domingo, fevereiro 28, 2010

Una nueva igualdad...

"El objetivo de una economía no es el beneficio, sino el bienestar de toda la población. El crecimiento económico no es un fin, sino un medio para dar vida a las sociedades buenas, humanas y justas. No importa como llamamos a los regímenes que buscan esa finalidad. Importa únicamente cómo y con qué prioridades podremos combinar las potencialidades del sector público y del sector privado en nuestras economías mixtas. Esa es la prioridad política más importarte del siglo XXI

Eric Hobsbawm en el Word Political Forum, realizado en Bosco Marengo (Alejandría) - 01.11.09

Fio de água...

Talvez neste horizonte o breve fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.

Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no intimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul ...

Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.


O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco nos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.

Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta a porta caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo. E clamo
Casa em que me guardo. Terra quanta vejo ...

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Uns breves dias ausente de vosso convívio.
Beijos e abraços...

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

O rosto do capitalismo

Há pequenos nada que explodem em sentido. Pequenos gestos, inesperadas atitudes, insignificantes sinais que, na linguagem do quotidiano em que desgastamos os dias, se sobrepõem e se dilatam na sua expressividade, como paradigma dos tempos que correm. É a realidade a ultrapassar a ficção...

Tivéssemos o talento para narrar o inarrável e o imaginário dos romances de Charles Dickens, saltaria destas linhas, como se o século dezanove nos revistasse, com seu cortejo de horrores na implantação do capitalismo. Com a agravante de, agora, ser o próprio Estado cúmplice activo da crueldade.

Porventura, em nome do “capitalismo de rosto humano”. Certamente, em nome do “socialismo moderno”...

Como se sabe, o número oficial de desempregados no nosso país ultrapassa a percentagem de dez por cento da população activa. Não importa agora saber da fiabilidade das estatísticas, nem o número exacto de trabalhadores desempregados. Mas não será difícil para qualquer cidadão, dotado do mínimo de consciência social, compreender o drama humano que será ficar sem emprego e meios de subsistência...

Certo que, produto de conquistas sociais dos trabalhadores, nas economias do proclamado Estado social, os problemas individuais do desemprego, são amortecidos, mediante o respectivo subsídio, como contrapartida dos descontos do trabalhador, durante a vida activa.

Não importa também agora referir as barreiras legais para a atribuição do subsídio. Sublinha-se, porém, que o subsídio de desemprego não constitui uma benesse do estado ou da sociedade, pois que incorpora os descontos que regularmente o trabalhador fez para a Segurança Social.

Neste quadro, que sentido faz o conceito de “procura activa de emprego” e o indispensável comprovativo que os desempregados têm de apresentar, regularmente, nos Centros de Emprego para terem acesso ao subsídio?

Ora aí está um desse “pormenores” que revelam mais que dizem, ou procuram esconder o que manifestamente não podem calar. Esse o papel da ideologia subjacente...

No caso, a pretensão legal de rigor  esconde a imoralidade e a hipocrisia de responsabilizar o desempregado pela situação de desemprego (ou por sair dela), colocando-o numa situação dupla de precariedade social e dependência. De facto, até a manutenção do subsídio de desemprego depende de encontrar dois “empregadores” que aceitem atestar “a busca activa de emprego”...

E, como se fora pouco - lê-se e não se acredita! – não faltam abutres que tiram proveito do estado de necessidade dos desempregados.

Uma reportagem recente sobre a realidade social do nosso país, dava conta um jornal diário de Lisboa da existência de empregadores que cobram 5 euros aos desempregados para lhes carimbar “o papel” e de outros que impõem, como condição, a prestação de trabalho gratuito, antes de passarem o comprovativo...

Eis o capitalismo em todo o seu esplendor humanitário – o desespero usado como apropriação de “mais valia” e humilhação de quem precisa de trabalhar e sobreviver.

Com o apoio activo do Estado, que abriu o caminho a essa vergonha, mediante a introdução na legislação do trabalho do conceito de “busca activa de emprego”, como condição de atribuição do subsídio...

