domingo, fevereiro 27, 2011

SOBRE A PAISAGEM O RIO...



Sobre a paisagem o rio e nele a pedra
Em que me sento. Tudo o mais é apenas a música do tempo
E o véu de uma outra imagem...

Em meus olhos o linho fiado da memória
E a urdidura dos mostos. Tudo o mais são restos ou são cores
Ombreando nevoeiros...

Na boca o sal de licores agora mortos.
E as marcas tecidas de meu corpo. Tudo mais são fervor de dedos
Que incautos não se rendem...

Recolho-me dobrado nestes espinhos
Que de tão doces queimam. Tudo mais são gotas (são favores)
De água ardida num harpejo...

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

"QUEM QUER CONHECER O VILÃO..."



“Quem quer conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão”!…- dizia-se,  no espaço social rural, onde no tempo da infância modelei o carácter.  A “vara” era, naturalmente, a “vara do poder”, que ainda hoje, nas instituições mais conservadoras, tem a devida consagração.

Bastará recordar, por exemplo, o ceptro régio” nas monarquias, ou “báculo episcopal” na igreja católica, que outra coisa não são, como sustentam os antropólogos, que reminiscências históricas, em que a vara era também instrumento de punição física...

De facto, quem algum dia teve a oportunidade de ler Michel Foucault sabe que não há verdadeiro poder (político e social) sem poder efectivo sobre os corpos, seja na fogueira, no pelourinho, nas prisões ou nos hospitais psiquiátricos. Ou na organização física da vida quotidiana, mediante a atribuição (ou não) de um salário…

Seja como for, a liturgia do poder, naquele tempo, era de uma singeleza exemplar – uma simples vergasta de freixo entronizava, simbolicamente, a arquitectura social daquele microcosmo, onde cada um sabia, exactamente, o seu lugar…

Claro que, contrariamente ao que sustenta um certo idealismo romântico, a sociedade não era homogénea; pelo contrário, as fissuras e as clivagens sociais eram profundas e ferozes.

Aliás, o lugar social de cada um reflectia-se, na própria ocupação física do espaço publico, com lugares reservados na Igreja e na praça e outros locais de ocupação colectiva. E até no exercício de determinadas profissões. Ou a honra da “atribuição da vara”, que apenas alguns estava reservada… E, que se era um privilégio, era também múnus e dever social de a todos velar de igual forma…

Em síntese, a vara do poder, simbolizava o poder social e político sobre a comunidade (não o poder de Estado, que apenas ali chegava para colher impostos), selectivamente, atribuído às famílias que, pelo seu ascendente social, granjeavam o respeito da comunidade. Nesse ritual de poder, a dimensão do património era elemento essencial, como bem se compreende…

É óbvio que tal modelo social ruiu. Nem eu sou saudosista desses tempos de miséria e obscurantismo, como farão justiça de considerar. Mas, como bem sabem, o tempo sociológico, é um tempo de amplitude ampla, cujo paradigma permanece para além do ritmo, ou seja, do esgotamento dos seus efeitos…

Admito, portanto, que muitos dos epifenómenos da nossa vida política ganham plena expressão e significado, à luz da matriz do nosso passado (ainda quente) e do modelo social rural, que mal ultrapassamos…

Vêm à ideia estas desconchavadas linhas, perante a despudorada pulsão dos representantes do “melhor” capitalismo caseiro, em ocuparem, lá do alto dos seus milhões, o espaço mediático (que outrora se cingia aos limites da praça pública) e o centro da vida colectiva, como se o País fosse uma coutada privada e a nossa democracia tributária da “vara do poder” (ou da chibata) com que gerem os seus interesses...

Recentemente, foi o merceeiro mor do reino, um tal senhor Alexandre de sua graça, que em directo para quem o quis ouvir se insurgiu, a propósito não se almeja de quê, contra o senhor Sócrates e as políticas do seu governo, mimoseando o primeiro-ministro com alguns adjectivos pesados, dos tais que nem Mafoma usaria contra o toucinho…

É certo que o senhor Sócrates merece todos esses adjectivos e outros que tantos. Por outras e boas razões que não as do senhor Alexandre…

Mas uma coisa é apelidar o primeiro-ministro com uns sonoros adjectivos numa manifestação de rua, como expressão colectiva de descontentamento social. E outra é o chairman de um próspero grupo económico, por ganância ou desfavor, do alto da sua pesporrência, na televisão, vir à praça pública, desrespeitar um órgão de soberania. Urgiria, a propósito, recordar-lhe que o “lugar social” donde se fala releva, decisivamente, na ressonância do sentido de uma qualquer expressão…

Ao que consta, o primeiro-ministro terá reagido, na oportunidade, como se impunha, mandando dizer ao encrespado ricaço que “não basta ser rico para se ser bem-educado…”.

