domingo, janeiro 31, 2010

Sangue virginal dos dias....

Que os braços sejam árvores
E as raízes o coração de todas as auroras.

Que a macerada espera seja a destilação do tempo...

Que os claustros impludam em trovão e raiva
E as palavras se estilhacem
E sejam lume e flâmula e se libertem
No timbre das bigornas...

Que as espessas dores do mundo
Se façam aço e lâmina e queimem
E em espasmos se iluminem
E dancem no labor dos homens...

Que a calcinada esperança onde me perco
Seja ternura na boca da fome
E se derrame e se faça seiva e lavra...

E os leitos sejam o sangue virginal dos dias...

sábado, janeiro 30, 2010

..."e agora, Manuel?"

“Manuel Alegre é o único pré-candidato assumido às eleições presidenciais de Janeiro de 2011. Mas, desde a disponibilidade publicitada em Portimão, o aspirante a inquilino do Palácio de Belém fez voto de silêncio sobre tudo o que seja incómodo para o Partido Socialista.

É compreensível! Afinal, Alegre precisa, desta vez, do apoio do seu partido à ode que começou a escrever na noite em que, há quatro anos, foi derrotado por Cavaco Silva...

Mas onde andará o inconformado poeta que ninguém calava? Que é feito do deputado (que já não é) insubmisso, e que tantos engulhos causou ao PS, por se reacusar a acatar a disciplina partidária?

Onde esteve afinal Manuel Alegre na semana em que o Governo do seu partido apresentou o Orçamento do Estado, que contará com a condescendência do "bloco conservador", que tem a "grande tentação" de se "reagrupar" à volta do actual Presidente da República?

Uma vez viabilizado na Assembleia da República Orçamento do Estado, com o apoio implícito do centro-direita - por mais cominhos alternativos que tivesse -, torna-se evidente que PSD e CDS terão menos margem de manobra para fazerem oposição.

A luta contra o Governo, até por via dos inúmeros constrangimentos orçamentais, irá pois transferir-se, de novo, para fora de São Bento. Aí, espera-se, já os socialistas terão desfeito o seu tabu presidencial. Ou apoiam Manuel Alegre ou não apoiam...

Então, os funcionários públicos, castigados e sem aumentos não hesitarão em sair à rua juntando-se aos enfermeiros e a professores, aos polícias e aos militares, aos juízes e aos magistrados. Todos, enfim, vítimas da "obsessão" com o défice público.

Ao seu lado estarão os partidos de esquerda, (...) com a autoridade de quem votou contra o Orçamento...

E nessa altura, ao lado de quem estará Manuel Alegre? Na rua, lado da esquerda com quem flirtou nos últimos quatro anos, por exemplo, nas poltronas do Teatro da Trindade ou da Aula Magna, em Lisboa?

Ou algures numa aldeia esconsa a jantar com um punhado dos seus apoiantes e poupando o PS, correndo o risco alienar boa parte do seu capital político?”


Nuno Saraiva, Subdirector do “Diário de Notícias” – 30.01.2010
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Entretanto, o “Manuel” procura jogar ao berlinde com o senhor Belmiro de Azevedo...

Uhummm... Bate certo!

terça-feira, janeiro 26, 2010

Orçamento Sandwich

Apenas os néscios poderiam acreditar noutra saída. Estava escrito nas estrelas, que é como quem diz, nos desígnios alcatifados dos interesses do capital financeiro. O CDS e o PSD, que no último mandato de maioria absoluta do Eng. Sócrates, andaram a fingir ser oposição, não tiveram outro remédio, face a contrariedade da maioria relativa, senão colocar a mão por baixo do menino e apara-lhe as necessidades...

Teremos, pois, o Orçamento de Estado aprovado na Assembleia da República ...