Denunciar e eliminar esta indignidade legislativa e semelhantes prepotências, mais que um dever de cidadania, é uma questão de higiene social...

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Adenda:

Muitas e boas razões, fazem-me sentir "cubano", como por vezes tenho a veleidade em afirmar.

Por isso, são-me de uma incomodidade dolorosa as greves de fome, que se verificam actualmente em Cuba.

Não há greves de fome "boas" e greves de fome "más"...


domingo, fevereiro 21, 2010

O País é de Joana?

Bem sei que, perante o estado da Nação, isto são minudências. Mas que querem?... Se os “deuses moram nas pequenas coisas”, é natural que também os diabos as habitem. E a verdade é que o meu diabinho de estimação anda particularmente azedo...

A questão conta-se em poucas linhas.

Como se sabe, o partido do Eng.º Sócrates, em seu afã de aguentar a maioria absoluta, lançou mão de todos os recursos e arregimentou umas quantas vedetas para exibir na recente campanha eleitoral.

Os resultados foram escassos, como se sabe. Não se conhecem, porém, todos custos, embora vão pingando, aqui e ali, notícias (desportivas eheh) que dão conta de despautério que terão representado para o País.

Seja como for, o grupo parlamentar do PS acabou por integrar uma vedeta do mundo do cinema, cujos méritos artísticos conhecidos, (correndo o risco de ser injusto) serão ser filha do pai e viver... em Paris!

É que nem sequer consta que tenha mostrado seus crepitantes dotes, como fez a irmã em “Henry e June”, o que não a absolvendo, teria ao menos o mérito momentâneo de ser um regalo para os olhos...

Mas enfim, a senhorita, investida em deputada da Nação, continuou, naturalmente, a frequentar Paris aos fins-de-semana.

E, com a maoir inocência, remete para o Parlamento os respectivos bilhetes de avião, ignorando olimpicamente que integra o grupo de deputados eleitos pelo circulo eleitoral por Lisboa, cidade, onde aliás, consta a sua residência oficial, como de resto é norma.

Esclareça-se que os deputados, representando embora o eleitorado no seu conjunto, estão de alguma forma vinculados ao respectivo circulo eleitoral, onde é pressuposto residirem, pelo que tem justificação que, nas respectivas deslocações para exercício das funções parlamentares tenham direito a subsídio de transporte, à razão de 40 cêntimos por quilómetro.

Viver em Paris é manifestamente delicioso (deve ser – imagino!). Mas, para o caso, é uma mera protuberância... A ilustre deputada tem domicílio oficial no círculo eleitoral por onde é eleita. Que razões, pois, para pagamento das viagens de avião para Paris?

No entanto, apesar do óbvio, refere a imprensa que os deputados da Nação no Conselho de Administração da Assembleia da República, torcem e retorcem as meninges para encontrar solução para o magno problema, que apresenta foros de causa nacional, a ser decidida pelo Presidente do Parlamento...

A solicitude é tanta, que a própria Secretária-geral, forçando o inimaginável, teve a genial ideia de considerar, para o efeito, a ilustre senhora como deputada pela emigração. Enfim, expedita solução, que se diria solução Simplex...

Estou tentado a dar-lhes razão. A senhorita merece. E “emigrantes”, estamos a ser novamente – na nossa própria Pátria.

O País é, cada vez mais, de Joana. Ou de Inês...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Polifonia...

A cor é reflexo de luz
Na inocência de teus olhos
Circuito da mão sobre o branco
Derramado. Indolor...

Apelo e vibração 
Polifonia do gesto
No olhar virgem...

Transgressão festiva
De água e tinta...

E o desvelo que de fora
Se mistura
Na alegria de obra-prima.

Tua e nossa,

António...

domingo, fevereiro 14, 2010

Metamorfoses do Diabo...



Talvez mais do que em qualquer outro lugar, o carnaval de Podence é uma elegia do movimento.
Não há Entrudo sem tropelias. Em Podence, aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, nada, ou quase nada, detém os bandos de Caretos que todos os anos saem para as ruas em desenfreadas correrias, perseguindo as moçoilas para as “chocalhar”.

