domingo, setembro 27, 2009

O baile da Coroa...

Eram esperados novecentos convivas e apenas compareceram quatrocentos e tantos. Assim na provisão dos víveres, houve um enorme saldo em favor da coroa.

Montes intactos de bolos excedentes perpassavam nas bandejas por entre as barretinas boquiabertas suspensas do braço esquerdo dos Srs. oficiais do exército, e as barretinas bocejavam de desdém perante as iguarias que debalde tentavam excitar-lhes a avidez...

Felizmente, o confeiteiro que fornecera os bolos assistia ao baile; tomava parte nas reais quadrilhas; as senhoras cumprimentavam-no pela delicadeza dos seus produtos, e quando ele dizia:

- “Condessa, faz-me a honra da seguinte contradança?”

Uma fina voz aristocrática, acompanhada de um soberano e complacente sorriso, respondia:

- “Com prazer: estão deliciosos os seus bolos de ovos!”

De modo que o confeiteiro, cativo de tão amável acolhimento prometeu desinteressadamente aceitar os fornecimentos que sobejassem...


Ramalho Ortigão – in “As Farpas”
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Começaram as mesuras. A dança e a contradança seguem dentro de momentos. Sem ilusões quanto à música...

sexta-feira, setembro 25, 2009

Votemos no Futuro!...

(...) "Fingiu o príncipe dos poetas latinos que pediu Vénus, mãe de Eneias, ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas, com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália, com que vencesse os reis e sujeitasse nações belicosíssimas que a dominavam, e com que, vitorioso, fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano, que pelos fados lhe estava prometido.

Forjou Vulcano as armas, e no escudo, que era a maior e principal peça delas, diz que abriu de subtilíssimas esculturas as histórias futuras das guerras e triunfos romanos, compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha, como um dos deuses que era participante dos segredos de Júpiter.
(...)
O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. E achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético que, para vencer as mais dificultosas empresas, para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado Império, nenhuma arma poderia haver mais forte, nem mais impenetrável, nem que mais enchesse de ânimo, confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela, que um escudo formado por arte e saber divino, no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa.

Assim armou o grande poeta ao seu Eneias...

E este mesmo escudo, não fabuloso, senão verdadeiro, e não fingido depois de experimentados os sucessos, senão escrito antes de sucederem, é propriamente e sem ficção, o que nesta História do Futuro ofereço, Senhor, a Vossa Majestade .

Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo; e também o da nossa História, para que em tudo lhe seja semelhante, é publicado em sete livros. Nele verão os capitães de Portugal sem conselho, o que hão-de resolver; sem batalha, o que hão-de vencer e sem resistência, o que hão-de conquistar.

Sobretudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas acções, como em espelho, para que, com estas cópias de morte-cor diante dos olhos, retratem por elas vivamente os originais, antevendo o que hão-de obrar, para que o obrem, e o que hão-de ser, para que o sejam".


Padre António Vieira – in “História do Futuro” – edição Imprensa Nacional/Casa da Moeda.
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Antevejamos “o que há-de ser, para que seja!...” Votemos no Futuro!...

domingo, setembro 20, 2009

Em tempo de eleições...

Como se sabe, a Revolução liberal e a filosofia racionalista que a inspirou, formularam a ideia de “contrato social” expresso nas diversas constituições dos povos, como fundamento da ordem jurídico-política e acreditou-se que, a partir dela, todo e qualquer o processo político passaria a decorrer disciplinado pela racionalidade expressa no direito positivo.

Um grande equívoco, reconhece-se hoje. Modernos autores notam que a realidade política não se confunde com a realidade do direito, embora a ela submetida e admitem que, apesar dos regimes do Ocidente tenderem a fazer coincidir a comunidade política com o conjunto da população, o processo político demonstra que os não participantes crescem cada vez mais, a ponto de constituírem por vezes uma maioria.

Nada que, empiricamente, cada um de nós, não saiba. Como todos nós também temos a noção de que o crescente alheamento dos cidadãos da vida política, é sintoma de uma doença profunda da chamada democracia representativa. Porém, importa reconhecer, que “o desfasamento entre a racionalidade normativa e a realidade política”, que o crescente alheamento da população revela, não é unívoco, que dizer, tem expressões e significações diversas, conforme as camadas sociais que o medeiam e a perspectiva de quem a ordem normativa serve (ou não serve).

