domingo, dezembro 27, 2009

Tempo de Vésperas...

busco antigos sinais e exorcizo o tempo
e as entranhas da palavra que soltam o grito
e a noite com seu manto estrelado...

calam-se os nomes que soletro!...

bem sei que o galo canta noutro ritmo
que (me) dizem diurno - apenas adornos coloridos
e um céu estranho...

a alvorada não lhe pertence
nem decifra as cores
nem a mágica poção
nem o cálice
que erguemos...

deixo assim que o tempo vadio
traga o regresso - que em delírio expio!
e recolho as vestes
para em esperança nua
beber a hora (in)certa!

quinta-feira, dezembro 17, 2009

"Eu tinha umas asas brancas..."



“Sim, a natureza foi avara connosco, e é difícil transformar em searas de trigo fragões de granito ou de xisto. Isso, porém, não é razão para lhes acrescentarmos a nossa esterilidade...

Há gente cá na pátria que, em vez de cobrir de desânimo e renúncia as lajes onde nasceu, faz delas a peanha duma vontade fecunda”.


Miguel Torga – in “Diário X”
Foto - Georges Dussand

FELIZ NATAL

terça-feira, dezembro 15, 2009

deixo que rios secos...

deixo que rios secos e
tempestades de sons ausentes na memória
de outros Maios se inscrevam
na saliva das palavras
como vibrações de azul em fim de tarde...

assim administrando amoras tardias
em círculos de sol...

lábios ciosos de mostos
inesperados como frutos desprendendo-se
de maduros ou chuvas de deserto...

viajo caminheiro sem pressas
recostado nas bermas
celebrando as sombras e
as festivas giestas outonais
sorvendo o mel das silvas
soltando revoadas de tordos espantados
que riscam o abismo dos olhos...

e me perco nessa entrega matizada de
cores quentes nos odores persistentes
na humidade translúcida dos fetos
na generosidade dos seios
no declive dos trilhos...

e no cio das colheitas
e na sofreguidão de cestos antes das uvas...

e nas ondas de lava
e neste de lume que consome
e nesta festa que explode
em pulsão de madrugada...

sexta-feira, dezembro 11, 2009

A Paz e os Direitos do Homem... pois claro!

Estamos confrontados – dizem os historiadores – não com o fim da História, mas porventura com algo mais catastrófico, ou seja, com uma espécie de “rarefacção dos acontecimentos” perante a qual a história se tornou impossível.

Explicitemos esta ideia. Com a queda do Muro de Berlim e a falência do sistema soviético, o capitalismo canibabilizou todo o sentido de negatividade. Onde até então existia dialéctica ergue-se agora um percurso de sentido único. Onde até então a densidade dos factos se projectava nas consciências e empolgava militâncias, hoje os factos despenham-se na sua profusão e nos efeitos especiais com que a comunicação social os apresenta, banalizando-os, encharcando o quotidiano com marasmo do idêntico por toda a parte.

Na política, na cultura, na média, na moda e até nas próprias causas que, mesmo quando se apresentam como “fracturantes”, são as mesmas, seguindo o mesmo padrão de sentido único...

Hoje, tudo se passa em tempo real. Já não há mais lugar à verdade real dos acontecimentos. Tudo se resume agora à coerência dos factos, imediatamente apreensível no alinhamento dos telejornais. Sabemos tudo, a toda a hora, na espuma do quotidiano ...

A história fica paralisada, não por ausência de acontecimentos, mas pela lassidão das consciências, empanturradas de informação. As chamadas maiorias silenciosas, a imensa indiferença das massas humanas, a falta de mobilização cívica têm certamente diversas explicações. Mas a inércia social não resulta seguramente por falta de motivos para acção cívica e política...

Nesta espécie de auto dissolução da história, todos os mecanismos da democracia política se degradam. E, nessa degradação, se precipitam valores políticos, cívicos e morais. As próprias exigências do exercício da liberdade e de respeito dos direitos do homem não passa de um simulacro.

