quinta-feira, julho 26, 2012

EM LOUVOR DE LYDIA...

Foto Google

Sob os salgueiros derrama-se a cascata
Em serenidade absurda e indiferente
Como o regaço de Lydia...

E as absortas mãos dedilhando tédios
Nas coloridas pétalas em redor...

A metafisica é esta natureza morta
Que o poeta introduz na paisagem.

Porém, nada do que diga ou faça perturba
O momento que desliza triunfante
Na glória de puro acontecer...

Nem os lábios de Lydia onde germina
O mel e a fantasia...

Apenas esta febre destemperada
Como se o verão fosse eterna ceifa...

Ou a sede de água pura. Serenamente vertida
Em maceradas ânforas
Da memória...

Flores à beira-rio. Em teu regaço...


(Como sabem, Lydia é uma criação literária de Ricardo dos Reis - poeta clássico e epicurista)







 

terça-feira, julho 24, 2012

NO REINO DOS "FAZEDORES"...

Sobre a saga académica do ministro Relvas, estará tudo dito, consumado que está o velho brocardo de que “o ridículo mata”, ou talvez um outro, ainda mais adequado, que se traduz na ideia de que “quem não tem vergonha todo o mundo é seu”.

Não falaremos, por isso, da famigerada licenciatura, nem do “não acontecimento” que a óbvia vontade do primeiro-ministro desejaria remeter para as alfurjas mais negras, porventura, para as profundezas de um buraco negro, daqueles que o “Deus Criacionista” do seu ministro da Economia tem sempre à mão para evacuar as contrariedades cósmicas.ver aqui

Não falaremos disso, portanto.

Mas leio num qualquer jornal que o primeiro-ministro acossado pelas suas hostes, numa reunião partidária, para justificar o indefectível apoio ao ministro Relvas, terá dito que ele, o ministro - doutor da mula ruça e Relvas - era um doer!...

Quer dizer, na desembaraçada substantivação do britânico verbo “to do”, o Relvas seria, conforme que o encomiástico jornalista traduziu, um “fazedor”...

Seria banal, assim,  para tão ilustre personagem. Porém, a acentuada entoação british do vocábulo “doer” dá ao Relvas a dimensão de um verdadeiro émulo de Bernie Madoff, não vos parece? ...

E este pequeno detalhe, sim, interessa particularmente. Desde logo, pela pacóvia evocação da língua inglesa, na melhor demonstração de “inglês técnico”, hélas! Ou inglês das docas londrinas, não sei bem, pois os meus conhecimentos da língua não me permitem aprofundar.

Porém, é por demais evidente, que não havia necessidade: fazedor ou urdidor de intrigas e negócios seria perfeitamente adequado...

Temos assim que para o primeiro-ministro, o fazedor terá ainda muito para fazer. Ou dito de outra maneira, terá ainda muito para fazer “doer” ao povo português, seja no desmantelamento do poder local democrático, seja na entrega da televisão pública a interesses económicos privados.

E, sobretudo, irá continuar como lídimo representante de uma certa direita, que na articulação do fundamentalismo ideológico com os grandes interesses económico-financeiros, exerce o poder como se fosse um direito hereditário, torpedeando, com displicência, sobre as instituições, sempre que os seus objectivos políticos assim o reclamem.

A mesma ideologia que da pobreza faz mérito e virtude e considera o empobrecimento do País como redenção nacional, ao mesmo tempo que os beneficiários do Rendimento Social de Inserção são obrigados a trabalhar “voluntariamente”, não porque o trabalho seja factor de independência e autonomia individual de quem precisa, mas como castigo pela pobreza daqueles que ao subsídio se candidatam.

A mesma ideologia, afinal, que destrói a classe média, lança centenas de milhares nas falências, no desemprego e na miséria, enquanto nos gabinetes alcatifados se tecem os fios dos grandes interesses e se repartem benesses e o bolo das privatizações.

Estarei a exagerar? Mas então não é verdade que o Ministério Público está a “investigar a intervenção e conduta de alguns assessores financeiros nos processos de privatização da EDP e da REN”, com buscas judiciárias em escritórios e empresas “acima de qualquer suspeita”? Com os milhões das assessorias a serem distribuídos irmãmente. Como cães ao mesmo osso, presume-se...