A pulsão de rejeição pode, de facto, revelar uma atitude de passividade por parte da população, cujos interesses estão plasmados e garantidos na ordem normativa em vigor, pois seja qual for o resultado do pleito eleitoral os interesses dominantes serão sempre salvaguardados. Mas, por outro lado, a passividade dos cidadãos pode ser consequência do sistema político se encontrar bloqueado num processo de alternância, sem alternativa política. Num caso ou no outro, por razões distintas, o impulso da participação será pouco estimulante...

Acresce que o próprio funcionamento do sistema alimenta a distância entre os cidadãos e a política em razão do que os autores designam pela lógica da “captura do poder de sufrágio”. Trocado por miúdos. A democracia representativa tem seu fundamento nos cidadãos eleitores, que através do voto transferem para os órgãos de soberania o poder originário que neles reside.

Simplesmente, do ponto de vista político as coisas passam-se de maneira bem diferente. Do que se trata, é luta pelo poder, a procura da “captura” do poder, mediante todas as promessas, nem que seja bacalhau a pataco.

Práticas nascidas, entre nós, no período áureo do constitucionalismo, como o caciquismo, o voto de cabresto, a falsificação dos cadastro, o voto dos mortos, o compadrio, que ao fim e ao cabo revelam realidade da luta política travada.

Entretanto, estes métodos refinaram: no financiamento do partidos, na sofisticação do marketing, na osmose entre a política e os interesses económicos, nos custos financeiros das companhas eleitorais, etc. etc.; mas não poderá negar-se que o paradigma da “captura do poder de sufrágio” se mantém, porventura, ainda mais vivo e actuante que nos alvores da democracia representativa.

Em síntese, pode dizer-se que a vocação da democracia representativa e a sua “bondade” integradora do conjunto da realidade político-social é claramente postergada a diversos níveis:

a) Na existência de largas margens de abstencionistas, que em regra não participam na política e constituem as chamadas maiorias silenciosas;

b) Na existência de cada vez maior extractos de população que, de facto, são excluídos do sistema, por falta de condições materiais do exercício da cidadania;

c) Na emergência de novas questões sociais que convivem mal com os valores tradicionais da democracia representativa, porquanto não foi “pensada” para os resolver (ambiente, consumo, as ditas questões “fracturantes”, os novos direito de cidadania, etc.).

d) Na “captura do poder de sufrágio”, bem como nas práticas dos agentes políticos, que são factores de descrédito e de abstenção política e que podem constituir pretexto para pulsões antidemocráticas.

Que fazer, então?!... Votar, está claro! Naquelas organizações políticas que não têm ilusões sobre os limites e equívocos do actual sistema. E que se propõem alargar e aprofundar os direitos sociais e políticos e assim inscrever um novo conteúdo e uma nova dignidade no conceito de Democracia, conferindo-lhe dimensão política, económica, social e cultural, num novo “contrato social”, que as circunstâncias históricas actuais manifestamente exigem...

terça-feira, setembro 15, 2009

O adjunto da Sãosinha...

A Sãozinha tem um adjunto. Um rapagão ruivo. Na minha visita ao “paraíso” da Sãozinha aqui cruzamo-nos, salvo seja, na soleira da porta. O adjunto atarefado em afã de despacho com o presidente da Câmara. Eu a saborear antecipadamente a gulodice que me esperava, no desvelo da Sãozinha!...

O adjunto é bem apessoado. Do alto do seu metro e oitenta lançou-me olhar arrasador, que, se não fora a Sãosinha puxar-me, de certo me transformaria em estátua de sal. A caminho do “paraíso”, a Sãozinha explicou-me tudo...

O adjunto é uma cunha sagrada. Intocável. Do outro lado da serra quem pontifica na política é padre Sarzedello (com dois “ll”, não confundam). O Padre domina uma boa mão cheia de votos. Como poderia – digam-me! - dizer não à “empenhoca”!? Para todos os males da Sãozinha!...