A democracia planetária dos direitos do homem está para a liberdade real está como a Disneylandia está para imaginário social” – escreve Jean Baudrillard num livro célebre (A Ilusão do Fim ou a greve dos acontecimentos).

Se com o colapso do sistema soviético, o capitalismo devorou, como uma paródia universal, a dialéctica e a história, ao assumir todos contrários, numa grotesca síntese sem alternativa, é porque, na sua veleidade de dominação totalitária, devora a própria substância do ser humano para o reduzir à sua essência de ser produtivo...

Salva-se, porém, a cultura da liberdade e dos direitos do homem! Mas salva-se?!...

Que os digam os milhões e milhões de “gente descartável” , que à escala planetária são afastados, como excedentes (mercadoria portanto) do processo de produção e de consumo.

Que o digam as prostitutas na Tailândia, os índios no Brasil, os escravos na Mauritânia, as crianças e as mulheres em Ceilão, no Paquistão ou na Índia! Que o diga África! Que o digam, nos Estados Unidos da América, os muros de milhares de quilómetros electrificados e a vigilância electrónica (e os rifles) apontados aos emigrantes mexicanos!...

Da liberdade já só resta a ilusão publicitária, isto é, o grau zero da ideia, a que regula o regime liberal dos direitos do homem" (...) – exclama o autor referido, ou seja, “a promoção espectacular, a passagem do espaço histórico para o espaço publicitário, passando os media a ser o lugar de uma estratégia temporal de prestígio...”

Construímos a memória síntese dos nossos dias, mediante a profusão de imagens publicitárias que nos dispensam da participação dos acontecimentos realmente transformadores da vida e da sociedade

Talvez, a esta luz, se perceba melhor a aceitação acrítica de como “um discurso de guerra pode celebrar um Prémio da Paz” e o Nobel seja atribuído por antecipação do acontecimento celebrado (a Paz), que afinal não se vislumbra...

Nesta antecipação publicitária, se canibaliza o futuro e se procede à reciclagem dos "detritos" da história e dos mitos. Também os pais fundadores da nação norte americana, em nome da liberdade, permitiram a escravidão!...

Resta-nos a convicção que, ao longo dos tempos, sempre os escravos se revoltaram... E que, em seu "surdo ruído",a História prossegue seu caminho.

Bem se sabendo quão duras são suas dores...


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Bom fim de semana! (se possível...)

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Carta de José Saramago a Aminetu Haidar


Se estivesse em Lanzarote, estaria contigo. Não porque seja um militante separatista, como te definiu o embaixador de Marrocos, mas precisamente pelo contrário.

Acredito que o planeta a todos pertence e todos temos o direito ao nosso espaço para poder viver em harmonia. Creio que os separatistas são todos aqueles que separam as pessoas da sua aterra, as expulsam, que procuram desenraizá-las para que, tornando-se algo distinto do que são, eles possa alcançar mais poder e os que combatem percam a sua auto-estima e acabem por ser tragados pela irracionalidade.

Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não esta enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio - quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá.

Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse pais admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitoria, uma vitoria sem honra, nem gloria, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente uma lugar mais feliz e habitável.

Querida Aminetu Haidar,

Dás um exemplo valioso em que todas as pessoas e todo o mundo se reconhecem. Não ponhas em risco a tua vida porque tens pela frente muitas batalhas e para elas és necessária. Os teus amigos, e os amigos do teu povo, defender-te-mos em todos os foros que forem necessários.

Ao Governo de Espanha pedimos sensibilidade. Para contigo, e para com o teu povo. Sabemos que as relações internacionais são muito complexas, mas há muito anos que foi abolida a escravidão tanto para as pessoas como para os povos. Não se trata de humanitarismo, as resoluções das Nações Unidas, o Direito Internacional e o senso comum estão do lado certo, e em Marrocos e em Espanha disso se sabe.

Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.

Aminetu não tem um problema. Um problema tem seguramente Marrocos. E pode resolvê-lo... terá que resolvê-lo. Não se trata apenas de um problema de uma mulher corajosa e frágil, mas sim o de todo um povo que não se rende já que não entende nem a irracionalidade nem a voracidade expansionista, que caracterizavam outros tempos e outros graus de civilização.