Verdade seja dita que neste “affair” de negócios, mais que o Relvas, haverá a seráfica mãozinha do ministro das finanças, que terá imposto à Caixa Geral de Depósitos, os consultores de sua eleição e particular estima, conforme referem notícias da imprensa diária.

Seja como for, Passos Coelho, Relvas ou Gaspar, são fruta do mesmo cesto...

“O país vai de carrinho”, ai vai, vai... Olá, se vai...

E assim vai a vida, neste ilustre “reino de fazedores”...






  





sábado, julho 21, 2012

Crise Académica de1969_1ª Parte



que a terra te seja leve, ó Saraiva!...

sexta-feira, julho 20, 2012

NADA ESTÁ ESCRITO...


Na nítida proporção das coisas a matéria
Insinua-se nas asas dos anjos sobre a cidade sitiada.

Nada que os homens não saibam
Ou a que as esferas não se curvem
Em seu percurso frio e solitário.

Nada está escrito.

Apenas a soberana vontade dos famintos
Ou os sequiosos martírios de azul cobertos
De tanta esperança contrafeitos
Redimem este tempo de murmúrios sibilados.

Não a culpa dos inocentes. Nem as apóstrofes da guerra.

Tatuamos no rosto a letra escarlate
E dos proscritos vestimos a poluída túnica
E a carne macerada.

E bebemos este vinho pisado pelos homens...

E do pão da vida fazemos sarça
E ardemos no verbo inaugural
Que de tão ígneo se faz sémen

E explode na persistência dos anjos
Sobre a cidade sitiada...


terça-feira, julho 17, 2012

DE NOVO A MONTANHA...


De novo a montanha como gesto abrupto
Do silêncio íntimo. Percorro veredas d´ água
Subterrânea e o magma. E nesse fogo
Se condensam estalactites. Afectos agora
Evanescentes. Essências matriciais ainda...

Fecha-se o círculo. Em redor as brumas
E os rostos. E os cheiros. E esta pedra
Em que trôpego desfaleço. A febre quente.
E o suor frio. E o grito de alma que voa
Qual corrente. Veleiro sem regresso...

A vida? Esquivas corsas que de tão lestas
Se pressentem. E apenas no rasto se iluminam.
Fortuitas são as horas. Não o caçador negro
Nem o coração da pedra. Apenas a água
(E sal da lágrima) são lírios e são heras...

Guardo sôfrego este silêncio e me retiro.
O fogo é agora esta paixão: o eco de calcário.
E meus dedos brasa. Poeira e caliça. E muros
Derrubados. E esta centelha viva que na queda
Se derrama. Fim de tarde que ao sol se incendeia...












domingo, julho 15, 2012

SEARA NOVA nº 1720 - Verão 2012


Está em distribuição o nº 1720 - Verão de 2012

LEIA - ASSINE - DIVULGUE

in SEARA NOVA nº 1720 - Factos e Documentos


sábado, julho 14, 2012

"QUO VADIS, EUROPA?"...




Eduardo Lourenço - in "Público" - 12.07.12

quinta-feira, julho 12, 2012

Paint it Black - Vietnam War



Cinquenta anos de Rolling Stones...

quarta-feira, julho 11, 2012

MÍTICO REGRESSO, APENAS...


Granítica paisagem de meus olhos
Tão longínqua que assusta a águia
Em seu voo picado e a tímida giesta
Se embaraça na rocha sob o musgo...

Apenas o vento se atreve e o fumo
Tudo o mais é espaço e lume ardido...

O sol que das cigarras tem o canto
Guardado e nos raios acesos o delírio
De flores secas amarelo de tanto estio
Desce agora. E o horizonte esfarrapado.

Nuvens breves acenando lá ao fundo
E o mar como ausência além surgindo...

Pedras sobre pedras. Tão perfeitas formas
Que tombam ou se erguem sob invisíveis
Dedos como pássaros. Quixotescos castelos
Domados. Ou fantasmagorias na vertigem
Da noite dos tempos. Como a cruz solar
Dominando o cume na contraluz da tarde...

O templo é esta secreta pedra. Cravada
Como unha na montanha. Por dentro
Fechada e por fora o silêncio. E o lixo.
Agonizante festa que morde a rocha.

