sábado, janeiro 31, 2009

Particularidades - um desafio!

JRD e O Puma lançam-me o “desafio” escrever seis coisas sobre mim. Julgo, porém, que tanto gostos como "embirrações", falam por nós. Assim, aqui ficam, salomonicamente divididos - gostos e não gostos.

Não gosto de:

. Relógios parados
. Mal entendidos
. Flores que “não se cheirem”

Gosto de:

. O silêncio das montanhas
. Mar batido
. Praças cheias (de canções)

... e os nomeados são (fazendo parte dos gostos):

Dona Tela
Branco no Branco
Veu de Maya
Vida de Vidro
Mar Arável
Arabica

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Palavras em trânsito...

A língua portuguesa é barbaramente sugestiva. Todos os que a cultivamos, com mais ou menos talento, procuramos explorar as suas possibilidades, desdobrando o(s) sentido(s), de forma a que, por vezes, o que se diz, encobre e desvenda, em jogo de sedução, aquilo que desejamos (pudicamente) revelar.

Eis um inútil exercício de escrita. Mero prazer da forma neste texto. Deixo, porém, para os que tiverem paciência, a oportunidade de lhe darem algum sentido...
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Existem algumas palavras muito a gosto de uns tantos: entre elas, afeiçoar e ajeitar-se...

Próximas na sua semântica , mas não significam exactamente a mesma coisa. “Ajeitar-se”, consultando um solícito dicionário on line, tanto pode ser “tornar-se apto” como “pôr-se a jeito”, “amoldar-se...”. Seguindo a mesma fonte “afeiçoar” é “dar determinada feição ou forma”, sendo que na sua declinação reflexa “afeiçoar-se” pode ganhar a dimensão de “fazer ganhar afeição”, “dedicar-se” ou, vejam bem, até “apaixonar-se”...

E temos também na mesma família o substantivo “jeitinho”, de fazer (ou dar) “um jeitinho”, uma espécie de água chilra, seiva de que se alimenta o Portugal em inho de que falava o poeta Alexandre O´Neill. Se continuarmos a cavar até a raiz dos verbos e das significações enunciadas, iremos certamente bater (salvo seja) na magnificente glória do “jeitoso”...

Quero eu dizer na minha que esta modulação de jeitos, jeitosos e afeições se distribui por diversos timbres, como partitura de orquestra, desde os tons mais átonos até aqueles que determinam o fluxo dos grandes naipes...

Assim, o jeitinho é nota menor na escala. Mesquinho o jeitinho, sem dúvida. Mas não vai além do chinelo, que é como quem diz, além do cotão dos cotovelos coçados, que a vida está difícil e mais uns cobres ao fim do mês dão mesmo jeito. Ora cá está, o jeito!... Que por vezes se eleva a “jeitão”! E, então o jeitoso, sobe na escala dos timbres. E, em lugar dos habituais jeitinhos, começa a “ajeitar-se!... Em progressão geométrica, naturalmente, da sua capacidade de “amoldar-se”...

Mas, por aqui, se fica o jeitoso. Poderá chegar ao escalão de pequeno ou médio instrumentista, mas geralmente, nunca se elevará a dignidade do proscénio... Claro que poderá ganhar afeição e dedicar-se à causa. E, então, o jeitoso, pode até, em conjunturas favoráveis, atingir a qualidade de solista, que na versão orquestral deste texto é, mal comparado, uma espécie de líder, sabe-se lá se até mesmo com dimensão de primeiro-ministro...

Mas, geralmente, está vedado ao jeitoso “dar determinada feição ou forma à coisa...”

“Dar feição à coisa” é matéria mais discreta. Reservada, por natureza ao mundo das afeições, que se afeiçoam umas às outras. Em osmose permanente, entre os gabinetes alcatifados do poder político e as madeiras exóticas dos grandes escritórios de advogados. Ou na dança das cadeiras ministeriais e as cadeiras do mundo empresarial...

Tal qual uma família ou núcleo restrito a poucos.

Corta-se aqui, emenda-se ali. Acrescenta-se, faz-se e desfaz-se, se for o caso... Adiam-se prazos ou aceleram-se, conforme a conveniência...Até a obra ficar de feição. Que outros granjeiam... Seja lei avulsa ou empreitada de milhões. Seja operação urbanística, ainda que seja necessário alterar de uma qualquer ZPE.