Nos dias grandes da festa — Domingo Gordo e Terça-feira de Carnaval — os Caretos só param para se dessedentar ou para combinarem mais uma investida sobre o Largo da Capela, a pequena praça da aldeia onde a gente do lugar e um punhado de forasteiros curiosos se juntam para assistir ao ritual.

E como em todas as culturas e latitudes onde se celebra a funçanata, o mote da agitação está impregnado de um desígnio de licenciosidade, feição que tem pai e mãe na dualidade profana e religiosa da tradição: tanto desvario serve para despedida do Inverno e para anunciar a chegada da Primavera (...) e para marcar (em excessos que supostamente se filiam nas antigas saturnais romanas, festas de homenagem a Saturno, deus das sementeiras) ...
(...)
Nas festas do Entrudo, é a máscara que confere todo o poder. Às iras dos Caretos endiabrados ninguém se atreve a opôr-se. Apenas as Matrafonas (raparigas disfarçadas de homens, ou vice-versa) são poupadas à sumária justiça carnavalesca: os demónios mascarados lançam-se ao assalto das moças e, encostando-se a elas, ensaiam uma dança um tanto erótica, agitando a cintura e fazendo embater os chocalhos que trazem pendurados contra as ancas das vítimas.

Rápido se aprende o que há a fazer: não resistir e deixar o corpo ser levado no balanço do ritual, a única forma de amenizar as nódoas negras. E como a violência de outrora apenas sobrevive nas histórias que os mais velhos gostam de contar (...)



Antigamente, era outra louça. As raparigas apenas saiam à rua furtivamente, já que a punição era brava. O chocalhar ritual, ainda que mais apurado, era só uma parte da pena. Havia também a chuva de cinzas e de outros objectos e dejectos menos nobres, ou ainda a fustigação com uma pele de coelho seca ou uma bexiga de porco previamente “colocada no fumeiro como os salpicões”.



Particularmente cruel era o banho de formigas bravas que os Caretos recolhiam em sacos de formigueiros que iam identificando meticulosamente nos campos próximos meses antes. Este costume bárbaro — mas seguramente muito divertido a avaliar pelas gargalhadas prazeirentas dos Caretos que o descrevem (...)

Outras tropelias caídas em desuso incluíam invasões intempestivas das casas e o consequente destempero da paz doméstica, incluindo o virar dos potes que ao lume ferviam o manjar: ficavam os da casa sem comer e partiam os demónios aos gritos em busca de mais vítimas.
(...)
Na investida bárbara que faz ecoar por toda a aldeia o alarido dos chocalhos e o tropel surdos dos passos, os Caretos levam tudo pela frente, indistintamente. É um modo de dizer: por detrás da máscara de latão os olhos em fogo procuram muitas vezes, confessam, “as moças mais apetecidas”, as da terra ou as que de fora vêm — ainda que inadvertidamente — para o sacrifício.
(...)
Outras vítimas conformadas destas tropelias são os possidentes das adegas da terra. Reconhecidos pelo bando alucinado, são feitos reféns e arrastados para as ditas onde não lhes é deixada outra alternativa senão a de aliviar a sede aos seus luciferianos raptores...


Humberto Lopes
Texto publicado na revista "Tempo Livre" nº92- Fev.99 aqui
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Belos roncos do Diabo, não?

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

“As leis dormem às vezes..."

As leis dormem às vezes, porém nunca morrem”, diziam os romanos. Lembrei-me desta provérbio latino a propósito do amontoado de factos, que as últimas semanas, têm desabado sobre a cabeça dos portugueses, apardalados com o deficit e com as diversas metamorfoses da crise...

Como se recordam, tempos atrás, com base nas escutas do célebre processo “Face Oculta” soube-se que o 1º Ministro de Portugal estaria a par da tentativa de aquisição de um canal de televisão, que lhe era incómodo, por parte de uma empresa nacional, onde o Estado tem posição accionista relevante e que, por isso, permite ao governo ter intervenção efectiva.

Lembram-se que o Primeiro Ministro mentiu ao Parlamento, quando confrontado com essa realidade, embrulhando-se, posteriormente, em embaraçosas explicações entre conhecimento particular e conhecimento oficial...

