sábado, março 31, 2012

Tarde resiliente...

Glória ao altivo melro em sua sebe. Sem outra inquietude ou dor Soberano príncipe
Catando a hora em reflexos de luz. E o viço de meus olhos
Abrindo-se no negro vertebrado das asas
Em timbre de azul...

O sol é apenas pretexto. E o voo a indolência.
Não a chama, nem o sobressalto, nem o “piolho da existência”.
Apenas a imprevisível ave rasgando o ar
E a tarde caindo resiliente...

Nem passado nem futuro. Imanente o sopro
E aguilhão de minha ausência. E a secreta passagem
Entre a fugaz ave e a alma evanescente...

Talvez a sombra de Torga como árvore.
Ou magoado sorriso de Caeiro.


quarta-feira, março 28, 2012

Exposição “90 Anos SEARA NOVA”


A exposição itinerante comemorativa do 90º Aniversário da SEARA NOVA foi inaugurada no Sábado passado, dia 24 de Março, pelas 17 horas, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno, em Lisboa, cedido para o efeito pela Câmara Municipal.

A Exposição, que tem por tema “90 Anos de Intervenção Cívica e Cultural”, estará patente ao público até final de Abril, no Palácio Galveias, em Lisboa, podendo ser visitada:

. Nos dias úteis, das 10 às 20 horas

. E aos Sábados, das 11 às 19 horas

A não perder, decisivamente ...

terça-feira, março 27, 2012

Porta a porta, caminheiro...


Talvez neste horizonte breve o fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no íntimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul...

Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.

O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco dos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.

Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta a porta, caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo. E clamo:
- “Casa em que me guardo. Terra quanta veja”...




terça-feira, março 20, 2012

ERA UM TEMPO SEM TEMPO...

Era um tempo sem tempo, como se a garganta
Fosse o grito em profusão de mil ecos
Na serenidade do vale...

Ou o pássaro milenar em vertigem do voo.

Os insectos sorviam o néctar e as azedas
As línguas crespadas na acidez da ceia
Que a lonjura retardava – o caminho era ainda
Não regresso...

Antes ainda passo alongado em cadência breve
De sol macio.

As giestas fervilhavam em zumbido amarelo
A que a brisa dava asas e se infiltrava
E descia sob os fios dourados de meus olhos
Como inesperado manto em régios ombros...

Grinaldas de açucenas que o açude toldava
Na distância de colhê-las. Apenas o olhar as desenhava
Imperecíveis na memória de meus dias.

E a água. E a cantata. E o sobressalto dos sonhos
Como inquietos potros. Míticos.

E o esplendor de mirtilos. E a festa dos sentidos
Em explosão de Primavera.

Sem retorno Mãe tua mão em meus cabelos...    


Igor Stravinsky - The Rite of Spring

domingo, março 18, 2012

BOAS PALAVRAS...

Bem sabemos a distância que separa a previsão das disposições legais e a prática concreta das instituições. Sobretudo na União Europeia, onde as instituições jurídicas e políticas são capturadas por teias de interesses que asfixiam, à partida, quaisquer veleidades de avanços rumo a objectivos de progresso e justiça social, que eventualmente os documentos comunitários possam propor.

No entanto, na minha perspectiva, vale a pena conhecer e debater o parecer do Comité Económico e Social Europeu – CESE, publicado, em 25.08.2011, no Jornal Oficial da União Europeia, sobre a denominada “Plataforma Europeia contra a Pobreza e a Exclusão Social”.

Não apenas pela caracterização que faz da “pobreza”, mas sobretudo, pela contradição evidente entre as propostas de políticas económicas em curso na União Europeia, que arrasam os países e as sociedades e as políticas de “combate à pobreza”, que o parecer em causa preconiza.