No estuário do Tejo ou qualquer outro lugar debaixo do Sol. Desde que renda, naturalmente...

Complexa, a “aventura do sentido” das palavras... Aliás, por vezes, caiem-nos na escrita sentidos e ressonâncias que nem imaginaríamos. Sobretudo, quando a polissémica língua portuguesa se tinge garridamente e se “afeiçoa” a anglicanismos em voga.

Quem imaginaria, por exemplo, que Alcochete poderia rimar com “outlet"?!...

sábado, janeiro 24, 2009

Sonata de Inverno

Desce o nevoeiro na paisagem
E o rio é manto de olhos encobertos...

(Dolente a música do cello
E meus passos...)

Tombam imaginárias folhas
Sobre o chão alcatifado e as janelas
São órbitas entreabertas. No entanto baças.
Ou destino vago das horas...

E as árvores agora nuas são súplicas isoladas
São ausências e linhas precárias
Perfis esvoaçantes apenas. A teimarem
Lá fora...

Nem gritos, nem memórias.
Espera pura de aves e das folhas
No íntimo dos caules. E dos dias...

E minha inquieta presença catando o poema

E “o piolho da existência”. Sem moldura...

terça-feira, janeiro 20, 2009

Falando de religião e... de sarilhos.

Entendamo-nos. Tive na infância e na adolescência educação religiosa. Ainda hoje mantenho traços de carácter (que cultivo), que são tributários da minha formação. Oriundo de meio rural, a religião era omnipresente no ciclo da vida e da produção ...

À distância de décadas, recordo o “ora pro nobis” desfiado em procissão, quando de secas prolongadas por ausência de chuva ou, quando no mês de Abril, em acto de “sagração da Primavera”, com os campos em ondas levantadas pelo vento nas searas ainda tenras, o povo da aldeia subia ao monte mais próximo em ladainha e, lá no alto, o sacerdote aspergia, aos quatro ventos, a água benta, exorcizando as pragas nas culturas, em invocação da Providência sobre o trabalho dos homens e o “pão nosso de cada dia ...”.

Cerimónia de um panteísmo comovente, em que o clerical hissope não era mais que gesto de Pã celebrando, em apoteose, a Natureza festiva e o milagre das colheitas ...

Claro que, depois, “perdi-me” do rebanho. “Coimbra perdeu-me! ...”, como dizia o bom do Padre Manuel, em tolerante bonomia, perante os meus arroubos filosóficos e a minha descoberta de novas cartilhas. E, de alguma forma, - hoje o reconheço! - o Padre Manuel teria alguma razão... Até então, sabia bem de meu lugar no microcosmo social a que pertencia. Posteriormente, aconteceu que poderia ter sido quase tudo - porém, sou apenas aquilo que sou, nas minhas poucas certezas ...

Sei, assim, que a “religião é ópio do Povo”. Mas também sei que o ópio pode, se bem administrado, produzir efeitos terapêuticos. Também as religiões poderão desempenhar, individual e colectivamente, uma função de catarse social, quando não mesmo de impulso à transformação da vida... Aliás, numa sociedade de tantas e tão variadas “alienações” (o consumismo, p. ex.) a religião será, porventura, um mal menor...

Vem isto a (des)propósito da polémica sobre recentes declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa, em que Sua Eminência, considera poder constituir “um monte de sarilhos” o casamento de mulheres católicas com homens muçulmanos.

Pressente-se, no desabafo, preocupação com os direitos da Mulher. Na minha opinião, contudo, não isenta, porém, de soberba religiosa, de quem se presume detentor da verdade única. Os muçulmanos têm em relação à Mulher concepções religiosas e culturais que entram em choque com a religião católica e a cultura ocidental? É verdade... São fundamentalistas - dir-me-ão - e não admitem outras concepções e modelos exteriores à sua religião. Em algumas variantes, serão de facto...

Porém, que se saiba, não há religião alguma que, para além de se considerar detentora da verdade única, (revelada) não se considere também detentora de toda a verdade. Mesmo a ecuménica religião católica, por louváveis que sejam os seus propósitos de "diálogo inter religioso".

A igreja católica, hábil em seus múltiplos "aggiornamentos", por impulso dos movimentos sociais e tantas vezes contra a própria igreja, reconhece hoje o que ontem condenava. Como sempre foi ao longo da História...

