sexta-feira, agosto 28, 2009

Antes a incerteza do caos...

Mais além cumes desérticos e as eternas neves
No colapso dos dias. Veredas de solidão na vertigem
E no abismo das cidades onde a cólera em surdina
Compõe a sinfonia do medo e os pombos tombam
Feridos pelo ar fétido que respiramos impudentes...

Balões na mão das crianças são apenas pretexto
Das bombas incendiárias que trazemos no olhar
Do grito dos passos nas calçadas e das gargantas
Mudas. Do terror gelado no sangue supérfluo
Que derramamos - pão incerto que nos roubam...

Despimo-nos e vestimo-nos na nossa nudez frágil
Como se o arrepio da pele fosse fluidez de orgasmo
E as heras que nos habitam e entopem as veias
Fossem diapasão da verdade ou memória de destroços
A que nos agarramos pressurosos de eternidade...

Por isso a montanha e os gelos. Refúgio de pássaros
Deserdados. E de itinerários perdidos na distância
Dos dias verdadeiros. Por isso o sonho crepuscular
Rangendo estéril de tão perfeito. Canto desesperado
Que em vão ecoa. Praças e rios que se negam fugidios...

Antes a (des)harmonia do caos. O declive das colinas.
A imperfeita palavra. E a poética sem rima. E a luz
E a treva. O sal das lágrimas e a raiva. E o punho.
E o sabre. E o peito aberto. O caminhar vagabundo.
E o sangue em frémito de insubmissa humanidade...

.......................................................

Bom fim de semana. Beijos e abraços...



terça-feira, agosto 25, 2009

O meu amigo Zeca - empresário!...

Como por certo se recordam, o meu amigo Zeca, solteirão impenitente, alentejano de Beja, economista do Quelhas e protector de donzelas desvalidas, esteve em risco de “ter uma vida boa”, não fora a atracção desmedida pelo sexo fraco, ou talvez mais exactamente, não fora o irresistível fascínio que derrama sobre tudo que é saias. Ironicamente, foram o sapato apertado de uma octogenária senhora e seus sofridos joanetes a causa da sua desgraça, como noutra ocasião vos contei aqui

Posto no “olho da rua” da empresa pública, onde, com rasgada visão de futuro, era assessor da administração, o Zeca teve que se virar... Viveu uns tempos dos rendimentos familiares, mas um homem não pode ficar parado toda a vida. Como bem se sabe, a evolução da espécie humana tem sido caprichosa e injusta: o homo faber acabou por dominar o homo eroticus, até mesmo nas naturezas mais refractárias, como é o caso do meu amigo Zeca...

Enfim, depois de uns tempos “à vara”, que é como quem diz, sem outras responsabilidades que não fosse apascentar suas pulsões predadoras, decidiu o Zeca voltar ao trabalho, agora por conta própria, pois era para meu amigo ponto assente, em laudas de juramento lavrado, que “filho de puta nenhum lhe daria mais ordens, nem teria tomates para o despedir...” (sic).

Foi assim que nasceu a pródiga empresa de consultadoria, de que o meu amigo Zeca é sócio fundador e gerente único e cujo volume de negócios está em proporção inversa à respeitabilidade da barriguinha do meu amigo. Quer dizer, agora com o pendor femeeiro mais amaciado, quando a liquidez da empresa o permite, o Zeca relaxa na culinária e na borga e, então, a barriga entra em espiral inflacionária ou, em momentos de crise, com o stress do trabalho, o arredondado da barriga reduz-se à expressão de normalidade mais simples ...

Foi, num desses momentos de gloriosa euforia, a última vez que estivemos juntos, no seu espaçoso apartamento debruçado sobre o Tejo, com mais um pândegos da trupe da Universidade. À volta da mesa, como se deduz, trucidando uns borrachos, que o Zeca sabe estufar como ninguém...

Então, já na fase dos charutos e do conhaque, o Zeca saiu-se com uma das suas hilariantes “estórias”, de que vos dou conta, bem sabendo eu que a cor e o tom se irão perder no percurso entre viva loquacidade do Zeca e a escrita sensaborona a que me acorrento ...

“Esguardai”, portanto...