Por mim, a quem não seduzem punhos de renda, dir-lhe-ia que são aleijões de marçano, que os milhões não disfarçam…

“Quem quer conhecer o vilão…”          

    


quarta-feira, fevereiro 16, 2011

LETRA A LETRA...



Letra a letra,
Como os passos que marcam 
O caminho…

O sentido?
Horizonte do eco
E as escarpas
Do mundo
Em cada gesto.

E a justa medida,

António!

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

ASSIM VAI A DEMOCRACIA PORTUGUESA!...



O Governo assinou, a 30 de Junho de 2009, em nome do Estado Português, um instrumento diplomático, designado por “Acordo entre a República Portuguesa e os Estados Unidos da América para reforçar a cooperação no domínio da prevenção e do combate ao crime”.

Não se sabe, se do assunto, o Governo deu cavaco (literalmente) ao Presidente da República. Presumo, aliás, que tratando-se, como se trata, de matéria de defesa direitos fundamentais e da soberania do País seja expectável que tal matéria não mereça a atenção da agenda para “magistratura activa” do novel Presidente, por certo, digerindo ainda as agruras da campanha eleitoral.

O que sabe, de ciência certa, através da Assembleia da República, onde uma aguerrida deputada confrontou o 1º Ministro e, preto no branco, afirmou que tal acordo seria clandestino, pois que elaborado e aprovado à revelia daquele órgão de soberania. 

Evidente que a deputada, representante de uma força política ultra minoritária, ficou sem resposta governamental, ou melhor, o 1º Ministro respondeu com insuportável desdém, refugiando-se numa qualquer especiosa regra regimental, que lhe concede a prorrogativa de responder apenas aos temas matéria de debate e descartar quaisquer outros.

Assim foi, na mais absoluta desfaçatez. Como se o “clandestino” Acordo com os EUA, não incidisse sobre matéria de direitos fundamentais (logo da competência da AR) e fossem meros peanuts, que se afastam com um piparote, coisa menor, portanto, sem relevância ou significado político.

E tudo dito pelo 1º Ministro com aquela cara enjoada com que brinda os adversários políticos que ousam verdadeiramente defender o interesse nacional e quiçá, por isso mesmo, tão incómodos…

Porém, quer pelo conteúdo, quer pela oportunidade e pelo método, o designado “Acordo entre a República Portuguesa e os Estados Unidos da América para reforçar a cooperação no domínio da prevenção e do combate ao crime”, bem merece, não apenas discussão na Assembleia da República, mas o firme protesto e denúncia dos cidadãos, já que tal matéria contende com os mais elementares direitos de cidadania.
Não sou quem o diz. Louvo-me no Parecer n.º 10 /201, da Comissão Nacional de Protecção de Dados, cuja leitura vivamente recomendo.

Desde logo, faz notar a CNPD que o Acordo não foi sujeito a consulta prévia daquela Comissâo, conforme dispõe a Lei de Protecção de Dados. E, como tal, não foi possível (…)”tomar em consideração a opinião da entidade especificamente incumbida de se pronunciar sobre quaisquer instrumentos internacionais em negociação que envolvam, total ou parcialmente, o tratamento de dados pessoais”.

Acresce que, no âmbito da União Europeia, estão em curso procedimentos preparatórios da negociação com os EUA de um Acordo-Quadro, relativo à protecção de dados pessoais. “Cabe, pois, ponderar – refere a Comissão – “se tem sentido pôr em aplicação o presente Acordo bilateral entre Portugal e os EUA, quando está em preparação um Acordo-Quadro entre a UE e os EUA, tendente a emanar regras gerais vinculativas, norteadoras dos acordos específicos entre os Estados-Membros e os EUA.”

Não admira pois que, das suas conclusões demolidoras, se extraia do Parecer, que não fará sentido aplicar Acordo bilateral. Ou que o Acordo não contempla as necessárias garantias exigidas pela lei nacional e pela legislação europeia para a transferência de dados pessoais, a fim de suprir a falta de um nível de protecção adequado nos EUA.

And last, but not the least, que “não é salvaguardada a possibilidade de os dados transmitidos aos EUA não serem utilizados em procedimentos conducentes à pena de morte, prisão perpétua ou prisão indeterminada”.

Por entre a euforia das praças da Liberdade, assim vai a Democracia portuguesa!...

Parecer: http://multimedia.iol.pt/backoffice/oratvi/multimedia/doc/id/13382747//9


  

  


  

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

CRESCE A SEMENTE DE FUTURO...



“Bonitos são os rios de pessoas nas ruas do Egipto...

A Primavera da democracia árabe já trouxe nova flor da liberdade no espaço público.

