quarta-feira, junho 30, 2010

Burocratas da bola...

Surpreendo-me a escrever sobre a bola. Eu explico...

Tenho com o futebol uma relação que diria adúltera. Sempre amei a bola, mas sempre a troquei por emoções mais comezinhas. Em criança, no microcosmos social da minha infância, quando como “bando de pardais à solta”, o adro da igreja era arena de nossos folguedos. E, então, a bola de trapos circulava entre nós, com a mágica grandeza de quem pontapeia a Lua...

Um dia apareceu minha Mãe com uma bola de borracha, não maior que o tamanho de um punho e, com aquele sorriso terno que ainda hoje me afaga a alma, advertiu-me: - “espero que, a partir de agora, não continuem a desaparecer as meias cá de casa...”. Cujo destino - o das meias – era, como se presume, municiar a reserva estratégica das bolas de trapos...

Garanto-vos que, ao longo da vida, foi para mim este um dos presentes mais preciosos, que me permitiu, naquela época, subir mais uns degraus na consideração social dos putos da aldeia e, em especial, dos meus comparsas da bola...

Acontece, porém, que subir na “escala social” tem os seus contras. E ser o “dono da bola” tem os seus quês... A questão é que, naquele tempo, a maioria andava descalça e as chuteiras eram, portanto, os cinco dedos de cada pé. Usar um par de botas cardadas era, pois, nessa contingência, não apenas um privilégio, mas também uma decisiva vantagem no jogo da bola, como bem se compreende.

Por isso, numa espécie de luta de classes antecipada, a maioria obrigava os raros que usavam sapatos a descalçarem-se para poderem entrar em jogo. Ainda argumentei, titubeante, com a minha qualidade de “dono da bola”, mas antes não o fizera, pois que, reunido o infantil conselho de estado, a maioria descalça deliberou prescindir da bola de borracha e se eu queria jogar que o fizesse sozinho. E que tivesse bom proveito mais a “minha” bola...

Entre a bola e os amigos, escolhi, naturalmente, os amigos. Imaginem, porém, o drama de uns pés mimosos a jogarem naquele “relvado”, povoado de pedras, areias e covas, como era então o adro da Igreja. Breve ficavam repletos de mazelas ...

Ensaiei, por isso, (e agora sem oposição da maioria) o lugar de guarda-redes, que ninguém queria. Mas cedo percebi que o prazer da bola está em correr atrás dela e que o jogo é para ser jogado e não para vê-lo passar, parado!...

Pedi, por isso, (“por exaustão” eheheh) a substituição na equipa e a “minha” bola lá continuou a rolar no melhor espírito comunitário... E, como na vida, o que se perde num lado se ganha por outro, passei a passar as tardes a jogar à “apanhada” ou às “escondidas” com as rapariguinhas da minha idade, com vantagem de poder jogar calçado, entre outros privilégios de recorte mais delicado...

Quando mais tarde subi ao Liceu ainda fiz uns bons jogos de futebol, num terreno baldio nos arrabaldes da cidade. Mas a vida é caprichosa – num jogo de “tudo ou nada”, ao saltar de cabeça a uma bola bombeada para a área, fiz um lanho nos lábios e parti um dente a um dos meus melhores amigos. O que foi um caso sério com o reitor...

Manifestamente, o meu destino não era o futebol. E, por isso, deixei de jogar...Ainda tentei coleccionar “cromos da bola”, talvez para sublimar a frustração.

Porém, não tardei em perceber, no ardor da minha imaginação de adolescente, que as pernas da Cyd Charisse e da Virgínia Mayo, ou os seios da Ava Gardner tinham outro encanto que não as pernas do Pedroto ou da carantonha do Barrigana, velhas glórias do “FCP”, meu clube de sempre. E os toques na “redondinha” passaram a ser outros...

Enfim, por uma vez, a magia do cinema destronou o futebol...

Não me vou alongar na minha relação de amor/ódio com o futebol. Confesso-vos apenas que, em determinada época, me divorciei em absoluto. O “f” de futebol estava, para meu gosto, demasiado embrulhado noutros “ff”, de forma que com a água do banho despejei também o prazer da bola. E assim, com alguma sobranceria - reconheço – transferi-me, com armas e bagagens, para outros amores e outros interesses.