Um certo grupo empresarial, a que a empresa do meu amigo Zeca presta apoio na área de auditoria e da fiscalidade, decidiu dedicar-se às energias renováveis, na mira dos propalados apoios comunitários. Feitos os estudos e avaliado o projecto, a que o Zeca esmeradamente se dedicou, foi decido que a fábrica seria instalada no norte do País, por razões óbvias do preço da mão-de-obra e outras vantagens. Escolhido o local, havia que negociar com o Município apoios e contrapartidas. Na data acordada, depois de contactos prévios, luzidia comitiva, ida de Lisboa, deslocou-se ao município em causa, chefiada pelo “chairman” do grupo, um vulto destacado da política e dos negócios...

Dispenso-vos da colorida discrição que o Zeca fez do roliço presidente da Câmara, afiambrado no blazer azul com botões de metal e o inevitável lenço de seda, a aconchegar a dupla papeira. Digo-vos, porém, que antipatia foi fulminante, uma espécie de “coup de feu” invertido, a roçar o verdete da náusea...

Feitas as apresentações, perante o acentuado sotaque alentejano (que aliás o Zeca cultiva com prazer), o Presidente da Câmara, numa prosápia de gelar o amplo salão, fez uma qualquer alusão de mau gosto a moiros e ciganos, que ainda infestam o sul do País. Ora, o Zeca não é homem para se conter, mas não teve tempo para espingardar a resposta adequada. O chairman, com um sorriso felino a rasgar-lhe a face, antecipou-se. Dirigindo-se ao Presidente da Câmara:

- “Mas olhe, senhor Presidente, que aqui, pelo seu Concelho, não faltaram moiros; e, se bem observar, ainda é capaz de encontrar algum por aí disfarçado...”

- “Moiros aqui? No meu concelho? Nunca!... onde raio o senhor foi desencantar semelhante ideia?!"...- apavorou-se o Presidente.

Nessa altura, já o ambiente estava mais distendido. E o chairman, apontado para a bandeira do Município, imponentemente exibida, entre a bandeira da República e a bandeira da União Europeia:

- “Basta olhar para a bandeira do Município...” – sublinhou, alargando o sorriso...

E o outro, a ficar apopléctico:

- “A bandeira do Município? Mas que tem a bandeira?!...

- “Não tem nada que não deva, senhor Presidente! É aliás – acrescentou diplomático – uma bonita bandeira! Mas não deixa por isso de ostentar, no brasão, o crescente muçulmano!...”

E, com a gargalhada a estender-se pela sala, rematou:

- “Ora se os moiros não andaram por este concelho que faz o crescente muçulmano nas suas nobres insígnias?!"...

Aquilo era demais, convenhamos - virem, assim uns bárbaros sulistas a dar lições de história local!... Suprema humilhação!

O distinto Presidente, como quem apanha um murro no estômago, titubeou, mas não se deu por vencido. Saiu da cadeira, sibilando – “essa agora!... essa agora!” - fez minuciosa análise à bandeira e, perante a contrariedade da evidência, saltou para o telefone e, ante a perplexidade dos circunstantes, exclamou:

- “E eu que nunca tinha dado por isso!...Mas já vou tirar tudo a limpo”...

(continua)

..........................................................

Declaração de intenções:

1 - Como é notório, cultivo, com prazer, a "pronúncia do norte".
2 - Orgulho-me de, durante cerca de vinte anos, ter desempenhado funções autárquicas relevantes, legitimado por sufrágio eleitoral, num grande Municipio do País.
3 - Considero ainda hoje (apesar de todas as tropelias) o exercício do "Poder Local" como expressão, por excelência. de democraticidade e espaço de cidadania.

quarta-feira, agosto 19, 2009

"A cegonha de Gimonde..."

"Em Outeiro não há comida. Em Outeiro, à tarde (já muito tarde, sobretudo para onde se almoça à uma), não há nem comida nem gente bar, Cervejaria Bento, com uma bonita varanda cheia de plantas e de flores, mas onde, como o seu letreiro indica, só se serve Cerveja ou vinho ou café, mas nada consistente.

