sábado, julho 31, 2010

SEARA NOVA nº 1712 - Verão de 2010

Está em distribuição o número de Verão da SEARA NOVA, cujo dossier principal é uma análise de vários aspectos da cultura, na sequência aliás dos artigos sobre teatro (Helder Costa) e música (Sérgio Azevedo) publicados no número anterior.

O dossier abre com uma entrevista ao escritor Mário de Carvalho, em que se fala da sua obra, da literatura em geral e da situação do país. Manuel Gusmão avalia os últimos “dez anos de indigência da política cultural” concluindo pela “urgência da mudança”. Aurélio Santos desenvolve o tema do papel dos intelectuais e da sua postura cívico-cultural, no mundo moderno em que o “número e diversidade dos intelectuais se amplificou extraordinariamente”. Manuel Augusto Araújo analiza o ano cultural a partir das contraditórias decisões do Ministério da Cultura, com um enfoque final sobre questões dos museus. Manuel Alberto Valente aborda as questões editoriais, centrando o tema sobre “a concentração editorial”, enquanto Augusto Flor reflecte sobre a cultura popular.

O dossier fecha com uma reportagem sobre o “Espaço do Tempo”, dinâmico e inovador agrupamento cultural de Montemor-o-Novo.

A Secção Nacional inclui dois artigos, cujos títulos dão desde logo ideia do respectivo conteúdo: “Um PEC que sacrifica o presente e hipoteca o futuro”, de Octávio Teixeira e “O Estado, hoje: um Estado emagrecido”, de Guilherme da Fonseca. Seguem-se um artigo de Coutinho Duarte sobre o sistema de ensino público e outro de Hugo Fernandez intitulado “A Justiça da Política”.

A Secção Internacional é preenchida com um artigo do deputado europeu Juergen Klute sobre a avaliação da crise europeia e as desconexas políticas comunitárias.

A rubrica Economia Social contém artigo de José Alberto Pitacas que analisa três importantes documentos internacionais para o sector: Resolução do Parlamento Europeu sobre economia social; Parecer do Comité Económico e Social Europeu sobre diversidade de formas de empresas; Resolução da Assembleia Geral da ONU (Dezº/2009) sobre modelo empresarial cooperativo e proclamação do ano de 2012 como Ano Internacional das Cooperativas.

Na Secção Memória é prestada homenagem a José Saramago, na qual se evocam aspectos da sua colaboração com a Seara Nova, em artigo da Redacção.

É evocado também o itinerário pedagógico de Faria de Vasconcelos, um dos fundadores do grupo seareiro, por Manuel Ferreira Patrício.

A Revista encerra com as habituais rubricas Tribuna Pública (Manuel Veiga), Notas de Cinema (Dulce Rebelo), Momento de Poesia (Eufrásio Filipe) e os “Factos & Documentos”, que mantêm o velho espírito crítico seareiro.

A capa é de Júlio Pomar. Pintura de 2004 - "Guantanamo 1"

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Estarei alguns dias ausente de vosso convívio.
Deixo-vos em excelente companhia. Boas leituras...

Beijos e abraços.

quinta-feira, julho 29, 2010

Leio e... acredito!


Presidente da Câmara dixit...

Afinal José Saramago não tem nome de rua na invicta cidade do Porto, porque os “Marchais” Spínola e Costa Gomes “também ainda não têm rua no Porto”  (in Público de 29.07 - pág. 27).

Uma questão de “marchar, marchar”, portanto. Ou de analfabetismo funcional, acrescento...

O Porto de meus amores não têm culpa...



quarta-feira, julho 28, 2010

Marcel Marceau - The Tango Dancer



Quem disse serem necessários dois para dançar um tango?!...

domingo, julho 25, 2010

sábado, julho 24, 2010

Blue(s)

Persiste o azul como se tela fosse.
Vulcão em transe de soltar-se. E o vermelho
Apenas indício. Ou ténue labareda
Em asas de cetim…

Sopram os olhos brasa. Também azuis.
Como se a hora do voo fosse de espera
E a borboleta apenas o corpo da brisa.
Que de tão suave queima e queimando
Se arrisca no canto fugidio da chama ...