Como o parecer salienta, mais de 80 milhões de pessoas vivem na UE abaixo do limiar da pobreza, das quais mais de 50 % são mulheres e 20 milhões são crianças. Assim, o CESE reclama acções mais concretas para actuar sobre as causas e não apenas sobre os efeitos da pobreza, como natural consequência do respeito os direitos humanos, incompatível com as angustiantes situações de pobreza que lavram por essa Europa fora.

Assinala o documento que as pessoas pobres, com pouca capacidade para defender os seus interesses são lançadas frequentemente em situações ainda mais dramáticas pelas reformas económicas, fiscais e sociais e pela degradação dos sistemas de saúde e de educação, em consequência da redução da despesa do Estado, que não tem em consideração a protecção dessas pessoas.

Chamando as coisas pelos nomes, significa isto o reconhecimento, por ínvios caminhos, de que as reformas económicas e sociais preconizadas na União Europeia são incompatíveis com erradicação da pobreza.

Depois de acentuar a ideia de que a pobreza representa “uma violação dos direitos humanos” sustenta o parecer que as medidas de austeridade não devem agravar o risco de pobreza; pelo contrário, deve ser dado maior ênfase à retribuição da riqueza e à redução das desigualdades, como condição de cumprimento dos direitos fundamentais.

Piedosas palavras!... Enfim, pareceres, estratégias e plataformas e, uma vez por outra – admitamo-lo – boas palavras contra a pobreza não faltam...

De assinalar, particularmente, a ligação da pobreza à violação dos direitos humanos, o que corresponde às mais modernas perspectivas da problemática dos direitos do homem e da sua consagração universal.

Pena é que tais enunciados se limitem a ser ideologia jurídica, espuma de boas intenções que breve se desfaz perante as alegadas contingências da “crise” e os ditames dos sacrossantos mercados.

Em qualquer caso, é forçoso reconhecer que o Parecer do Comité Económico e Social Europeu – CESE constitui um sugestivo libelo acusatório contra o pensamento político dominante e as políticas prosseguidas na União Europeia de resolução da proclamada crise.

E que, no plano interno, a doutrina e as medidas preconizadas no documento, deveriam fazer corar de vergonha os nossos dogmáticos defensores do “empobrecimento virtuoso”, ou os laureados de propagandistas da “redução dos salários”...



quinta-feira, março 15, 2012

UM LIVRO - DE VEZ EM QUANDO...


François Chesnais, Professor emérito da Universidade Paris-XIII, é fundador da revista marxista “Carré Rouge”, membro do Conselho Científico da ATTAC – France (Associação pela Tributação das Transacções Financeiras para ajuda aos Cidadãos) e autor de diversos livros e numerosos artigos sobre economia.

Nesta livro, François Chesnais apresenta a Europa não como fortaleza a defender ou a partir da qual se poderá lançar “cruzadas”, mas sim como um berço de ideias e movimentos políticos, aborda o desafio das economias europeias confrontadas com a perspectiva de uma longa recessão, acompanhada por um desemprego massivo estrutural.

Examina igualmente as duas causas maiores desta situação: a crise económica e financeira mundial e as políticas de rigor orçamental e de redução das despesas públicas, considerada como um pressuposto necessário do endividamento, quando não mergulham os países em recessão, impõem-lhes uma taxa de crescimento muito fraca, sinónimo de estagnação.

Por último, defende o autor o carácter fundamentalmente ilegítimo destas dívidas.

(Texto extraído da "badana" do livro)



terça-feira, março 13, 2012

sábado, março 10, 2012

LAVA EM QUE ME EXTINGO...

 
Hoje a várzea e sobre o rio o festivo freixo e sua sombra
E o cantar do melro no amarelo doirado do sol em fim de dia
E a pedra no inamovível tempo em que me sento...

Nem sequer a melancólica aragem, nem o restolhar da memória
Como insecto em flor. Nem o mel silvestre da infância.
Nem o vime. Nem a aurora do sonho.
Nem o cântico nas igrejas...

Apenas o alvoroço tardio.
E a absurda pedra no caminho
Como trono.