O adjunto é, pois, protegido do padre. Um primo afastado, mas as parecenças são tantas, que há quem diga que o parentesco é mais chegado. Da fama não se livra o padre e o adjunto. Mas, decididamente, não passará de umas “bocas” dessa gentalha da extrema-esquerda...

Mas vamos ao que interessa, quer dizer, ao perfil do adjunto e à sua promissora carreira. Pela mão da Sãozinha, está bom de ver. Contava-me, então, a Sãosinha que, de início, deu o seu acordo. Uma licenciatura em Antropologia Social e uma boa figura, era mesmo o que ela precisava para aliviar as tensões do cargo:

- “Todo o santo dia os dois sozinhos, metidos naquele casarão, naturalmente, alguma coisa deveria acontecer!” – desabafa...

Mas os dias passaram, monocórdicos "e não se passa nada"!... Então a Sãosinha começou a olhar o adjunto com outros olhos. - “Com olhos de ver!” - sublinha, enfática.

Conta-me, então, que um dia, o adjunto no alto de uma estante, onde arrumava uns livros e manuscritos antigos, solta um grito estridente:

- "Ó doutora, venha cá. Anda um bicho a comer as páginas deste livro!”...
- “Ó homem, feche o livro já, antes que o bicho faça mais estragos cá fora!...”

Gargalhei, com gosto, com a malícia angelical da Sãozinha.

- “Que querias tu que eu lhe dissesse”? que fosse eu a matar-lhe o bicho?!...” – atirou-me, agastada, com a minha gargalhada...

A Sãosinha, que não é parva de todo, bem desconfiava!... Desde que o adjunto lhe começou a aparecer, pela manhã, com olheiras fundas e sobrancelhas depiladas. Mas agora tem a certeza.

- “Imagina tu – garantiu-me – que um destes dias se apresentou, vestindo umas calças sem braguilha... Um laço, no lugar da braguilha!”...

E, completamente, descorçoada:

- “Já viste a minha sina?!... Uma completa aberração: este burgesso usa calças de mulher!...”

De facto, isso não se faz à Sãosinha! Um adjunto sem braguilha?!... Francamente!...

Consta-me que o padre Sarzedello está muito doente. Talvez a Sãosinha ainda consiga um adjunto como deve ser!...
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Afinal, o padre Sarzedello está vivo e fero. E, assim, naturalmente, a Sãosinha não tem forma de se desfazer de semelhante burgesso. Estou quase tentado a sugerir-lhe que o recomende à drª Ferreira Leite. Que vos parece?!...






quinta-feira, setembro 10, 2009

Variações sobre Magritte...




colhe o poeta a cor do sonho na paleta
com as nuvens sobe a esfera onírica porém presa
e na nesga rasgada sem saber se sai ou entra
o mar ao longe...

advinham-se corpos irreais em transparência
reclinados sobre colchas sem memória
como sombras pressentidas na luz imensa
que o dia clama...

talvez crianças caprichosas ou velhos faunos
desfaçam a cortina ou a subtil brisa os descubra
desnudados sem culpa ou sem remorso
bárbaros e puros...

talvez deste lado da paisagem onde beijos correm
como ondas e os dedos do poeta se deslaçam
o azul capriche no tempo breve e em suave tarde
os corpos reinem...

domingo, setembro 06, 2009

Tempo de vindimas...

Port Wine

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre"


Joaquim Namorado

Boa colheita. E que o mosto fermente... Sem mistelas, como deve ser...
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Joaquim Namorado viveu entre 1914 e 1986. Nasceu em Alter do Chão, Alentejo, em 30 de Junho. Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Foi durante dezenas de anos professor do ensino particular, já que o ensino oficial, durante o fascismo, lhe esteve vedado.

Depois do 25 de Abril, ingressou no quadro de professores da secção de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Notabilizou-se como poeta neo-realista, tendo colaborado nas revistas Seara Nova, Sol Nascente e Vértice. Entre muitas outras actividades relevantes, foi redactor e director da Revista “Vértice”, onde ficou célebre o episódio da publicação de pensamentos do Karl Marx, assinados com o pseudónimo Carlos Marques.

Um dia, apareceu na redacção um agente da PIDE a intimidar:“ ó Senhor Doutor Joaquim Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, que nós já estamos de olho nele”...