Entretanto, em palco mais discreto, quer dizer, num ignorado tribunal de província, corre seus termos um escaldante processo-crime, ao abrigo do qual foram constituídos arguidos diversas figuras públicas do séquito do Eng.º Sócrates e no qual os magistrados consideraram que, face aos meios de prova recolhidos, se verificam indícios do gravíssimo crime de “atentado contra o Estado de Direito”, imputado ao 1º Ministro de Portugal...

Conhecem-se os desenvolvimentos. Os magistrados titulares do processo, por falta de competência para instaurar e instruir um processo-crime ao 1º Ministro, remeteram o assunto para as instâncias próprias, ou seja, o Procurador-geral de República e, subsequentemente, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

A partir daqui, adensa-se o trama judicial. No meio de intenso (e profícuo) debate público do “mundo jurídico”, as instâncias superiores do sistema de Justiça, mantiveram opinião contrária à dos magistrados de 1ª instância e não valoram os factos participados.

Considerou o senhor Procurador Geral da República não se verificarem os pressupostos do crime indiciado e o senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça determinou serem nulas e mandou destruir as escutas em que o 1º Ministro fora apanhado, por não terem sido autorizadas pela entidade judicial competente, ou seja, exactamente o Presidente do STJ.

Porém, conforme a opinião pública começa a perceber, as decisões das instâncias superiores de Justiça, estão (tudo indica) maculadas na sua génese. Por um lado, importa recordar que prestigiados juristas mantêm opiniões divergentes da doutrina perfilhada pelo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça quanto aos fundamentos jurídicos da decisão de não valorar as escutas e as mandar destruir.

Por outro lado, não será despicienda a qualificação do crime como “atentado contra o Estado de Direito”, pois seria inconcebível que magistrados judiciais responsáveis se aventurassem por tais territórios sem indícios fortes, que suportassem as suas teses. O que, de facto, agora parece decisivamente confirmar-se...

Na realidade, segundo a imprensa, citando excertos das escutas telefónicas, extraídos do processo “Face Oculta” e ignorados pelos órgãos supremos do sistema de justiça, em seus doutos despachos, terá havido um plano, não se sabe ainda se, por iniciativa ou conivência do Engº José Sócrates, 1º Ministro de Portugal, tendo em vista tomar o poder no célebre canal de televisão que tantos engulhos causava.

Tudo isto vem na imprensa, ponto por ponto. Com factos e nomes...

Face a estes novos desenvolvimentos, compreendem-se a perplexidade da opinião pública e a atenção que o assunto está a merecer na Assembleia da República, no plano político. Porém, mais que a condenável actuação do Eng.º Sócrates, que deixou de surpreender, escandaliza a actuação dos órgãos superiores do sistema de justiça.

Mais preocupados, porventura, em resguardar o Eng.º Sócrates dos pingos da borrasca, do que em perseguir a justiça material, refugiaram-se o senhor Procurador Geral da Republica e o senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça em expedientes formais e consagraram, definitivamente, no plano judicial, a “inocência” do senhor 1º Ministro.

Poderá, certamente, tão zelosa actuação ser prenhe de méritos insuspeitos. Não deixa, porém, de causar profundos rombos, porventura irrecuperáveis, na autonomia do Ministério Público e na independência dos Tribunais.

Obviamente, demitam-se...
E talvez o ar fique mais respirável!...


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Este texto nada tem a ver com movimentos e tomadas de posição colectivas, que respeito, mas que não têm a adesão deste blog...

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Nem ontem, nem hoje...

Curva-se o ombro da tarde
Na luz coada
Como se o tempo
Fora apenas o rasgar da nuvem
Sobre o Tejo...

Suspende-se o olhar sobre a janela
E o ar agora baço
É apenas o esvoaçar da ave
Ferindo o nevoeiro...

O grito da outra margem -
Gingão o cacilheiro
E o cais deserto...

Nem ontem nem hoje -
Apenas o reflexo da tarde caindo
Sobre o Tejo...


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Bom fim de semana
Beijos e abraços...