Há quem diga, em versão sexy, que será um orçamento de Estado produto de uma “ménage à trois”. Mas, com franqueza, quando imagino as bochechas (salvo seja) do senhor ministro das Finanças a saltar, felizes e risonhas, em gravidade de Estado, ou o dentinho cavernoso do senhor ministro de Assuntos Parlamentares, em gulosa ascese, mais me parece que teremos um “orçamento sandoca”...

Aliás, será glorioso e imperdível o momento em que o Eng.º Sócrates irá entrar em cena, qual entremeadinha grelhada, ensandwichado entre o senhor Paulo Portas (das feiras) e Dona Ferreira Leite. Reconheçam que, com uns perdigotos de Belém à mistura, será espectáculo a não perder. A menos que a vossa alergia a coiratos (com perdão dos coiratos genuínos) não vos permita suporta-lhes o (mau) cheiro...

Como eu vos compreendo!...

Habituem-se, pois, à “sandoca”!... Já se sabia que, em Portugal, mais de dois milhões de pessoas vivem abaixo do limiar de pobreza, para quem uma refeição diária será um luxo. E destes, 700 mil são assalariados e outros tantos serão pensionistas e reformados, o que demonstra, à exaustão, que os problemas maiores do país são a falta de trabalho, os baixos salários e as baixas reformas.

Agora as dificuldades irão aumentar e, com este orçamento, irão “subir”, ainda mais, à dita classe média, numa tendência geral de proletarização da sociedade e de concentração da riqueza nuns quantos.

No entanto, em Portugal, como no resto do Mundo, a crise tem causas e responsáveis. E entre estes, para além dos casos de gestão danosa, manipulação financeira e outros crimes, sob a alçada de Justiça, estão aqueles que, do lado da civitas, dão corpo a políticas enfeudadas aos grupos económicos e financeiros dominantes e que tem expressão essencial no orçamento de Estado, ora acordado entre os partidos de direita e PS/Sócrates.

Porém, como sustenta a Organização Internacional do Trabalho aqui, a saída da crise exige ruptura com políticas de fundamentalismo financeiro, a valorização do trabalho e a dignificação dos trabalhadores, bem como o estímulo à economia produtiva.

Mais do que por vagos moralismos ou considerações ideológicas, portanto, esta mudança de rumo nas orientações políticas como fundamento de superação da actual crise, impõe-se por razões estritamente económicas.

Fosse Marx mais lido e saber-se-ia que as crises do capitalismo são fundamentalmente crises de sobreprodução “em relação à capacidade de consumo solvente”, quer dizer, em relação à capacidade de pagamento de que a população dispõe.

De facto, na sua “contradição insanável”, o capitalismo desenvolve exponencialmente a capacidade produtiva, mas com a apropriação desenfreada da mais valia e a permanente acumulação de capital provoca, por outro lado, a pauperização crescente da sociedade.

Ora, quando a pretexto de resolver a crise, se agravam os problemas do emprego e se esmagam salários os trabalhadores para aumentar lucros ilegítimos, diminuindo assim o tal “consumo solvente”, é mais que certo que, com o novo orçamento de Estado, novas e mais graves crises virão em futuro próximo.

“Habituem-se”, portanto, como diz o outro...

Ou apeiem-nos!...

quinta-feira, janeiro 21, 2010

SEARA NOVA

Foi publicado o nº 1710 da Revista “SEARA NOVA”– Inverno/2009

De destacar neste número, entre outros, para além do Editorial, o artigo de André Freire sobre “As opções eleitorais e a incongruência dos eleitos perante elas”, o artigo “Modernidades” pelo historiador Hugo Hernandez, bem como o artigo “A actual Justiça em Portugal – breves notas de diagnóstico”, pelo Juiz Conselheiro de Tribunal Constitucional, Guilherme da Fonseca, ou ainda o artigo “O Novo Paradigma Mundial”, pelo coronel António Pessoa.

Pela sua oportunidade e clareza merece, especial referência o texto de Professor Borges Coelho sobre “O Mundo e os dias”, de que me permito transcrever alguns extractos...
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“O Mundo e os dias"...