Poesia: "Aviso à Navegação", "Incomodidade" e "A Poesia Necessária".

quarta-feira, setembro 02, 2009

"Não há Festa como esta..."



“Ana e Cátia estão penduradas num andaime, a trabalhar sob um sol opressivo. Têm 20 anos cada uma e beleza distribuída pelas duas, em regime de igualdade. Estão a pintar. Falam lá de cima, depois descem, trinchas nas mãos. Cátia Carvalho, cabelo comprido, óculos escuros e cara pintalgada de tinta branca; Ana Brasil, morena, calções curtos e um top precário.

Ana é da Juventude Comunista Portuguesa (JCP) desde 2005, Cátia simpatizante. São de Almada, mas estão a trabalhar no pavilhão de Vila Real, por solidariedade...
(...)
Pergunta: "por que estão aqui a trabalhar, num dia de calor como este, sem ganhar nada"?
“Acredito na causa", responde Ana.

“Acredito nos ideais”, responde Cátia. - “Tenho amigos que não são comunistas, e as suas conversas são fúteis. Só pensam em festas, em sair à noite ... Não ligam à política.”

Lêem aquelas revistas cor-de-rosa?”
Acho isso ridículo. É um desperdício de dinheiro, de tempo. As pessoas vão perdendo QI, quando lêem essas coisas”

"Aqui na festa há outras conversas"?
“Falamos sobre a vida, sobre o país e os seus problemas, o comunismo ... Há sempre tema de conversa. E participam os mais novos e os mais velhos.”

Cátia lembra-se:
Ainda hoje de manhã, (...) estivemos a criticar os jovens que vêm à festa só pelos concertos”.

E recorda Ana:
Isto não é apenas um festival. Não é por acaso que há pavilhões sobre o comunismo ...”

Ana faz uma expressão irritada, de quem não está a conseguir expressar o que é realmente importante.
“Eu venho para aqui porque isto é real. Existe mesmo. Não é um sonho.”

Agora piorou. A amiga tenta ajudar:
Os média dizem que é impossível, que é uma utopia.”

Esforçam-se por explicar, agora sentadas no chão, no calor de Agosto, todas sujas de tinta branca, que estão aqui porque querem acreditar nalguma coisa. Cátia estuda Ciências da Educação, mas quer ser enfermeira e partir para África. Ana gosta de dança e teatro, ouve Bob Marley e pratica Muay-thai, uma arte marcial tailandesa que significa “luta dos livres” Quer encenar “peças com uma mensagem”. Também pensa em partir. (...) Não querem casar, nem ter filhos. Adoptar, sim.

"Há tantas crianças abandonadas, que precisam de amor” diz Ana - “Gostaria de ser um guia na vida de algumas delas. Isso faria de mim uma pessoa melhor.”

Cátia, de olhar sereno, concorda:
“É bom ajudar alguém”...

Estão aqui pela sua água da sede dos olhos: a densidade do real, o idealismo tornado possível, levado a sério. Estão aqui para discutir tudo, muito a sério.
(...)
A Quinta da Atalaia está cheia de gente, apesar de a festa ainda não ter começado. Brigadas de voluntários de todo o país participam na construção dos vários pavilhões e das estruturas que tornarão possível o mega-evento, que começa na próxima sexta-feira, perto da Amora, na margem sul do Tejo.

Há oficinas gigantescas, máquinas, operários por todo o lado. São centenas, todos os dias. Ao fim-de-semana, chegam ao milhar. São quase todos voluntários e mais de metade são jovens, segundo a direcção da festa. Os estudantes vêm mal terminam os exames, os trabalhadores passam aqui as suas férias. Nem todos pertencem ao partido. Há militantes e simpatizantes. Destes, muitos acabam por aderir ao Partido. (...)

E não há rebaldaria. Cada um sabe o que tem de fazer”- diz Francisco, 57 anos, funcionário da PT, que, de tronco nu e boné vermelho, está a coordenar um sector da construção, no pavilhão de Lisboa. (...) -“Estes jovens cumprem. São responsáveis. Não é preciso dizer-lhes nada. À luz das regras de uma empresa, é impossível compreender isto”.
(...)
Paulo Moura – in revista “Pública” de 30.08.08
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Em verdade, em verdade vos digo: “não há festa como esta!”