sábado, março 30, 2013

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA 15



Havia em Babilónia uma floresta. Onde se acoitavam lobos e
outras feras...
 
A alcateia, um dia, expulsou um “animal feroz”. Com
aplauso dos babilónicos, vítimas de sua autoproclamada
ferocidade...


Agora regressou animal ferido. E clama aos deuses vingança
 – que o golpe fatal viera de um coiote escondido nos
arbustos!...
 
Os babilónios, que cultivam memória, murmuram: “Quem
não quer ser lobo, não lhe veste a pele...”


Hammurabi, o legislador, engole em seco e disfarça: “Deixem-me trabalhar...”
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Votos de Boa Páscoa!
E não se atemorizem com animais ferozes...
 

terça-feira, março 26, 2013


Uns breves dias ausente...
 
Deixo-vos em boa companhia!

domingo, março 24, 2013

FUMO BRANCO, FUMO NEGRO...



Ateu e “herético” (graças a Deus!) que não recusa a sua herança cristã, atrevo-me a afirmar que a mais poderosa contribuição da Igreja Católica para o avanço da História será ter conseguido domar a “animalidade” da espécie, mediante a sublimação da sua natureza pelos “dons” da fé.
 
Aliás, tenho para mim, que aquilo terá sido um admirável “feito”, constituirá também um enorme, senão o seu maior “defeito”. E, talvez por ter sabido ultrapassar essa e outras contradições, a Igreja Católica, tenha garantido o estatuto, de “especialista em Humanidade”, como alguns pretendem.
 
Explico-me melhor. A igreja católica é uma poderosa instituição de poder. Não enjeita, como se sabe, a inefável atracção pelas delícias do poder temporal, que aliás ao longo dos séculos lhe permitiu acumular vastíssimo património. Mas é sobretudo, como “poder espiritual”, ou seja, como aparelho de dominação ideológica, que a igreja católica realiza a sua vocação mais visível.
 
Em termos simples pode dizer-se que uma qualquer ideologia (religiosa, moral, política, jurídica, etc.) corresponde a uma determinada “visão do mundo”, que, no entanto, não têm correspondência com a realidade concreta e a vida real dos indivíduos.
 
No dizer dos autores (Althusser) não são as condições da sua existência real que os homens se representam na ideologia. Mas esta é antes uma “relação imaginária” dos indivíduos com a sua vida real concreta; ou seja, as relações sociais que governam as condições de existência dos homens e a sua vida individual e colectiva, são “desfocadas” pela mediação da ideologia, que apresenta assim uma natureza ilusória, para não dizer fantasmagórica.
 
A ideologia, corpo de representações imaginárias das relações materiais de existência dos indivíduos, detém, por isso, força e expressão material, pois que a “ideologia existe sempre num aparelho e na sua prática ou práticas”, que como se compreende têm natureza material. A ideologia “fala por actos e rituais”...
 
Vejamos sinteticamente como funciona a ideologia. Os indivíduos concretos, impregnados de uma ideologia determinada, máxime a ideologia religiosa, são interpelados como “sujeitos”. Tal significa que, mediante a ideologia, o indivíduo concreto se eleva à “categoria de sujeito”, numa dupla acepção – como sujeito titular de direitos de personalidade (ideologia jurídica) e como sujeito de “reconhecimento ideológico” mediante o qual toda a ideologia em geral se constitui e o sujeito se faz “evidência” no reconhecimento pessoal do respectivo nome.
 
Como é evidente (a função da ideologia é criar evidências) todos os indivíduos são sempre e agora sujeitos. E transportam, desde logo, a “marca ideológica” do nome (valores familiares, sociais, religiosos, políticos, etc.) que os distingue. E, por outro lado, interruptamente, praticam rituais de reconhecimento (ideológico) que transformam cada individuo concreto em sujeito inconfundível e insubstituível.
 
Assim, mediante a impregnação pela ideologia, os indivíduos concretos, estes agora sujeitos, “caminham sozinhos. livremente...”. No caminho e no sentido que a ideologia lhes traça, evidentemente...
 
Importa ainda esclarecer que a multidão de indivíduos que a ideologia “recruta” para os elevar à categoria de sujeitos, tem como absoluta condição a existência de um “Outro Sujeito”, um “Sujeito Absoluto e Único”, que fundamente e escore toda a “maquinaria” do funcionamento da ideologia, quer esse Sujeito Maior se chame Deus, Estado, Família, Partido político, Sociedade, Escola, Moda, Desporto, etc.
 
E era aqui que se pretendia chegar.
 
“Em nome do Pai” que a todos interpela como filhos, a ideologia cristã, na herança aliás da cultura greco-romana, elevou o individuo gregário à dignidade de pessoa (“à imagem de Deus”), com as inquestionáveis consequências no domínio das ideologias jurídicas (lembremos da ideologia “direitos do homem”) e políticas. E, neste aspecto, a Igreja Católica trouxe um inestimável contributo à emancipação da humanidade.
 
Sendo assim, onde então “o fumo negro”?
 
Na natureza opressiva, para não dizer repressiva, da ideologia religiosa. A ideologia religiosa é totalitária – envolve os sujeitos do nascimento até à morte. E mesmo depois dela... A liturgia religiosa, com seus rituais e práticas, vivifica a consciência do sujeito religioso, interpelando-o permanentemente, sem espaço para qualquer “desvio”. E ainda que provisoriamente se afaste, o sujeito religioso volta “ao redil” mediante a prática da confissão e do arrependimento...
 