- Então cerveja, que remédio - diz o viajante, sentando-se e aceitando dessa forma, já sem forças, o seu destino. Se o Menino não fizer um milagre, hoje fica sem comer.

Mas o Menino está agora muito longe. Tal como Miranda, onde esta manhã o viajante comeu pela última vez (manteiga e com pão fresco) sem saber o tempo que demoraria a voltar a fazê-lo. São três menos vinte e até Bragança ainda falta.

- E não há nenhum restaurante?
- Havia - diz-lhe o dono.
- Havia? - pergunta o viajante.
- Sim, mas fecharam-no - diz o dono, indo embora e deixando-o mais só que o pelourinho da aldeia; um pelourinho de pedra, que se ergue diante do bar (e da igreja matriz) e que é, segundo os moradores, a jóia da comarca. Sem contar, claro está, com o velho castelo que, de uma colina, domina toda a aldeia.

- Dos mouros - disse o dono.

Mas o viajante já nem olha para eles. O viajante está tão farto de ver pedras e castelos que nem sequer se aproximou para os ver de perto. Pelo contrário, conforma-se em vê-los do bar, enquanto espera que o dono regresse com a cerveja.

- Aqui tem - diz.
- Quanto lhe devo?
- Cem escudos.
- Tome, está bem assim - diz, dando-lhe outros dez escudos para que veja que alguma coisa lhe deixa.

Não muita, verdade seja dita. Entre o calor que faz agora e a fome, que é já um cancro, o viajante está tão fraco que quase não pode com a cerveja. Assim, mal acaba de a beber (coisa que faz depressa, para não perder mais tempo), despede-se do bar Bento e do seu dono e regressa ao carro para continuar o seu caminho até Bragança. Com sorte chegará lá a tempo de comer alguma coisa.

- Adeus, Outeiro - murmura, enquanto se afasta da aldeia.

O caminho para Bragança é longo como as mágoas. Serpenteia pelos montes e pelas encostas do Sabor, que são cada vez mais solitários. Urzes, brejos, plantações de tomilho, uma ou outra oliveira entremeada e castanheiros que já se vêem entre aqueles, anunciando a presença da serra é tudo o que se vê, excepto algumas aldeias: Paço, Rio Frio, Milhão, todas desertas, agora; e todos esturricados tal como o viajante e a estrada. Embora, por esta, se vejam também, nas bermas ou junto de alguma árvore, flores que guardam a alma das pessoas que morreram ao atravessá-la. Em acidentes, segundo as placas, embora o viajante tenha dúvidas se não terá sido de fome. Nem em Paço, nem em Rio Frio, nem em Milhão, que é a maior, há uma simples taberna onde possa retemperar as forças.

Antes de Milhão, no entanto, com Bragança já avistando-se à distância (embora ainda muito longe) a estrada liga-se de repente à que vem da fronteira. Para Espanha 8, diz o letreiro, provocando no viajante a nostalgia dos cozidos e dos pratos da sua terra. Se não fosse por ter prometido a Manuel Costa barbear-se outra vez, iria, agora, embora por ela.

Mas a estrada não muda. Pelo contrário, torna-se mais sinuosa e mais inclinada. Com o Sabor já lá em baixo, no fundo do precipício, tem de descer pouco a pouco para conseguir alcançá-lo. Fá-lo e Gimonde, entre prados amenos, num bosque, onde uma ponte de seis olhos, romana de acordo com os roteiros, serve as pessoas que querem atravessar há tantos séculos como os que tem. Embora a ponte tenha agora um companheiro. Uma ponte nova, mais larga, por onde passam os carros deixando para a antiga o tráfego de peões.

Junto delas, o viajante pára. Para sentir a frescura do rio e para contemplar o choupo que se ergue entre as duas pontes. Um choupo alto e despido, como o mastro de um barco, mas em cujo ramo mais alto há um ninho de cegonha. É o único morador de Gimonde que saúda a sua presença quando chega.

- Conseguirei comer? - pergunta-lhe, enquanto contempla no rio a silhueta reflectida entre os juncos.