"Mundo sangra por velhas e fundas feridas no Próximo e no Médio Oriente. Todos os dias, há gente que explode, aviões que se enganam no alvo. O povo pobre lambe as feridas. Soldados camuflados explodem também com as suas armas mortíferas. No regresso, há muitos que chegam mutilados ou ensandecidos. Nós não vemos, mas eles viram os corpos desmembrados, o olhar dos vi vos a recolher os farrapos. Para eles, a festa da vida ficou para sempre ensombrada.

Nós também vimos, virtualmente, e vemos os carros e as casas destruídas, um rasto de sangue, a tortura na prisão de Abu Gharib, a corda no pescoço de Sadam. Há um Tribunal em Haia, mas é para os vencidos. Como é que apagamos as fogueiras do ódio? Construindo muros ou vindo à fala, fechando as chagas, recompondo o futuro?

Outras feridas abrem e fecham no Cáucaso, em África, na América, na China. Há países sem lei, devorados pela fome. Meninos escravos. E jovens que demandam o paraíso com sacrifício da vida ou a prisão e a venda dos corpos.
(...)
O motor da economia global desacelerou. Não consegue libertar-se da droga da especulação financeira, da batota no mercado, da guerra, dos privilégios de casta. O sistema não garante a milhões e milhões de mulheres e homens de todo o mundo a dignidade e a segurança do trabalho. Deita-os fora aos quarenta e cinquenta anos. Para ganhar mais e pagar menos, salta de terra em terra, fecha e abre empresas. Propaga a precariedade e a insegurança. Aumenta o tempo da jornada de trabalho.

O sistema não está ao serviço da comunidade mas do lucro máximo para aqueles que detêm o poder. Num tempo em que alcançamos uma capacidade extrema de produzir riqueza, os gestores e políticos subordinam a produção dos bens indispensáveis à especulação, ao lucro fácil e caem nas armadilhas da riqueza virtual.
(...)
Repetidas até à exaustão, as imagens digitais informam, escondem. mentem, encaminham, adormecem. Os olhos seguem o insólito, o fútil (...) bebem o crime até ao sangue. A bola rola, toma a rolar. Imagem e som oco preenchem o vazio, perturbam a lógica e a fala. Haja máquinas que recolham e transmitam imagens e sons. Abençoadas. Penduradas nas mãos, nos ombros, nos ouvidos, no pescoço. É com elas que falamos. Não, boca a boca, mão a mão.
(...)
Em Copenhaga, os governantes de todo o Mundo vão falar do planeta. A Terra aquece, os gelos do Árctico e da Antárctica derretem, os oceanos sobem, o clima altera-se, a vida periga. Temos de mudar o rumo: produzir menos dióxido de carbono, poupar e limpar a água, conter o desperdício e os lixos tóxicos, suster as armas.

O petróleo intoxica o ar e a política, traz o conforto e a guerra. Todos somos responsáveis. O consumo devora-nos. Na ida e no regresso de cada jornada, milhões e milhões de homens e mulheres, sentados ao volante, isolados pelos sons e o conforto, propagam o fumo tóxico, empestam, estoiram o planeta.

Portugal está mais europeu, mais viajado, mais velho, mais emigrante, mais indefeso, porém pavimentado e digitalizado. A barriga encolheu tanto que hoje é quase só a coluna vertical da beira mar. No interior sucedem-se os campos abandonados e vilas e aldeias desertas, algumas que vêem do tempo dos Afonsiques.

Não há crianças, alguns velhos, casas vazias à espera dos fins-de-semana. Precisamos de novos forais para repovoar, cultivar, afeiçoar o bocado da Terra que nos coube e que partilhamos com os nossos mortos.