Restos. Saturnais em cinza quente ainda.
Ou fanada dança solta pelo caminho...

Somos o que somos. No íntimo círculo
Bem sabemos que estas antas são apenas
Reminiscências que eufóricos buscamos.
E o esboroado muro afeiçoada pedra.

E sofremos então a dor do teixo sob hera
E bebemos a água cristalina pelos dedos...

E nos fios de Penépole que nos prendem.
Sólidos. Somos o mar que agora se fecha.

Somos ilha. E o perfume do vinho raro
Que brindamos. E a tentativa destes versos
(Como abraços). Que não hino, nem poema.

Mítico regresso, apenas. Ítaca montanha.






domingo, julho 08, 2012

A "virgindade" política de C. Silva...

O Presidente da República, naquele seu tom empertigado, como se do alto das Pirâmides “a História o contemplasse”, declarou que (cito de memória) “nunca nenhum Presidente anterior vetou o Orçamento de Estado”, para dessa alegação fazer fundamento da abjuração ao seu dever jurídico (jurado) de defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República.

Neste sobressalto político que foi a declaração de inconstitucionalidade do Orçamento de Estado, por violação do princípio da igualdade no corte do 13º mês e do subsídio de férias aos pensionistas e trabalhadores da função pública, não falta quem veja, na decisão do Tribunal Constitucional, “uma vitória de Cavaco Silva” (“Expresso” – 07.Julho.12).

Nada que em verdade surpreenda – trata-se do aparelho de “reciclagem ideológica” a cumprir seu papel...

A verdade, porém, é que o episódio da inconstitucionalidade do orçamento, é uma derrota de Cavaco Silva e do seu Governo e, em minha perspectiva, deve salientar-se o seu significado, pois que, por muito custe a espíritos e a argumentos “elaborados”, constitui uma derrota prática da estratégia política de submissão aos desígnios liberais de redução do déficit, cavalgando sobre tudo e todos. “Custe o que custar!...” – diz o primeiro-ministro...

Afinal a Constituição da República ainda não é uma folha Excel com meia dúzia de números, que se seguem ou deitam ao lixo, mas o documento fundador da democracia portuguesa, enformado dos valores civilizacionais que dignificam o Povo Português.

É, pois, de saudar o acórdão do Tribunal Constitucional e independência dos seus juízes. Nos tempos que vão correndo não é coisa pouca. Não desconheço que o Acórdão é incompleto e está eivado de contradições, mas parece-me ser de valorizar o essencial. Como sabemos, a realidade é dinâmica e interactiva (o que alguns comentadores preferem ignorar) e esta derrota do liberalismo dominante, irá certamente repercutir-se noutras instâncias de luta e intervenção políticas.

Mas regressemos à “vitória de Cavaco”. Cavaco Silva, quando da aprovação do Orçamento de Estado com os votos favoráveis da maioria (e a prestimosa abstenção do PS – recorde-se!) ficou com a batata quente nas mãos, como é usual dizer-se. As inconstitucionalidades são patentes e grossas, o que não podia, na ocasião, deixar de levantar ao Presidente da República, não direi escrúpulos, que é coisa que se usa cada vez menos, mas porventura alguma incomodidade política. A neutralidade institucional do cargo, apesar de tudo, tem desses incómodos...

Havia por isso que ensaiar uma saída. Saloia, está bom de ver... Com o corpo e a alma entregue à causa do deficit e ao aperto do cinto dos portugueses Cavaco Silva gemeu, compungido, umas quantas sentenças sobre a “iniquidade fiscal” e por aí se ficou. Pífio...

Nem “magistratura de influência”, nem “reuniões das Quintas-feiras” com o Primeiro-ministro para fazer valer seus argumentos e fazer recuar o governo. Nem a fiscalização prévia pelo Tribunal Constitucional. Nem, muito menos, qualquer mensagem à Assembleia da República (como a Constituição prevê) alertando os deputados para as inconstitucionalidades visíveis e as injustiças gritantes.

Nada!...

O Presidente da República ficou-se pelos gemidos... Demitiu-se dos seus poderes e do seu múnus presidencial de “respeitar, cumprir e fazer cumprir” a Constituição da República (como jurou) e promulgou o orçamento de Estado, que os seus compungidos gemidos preveniam como inconstitucional.