Hoje, em boa medida, (porque o ciclo se estreita e poucos prazeres me restam) gostava de me reconciliar com o futebol. Totalmente, porque é um belo e inteligente jogo... Mas quando oiço os “crânios” da bola depois dos jogos a pretenderem justificar o injustificável, ou a excelsa criatura que comanda a selecção a substituir jogadores porque “estava no plano do jogo” vem à superfície todo o meu azedume e desisto, rezingando para os meus botões – “arre! estou farto de burocratas...”

Salva-me, nesta emergência, o prazer de um poeminha e a vossa calorosa cumplicidade...

sábado, junho 26, 2010

A Cúria Romana e Saramago

“L'Osservatore Romano, o diário vaticano que é expressão directa da cúria romana, apenas dois dias depois da morte de José Saramago, atacou brutalmente o escritor português, Prémio Nobel da Literatura.

Este ataque denuncia uma hipocrisia bem reconhecível, de marca clerical.

Mas, sobretudo, uma ignorância sobre quem seja este homem e o seu compromisso moral e cívico durante toda uma vida. Como se houvesse necessidade de dizer, a todo o custo, algo que negasse a sua clareza, transparência, honestidade e coerência política.

O que se concretiza numa afirmação deturpada: “Cala-te, não podes acusar a Igreja secular pelas suas violências criminosas, pois estiveste calado perante as violências igualmente criminosas dos comunistas soviéticos, dos quais eras um apoiante”.

Eis a mentira! Tive ocasião, mais de uma vez, de falar sobre a questão com José. Eu contava-lhe como a União Soviética, de há 30 anos para cá, nunca mais colocara em cena um trabalho meu de sátira política sobre a cultura capitalista. Antes, tinha censurado a possibilidade de montar qualquer espectáculo. A razão, evidente, é que aqueles ataques sarcásticos tocavam profundamente também a concepção de poder em toda a União Soviética e arredores.

Por sua vez, Saramago recordava-me a censura sofrida pelos seus escritos, também da parte da liderança do partido na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Já no final dos anos 60, Saramago tinha tomado posições muito duras em relação a Cuba. Não se sentia levado a apoiar, cívica e moralmente, o regime de Castro que levava para a prisão não quaisquer opositores, mas comunistas que não estavam de acordo com a sua política.

Mas, ainda, já desde as primeiras notícias sobre o goulag e o destino dos dissidentes, tinha escrito vários ensaios sobre o que considerava a destruição do comunismo originário.

Naturalmente, o jornal da cúria finge estar distraído. Não se preocupa sequer em informar-se a este propósito. Dá por adquirido que um comunista não tenha a dignidade e a coragem de denunciar a violência muitas vezes criminosa de um grupo político ao qual pertence.

Esta atitude, tendente a mascarar, cobrir, ignorar, pode ser considerada como historicamente aceitável, só por quem faça parte do mundo católico apostólico romano. E isto é “um deixa andar” que dura talvez desde há séculos, desde o início do movimento denominado cristão: a partir mesmo do momento em que bispos e altas autoridades da Igreja colocaram à disposição do Império Romano do Oriente e Ocidente as suas pessoas e toda a cúria.

O tempo, para certas formas de alta hipocrisia, não passa nunca”.

Dário Fo - escritor italiano, Prémio Nobel de Literatura 1997 – in “Publico” de 24.06.10

segunda-feira, junho 21, 2010

Prenúncio apenas...

Anunciam-se as coisas (ou o que delas vemos)
Sem rosto ou permanência
Como se o tempo fora espera pura
Ou esfinge em rota de ventos
Por abrir...

Prenúncio apenas...

Nada demove o silêncio assim dobrado
Como vara de profetas:
- Que de tão denso se recolhe
E de tão pródigo se distende
Em profusão de promessas rarefeitas...

De âmbar e sal estas veredas maceradas
Ferida aberta no corpo solar dos dias
Rebeldes as sílabas no palato das palavras
Que soltas se condensam em olvido.

São de mar e fel assim doridas
Na distância que as abarca e nas areias que as sorve
Combustão estrelar em noite infrene
- Tão negra que implode e se faz brilho
De tão fria...

E no colapso das trajectórias perturbadas
Nos desertos devorados pelas dunas
Talvez a distância se faça
E expluda em flor carnívora.

E seja safra...

sexta-feira, junho 18, 2010

O Viajante volta já - José Saramago


"Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já".

Jose Saramago - in "Viagem a Portugal"




Prece

"Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.


Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.


Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia - 
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!"

Fernando Pessoa - in "Mensagem"

segunda-feira, junho 14, 2010

Carta Aberta à Família Espírito Santo – Rita Ferro

“Cresci a ouvir falar da vossa família com urna reverência quase tão mística como a matriz bíblica do nome que vos designa. Em 1931, o vosso avô Ricardo foi mecenas de uma obra social fundada por minha avó, e é em nome dessa memória afectiva que venho hoje galvanizar-vos.

Sabem? Herdeira genética do salazarismo, mas penitente pelos efeitos do seu regime, sinto-me hoje ludibriada por ter dado o benefício da dúvida a quem se perfilou na defesa das suas vítimas para agora as defraudar, apropriando-se de todos os tiques, luxos e vassalagens que, rusticamente, se associam à direita, e de que toda a Esquerda persistente deveria, ao menos, recatar-se.

Na verdade, devo a meu pai tudo o que sei de política: “Nenhum sistema ou nenhuma ideologia pode hoje considerar-se a salvo de suspeita”. Lição breve, mas que sobra para enxergar quando me enganam: o nosso primeiro-ministro está mais preocupado em encobrir o lóbi argentário que o assedia do que em escorar Portugal contra a calamidade mundial que afundará, em primeiro lugar, economias frágeis corno a nossa.

Todavia, presenciar os ultrajes a que se presta - sem saber ou poder defender-se - não é um espectáculo menos triste do que assistir à demissão dos portugueses que, lesados, falidos e ultrapassados por jogadas de bastidores, contam anedotas para expurgar a impotência.

Sei que sabem: as “classes” acabaram finalmente, não por promessas de Abril ingénuas nesta matéria - mas porque tanto operários corno intelectuais se irmanam hoje no garrote da penúria para que meia dúzia de plutocratas possam beneficiar-se com o que, em justiça, caberia a todos, segundo os chavões humanistas de que sempre se socorrem para burlar os eleitores.

Diverso, o vosso caso: o que se ouve neste momento, nas vossas costas, tanto nas salas como na rua, é que a força deste Governo não lhe advém dos cabelos, como em Sansão, mas da retaguarda que o vosso Grupo lhe assegura para acautelar negócios que, com o álibi das metas europeias e a promessa de retornos delirantes, vão cavando a nossa sepultura.

Refiro-me, claro, a todos estes investimentos - inoportunos nos prazos - em que Sócrates vem embarcando, com a chancela de consórcios financeiros onde, surpreendentemente, consta sempre o vosso Grupo: novas redes de auto-estradas, pornográficas para quem não tem que comer; o TGV para Madrid e a extravagância de urna terceira travessia sobre o Tejo; um aeroporto importante do ponto de vista logístico e estratégico, mas sem tráfego que justifique um projecto faraónico.

É, pois, na qualidade de patriota angustiada, que vos rogo que recordem o seguinte a quem, de entre os vossos - tão endividado corno nós, e a outra escala - possa também ressentir-se. Ao contrário do vosso Grupo - e doutros, claro, mas com menos pergaminhos – não teremos a Suíça corno abrigo quando a lâmina da bancarrota nos cortar a jugular, pelo que será aqui mesmo, em solo lusitano, desonrados e perecendo entre escombros, que exalaremos o último suspiro.

Se nem isto os demover, pois então que se perfile, coerente, a fé cristã da família: estão em causa montantes capazes de salvar, literalmente, milhares de irmãos da desonra, da doença, da morte nos hospitais, sem cama nem assistência, e do recurso ao suicídio para o qual a Estatística nos tem vindo a alertar e que disparou, em flecha, desde o princípio da crise.

Confiem: lembrar-lhes isto seria o acto mais nobre de lealdade a Portugal, tratando-se de um Grupo que, desde o Estado Novo até hoje, tem podido prosperar graças à indulgência de todos os governos e à vista grossa de um povo já exangue.

Dirão que o GES está no seu papel e que cabe a Sócrates prevenir-se; direi eu, que estou no meu, que me cabe defender a minha pátria de quem quer que a ameace”.

Rita Ferro, escritora – in “Expresso” – 12 Junho

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Admirável desassombro...

Está plenamente justificado o anti-capitalismo deste blog, não vos parece?!...

Carta a "um filho de um deus maior"

sexta-feira, junho 11, 2010

“The Secondlife” do Presidente...