Nas cidades do litoral, particularmente nas duas grandes metrópoles, há as ruas e as casas altas iluminadas até ao céu. Templos de consumo. Gente jovem e cada vez mais bela. Tudo parece possível e ao alcance das mãos. Mas se entramos no miolo dos bairros e das casas, encontramos prédios abandonados e em ruína, famílias inteiras sem emprego ou com salários de miséria, velhos mergulhados na solidão, gente picada pela fome.

Ao longo da História não faltaram profetas a anunciar o castigo pelos nossos pecados e o advento para breve do fim do Mundo. Os profetas de hoje ocupam o púlpito das televisões e anunciam todos os dias, para amanhã, a catástrofe.

Assim, bombardeados pelo desemprego, pela vida difícil, pelos escândalos da vida pública, pelos maus augúrios, pelo resvalar de tantos sonhos, não é fácil sustentar a esperança. Sobram as queixas, o pessimismo, o não vale a pena. O melhor é comprar uma nova máquina que me aproxime mais da “notícia” e me afaste da vida real.

Vivemos, para o usar o tempo que nos coube. Por que não torná-lo mais justo e mais belo? Pela justeza dos nossos actos e pela união das vontades, em cada país e no Mundo. Derrubemos os muros, a exclusão, o não é nada comigo.

Hoje há mais jardins nas cidades, o rio está mais perto de nós. No centro, o movimento das pessoas, mesmo sem falas, mesmo desviando o olhar, dá-nos uma energia renovada. E se, de repente, cem mil mulheres e homens descerem a Avenida para dizerem não, é porque a alegria e a esperança continuam vivas (...) e continua a haver gente disposta a dar, até a própria vida, pelos outros homens”.



António Borges Coelho - Historiador
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Um arreliador problema técnico não me permite pubicar a imagem da revista, como se impõe. Pelo mesmo motivo também não tenho frequentado os vossos blogs, do que peço desculpa

Beijos e abraços

sábado, janeiro 16, 2010

Haiti II

"Observando a proliferação de imagens do Haiti, percebemos a lógica perversa da nossa "estética de auto-estrada": quando dois carros chocam, imediatamente se formam filas imensas, não porque alguém vá fazer alguma coisa, mas porque o acidente envolve alguma atracção. Claro que ninguém fala disso: vivemos num quotidiano de compulsiva “purificação”, onde até os comentadores de futebol acreditam que há golos "justos" e "injustos".

O certo é que a atracação pela devastação, cujo limite impensável é a contemplação vitoriosa da morte, faz parte do bilhete de identidade humano. Nada que o avô Freud não nos tenha ensinado no princípio do outro século. O certo é que Freud não programa as televisões. E há uma frase feita para resumir este statu quo: “tudo é espectáculo!” Mas a frase é redutora, já que não há cumplicidade possível entre o sinistro espectáculo do Big Brother e seus derivados e uma ópera de Verdi ou um musical da Metro Goldwyn Mayer.

As televisões agem como se a realidade fosse automaticamente espectacular. Daí que não faça sentido discutir a informação televisiva avaliando se mostra “muito” ou “pouco”. Não é a quantidade das imagens que está em causa, mas o modo de as olhar, integrar e difundir. Na certeza de que todos queremos ver e saber mais sobre o Haiti.

As imagens repetidas, tendencialmente redundantes, pouco ou nada têm que ver com a paixão do conhecimento. Decorrem do mesmo infantilismo jornalístico do repórter que, à entrada de um estádio, faz um directo sobre as claques e proclama: “Ainda não há confrontos!”...

Ou seja: esperem um pouco, que isto ainda vai dar sangue. Jornalismo de catástrofe, jornalismo para a catástrofe..."


“Estética, Morte e Sangue” – João Lopes – in “Diário de Notícias” de 16.01.10

Haiti I

Implodem palavras na profusão
Dos escombros.
Ecos e ecos sobre o corpo exangue ainda...

Grau zero da dor. Que explode e se multiplica.
Já não dor! ... Apenas a imagem da catástrofe
E o frémito do grito filtrado
No espectáculo do horror!...