“Safa!... Outros que tirem as castanhas do lume!...” – terá pensado. Como de resto aconteceu, com a louvável iniciativa de um grupo de deputados e a decisão agora proferida pelo Tribunal Constitucional.

Vem agora Sua Excelência, como justificação, a esmagar-nos com o argumento de que “nenhum presidente anterior vetou o orçamento de Estado”. Pudor político de Sua Excelência? Temor reverencial em relação aos seus antecessores?

Seria irónico, não fora lamentável. Sua Excelência, dizendo a verdade, omite. O que é a forma mais execrável de mentira...

Cavaco Silva sabe, por dever de ofício, que nenhum Presidente da República, antes dele, foi confrontado a promulgar um Orçamento de Estado, em manifesta violação dos princípios e valores constitucionais.

Como pode, pois, arrogar-se à presunção de invocar presidências passadas para justificar a demissão de seus deveres? Ou pretender saber o que outros decidiriam em seu lugar?

Uma vitória de Cavaco Silva? Hum, sem dúvida!...

Problema é do País, que o aguenta...

Não há pachorra!...


 

quinta-feira, julho 05, 2012

UMA PARÁBOLA MODERNA...

...”Em 1816, logo a seguir à restauração dos Bourbon, em França, uma fragata de nome A Medusa rumou ao Senegal para aí restabelecer o domínio francês. O navio, que transportava centenas de pessoas (...), era comandado por um velho capitão realista que rapidamente revelou a sua incompetência e a sua presunção. Estava permanentemente em conflito com seus oficiais, porque desdenhava de todas as experiências de navegação acumuladas no período revolucionário e napoleónico, então já proscrito.

Como resultado, o navio encalhou num banco de areia – por sinal bem conhecido -  ao largo da costa africana e teve de ser abandonado. Enquanto os passageiros “de qualidade” embarcavam em chalupas, construiu-se à pressa uma balsa de vinte metros por sete para nela se amontoarem 149 marinheiros e soldados, juntamente com alguns oficiais. Foi ligada às chalupas por amarras, mas cedo estas foram cortadas – intencionalmente, suspeita-se – e a balsa andou à deriva, com escassos víveres e pouca água potável.

A situação depressa degenerou, tendo alguns chegado mesmo ao canibalismo, enquanto outros comiam as cordas das velas e os cintos. Ao cabo de treze dias, os últimos sobreviventes foram salvos, casualmente, por outra embarcação enviada pelo comandante – seguramente não em seu socorro, mas para recuperar o ouro que ficara na Medusa encalhada.

Na balsa, restavam vivas apenas quinze pessoas; desta, cinco morreram nos dias seguintes. Em contrapartida, quase todos os burgueses e nobres que tinham podido para as chalupas haviam chegado a terra e, apesar das grandes dificuldades, estavam salvos.

A narrativa desta tragédia, divulgada num livro publicado por dois sobreviventes, emocionou muito o público francês e contribuiu para desacreditar a monarquia que acabara de se instalar. Théodore Géricault ajudou a difundir o caso, com o seu quadro agora exposto no Louvre. Hoje, é sobretudo devido a esta pintura que nos lembramos do naufrágio da Medusa...”

Do Prefácio “Sobre a Balsa da Medusa – Ensaios acerca da Decomposição do Capitalismo” – Anselm Jappe


segunda-feira, julho 02, 2012

Deambulações sobre o futebol...



Sempre tive uma relação ambivalente com o futebol. A jogar fui um desastre. Mas naquele tempo, onde houvesse peladinhas e outros deslumbres da bola eu entrava em jogo. Tinha bons argumentos no futebol, apesar de “não dar uma prá caixa”...

Na infância, no espaço social rural onde cresci, era eu o “dono da bola” e jogava calçado, numa equipa em que as chuteiras eram os cinco dedos dos pés. Sei, hoje, que pouco contava, então, quem era o “dono da bola” (de trapos), manifestamente, “propriedade colectiva”, pois que o vínculo individual deslassava logo que era concebida nas mãos amorosas que lhe davam forma.

Mas usar botas, sim, era argumento. Quem em tão encarniçados desafios se iria aventurar às canelas de um couraçado? A vantagem significava era até “abuso de posição privilegiada” e não raras vezes tive que jogar descalço, perante a juvenil rebelião das massas.