Foi anunciado, com prestimosa cobertura mediática, que o Presidente da República aderiu aos deleites em moda das redes sociais, na sua requintada configuração em três dimensões, ou seja, a “Secondlife”.

Temos pois que, depois da saga do “Magalhães” e do deslumbramento do Primeiro-ministro perante as novas tecnologias, o Presidente da Republica se rendeu definitivamente aos prazeres da vida virtual...Uma banalidade, dir-me-ão. Não poderei estar mais de acordo. Mas a banalidade da notícia, não significa que seja uma notícia “inocente”!...

 Senão, vejamos... Em seu jeito manhoso (melhor se diria, "manholas"?), anda há meses o Presidente cultivando, como é seu timbre, o “tabu presidencial”, deixando cair, aqui e ali, sinais de um segredo de polichinelo, quer dizer, da sua mais que óbvia disposição de se candidatar a um segundo mandato...

Por esta vez, porventura, a última refinada “pérola” de semiologia política, congeminada pelos cérebros do Palácio de Belém – uma “segunda vida” presidencial de Cavaco Silva, em formato 3D. “Secondlife” - uma segunda vida, estão a topar?!...

Enfim, digno das melhores rábulas...Vejam lá quão moderno não é o nosso Presidente!...

Mas a atracção pelo virtual pode ter seus amargos de boca. É que – dizem os entendidos – nada mais anestesiante que o mundo virtual. E o nosso Presidente, na sua pulsão pela “Secondlife”, pode estar a confundir os mundos onde se move e, assim, a realidade fugir-lhe debaixo dos pés...

Porém, vendo bem, não acreditando eu que, no cadeirão de Belém, esteja sentado um inocente “Avatar”, nem que a democracia virtual, apesar dos seus cantos de sereia, tenha ganho definitivamente à democracia política, estou inclinado a presumir que o Presidente, mais que anestesiado pelos efeitos do mundo virtual, procure ele próprio ser agente dinâmico e interessado da anestesia geral do País...

De facto, que outro sentido dar ao seu discurso nas comemorações do “10 de Junho”  e aos seus ingentes apelos à coesão social e à concertação nas empresas entre patrões e trabalhadores?...

Claro que não há sociedade que resista à falta de coesão, nem soberania que perdure face ao definhamento económico e ao atraso estrutural... E que estaremos até numa “posição insustentável”, como o Presidente clama ter avisado oportunamente...

Mas de quem a responsabilidade? Da falta de concertação social? De irrealistas revindicações dos trabalhadores que, fundamentalmente, se têm limitado às recomendações da Organização Geral do Trabalho (OIT)?!...

Francamente, há aqui um equívoco. Se há responsável político, nas últimas décadas, mais tempo tenha exercido cargos determinantes para os destinos do País foi, sem dúvida, Cavaco Silva. Como primeiro-ministro em três legislaturas e, como Presidente da República, num mandato que já leva.Não pode, por isso, assobiar para o ar e, perante as dificuldades presentes, reclamar que avisou oportunamente...

Se o Presidente da República não é um “Avatar”, também não é propriamente um “treinador de bancada” (passe o futebolês) que mande uns “bitaites” sobre o expectável desastre do País. Se, em sua luminosa presciência, sabia o que nos esperava na profundidade e gravidade da crise, então porque o Presidente da República não interveio para a evitar, no quadro dos poderes que a Constituição da República lhe reserva...

Ou não terá ele sido eleito, sob o manto diáfano de “professor de Finanças” e o signo da “cooperação estratégica” com o Governo?... Como pode, assim, descartar responsabilidades no tamanho da crise?!...

Enfim, mais uma vez o “rei vai nu...”. Destino nosso!...

Quer o Presidente, como desígnio nacional, limpar Portugal. Ora aqui está um propósito que louvo, sem a mínima reserva....

Talvez começando por limpar o Pais (politicamente falando, está bom de ver) da casta que, nas últimas décadas nos tem (des)governado, dançando o vira ou o fado mandado e que, sob a batuta presidencial, parece agora ter-se rendido à licenciosidade do tango...

domingo, junho 06, 2010

Ballet no Camarote

A Suzette amava pequenoburguesmente o ballet!... ~

Sobre o estirador, Margot Fontaine e Ruldolf Neuryev, em grande cartaz e grande estilo, alimentavam a fantasia quotidiana da doce Suzette!... Se o "mito fala", como um tal Rolland Barthes teimou em afirmar, então o ballet constituía a pulsão mais secreta, a fantasia mais terna, o sonho mais colorido da doce Suzette! ...