Mas não é tudo. A Igreja Católica é uma Monarquia teocêntrica. Passou ao lado do século das Luzes e dos desenvolvimentos posteriores de conquistas sociais e políticas - basta recordar, por exemplo, a marginalização da Mulher, impedida de ascender ao mister sacerdotal.
 
A organização e funcionamento e toda a parafernália dos seus ritos e práticas da Igreja Católica obedecem, como se compreende, ao desígnio de auto-reprodução das suas condições de existência, afirmação e engrandecimento, numa lógica de conservação do status quo social. Isto é, funcionam no sentido de perpetuar as condições materiais de existência dos homens e a sua vida individual e colectiva, mediante a ideologia religiosa, que perante a infelicidade terrena promete a “salvação eterna”.
 
No outro mundo, naturalmente...
 
Seja como for, a Igreja Católica é uma poderosa instituição de poder ideológico. Tão poderosa que o Papa, chefe da Igreja Católica, se nomeia a si próprio – isto é, escolhe o nome pelo qual quer ser reconhecido pelo Mundo e pelos fiéis.
 
E, assim, num prodigioso efeito ideológico, o Sumo-Sacerdote coloca-se acima, ou fora, da ideologia religiosa para se revestir da natureza de Deus, “aquele que é” sem nome, mas todos os sujeitos (católicos) nomeiam, invocando-o. Daí toda a submissão à vontade de Deus pela voz Papa, quer dizer, o reconhecimento dos fiéis na infalível Palavra (ideologia) ministrada.

Como estranhar, pois, que perante a palavra do Papa e seus gestos os homens se verguem e ajoelhem? Livremente...

Que outro poder no Mundo?


Manuel Veiga


 


 

sexta-feira, março 22, 2013

 
 
 
 
ÓSCAR LOPES
2 de Outubro de 1917 – 22 de Março de 2013
 
 
 

segunda-feira, março 18, 2013

VENHAM MAIS CINCO...

Façamos um corrente poderosa e determinada!...


Desafiado pela Maria para integrar esta corrente, subscrevo por um elementar dever cívico.

Este governo atingiu um tal descrédito, que é aviltante consenti-lo mais tempo.

Passo a palavra para JRD e  PUMA  e a todos/as aqueles/as que queiram assumir esta corrente...

sábado, março 16, 2013

NOTICIAS DE BABILÓNIA - 14


Havia em Babilónia um flibusteiro. Credenciado pelo “Congresso Mundial dos Flibusteiros”...
 
Que deitava lume pela boca... E transformava o barro em oiro... E, se quisesse – como diziam seus prosélitos – com um simples olhar poderia derreter as colunas do Templo.
 
Alguns babilónicos pasmavam. Outros nem por isso...
 
Com o tempo verificou-se que o flibusteiro não acertava uma. E que as suas habilidades eram truques já gastos...
 
Sem barro para amassar, os babilónios desesperam...
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Apenas Hammurabi, o legislador, acredita na receita. E alimenta a feira...

sexta-feira, março 15, 2013

terça-feira, março 12, 2013

Soneto Quase Inédito - JOSÉ RÉGIO


 
Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno “sacrifício”
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

JOSÉ RÉGIO - 1969

Tão actual! Ainda hoje...

 

 

sábado, março 09, 2013

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA - 13


Na outra margem do grande rio vivia um estranho povo: amava seu líder – um corajoso guerreiro índio...

O seu carisma era tão grande que domava os ventos do norte e perturbava os manitus do grande Império. O povo idolatrava-o...

Sabia que, sob seu comando, seria sempre do Povo, o que o Povo tem direito – pão,  saúde, educação e uma vida digna... E o orgulho de uma Pátria livre!...

Os deuses levaram-no cedo – de todos os continentes chegaram homenagens.

Homens, mulheres e crianças saíram à rua, confiantes no seu exemplo: “Chavez, somos todos!...”- proclamam, firmes.
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Em Babilónia, Hammurabi, o legislador, isolado do Povo, anuncia novo corte nos salários...

 

quinta-feira, março 07, 2013

NO FERVOR DOS DIAS INESPERADOS...



Quando o vermelho se agita no mastro mais alto das cidades
E a flor da memória viceja no lajedo das tardes
E os cânticos desfilam em gargantas ressequidas
Como marés de sal-gema em cristais macerados.

Por momentos a dor abate-se em flâmulas agigantadas
Como velas. Não moinhos, nem barcos – apenas o grito.
Ou o poema em trânsito.

A palavra então é interdita. Sobra porém o gesto. Agora.
E a humidade dos olhos. E o caudal de bocas indignadas
E o eco das canções. Que ardem...

E esta labareda de abraços.
E esta (des) esperança contrafeita. Mais que teima –
Rumor da história ou sobressalto de alma.

Sonhos e escarpas em cada olhar. E a miragem
No fervor dos dias inesperados...

 

 

domingo, março 03, 2013

NOTICIAS DE BABILÓNIA - 12

 
 
Havia em Babilónia uma canção. Tão prenhe de memória
que explodia em multidões...
 
Um dia, alquebrados, mas vivos, os babilónios ocuparam a
rua. Com fome de pão e de Futuro. E abarrotaram avenidas e
praças, num coro de estrofes e emoções...
 
Hammurabi, o legislador, confia a barba: “há que subir o pré
aos generais” - chegou tarde, porém – os generais estão
indignados...
 
Dizem alguns que os Escribas estão a mudar de campo. E
relatam...
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Um poeta cego e semilouco exclama: “que desabrochem
flores na ponta dos sabres”!...

sábado, março 02, 2013