A cegonha não responde, nem se perturba (também está agora a dormir a sesta), mas, em troca, encaminha-o com o seu bico para o coração da aldeia; que não é a ponte, embora o pareça, mas uma casa muito velha que se ergue junto do caminho, mesmo ao lado daquela. De fora, mostra apenas a sua arquitectura típica, ainda que arranjada e bastante limpa (em contraste, sobretudo, com o resto das casas de Gimonde), mas, quando o viajante se aproxima para a ver, quase que desmaia. A casa é um restaurante e, além disso, ainda está aberto.

Não é apenas um restaurante; é o melhor da zona. Pelo menos, o melhor que o viajante conheceu até este dia. Antigo e recuperado (e com gosto, certamente: todo de pedra e madeira e com as paredes cobertas de azulejos), ocupa a antiga loja que, durante vários séculos, se ergueu à sombra da ponte. A loja do senhor Roberto, como se chamava o dono e como se chama ainda o restaurante que agora a ocupa. Mas o melhor não é isso.

O melhor, sem dúvida alguma, são as trutas do Sabor e a travessa de enchidos que servem ao viajante quando, depois de dar ao rabo, pois já iam fechar, lhe permitem aceder ao restaurante. Sem dúvida o Menino, da sua urna em Miranda, intercedeu por ele. O Menino ou a cegonha.

As trutas, os enchidos, os pratos, que são lindíssimos, a frescura, que agradece, e Isabel, a empregada (de Milhão, segundo lhe diz) que o atende com doçura - a mesma que dela emana deixam-no tão encantado que fica quase a chorar. Não o faz por vergonha. Mas, em troca, dá-lhe uma gorjeta tão grande que a rapariga até fica perturbada quando a vem buscar.

- Toma lá - diz o viajante. - É do Menino, sabes quem é?
- Claro - diz-lhe ela, a sorrir, enquanto lhe serve um bagaço transparente como o rio.
- Bagaço de Trás-os-Montes - adverte-o ao vê-lo sorrir.

Mas o viajante não lhe liga e bebe-o de um gole. Até repete a dose. De modo que, quando se afasta, já nem sabe quem é. Menos mal que a cegonha, que continua quieta no seu ninho, o recebe quando aparece e o guia até ao Sabor. Até à margem cheia de juncos e sombras de trutas pretas onde o viajante se deixa cair como se fosse mais uma delas. Que o Menino ou a cegonha o acordem quando quiserem..."


Júlio Llamazares – in “Trás-os-Montes – uma Viagem Portuguesa” - Ediffel

.......................................................

Não há fome que não dê em fartura...
O que importa é não desistir e seguir em frente. E não acreditar em milagres...

A não ser nos milagres da cegonha.
Ou nos milagres do “Menino Jesus da Cartolinha” – que é General... lol

domingo, agosto 16, 2009

ROMANCE DAS MULHERES DE LISBOA NO REGRESSO DAS PRAIAS

Em terra, tantas gaivotas!
Mas que cedo que anoitece!
De automóveis sem capota,
como de conchas abertas,
saís vós, as pressurosas
deusas nos meses de estio,
favoritas do iodo
e dos cavalos-marinhos,
tontas cortesãs do Sol
que de bronze vos vestiu ...

Em terra, tantas gaivotas!
Vultos, sombras, calafrios ...

O que fostes não mais volta:
é diverso cada estio ...
Státuas de sàl e de sol,
o molde ficou perdido
nas areias e nas rochas,
todo cuspido de limos,
(... )
O que fostes já não volta,
ó efémeras Anfitrites!

Para quantas, dentre vós,
foi este o último estio?
(...)

Éreis estátuas de sal
e de sol, mas não soubestes
oiro e espuma eternizar.
Ai que cedo que anoitece!
Das sombras do litoral,
uma galopada investe
para vos arrebatar!
Rompem num choro as sereias
dos barcos supliciados.
Em vão cerrais as orelhas
aos brados que o temporal
contra vós desencadeia!

Em terra, tantas gaivotas!

Oh, que cedo que anoitece!
De comboios e ferry-boats,
como de estranhas galeras,
ressurgis para os encontros,
os cinemas, o comércio,
os funerais, as visitas...
E nos quartos de aluguer,
ou nos de vossos maridos,
ardereis, míseros restos,
até ficar derretido
todo esse bronze de empréstimo"!...