E meus dedos desfiando contas.
E o mistério inaudito das palavras.
E o perfume da dor em cada ausência...

Fenecem grinaldas. Que as cores são apenas nevoeiro
Dos sentidos.

Agora o vinho é espessura em bocas de desejo
E o corpo é porto.
Ardendo.

Como lava em que me extingo...


quinta-feira, março 08, 2012

terça-feira, março 06, 2012

UMA QUESTÃO DE "COJONES"...

Há expressões que são mais que elas próprias. E atitudes que se ultrapassam e cujo sentido e alcance excedem os adjectivos que as possam qualificar. Quando assim acontece há que reinventar a linguagem para melhor as designar e apreender a plenitude do seu significado.

Na vida deparamos, por vezes, com alguns destes exemplos, que subvertem a ordem do previsível e que, por isso, contribuem para que mantenhamos, neste mar de bruma monocórdica, alguma capacidade de nos surpreendermos. E, então, a linguagem assume-se, em seu desbragamento, como festiva subversão do quotidiano...

Como compreendem, vêem estas linhas, a propósito do título que escolhi para esta crónica, como que a justificar perante mim próprio, não o machismo, porquanto há muitas mulheres “que los tiénen en su sitio”, mas a grosseria, ainda que mediada pelo arremedo da doce e expressiva língua castelhana.

De facto, hão-de reconhecer que os ditos “cojones” vêem muito a propósito e que dificilmente encontraria melhor expressão-síntese para aquilo que, nas linhas subsequentes, tenho para vos dizer.

Refiro-me, como por certo já deram por conta, à ousadia do primeiro-ministro espanhol em dizer alto e bom som, aos senhoritos de Bruxelas que não está na disposição de cumprir as metas do deficit 4,4%, mas que ficará pelos 5,8%, porque o objectivo acordado seria “dramático para Espanha”.

E o picante da questão não está apenas na desabusada decisão, que deve fazer empalidecer de raiva a senhora Merkel. É que o senhor Rajoy, não apenas se propõe não cumprir as metas do deficit para este ano, como é categórico a afirmar que não deu, “nem tem que dar conhecimento aos parceiros europeus”. Traduzido por miúdos, o que o presidente do governo espanhol está a dizer é que não aliena às instâncias comunitárias o último reduto de soberania do Estado, que é a soberania orçamental.

Eu sei, eu sei... Mariano Rajoy é um conservador, recentemente chegado à presidência do governo do seu País e plenamente imbuído da ortodoxia liberal, que domina o pensamento económico e político na União Europeia.

Por isso não tenho dúvidas que as metas de consolidação orçamental negociadas com Bruxelas serão cumpridas e o aperto de cinto dos espanhóis se irá agravar, como aliás o próprio teve o cuidado de esclarecer. Mas sê-lo-á nos termos e nas condições que Espanha quiser, não nos termos em que a União Europeia e a senhora Merkl ditarem. O que, nos dias que correm, não é coisa pouca...

E por cá? Nós por cá todos bem. A recessão económica agrava-se, o desemprego aumenta, a pobreza e a miséria alastram. Mas a água (pouca) continua a correr debaixo das pontes e “o Álvaro” e “o Gaspar” disputam a primazia sobre os 5800 milhões de euros de verbas comunitárias, enroladas no ego de Suas Excelências – o crescimento económico do País, coisa pouca que seja, bem pode aguardar...

Não serei eu a pedir impossíveis ao nosso primeiro-ministro, nem que tenha os “cojones” de Mariano Rajoy!... Mas um pouco mais de espinha e ordem na casa seriam elementares, não vos parece?...

sexta-feira, março 02, 2012

PENSAMENTOS OUTROS...



"A vida é só uma: alumiar os amanhãs que se aproximam”!...

 Vladimir Maiakovski

“ O homem ainda não existe. O homem não é uma estátua na tempestade: é a própria tempestade”!...

 Henri Lefebre