Pela undécima vez, a Suzette se apropriou do Rapaz para, com olhos em alvo e coração devoto, lhe relatar o espectáculo de Paris, terminado sempre com a sacramental promessa:

- "Um dia levo-te ao ballet!"...

A doce Suzette era esguia e fina como vime, pronta a partir-se ao primeiro sopro!... Vista de trás a doce Suzette era apetecível. Formas, apesar de tudo, bem delineadas. Mas vista de frente a doce Suzette... meu Deus! – a Suzette não tinha outro encanto que não fosse a graça de ser mulher. Debaixo do camiseiro florido apenas uma breve sugestão de seios: aquilo que se chamávamos "uma tábua de engomar"! A minha ternura pela doce Suzette impede-me, porém, de vos descrever o rosto: algo de mitológico, entre uma equídea figura e uma ave de rapina! Imaginem...

No entanto, o Rapaz tivera sorte na geografia da distribuição dos lugares. Uma estrutura de madeira envidraçada, separava os "criativos" dos "gráficos", de forma que, da sua secretária, estava permanente em linha com a parte de trás do corpo de Suzette, balançando-se, perna a frente perna atrás, no trabalho minucioso do estirador (ainda não haviam computadores).

E, lá no alto, as figuras tutelares de Margot Fontaine e Ruldolf Neuryev!

Aqui, que ninguém nos ouve, o Rapaz confessa que, por mais que uma vez, se soltou do seu trabalho de "copywritter" para desfrutar, secretamente, a elegante ondulação daquele corpo na brisa do desejo...

Um dia, inesperadamente, a doce Suzette, numa euforia desusada, intimou-o :

- "No Sábado, vamos ao ballet! e não admito desculpas!..."

Foram. Sobrava espaço no elegante camarote do S. Luís. Enfim, o bruuua do momento - o espectáculo ia começar!... As luzes, lentamente, diminuíam de intensidade...

Em breve, as mãos do Rapaz, discretas, primeiro, ousadas depois, tomaram conta do doce corpo da doce Suzette. O arfar melodioso dos beijos de Suzette, prolongava as tonalidades da música de Tchaikovsky!...

Debruçada sobre o espaldar, no enlevo do bailado, em delírio estético-erótico, a doce Suzette oferecia-se, erguendo, até à cintura, o vestido de veludo vermelho. Que o Rapaz desfrutou como fauno sequioso, vindo dos confins da música...

E assim, suspensos sobre o infinito, fundindo-se na vibração da música e da dança, se amaram. E, ao menos dessa vez, se redimiram da alienação da publicidade! ...

Confesso-vos, que nunca houve "Quebra-Nozes" mais apreciado!
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Anos atrás, numa das últimas vezes que o Rapaz foi ao S. Luís, surpreendeu-se a olhar, da plateia, o camarote deserto, absorto, num sorriso irónico-nostálgico, de que foi acordado pela cotovelada da Mulher:

- "Por onde andará essa cabeça?!" – disse, fixando-lhe o olhar como que a ler-lhe a alma...

E, naquele instinto de leoa, que Rapaz tão bem conhece, sem outra palavra ou esperar resposta, a Mulher segurou-lhe a mão que manteve, quente, entre as suas, até ao final do espectáculo!...

Tchaikovski - Casse-noisette (Nutcracker) - Valse des fleurs

sexta-feira, junho 04, 2010

Razões para a Republica e o Socialismo

Diploma de posgrado - "Razones para la república y el socialismo 
también para el siglo XXI. 
Herramientas para el análisis de los principales problemas políticos, económicos y sociales de nuestro tiempo"


Será el 15/10/10 a partir de las 18:30 h. en Ateneu Roig (C / Ciudad Real, 25. Barcelona) - Barcelona.

Este evento lo organiza o lo convoca: Sin Permiso-Fundació Pere Ardiaca-Universitat de Barcelona-GREECS.

Mais informações em SinPermiso


quinta-feira, junho 03, 2010

"A democracia debaixo de fogo..."