David Mourão-Ferreira – in “Obra Poética” - Editorial Presença
.......................................................

Uffff....que calor!
Carpe diem, que o Verão é um ar que lhe dá...

(e vêm aí as eleições, que vão dar que pensar ... rss)

quinta-feira, agosto 13, 2009

"Sem semear ilusões..."



Foi publicado o nº1708 da revista "SEARA NOVA"- Verão de 2009

Destaco do Editorial:

(...) "Meio ano passado. Outro tanto por vir, contendo ainda as eleições legislativas e as autárquicas de Setembro/Outubro.

Que perspectivas? Não vale a pena semear ilusões...

É espectável que, com o pico sazonal do turismo, possa haver alguma animação económica (ou aparência de), mas no pós-férias a situação de vida dos portugueses vai agravar-se. E mesmo que existam alguns sinais de abrandamento da crise internacional, o que não é seguro, a crise portuguesa prosseguirá o seu caminho próprio, como já acontecia antecedendo a crise internacional.

Uma mudança de política é indispensável (...). Não uma mudança qualquer; mas uma mudança que propicie condições para uma ruptura com as políticas neoliberais, de direita.

. Uma ruptura com a submissão à eurocracia e às instituições e orientações europeias.

. Uma ruptura com a subordinação aos interesses económicos dominantes nacionais e internacionais.

. Uma ruptura com a complacência (não digamos mais) perante a corrupção política e económica.

. Uma ruptura com o esvaziamento das funções sociais do Estado e com a inépcia para assegurar o funcionamento da máquina estatal (incluindo os “estranhos” critérios na opção dos investimentos públicos).

Um governo como o de Sócrates, por muito que agora tente alterar o estilo para uma aparência de humildade e respeito democrático, será incapaz de romper com a política realizada ao longo de toda a legislatura, porque não lho permitem os interesses a que está ideologicamente enfeudado.

A alternância política entre os partidos do chamado “arco do poder” ou "centrão" já mostrou sobejamente que permite alternar, mas não as alterações de política que o País precisa.

A sociedade portuguesa foi defraudada nas esperanças e potencialidades que a Revolução de Abril criara. Domesticada nos limites de uma democracia formal, esvaziada de visão libertadora, desliza perigosamente para um alheamento dos valores da solidariedade, da cultura, do amor pátrio (...).

Neste quadro, se criaram grandes fortunas de origens obscuras e chegaram ao topo das responsabilidades públicas indivíduos medíocres sem horizontes colectivos.

As eleições legislativas, que aí vêm, não serão por si só o meio definitivo de suster esta degradação da sociedade portuguesa.

Mas serão certamente uma boa oportunidade de acentuar o descontentamento com as políticas de direita que os portugueses acabam de manifestar nas europeias (bem como em grandiosas manifestações populares), de fazer crescer eleitoralmente as forças com projecto progressista e de elevar o tom das exigências de real conteúdo democrático.

A “SEARA NOVA”, pelo seu lado, continuará firme na defesa da cultura, da democracia e do progresso social..."

O presente número, com artigos que são autêntica pedrada no charco dos valores dominantes, é disso honroso exemplo..."

....................................................

De destacar também neste número a notável entrevista com o dr. António Arnaut, sobre a situação do "Serviço Nacional de Saúde", e o artigo de Carlos Carvalhas "Consideração breves sobre a crise e sua evolução", bem como o artigo de José Goulão "Criação do Estado Palestiano está cada vez mais comprometida" e o artigo de Carlos Santos Pereira "O Mundo suspenso do efeito Obama"


................................................
Redacção
. email - searanova@seranova.publ.pt
. telefone - 21 355 54 07
. Rua Latino Coelho, nº6 - 4º/Esq.
1050-136 Lisboa

sexta-feira, agosto 07, 2009

Murmúrio de água...

Talvez a vibração que tomba a folha
Seja frémito do húmus no âmago da terra
Ou murmúrio de água.

Sortilégio de milagres em aridez de cinza...

Talvez alvoroço de esperança
Em corações de pedra.

Ou utópica planta que de tão avara se solta...