Estamos vivos. A dor dos outros é nosso medo.
Visceral. Que esquecemos depois da voragem.
E do desastre que contabilizamos no deve e haver
Dos mortos. E dos milhões em que amortizamos
Nossos cêntimos – pródigos que somos no azar
Dos outros...

No ar a dantesca tragédia e imagens do insólito.
Heroísmos inumanos em lente côncava
Objectos fugazes na ordem comunicacional
De pivots e bons sentimentos.
Em que ardemos:
- Campeões que somos de piedades doces!

Aqui estamos. Anestesiados e perplexos.
Quem, porém, na genuína dor?
Quem da miséria que sobra
Antes e depois?

Quem no desesperado sopro que da morte
Se faz vida?

Ai de ti, ai de mim
Ai de nós, Haiti...

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Uma data a celebrar. Ainda!

Perfazem-se 35 anos sobre a data em que, por iniciativa do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM) e do Movimento Democrático das Mulheres (MDM) umas centenas de mulheres se manifestaram no Parque Eduardo VII, em Lisboa, em favor da emancipação feminina e pela libertação da Mulher portuguesa de atavismos ancestrais.

Foram vilipendiadas, apalpadas, agredidas no local por centenas de homens (a imprensa refere mais de dois mil) e, posteriormente, caluniadas na comunicação social e nos meios conservadores da sociedade portuguesa. “Um acto de barbaridade machista”, como o qualifica(ra)m as promotoras da iniciativa.

O que mudou na sociedade portuguesa desde então?

Maria Teresa Horta que, com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, (as “três Marias”) foi condenada nos tribunais fascistas, pela publicação de uma obra notável -“Novas Cartas Portuguesas”(1971) - declarou à imprensa de hoje:

- “Nada do que estava representado na manifestação de há 35 anos está desactualizado: o casamento tem a mesma simbologia opressiva, a pornografia exploradora da imagem da mulher é cada vez mais corrente, ainda há violência doméstica, a sexualidade da mulher ainda é tabu e mantêm-se as discriminações no trabalho e no acesso ao poder...”

Não haverá libertação das mulheres sem simultânea libertação dos homens! Homens e Mulheres – a mesma luta pela emancipação da Humanidade!...


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Gozo I

Linho dos ombros
ao tacto
já tecido

Túnica branda
cingida sobre as
espáduas

Os rins despidos
no fato já subido:
as tuas mãos abrindo a madrugada

Linho dos seios
na roca dos sentidos
a seda lenta sedenta na garganta

a lã da boca
cardada
no gemido

e nos joelhos a sede
que os abranda

Linho das ancas
bordado
de torpor

a boca espessa
o fuso da garganta...”


Maria Teresa Horta

domingo, janeiro 10, 2010

“A Geografia da Fome...”


Segundo Josué de Castro, a apropriação injusta e ilegal da abundância dos recursos da natureza é responsável pelo subdesenvolvimento, gerador de miséria e a fome. E afirmava que a fome não era fatalidade da natureza, ao contrário, era fruto de acções dos homens e das suas opções...

O que divide os homens não são as coisas, são as ideias de que eles têm das coisas, e as ideias dos ricos são bem diferentes das ideias dos pobres”, proclamava, com preclara lucidez.

Josué de Castro, que em 1946 escreveu o livro "Geografia da Fome" foi um percursor do salário mínimo, porque compreendeu que uma das causas da fome era os baixos rendimentos dos trabalhadores. Sabia dos males que a nutrição deficiente, nas crianças, poderia acarretar para o futuro da humanidade e ajudou, por isso, a formular políticas de apoio social escolar.

Considerava, por outro lado, que a agricultura familiar seria o melhor método de fixar o homem à terra e possibilitar a sua alimentação. Combateu, assim, o latifúndio e defendeu a reforma agrária. Percebeu as agressões que sofria o meio ambiente e perfilou-se como combatente ecológico, em tempos em que a expressão ainda era novidade.