Até ao Concílio de Trento (1543-1563), por exemplo, era lícito aos cristãos ter, ao mesmo tempo, várias mulheres e que, apenas a partir desse acontecimento, tal prática foi banida, quer dizer, objecto de excomunhão. O que não surpreende, pois que, durante muitos séculos de domínio ideológico da igreja católica, as mulheres não tiveram alma... E hoje?!...

Então não é verdade que, na hagiografia católica, a própria mãe de Cristo (mulher, apesar de virgem) é apenas mediadora, mas não fonte de graça? Será que vamos ter, a breve prazo, mulheres a oficiar os sacramentos e a celebrar missa?...

Serão louváveis as preocupações do Patriarca. Mas tenho para mim que o casamento é, por natureza, "um monte de sarilhos" em qualquer sociedade, seja ela qual for. Nem são necessárias práticas religiosas distintas para os sarilhos surgirem... Basta que estejam em causa interesses económicas (tantas vezes de sobrevivência), ou distintas concepções do mundo e da vida.

Atrevo-me até a afirmar (um pouco provocatoriamente) que, hoje em dia, o casamento é um "sarilho" cada vez maior. Mas isso são contas de um outro rosário. A que um dia talvez voltarei, sendo caso disso...

domingo, janeiro 18, 2009

"Prémio Dardos"

Arabica teve a gentileza de designar este blog para “Premio Dardos”. Com este prémio pretende-se reconhecer a participação de cada um na transmissão valores culturais, étnicos, literários, pessoais, etc. e constitui uma forma de promover a confraternização entre os blogueiros e uma demonstração carinho e apreço por um trabalho que agregue valor à Web.

Agradeço a distinção, sobretudo, pelo excelente conjunto de blogs que me acompanha na atribuição do prémio e que, na medida do possível, passarei a frequentar. Porém, conforme em nomeações anteriores em iniciativas congéneres, não darei sequência a este rede de cumplicidades e afectos, por manifesta incapacidade em escolher 15 blogs da minha preferência, entre todos aqueles que, com prazer, leio com mais frequência. Peço desculpa, portanto por este facto.

Peço ainda desculpa pela minha completa incapacidade de "colar" o selo, apesar de várias tentativas fustradas.

sábado, janeiro 17, 2009

Palavras Outras - "Grito e choro por Gaza e por Israel"...

"Há momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia. O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes (“terroristas”) do movimento Hamas.

Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas:

Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento “terrorista” Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas.

Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel.

Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamizaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia.

Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas “terrorista”, que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e acéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem.

Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus?

Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão.

Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica.). Estranha guerra esta em que o "agressor", os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os “agredidos”. Nunca antes visto nos anais militares.

Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos "heróis" que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia!

Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra!

Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca

- Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz!

- Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia!

- Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos...

- É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse.

- É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são".


Fernando Nobre
04-01-2009

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Alguns elementos do perfil curricular.

Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 1951. Em 1964 mudou-se para o Congo e, três anos mais tarde, para Bruxelas, onde estudou e residiu até 1985altura em que veio para Portugal, país das suas origens paternas.

É doutor em Medicina pela Universidade Livre de Bruxelas, onde foi assistente e especialista em Cirurgia Geral e Urologia.

É Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Académico Correspondente da Academia Internacional de Cultura Portuguesa.

É membro do Conselho Geral da Universidade de Lisboa e do Conselho Geral da Universidade da Beira Interior e docente convidado (em Mestrados e Pós-Graduações) nas Faculdades de Medicina de Lisboa, Coimbra e Minho, na Universidade Autónoma de Lisboa, no Instituto de Estudos Superiores Militares e no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna.

Foi administrador dos Médicos Sem Fronteiras - Bélgica e fundou, em Portugal, a AMI –Assistência Médica Internacional, à qual ainda preside. Participou como cirurgião em mais de duzentas missões de estudo, coordenação e assistência médica humanitária em cerca de sessenta países de todos os continentes.

terça-feira, janeiro 13, 2009

O CULTO DA ÁGUA

a Terra. o Ar. o Fogo. a Água.

Destaco a Água. Pelo gosto da água. Pelo prazer da água. Pela presença da água: elemento essencial de Vida!