Flores de lume nos traços do rosto
De azul vestido. Como farrapos de céu
Que em dor se abrem e em desejo
Se cumprem sobre as plumas caprichosas
Do voo no esplendor dos dias…

E deste lado o fio de ariane. Apenas.
E a seda dos laços em que cativo me solto.
E me rendo. E me comovo no azul
Dos coloridos traços...

Amazing speech by war veteran_LEGENDADO_PT_BR

quarta-feira, julho 21, 2010

... “Era um Leão, uma Girafa e um Pássaro chamado Homem!”

António
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Temos poeta, ou serão meus olhos de coruja?!...

quinta-feira, julho 15, 2010

Que os homens sejam chama!...

Agora a montanha é seca e sobre a urze
A brisa é pasto. Fogo que se desenha
No canto da cigarra...

Apenas o milhafre se atreve
Na garganta. E as rasteiras sardaniscas
No alvoroço dos passos...

Talvez a urdidura da pedra
Seja lacrau doirado em sua dor e seu feitiço
Ou apenas o tempo desafiante
A mordedura do sol...

E olhos de água sejam aluvião sonhado
E a águia se erga...

E os homens sejam chama!...

segunda-feira, julho 12, 2010

Histórias da Carochinha...

 
“A palavra “ideologia” não tem culpa dos tratos de polé a que tem sido submetida quer por políticos, quer pelos seus ampliadores naturais, os jornalistas (...). Tudo quanto é articulista faz elogios a qualquer coisa que pareça ser um "retorno à ideologia", quer à esquerda, quer à direita, e aceita como sinal desse retorno qualquer frase, declaração e posição que se auto intitule de "ideológica", mesmo que seja apenas um discurso deslavado, muitas vezes apenas auto justificativo e propagandístico.

Um festim deste "retorno à ideologia" deu-se nas últimas jornadas parlamentares do PS. Onde, de Mário Soares a Sócrates, se tentou formular uma vaga teoria justificativa das posições de "esquerda" do PS, em contraponto à direita, ao "neoliberalismo" (...).

Já comparei a "narrativa" que se fez nas jornadas parlamentares do PS da história das últimas décadas que levaram à crise actual a uma história da Carochinha, mais uma das que correm na vida política portuguesa com abundância nos tempos socráticos. Sem desprimor para a Carochinha, nem para o seu consorte Ratão.

É não só uma "narrativa" sem qualquer correspondência com a realidade, como não tem qualquer consequência na política, na acção concreta. Chamar a isto "ideologia" é também dar urna palavra-caução a uma história auto justificativa, sem substância teórica e... sem ideologia. Se é assim que a esquerda hoje "pensa", está bem arranjada a esquerda (...).

Em Portugal, Sócrates dixit, o “neoliberal” máximo dos dias de hoje é Passos Coelho, cujo objectivo é o “desmantelamento do Estado social”, e este perigoso "neoliberal" é o dirigente social-democrata mais elogiado por Mário Soares e aquele com que José Sócrates co-governa o país. Encaixam as coisas urnas nas outras? Nada, mas não têm importância. Basta a enunciação "ideológica", para épater le bourgeois e a ignorância jornalística e chega. O resto não importa.

O discurso corrente é que todas as medidas actuais, que os socialistas deveriam abominar, se tomassem a sua própria ideologia a sério, são justificadas para garantir a "sustentabilidade do Estado social". Na verdade, a realidade é bem diferente.

O alvo de todas estas medidas é o próprio Estado social que se diz defender. Cortes de salários e de regalias sociais, fim de subsídios de desemprego, subida da idade de reforma, cortes no investimento público (...), são medidas que os socialistas incluiriam no catálogo daquilo que acham ser o “neoliberalismo”.

Ou seja, os socialistas tomam medidas “neoliberais”, para defender o “Estado social”, o que também não encaixa lá muito bem. Estamos mais uma vez no domínio da Carochinha.

O problema é outro: é que nem a crise teve origem naquilo que dizem ter acontecido, nem aquilo que consideram ser o “neoliberalismo” existe enquanto tal, nem a narrativa histórica dos últimos anos corresponde, a não ser a um fragmento da realidade. Eles deliberadamente ignoram que (...) a crise actual, sendo uma componente financeira que é a única de que os socialistas falam, foi muito para além e acabou por mostrar a dimensão de fragilidade do “modelo social" construído na dívida e no défice (...).

