sexta-feira, julho 29, 2011

ASSIM O POETA...


Dizem velhos alfarrábios
Que na natureza nada se perde e tudo se transforma…

Assim o poeta, cadinho de emoções, cultiva seu jardim
No desprendimento da água que corre
Sem saber se é vida ou letal veneno...

E da interrogação guarda o momento
Breve que seja. Ou  a fantasia adiada sem remorsos.

Pagão de mil desejos como frutos sobre a estrada
Ou condensação de calcários...

Não se queixa, nem lamenta o poeta
Nem ufano, se expõe a fúteis glórias…

Sabe que para além de si, no âmago do Desejo
Um qualquer Lavoisier irá inscrever
Que o sonho se ergue um dia do sonho calcinado...

domingo, julho 24, 2011

Sonhar Marinheiros...


No arco do tempo
A quilha dos barcos fendendo as ondas
E o soprar das águas…

Ou a polpa dos dedos como setas a rasar
O frémito…

A curva azul abrindo o espaço
E o vórtice do sol a assombrar os olhos
Circulares.

Cópula da miragem sobre escombros
Ou o balanço do mar e as gáveas
Sonhando marinheiros…












sexta-feira, julho 22, 2011

terça-feira, julho 19, 2011

O ciclo da vida - Gilberto Lindim Ramos


Cumpriu-se em definitivo a vida de GIBERTO LINDIM RAMOS, economista e membro da Associação “Intervenção Democrática” cujo funeral se realizou ontem, dia 18 de Julho, com a presença de dezenas de amigos e familiares. Acabara de fazer 80 anos, que os amigos mais próximos se propunham celebrar, mas que não foi possível em virtude do seu inesperado internamento hospitalar.

Não cabe no âmbito destas linhas (nem eu seria a pessoa adequada) traçar-lhe o perfil como homem e cidadão. Mas devo, em homenagem ao seu carácter, assinalar a influência intelectual e política que exerceu sobre muitos jovens que, na década sessenta, frequentavam as Universidades e as fábricas.

Desde essa época e das primeiras leituras da SEARA NOVA, os seus textos estimularam o meu interesse pelos temas políticos, económicos e sociais que, de alguma forma, “limaram” a aridez dos meus estudos de Direito.

Quis o destino, para privilégio meu, que após o “25 de Abril” o tivesse conhecido, nas empolgantes tarefas do exercício do poder local democrático, no âmbito do Município de Loures, de que o GILBERTO LINDIM RAMOS, foi membro da respectiva Comissão Administrativa, posteriormente vereador e mais tarde membro da Assembleia Municipal.

Privilégio maior foi para mim a nossa convivência na SEARA NOVA de  que ele foi uns dos timoneiros nos tempos negros da censura e do fascismo e de que hoje em dia tenho a honra de colaborar, no âmbito do respectivo conselho de redacção.

Da sua personalidade e do seu convívio, retenho, para além da sua amizade, a sua escrupulosa seriedade intelectual, a sua combatividade serena e o seu sentido de equilíbrio e ponderação, qualidades que se impunham naturalmente e eram merecedoras do respeito dos próprios adversários políticos.

Para os mais distraídos acrescentarei que GILBERTO LINDIM RAMOS, foi um intelectual prestigiado, que não receava “sujar as mãos” no terreno concreto da luta política – foi resistente antifascista, diversas vezes preso, foi candidato pela CDE nas eleições promovidas pelo “marcelismo”, foi dirigente político do MDP/CDE e, por ocasião da sua morte, activo dirigente da Associação Intervenção Democrática.

Não andasse o Chefe de Estado distraído a passar a mão pela cabeça dos seus brilhantes pimpolhos políticos, incubados in vítreo nas teses do neoliberalismo, numa qualquer universidade norte-americana e o GILBERTO LINDIM RAMOS teria, ainda que a título póstumo, o merecido reconhecimento da República Portuguesa. Enfim, um vago propósito, que apenas a mim responsabiliza e que a sua modéstia não aprovaria….

Porém, não tenho dúvida em afirmar que ganhará foros de escândalo, se as forças politicas actualmente dominantes nos órgãos autárquicos do Município de Loures não prestarem digna e publica homenagem a GILBERTO LINDIM RAMOS.

Mais que um acto de justiça, é uma exigência democrática que assim o impõe!…

Manuel Veiga
   

quarta-feira, julho 13, 2011

ESTE É O MEU CORPO




Sortilégio do sangue?
O que farejo no barroco empolgante de Coppola
Nos mistérios nocturnos da Transilvânia
Nas oníricas danças das Parcas
Na majestade decadente dos vampiros
E no absoluto amor do conde de Drácula..

Fora esse,
Apenas o sangue da fêmea com cio
O sangue arrancado do peito para alimento dos famintos
O sangue selo secreto
Das cumplicidades da vida…

E a carne da minha carne …

Este é o meu corpo: tomai e comei!...








sexta-feira, julho 08, 2011

A COR DO SONHO...







Colhe o poeta a cor do sonho na paleta
Com as nuvens sobre a esfera onírica porém presa
E na nesga rasgada sem saber se sai ou entra
O mar ao longe...

Advinham-se corpos irreais em transparência
Reclinados sobre colchas sem memória
Como sombras pressentidas na luz imensa
Que o dia clama...

Talvez crianças caprichosas ou velhos faunos
Desfaçam a cortina ou a subtil brisa os descubra
Desnudados e sem culpa ou sem remorsos
Bárbaros e puros...

Talvez deste lado da paisagem onde beijos correm
Como ondas e os dedos do poeta se deslaçam
O azul capriche no tempo breve e em suave tarde
Os corpos reinem...






domingo, julho 03, 2011

Apenas Magritte na Paisagem ...


Nada de mim agora.
Apenas Magritte na paisagem
Sobre a árvore
E a majestosa gralha
Cuidando as penas depois da chuva
Breve…

E o caprichoso melro circular
Em voo trinado
Assediando o galho
E o sol ligeiro
Por certo o beijo

Apenas melro e gralha

No céu
O anjo negro cavalgando a nuvem
Assim eu descendo nas asas do milagre
Sem outra grandeza ou glória
ou outro instante de lume

Apenas
A repentina gralha
E o voo do pássaro
Ou a neutra rosa
Afadigando-se em ser

Talvez Magritte
Tecendo as cores da árvore…

sábado, julho 02, 2011