Ou música inacabada tecendo o sonho.
Gérmen no frio das estepes em demanda
Ou sede dos desertos escalando os muros
Das cidades...

Talvez a arqueologia de afectos esteja
Inscrita no negrume das coisas
E a vertigem seja o pão dos homens...

E as noites de agora meridianas claridades...

Talvez o barro seja espera ou fruto proibido
E minha fome a dor da Humanidade...


..............................................

Bom fim de semana...

Venho já. Breve ausência...

Beijos e abraços.

segunda-feira, agosto 03, 2009

A minha Pátria é a língua portuguesa?!...




Frustrados que foram, por razões que não vêem ao caso, outros destinos, desta vez coube-me, em desespero de causa, uns dias de férias no Algarve, sorry... Allgarve! – de que, durante décadas, tenho fugido como o “diabo da cruz...”.

Não vejam nesta minha recusa qualquer manifestação de pedantismo. Assenta a minha caturrice, tão-somente, nesta vaga resistência do meu carácter, não aos percursos trilhados, mas à dissolução que os passos imprimem nos caminhos...

Bem sei que “viver” é em boa medida “dissolver”, que qualquer marca ou sinal traz consigo os gérmenes da sua própria dissipação e que até a água mais cristalina arrasta, na corrente, os detritos do acaso. Mas que querem? Dói-me, por vezes, a decomposição das paisagens e a desconstrução de memórias e símbolos... E, sobretudo, o ímpeto e a arrogância das novas formas e fórmulas, que sabemos também elas precárias...

Ora o turismo, como bem sabemos, é fenómeno predador. E arrogante. Compreenderão assim melhor a minha resistência atávica aos “santuários” do turismo nacional...

Procurei, por isso, afastar-me, tanto quanto possível, dos roteiros mais solicitados e “refugiei-me” (pensava eu) em locais mais discretos, porventura buscando (ingloriamente) nas pegadas dos míticos “índios da Meia Praia”, lenitivo e compensação para as temidas contrariedades...

Assim, intimamente apaziguado, neste balanço de expectativas e dúvidas e confortado pelos afectos centrados em terna criança de pouco mais de dois anos, abri o espírito à disposição de alguns dias de estrito lazer...

Eis-me, pois, no “esplendor” do Algarve!... Cada vez menos “reino” de Portugal, como é minha forte convicção...

Seguindo um método estatístico, que considero infalível por altamente científico, (querem ver que ainda sou chamado para as sondagens políticas!...) de avaliar a nacionalidade dos turistas pela persistência do linguarejar no ouvido, 90% serão manifestamente de proveniência espanhola. Os restantes 10%, seguindo o mesmo critério, serão distribuídos, respectivamente, 5% ingleses, 2% franceses, 2% italianos e 1% de portugueses, incluindo este vosso amigo e a sua prole...

Claro que a minha amostra inclui também turistas do outro lado do Atlântico. Dois exemplares, aliás notáveis!... Um casal cinquentão provindo do Texas, ele na arrogância do seu típico chapéu; ela exibindo as carnes flácidas, em fato de banho pelos corredores, trauteando, empolgada e empolgante, o conhecido paso doble Arriba Espanha...”. (Mas por que raio é que a excelsa senhora não foi antes exibir seus talentos para o Iraque ou para o Afeganistão, a animar tropas?!...).

E, saídos do filme “O Carteiro de Pablo Neruda” para o bar do hotel, como o romantismo literário de minha mulher teima em afirmar, um casal sul-americano, de negro e vermelho vestido, altos e esbeltos, belas cabeças emolduradas em cascata de fios prateados, corpos colados na vibração do tango e do bolero... Tão exímios e tão perfeitos que apenas o sangue e o futuro o justificam!...

Admirei-os, com emoção e apreço. E ficarão guardados...

Dos portugueses, os “karaokes” postiços e esganiçados!...

Triste sina!...

Cá fora, as montras exibem sinais da nossa decadência. E garantem-me que entramos em fase de “permoção de 10% a 50%”...

A minha Pátria é a língua portuguesa?!... Ou seremos, em certo sentido, de novo exilados na nossa própria Pátria?!...