“Há por aí uma petição que pede uma redução do número de deputados de 230 para 180. Os peticionários alegam razões de natureza “económica”, “moral” e “ética”. Defendem que a fixação do número de representantes no limite (constitucional) superior (230) resulta de “falta de bom senso político”, “oportunismo partidário” e “ignorância sobre o que se passa noutros países”.

A petição está mal escrita e revela, primeiro, um profundíssimo desconhecimento da matéria; segundo, não têm razão quanto aos argumentos económicos; terceiro, revela uma atitude populista, anti política, anti partidos e, no fundo, contra a própria democracia.

Vejamos porquê.

Em primeiro lugar, a petição revela um profundo desconhecimento da matéria versada e faz acusações gratuitas que raiam o insulto. Vários estudos têm revelado que o nosso país não tem um número excessivo de deputados, e a imprensa (fez abundante eco deles).
(...)
E por que é que o número de deputados é importante para o funcionamento da democracia? Primeiro, por causa da representação territorial sobretudo das zonas menos populosas. Por exemplo, com o sistema actual, algumas regiões do país, têm já muito poucos deputados e, se se reduzisse o seu número para 180, ficariam com menos ainda(...). Segundo, porque o número de lugares por círculo tem um impacto crucial no nível de proporcionalidade do sistema eleitoral: influencia de forma determinante o pluralismo na representação política (...).

Portanto, como uma redução do número de deputados levaria a uma diminuição do número de lugares por círculo, isso levaria a menor possibilidade de representação parlamentar dos pequenos partidos, sobretudo nos círculos mais pequenos.Os nossos concidadãos nessas regiões seriam duplamente prejudicados: teriam menos representantes e menos opções viáveis, logo, seriam (mais) constrangidos ao voto útil (nos dois grandes).

Isto poderia levar à redução do pluralismo, com custos para a democracia, e a um aumento da abstenção (para os concidadãos que, apesar de constrangidos, não quisessem votar útil). Se há algum dado seguro da sistemática eleitoral é o de que uma menor proporcionalidade implica menor participação.

Em segundo lugar, economicamente os peticionários não têm razão. Segundo cálculos (...) em quatro anos a poupança com a redução de 50 deputados seria de cerca de 20 milhões de euros (salários e ajudas). Pelo contrário,(...), as subvenções aos partidos, grupos parlamentares e campanhas eleitorais (2010-2013) apontam para um valor à volta de 163 milhões de euros.

Portanto, com cortes nestas subvenções entre 30 e 50 por cento (consoante as rubricas) poderiam poupar-se cerca de 64 milhões de euros. Aqui sim, há um esforço a fazer (...) sem com isso prejudicar a representação dos cidadãos no Parlamento.

Por último, esta petição revela uma atitude anti política porque faz da política e dos políticos o bode ”expiatório” de todo os gastos excessivos do Estado (e dos problemas económicos do país). Mas não é verdade: os 20 milhões de euros que se poupariam em quatro anos são uma pequena parcela ao pé dos 22,6 milhões de euros auferidos, só em 2009, pelos presidentes executivos das 20 empresas do PSI-20: em quatro anos teríamos mais do quádruplo dos 50 deputados (...).

Por outro lado, para um país que está no top das desigualdades na UE, por que é que não há uma fiscalidade muito mais progressiva para reduzir estas escandalosas disparidades? Outro exemplo, cada um dos dois submarinos que Portugal vai comprar (de duvidosa utilidade, sobretudo para um país pobre) custa 1000 milhões de euros. Ou ainda: somos dos países que mais gastam com a defesa na UE, mas os gastos militares, em Portugal, continuam sempre a crescer (...). Ou ainda: a tolerância de dois dias e meio para ver o Papa terá provavelmente custado mais do que os 20 milhões que pouparíamos com menos 50 deputados.

E por que é que, apesar de crise, continuamos com a candidatura para organizar o próximo mundial de futebol? Mas estes peticionários estão sobretudo preocupados porque há muitos deputados... o alfa e o ómega dos nossos problemas, claro.

É nestas alturas que o Governo representativo pode evidenciar as suas virtudes. Veremos se a classe política consegue elevar-se acima do populismo, a bem da democracia, ou se, pelo contrário, cede às tentações de agradar à populaça”

André Freire – politólógo, prof. no ISCTE - in “Publico” 31 de Maio.

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Espero que este texto, pela sua qualidade e rigor, possa contribuir esclarecer a questão. E, já agora, que sirva também como minha resposta às solicitações para subscrever a petição...