Mais tarde, quando subi ao Liceu, os meus “argumentos futebolísticos” foram outros. Tinha fama de bom aluno e disso aproveitava. Digamos que dava um certo chic intelectual aos bárbaros torneios que se desenrolavam no largo do toural. E digam-me lá, quem enjeitaria ter na sua equipa o melhor aluno da turma? É certo e sabido que os meus compinchas me reservavam o lugar onde menos poderia atrapalhar, isto é, a jogar na baliza: mais frango menos frango, sempre me poderia redimir com uma placagem de bola, digna da televisão que não havia...

Uma tarde, num lance decisivo na grande área, onde defesa e ataque se confundiam no prenúncio do golo, certamente espicaçado pelos três a zero que a minha equipa já levava “na batata”, por entre um redemoinho de corpos e gritos, saltei em voo, qual super-homem salvador, procurando a bola que teimava em saltar de cabeça em cabeça.

“Azar dos Távoras”!... A bola entrou na baliza e, ali a meu lado, estendido no chão, sangrando desalmadamente da boca, o avançado-craque da minha equipa que, em denodado esforço de defesa, não encontrou melhor lance que não fosse cabecear e derrubar seu esforçado guarda-redes e dar de mão beijada um novo golo à equipa adversária.

Eu saí com um galo na testa e o meu amigo partiu dois dentes. O que causou algum reboliço no Liceu com um raspanete colectivo do reitor e, uma particular advertência à minha adolescente pessoa, que “tinha obrigação de dar o exemplo e ter mais juízo”...

Enfim, ficou tudo por ali. Sem qualquer trauma...

No entanto, a partir dessa data, movido certamente por outras pulsões, entretanto despertas, mais lúdicas e compulsivas e pelo prazer, não puramente estético, das formas arredondadas, o futebol perdeu para mim seu encanto e ficou no limbo da minha vida até bastante tarde: decorriam os anos oitenta do passado século (meu Deus, como o tempo voa!) quando voltei a olhar o futebol com alguma atenção...

Claro que para este divórcio, mais que um certo snobismo intelectual (que não descarto) muito contribuía a trilogia “Fátima-Futebol-Fado”, pela qual a generalidade dos jovens da minha geração nutria profundo desprezo.

Mas nos anos oitenta, o futebol entrou-me outra vez em casa, pela porta grande. Meu filho, então na adolescência, envergou as vestes de um fanático benfiquista (não conheço nenhum benfiquista que não seja fanático) e – pai sofre! – para não perder o pé reconciliei-me com o futebol. E, imaginem vocês, um émulo do Barrigana (velha glória nas balizas do Futebol Clube do Porto) a vibrar de vermelho na “catedral da Luz”.

Antes do “apagão”, está bem de ver...

Hoje posso dar-me ao luxo de uma posição distanciada quanto ao futebol e ao fenómeno desportivo de uma maneira geral. Gosto, no futebol, do delírio do golo, da interacção criativa, da organização e trabalho colectivos, que não anulam talentos individuais, antes os estimulam.

Perdoo-lhe até um certo “patrioteirismo de relvado” e toda a parafernália económico-mediática que o envolve e o parasita como fenómeno de consumo das massas populares.

Mas quando, durante um mês de histeria futebolística, em que quem trabalha é despedido ou perde salários e direitos sociais em níveis inauditos, num mês de abissais regressões histórico-sociais, em que as leis laborais são totalmente invertidas a favor do patronato, num mês em que o País se afunda cada vez mais, rumo ao seu destino de colónia tolerada no espaço europeu, esta histeria mediática em volta do futebol e dos feitos da selecção nacional, não pode deixar de ser ofensiva para quem mantem a dignidade e um pouco de lucidez.

E não posso deixar de me interrogar se o desporto, há muito tempo esventrado da proclamação matricial “mens sana in corpore sano” e projectado, como espectáculo, à escala mundial, pelo poder dos média, não representa um exemplo eficaz das teorias da infantilização e embrutecimento (“tittytainment”), com que se pretende anestesiar populações “supérfluas”, potencialmente perigosas na sua frustração, e assim as lançar numa espécie de “letargia feliz” e inofensiva...

Assim vai este nosso Mundo!...