Agora o acordar é duro, mas podiam poupar-nos a esta fábula inventada da Carochinha para encontrarem nos outros uma responsabilidade que também partilham, e continuar a esperar que nada mude, quando tudo mudou. É que, se há “ideologia” que não se come, é esta; e o comer vai estar muito no centro das preocupações dos povos...”

José Pacheco Pereira - Historiador – in “Público”, 10 de Julho.

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Difícil não concordar com o teor do texto. Compreendem-se, porém, as razões do doutor Pacheco Pereira. Como “intelectual orgânico” do cavaquismo (ressurgente) trata-se de aplanar caminhos e de demolir, com precisão, a “história da Carochinha” da social-democracia que, em conluio com a direita (estatista, helás!) levou o Mundo ao “acordar duro” do tempo presente.

Mas como ele bem sabe, por mais “arqueológica” que considere a tese, a ideologia não fica à entrada da porta, enquanto, uns e outros, se entretêm, melhor ou pior, a contar a “história da Carochinha”. Por muito que alguns pretendam o fim das ideologias...

É de uma althusseriana evidência que a “ideologia não tem exterior”, pelo que a acusação de se “estar na ideologia” é sempre feita em relação aos outros e nunca relativamente ao próprio - como se o doutor Pacheco Pereira fora uma impoluta vestal, não contaminável pelo vírus da ideologia...

E, como o doutor Pacheco Pereira reconhece – honra lhe seja! - que “o comer vai estar muito no centro das preocupações dos povos” seria expectável que reconhecesse também que os indivíduos, na luta pela sobrevivência e no combate político, adquirem uma efectiva consciência das possibilidades da superação do seu lugar no processo produtivo.

E, perante uma nova consciência social, uma nova “narrativa histórica” se poderá desenhar, para além das histórias da Carochinha tão do agrado do doutor Pacheco Pereira e seus comparsas. Sejam quais forem, episodicamente, os respectivos lugares na barricada...



domingo, julho 04, 2010

Mahler - 150 anos...

(...)

A vida de Gustav Mahler foi uma cadência de fracassos, mesmo quando esses fracassos assentaram sobre triunfos (...). Judeu, converteu-se ao catolicismo para poder ser director da Ópera de Viena, mas isso não lhe evitou um anti-semitismo tragicamente profético (...).

Viveu pouco: 50 anos. Viveu atormentadamente: desgostos, crises, medos, mortes (pais, irmãos, filha). Como lembrou Bruno Walter, (...) a morte foi a ave que voou sobre a sua vida, acabando por fazer nela um ninho prematuro (...).

Visconti, com o instinto do caçador que apanha as presas feridas, fez de Mahler o protagonista de “A Morte em Veneza”. Ao usar, como banda sonora, esse nevoeiro de sons que é o adagietto da “Sinfonia nº 5” (e o canto do contralto do quarto andamento da “Sinfonia nº 3”, com palavras de Nietzsche) provou que a perfeição é possível. (...)

Nesta “música vivida”, há um mundo (...). Ela faz a travessia do século XIX para o século XX (...). Mas não é apenas uma passagem, uma ponte. É um grande edifício feito de reclusões e fugas, de opacidades e transparências, de folias e fobias, de expansões e contenções, de serenidades e tumultos, de extensões e contrapontos.

Há nela um vazio que só em nós se fecha, ao escutá-la.

Nesta “música crítica que rompe uma tradição, da qual guarda a nostalgia" (T. Adorno) ecoa a Viena em que terminou o império austro-húngaro: “laboratório do fim do mundo” (Karl Kraus) e “apocalipse alegre” (Herman Broch).

Mahler nasceu há 150 anos (7 de Julho). Para o ano, a sua morte faz cem anos (...). Esta contiguidade na memória do princípio e do fim ganha um sentido nu, fazendo-se fundamento da sua metafísica musical. E lembra a terrível pergunta dele: “Será sempre necessário estar morto para que as pessoas nos deixem viver?”

Este “grande revolucionário” (Abbado) exclamou um dia, exasperado: “O meu tempo chegará”. O seu tempo já chegou há algum tempo. Mas, afinal, é um tempo por vir: porque a música altiva e aflita de Gustav Mahler é, de si mesma, o futuro".

José Manuel dos Santos - in revista “Actual” – Expresso – 03.07.10

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Uma breve ausência! Até já...

Boa semana. Beijos e abraços...

Death In Venice