Um abraço muito forte, querida Aminetu Haidar.


José Saramago

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Aminetu Haidar



De Espanha chegam notícias inquietantes sobre o estado de saúde da resistente saharaui, Aminetu Haidar, que se encontra em greve de fome, desde 15 de Novembro, no aeroporto de Lanzarote.

Com a sua acção, a militante da causa saharaui pretende chamar a atenção para a luta do seu povo que, há mais de 35 anos, luta pelo direito a um território e à autodeterminação do seu Povo, subjugado por Marrocos.

Se há situações que são um espinho cravado na consciência dos Povos civilizados e dos homens e mulheres, dotados de princípios e valores democráticos, o caso de Sahara Ocidental deveria ser uma delas: mais 200 mil refugiados, permanentes atentados com os direitos humanos perpetrados pelo regime retrógrado de Marrocos, com centenas de torturados e presos políticos.

Todos que acreditam ser cidadãos de corpo inteiro, que acreditam na força da solidariedade e da justiça, não poderão ficar indiferentes à situação inquietante, por que está a passar Aminetu Haidar.

O caso do Sahara Ocidental é, por múltiplas razões, um caso paradigmático de hipocrisia da comunidade internacional, bem como da duplicidade de comportamentos individuais e colectivos.

Será que memória dos povos é tão curta e que, em Portugal, toda a gente tenha esquecido a heróica luta do Povo timorense e as abnegadas jornadas do povo português? Será que ainda alguém se lembra da luta de Timor?

E, no entanto, bom seria que a nobreza de carácter do povo português viesse novamente ao de cima, pronto a vibrar pela causa saharaui. De facto, desde do governo espanhol, passando pelo governo português, da União Europeia à ONU, todos eles detêm a sua quota de responsabilidade por um dos conflitos mais antigos do planeta, tolerantes e coniventes como são, com a reaccionária monarquia marroquina e os seus generais torcionários.

Ou não foram os fosfatos e outros minerais no território do Sahara Ocidental tão cobiçados...

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, proclamamos muitos de nós, como expressão da nossa inquietude e sinal do nosso engajamento contra as injustiças e o arbítrio. Pois bem, a causa do povo saharaui e a solidariedade com Aminetu Haidar é um daqueles casos que nos pode ajudar a resgatar a mediania e o cinzentismo do quotidiano em que mergulhou a sociedade portuguesa e a restaurar a confiança e vigor da nossa participação cívica.

Em Lisboa, realizou-se ontem, dia três de Dezembro, uma vigília de solidariedade, em frente ao Consulado de Espanha, na Avenida da Liberdade, promovida pela Amnistia Internacional e outras entidades e individualidades de diversos sectores políticos.
Nos dias anteriores, várias personalidades da vida portuguesa tomaram posição e solidarizaram-se com a militante saharaui.

José Saramago, deslocou-se ao aeroporto de Lanzarote e expressou, pessoalmente, a sua solidariedade para com luta de Aminetu Haidar, tendo declarado, posteriormente, à imprensa “que a encontrou animada e que está disposta a aceitar o pior e o pior é a morte, sem que lhe tremam as mãos”...

Também o Alto-comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, qualificou de “verdadeiramente dramática” a situação dos refugiados saharianos ocidentais no Sul da Argélia e considerou que se encontram “bastante esquecidos” pela comunidade internacional.

Aminetu Haidar, considerada por muitos como a “Gandhi Saharaui”, descreve a situação actual no Sahara Ocidental como alarmante e denuncia a escalada da repressão policial e militar.Poderá o mundo fechar os olhos ao drama dos refugiados saharauis? Poderá o mundo fechar os olhos a tragédia de um Povo, objecto de uma repressão violenta e que o único “crime” é desejar a sua autodeterminação e independência e poder viver em paz.

Poderá a nossa consciência calar?


Foto - DN.