Os heróicos jovens, pacificamente decididos, ofereceu mais de 300 mártires, dentre as suas fileiras para garantir as liberdades de todos os egípcios, que eles próprios não tinham...

Em cada lugar que eles caíram cresce a semente do futuro. (…)”


domingo, fevereiro 06, 2011

CONSIDERAÇÕES (IN)CONVENIENTES...



Os acontecimentos da Tunísia e do Egipto (e os que mais adiante se verão) revelam algumas evidências que o “blá, blá, blá” de costume teima em deixar encobertas.

De facto, se há alguma lição imediata a retirar dos actuais acontecimentos da Tunísia e do Egipto, será a de que, por mais adversas que sejam condições sociais e politicas, mesmo na mais absoluta falta de liberdade e de violenta repressão, é possível aos povos insurgirem-se contra a tirania. Já se sabia, mas é sempre reconfortante testemunhar, momento a momento, a determinação dos povos a estoirar grilhetas e a soltar as mais exaltantes e generosas pulsões de liberdade …

Efectivamente, “não há machado que corte a raiz ao pensamento…”

 A segunda evidência é uma contestação que de tão evidente fere os olhos, mas que a “redoma ideológica”, onde estamos imersos, nem sempre permite percebê-la em toda a sua potencialidade transformadora: são as massas humanas, conscientes do seu destino e determinadas a prossegui-lo, quem faz a história e não os gurus do capitalismo dispersos por universidade de prestígio e pelos centros de poder económico-político.
O mito do “fim da história” está a ruir, de forma estrondosa na Praça Tahrir. E os actuais acontecimentos da Tunísia e do Egipto demonstram, de forma eloquente, que afinal de contas há muitos “muros de Berlim” que tombam, para além da propaganda e do poderio do Império.
De forma inesperada, a história persegue seu curso. E se há outra lição a recolher dos acontecimentos actuais, será a de que a corrente da vida galga as margens. E que as “revoluções” não se decretam, nem muito muito menos se traçam a régua e esquadro, ou obedecem a figurinos. E se é verdade, que por vezes “basta uma fagulha para incendiar a pradaria”, também é verdade que o fogo segue sempre a direcção do vento, por natureza incontrolável…
Boa oportunidade, portanto, para poderem ser reanalisadas algumas concepções mecanicistas, ainda remanescentes, que consideram a História com uma espécie de linha de montagem, a que se acrescentam, sucessivamente, novos saltos qualitativos…
Seja como for, vale a pena sublinhar a inesperada ironia – e esta a terceira consideração – de ver o Império e seus acólitos europeus “de calças na mão”, (passe o plebeísmo). Durante décadas, o ditador Ben Ali, na Tunísia, agora chutado, com estardalhaço, para os confins da Arábia e a ditadura de Hosni Mubarak estiveram ao serviço dos interesses dos Estados Unidos da América, da França, da Itália e de Israel.
Com as gigantescas manifestações o imperialismo assustou-se. E, perante o naufrágio, procuram os salvados. Confesso o meu prazer em vê-los rabiar… O governo dos EUA e seus comparsas na Europa começaram por reafirmar o apoio aos ditadores. Passaram depois, à medida que o movimento de massas engrossava, a ensaiar manobras de diversão para que, mudando alguma coisa, tudo fique na mesma.
Quer dizer, que sejam os mesmos interesses, que sustentaram as ditaduras, a moldarem o futuro daqueles países…
O governo dos EUA proclama que, no Egipto, se deve proceder a uma “transição democrática e pacífica” e logo a UE afina pelo mesmo diapasão, sobe uns decibéis, e sustenta ser necessário que se proceda a uma “transição pacífica e ordeira”.
Parece óbvio, que para além dos sonoros (e apelativos) adjectivos, qualquer das “transições” almejadas pelos EUA ou pela EU, se resumem ao seguinte: manter Mubarak no Egipto e, se tal não for possível, como se presume, substituí-lo por um qualquer outro de fachada democrática.
Compete aos cidadãos egípcios, furar-lhes os planos.
É a sua luta quem decide…   






terça-feira, fevereiro 01, 2011

NO OUTRO LADO DO POEMA...


No outro lado do poema onde a luz
Colapsa de tão negra e a palavra brota como lume no seixo
E o nada se faz fogo
Inscrevo a voluptuosidade dos nomes
E a perenidade das coisas.

E na obscura luminosidade da pedra  
No estilete de bronze que os deuses em seu desenfado
Por vezes emprestam aos mortais
Reinvento a tatuagem dos dias e me resguardo
Da fútil exposição de alegrias e enganos...

E me soletro em bebedeira de sentidos
Calando gestos parcos que sejam
E me partilho no poema-outro
Que vem de fora
E de tão íntimo
Se mistura no sangue cúmplice…