Foi capaz de prever a amplitude da chamada globalização, na qual a vida económica é comandada pelas empresas multinacionais, sendo os Estados meros executores da política económica, definida em fóruns que ultrapassam a acção dos governos. Este processo globalização, como preveniu, aumenta a concentração geográfica da riqueza e acentua as desigualdades sociais e regionais, contrariando o desenvolvimento humano.

Entretanto, a modernidade e a globalização por que Josué de Castro se bateu era aquela em que a tecnologia mais avançada poderia ser utilizada para melhor distribuir a riqueza, quer do ponto de vista geográfico, quer na perspectiva social e, assim, construir uma era de bem-estar e verdadeiro progresso para a humanidade.

O ano de 2008 assinalou o centenário de nascimento de Josué de Castro. Um insigne brasileiro cuja trajectória de vida merece ser lembrada. Médico, escritor, político, professor, cientista social, homem de múltiplos saberes que sempre visaram satisfazer os anseios dos mais pobres, especialmente daqueles que enfrentavam o problema da fome e suas consequências.

Será necessário lembrar que o problema da fome e das desigualdades sociais e territoriais no Mundo, não diminuiu e, em muitos aspectos, se agravou, desde a data em que o livro “Geografia da Fome” foi escrito, em 1946?

Bastará recordar que, actualmente, segundo a Agência das Nações Unidas para o Ambiente e para a Agricultura e Alimentação, quase 900 milhões de pessoas no Mundo estão subnutridas ou, porventura ainda mais chocante que, de seis em seis segundos, morre no mundo uma criança devido à fome...

E, no entanto, segundo as mesmas fontes, mais de 50% dos produtos alimentares produzidos em todo o Mundo, não chegam às pessoas que deles necessitam. “Entre o que se desperdiça e o que se come a mais nos países desenvolvidos há comida para alimentar o mundo inteiro e ainda sobra” – dizem os especialistas.

E porquê então não fazer o essencial – dar comida a toda a gente? Não há que procurar razões piedosas que podem apaziguar consciências, mas nada resolvem. A pobreza e a fome são congénitas ao modo de produção capitalista. Distribuir os excedentes alimentares não dá lucro. Tem custos e não tem retorno imediato...

E, noutro plano, o “progresso” introduzido pelo colonialismo foi sempre a serviço dos lucros capitalistas, sabendo envolver as elites locais, que cedo se desinteressaram das aspirações políticas, sociais e culturais dos povos emancipados.

Daí que, nas economias emergentes do colonialismo, seguindo o modelo capitalista, o desenvolvimento seja anómalo, sectorial, limitado a certos sectores mais rendosos e mais atractivos para o capital especulativo, deixando no abandono sectores básicos, indispensáveis ao verdadeiro progresso social.

Por todo a parte, pois, os sintomas visíveis do colapso do sistema capitalista, que ultrapassando o quadro da crise económica e financeira, em que o Mundo mergulhou, alguns referem como crise civilizacional. De facto, não há civilização, nem progresso possíveis quando grande parte do mundo morre de fome e aumentam as desigualdades sociais e territoriais.

Por toda a parte, o mundo nos interpela também - ao esclarecimento, à intervenção e à luta!

Não queiramos nós culpar os pobres pela sua própria pobreza...

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Pequeno conto de Natal...

Gosto de gente! Por vezes próxima, respirando ao mesmo ritmo!.. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nadas que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que exigem que os soltemos, de tão intensos...

Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!...

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue. O cepticismo cria raízes e uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surge tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada que humaniza e reconforta. Que nem sempre estamos disponíveis para ver e que, outras vezes, guardamos como refrigério de alma...

Falo-vos da minha última viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré! Na curta distância, cenas dignas de um pintor impressionista - o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta. Nada que seja diferente de outras viagens! Até que...

... Uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face as intempéries e os balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!)

Acomodou-se a "minha" jovem Madalena (era, de certo, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse a sua novel maternidade, a jovem soltou o seio da blusa (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dávida!

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Vi ternuras caladas e inesperados silêncios. Vi orações pagãs em cada sorriso!..

E, a minha alma cansada e ateia, entoou então um cântico de vida - "Glória in excelsis Deo!..."

domingo, janeiro 03, 2010

“O Seringador”


Provavelmente, a maioria dos meus leitores não conhece “O Seringador”. O que é pena, em verdade vos digo!...

Nem sequer conhecerão o seu eterno rival, “O Borda d´Água”, mais “intelectual”e, portanto, mais adequado ao gosto cultivado e urbano de meus amigos, mas que não chega aos calcanhares do verdadeiro ícone da arte de mandar chuva, no acerto das previsões...

Tudo ali está previsto, em “O Seringador”!... Com o rigor matemático de quem domina o balanço dos tempos. Desde as fases da lua, ao tempo meteorológico que irá fazer, à conjugação dos astros que governam os homens, ao momento certo para plantar nabos ou abóboras, até à inegável vantagem da indicação dos dias dos santos padroeiros ou referências detalhadas a festas, mercados e feiras...

No espaço social da minha infância, nos primeiros dias de cada ano, “O Seringador” entrava nos lares, com a afabilidade de uma vista esperada, que vinda de longe, traz as novidades para todo ano e, na sua picaresca ousadia, subvertia a ordem estabelecida no picante das suas anedotas, em que a padralhada era a visada e que destapavam o gozo dos homens e a piedade imaculada de tias velhas e solteiras...

Em círculo, afagando o crepitar da lareira, por entre os uivos de vento e de chuva zurzindo, lá fora, o negrume da noite, os homens - patrão e a clientela de servos, que à casa se acoitavam, sem pão e sem trabalho, nas longas invernias – batiam o jogo da sueca ou do chincalhão, por entre jarros de vinho quente nas gargantas, gargalhavam com as picardias de “O Seringador”; ou então, solenes, meditavam nas sábias considerações com que o “Juízo do Ano” fazia o balanço dos últimos 12 meses passados e perspectivava o devir os meses futuros, conforme a conjugação dos astros.

Pois não é que o sabichão e matreiro “O Seringador” acertava sempre?!...

Quem aliás poderia duvidar de tão sábias previsões, feitas sob a impetração de Deus para que “as coisas boas se cumpram integralmente, crendo sempre que acima de todos os juízos é Deus super omnia”?!...

Deliciosas eram as Conversas da Tia Brízida com o Seringador. “Diálogos filosóficos” sobre a vida, o tempo e as coisas comezinhas, em que espíritos mais argutos e homens mais vividos, liam aqui e além, nas entrelinhas, como discretas, mas verrinosas críticas sociais e políticas, o que leva a acreditar que se Deus está acima de todas as coisas, não é menos verdade, que, nos caminhos da Terra, haverá sempre um grão de areia a perturbar a ordem do mundo e a natureza das coisas.

Mesmo nas noites mais escuras, ou “em tempos de servidão”, há sempre uma bruxuleante luzinha, que teima, conforta e anima...

É, pois, sob o signo de “O Seringador” que inicio as crónicas para 2010. Cá estaremos, portanto, seringando rabos-de-palha e narizes de cera, maroteiras e malfeitorias, tanto quanto o ânimo o deseje e a capacidade o permita. Esconjurando os maléficos “voodoo economics” (bruxarias económicas) e os políticos milagreiros.

Celebrando, sempre que seja o caso, o mérito das boas causas e o triunfo da razão e do futuro...

E, uma vez por outra, um poeminha. Amorosamente amassado. Como quem amanha a terra, donde ao fim e ao cabo nunca chegarei a sair...

Bom Ano de 2010.