escadas rolantes e nos espaçosos corredores, espreitando as vitrinas e mastigando a angústia e o vazio. Crianças pela mão, exigentes nas solicitações, que as coloridas promessas, ali à mão, se ofereciam nas lojas e no esplendor dos enfeites...

E os pais, sabe-se lá qual com que mágoa: “Não pode ser, não pode ser...” – puxando pelas crianças lacrimosas, num gesto de impaciência mal contida...

Rumei, pois, nas minhas deambulações. E, em breves instantes, deparei-me com um desses espaços de venda de livros, onde entrei, não sei bem se para aplacar a angústia da tarde, se arrastado pelo hábito. Tive sorte. Dos escombros em saldo, por entre publicações de erotismo de pacotilha e outras esotéricas com promessas de felicidade futura, veio parar-me às mãos o volume que me faltava da obra de um dos grandes vultos da cultura europeia do século XX.

Dei o dinheiro (cinco euros) por bem empregue. E, saboreando a minha descoberta, dirigi-me a caixa. À minha frente, na fila de pagamento, o momentâneo prodígio. Um jovem, com menos de trinta anos, manifestamente de formação académica superior, de ténis gastos e roupa poluída mas de bom gosto, rosto marcado e expressivo, olhar firme e magoado surgiu, perante no meu espírito inquiridor, como um digno exemplo da geração dos € 500 euros, não sei se no desemprego, se aguardando a oportunidade de emigrar.

Insisti  em olhar, o que manifestamente o incomodou. Mas então a minha curiosidade já se deslocara. O centro agora era a doçura de criança como menos de três anos, loira e encaracolada, que segurava pela mão. Falava pelos cotovelos a rapariguinha. E perante o meu mal contido desvelo e meu sorriso babado, a menina estendeu-me um dos livros infantis do monte, que segurava com dificuldade: “O papá compra!...” - esclareceu-me em seu linguajar...

Vinte euros! - anotei no registo da máquina. O preço da felicidade de pai jovem e desempregado. E de uma filhinha linda...

Só pela sede se aprende a água...” – balbuciei intimamente, apaziguado e comovido.
 
 

sábado, março 29, 2014

Samuel - Llanto para Alfonso Sastre y todos




COM UM ABRAÇO AO SAMUEL PELA GRATA EMOÇÃO DESTA TARDE
A CELEBRAR O 40º ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO DE ABRIL...

sexta-feira, março 28, 2014

Tempo em que os poemas colapsam...


Quer o poeta poema distendido
Saltitante melro de galho em galho
Em seu canto enamorado…

Ou amáveis pombas afagando a asa
A debicar o sol de inverno…

Ou carmesins lábios mordiscando o bago
De promessas primevas…

Quer o poeta mas os olhos são água
E a palavra ferve na escuridão da sarça
Impotente em seu clamor de claridade…
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Ó deuses, funestos dias de hoje
Em que os poemas colapsam
E os milhafres sobrevoam a cidade
Assombrando o coração dos homens!...

Manuel Veiga

domingo, março 23, 2014

QUEM A TAL DESTINO SE ATREVE....


Quem da montanha guarda os percursos
Que os deuses trilham em sinfónica incandescência
E de tão voláteis se despenham
Na lonjura sem outra vibração ou rasto
Que os detenha...

Quem dessa memória suspensa
O fio dos dias enfeita
E se consome como água
Através da seiva...

E se mistura
Na crisálida como seda ainda pontiaguda
Bicho alado na babugem e na tensão antecipada dos afagos
Ou no registo solene dos baptismos...

Quem a palavra celebra
Como matriz de todos os nomes
E de todos apenas retém a inconformada espera
E a inominada ardência
Que ilumina todas as dores e a surpresa...

Quem a tal destino se atreve

Abre o peito ao pulsar dos dias
E no debruar das horas ainda cinza
Sopra o inquieto fogo que incendeia a sarça
E se consome na miragem como dunas ao vento
Ou sorriso de escravo antes das grilhetas.

Manuel Veiga

 

 

sexta-feira, março 21, 2014

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LIV


Sem futuro à vista, Babilónia realiza-se em bravo e galhardo torneio - de adjectivos!...

No campo de Hammurabi, “sir Trampolineiro” solta a categórica proclamação: “decisão irrevogável”- preste esquecida!...

No campo anti-Hammurabi, “sir Tozé, o Inseguro” investe com o formidável grito: “insuperáveis divergências!”; e manda dizer, por um de seus pajens, que com ele tudo ficará na mesma – os babilónicos que se cuidem...

Do alto do trono, em Merkelândia, a Imperatriz concede-lhe um breve aceno – bem sabendo ela da Substância dos contendores e das regras do simulacro...
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E o espectro de um sábio herético, sobre a Praça: “... E, no entanto a Terra move-se! – Babilónicos, mudem de órbita e... de ritmo!...”

 

 

quarta-feira, março 19, 2014

sábado, março 15, 2014

Gota a Gota, o Calcário...


Gota a gota o calcário na persistência da água
Inaudível música a inundar o interior da pedra
Antes da forma...

O furor das catedrais são meus olhos
E as linhas que precedem a condensação das horas
Ainda fluidas...

E os invisíveis dedos no rosto das coisas
Que amadurecem na vibração das tempestades
Adormecidas...

Nada é eterno. Nem a voracidade das chamas
Nem o colapso dos gelos, nem a sedimentação dos dias
Nem o esplendor de montanhas sagradas...

Apenas o vigor de cada forma em novas formas.
E a infinita permanência do Sol. E a precária vontade
Dos homens...

E o adejar do poeta derretendo as asas...


Manuel Veiga

domingo, março 09, 2014

ASSIM FORA O MUNDO...


 Na linguagem primordial das coisas simples
Tudo flui na alegria de existir sem metafísica...

A flor abre-se ao sol
A pedra afeiçoa-se à montanha
E os pombos catam “o piolho da existência”
Exibindo as asas em festiva celebração
Sem cuidados...

Assim fora o Mundo
E a minha inquietação...

E a noite dos proscritos. Assim fora...

E aridez de todos os desertos.
E as dores. E todas as devoções
Das almas simples...

E a reabilitação da Palavra profanada...
E todas as leis. E todos os mistérios
Assim fossem – alento breve
Na consumação dos dias...

Manuel Veiga

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Uns breves dias ausente do vosso convívio.
Beijos e abraços.

terça-feira, março 04, 2014

PORTA EM PORTA, CAMINHEIRO...



Talvez neste horizonte breve o fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no íntimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul...

Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.

O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco dos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.

Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta em porta, caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo.

E clamo: “Casa em que me guardo.
Terra quanta vejo!...”

 
Manuel Veiga

 

 

sábado, março 01, 2014

ADRIANO ERGUEM SE MUROS


NOTICIAS DE BABILÓNIA LIII


Em Babilónia, o barco continua atascado e sem maneira de arrancar.

Hammurabi, o legislador, empolga-se a jogar dados e na escolha dramática  de “saída suja, saída limpa”. Agora, em nova configuração “duro ou brando”...
 
Anti-Hammurabi, o inseguro, “caça borboletas” - diz quem sabe...
 
A praça boceja...
 
Os babilónicos “aguentam e preparam as costas doridas para mais pancada...
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E um velho trovador, ídolo de outras épocas: “Fazei-vos ao mar, babilónicos, antes que sequem os rios”...