Dizem-me velhos tratados, (decifrados pela mão de uma feiticeira que em noites de lua cheia me visita) que é grande o homem, tão só quando mergulha nos dons da natureza. Que da água primordial, se solta o sopro divino. Mátria, que não Pátria, deveria celebrar o culto. E nela soltar-se o lado luminoso da História.

Terra e Água. A fecundidade perene. O encantamento e o milagre. Surpreendo-me, às vezes, especulando quão diferentes seriam nossos dias, se o lado errado fosse o certo e a história nos legasse, o que ficou calado. Se a água triunfasse e límpida corresse. Na sêde e nas lágrimas, claro. Mas também nas torrentes caudalosas que abrem sulcos definitivos.

“Água azul: ei-la.
Entrei nela,
E fiquei todo azul”...


Mas quem se espanta com o espanto do índio das Montanhas Rochosas? E quem, de seu canto, guarda a magia do seu banho matinal?... Perdeu-(se). Agora apenas os poetas e os bêbedos de utopia lhe perseguem o rasto...

“Agora não há terra.
Há apenas água sem fim
Até aos quatro cantos do nada...
(...)
A água move-se em silêncio
De sons ainda por ouvir... “


Poesia pura. Mas quem das margens do Eufrastes, escuta hoje os “sons ainda por ouvir” no barro das letras balbuciantes?... Babilónia está a arder. Os sons, os terríveis sons do império, esfacelam o eco milenar de civilizações fecundas...

Águas, sois vós quem nos traz a força vital. Ajudai-nos a encontrar alimento para que possamos encontrar grandes alegrias. Deixai-nos partilhar da seiva mais deliciosa que possuas, como fôsseis mães delicadas...”

Mas quem escuta a exortação? Quem das águas do Ganges faz alimento para o esfarrapado pária? Quem?!... Milhões sob a água que a história arrasta, descartáveis...

E aqui, ontem, onde tudo para nós começa? Iniciática a água e redentora na lenta ascese do Caos em direcção à Luz. Água de vida. Sabedoria escondida no âmago. Sopro.

... “e dei-lhe de beber a Água da Vida que o despe do caos que existe no mais completo das trevas, dentro de todo o abismo”,

Assim falam, nos vãos esquecidos da história, os manuscritos gnósticos de primitivos cristãos.

Mas quem hoje a espiritualidade dos tempos?!...

Mátria e Pátria da Terra Prometida, que pela água (e pelo fogo) se faz luz sobre as trevas.

Pela água (...)

somos salvos pelo conhecimento do oculto, por meio da luz incomensurável e inefável. E aquele que se esconde entre nós (o reino das trevas) paga tributo de seu fruto à Agua de Vida. ”

... E no fogo latente do Verbo e da Palavra (inter)dita dos vencidos...

Assim fala o poeta, oficiante do culto da água...

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Os textos em itálico são extraídos da Colectânea “A Rosa do Mundo” – Edição Assírio e Alvim

sábado, janeiro 10, 2009

Solicitude das palavras

Tacteio o olhar das coisas como se brisa
Fosse no rosto inocente das palavras por dizer...

Seminais estas veredas em que me espraio
- Ondas e inaudíveis sons de canto austero -
Tão breves que se esfumam em mistério
Como o decair da tarde em zénite de sol.

Ou apenas o odor acre da terra
Depois da chuva...

Acolho-me a esta solicitude das palavras
Umas pelas outras. Reflexos doirados
Alimentando-se das entranhas do vento...

Sem outra glória que não seja a emoção alada
E o fio ténue de mim que as segura...
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Habitamos as palavras e elas nos habitam
E no corpo das palavras fecundamos a vida.
E o tempo...

terça-feira, janeiro 06, 2009

Obama rompeu o silêncio sobre o conflito em Gaza...

Barack Obama, presidente eleito dos Estados Unidos, rompeu o silêncio acerca da guerra em Gaza e expressou a sua “profunda preocupação”pela perda de vidas civis na ofensiva israelita, que fez já mais de 630 mortos em 11 dias. As declarações de Obama foram produzidas depois do ataque, que fez pelo menos 40 mortos, a uma escola da ONU em Gaza, cheia de refugiados palestinianos.

A perda de vidas civis em Gaza e Israel é uma fonte de profunda preocupação para mim – disse o Presidente eleito. No entanto, realçou que apenas o Presidente George W. Bush é a voz da política internacional do país nestes momentos e que depois da sua investidura na Casa Branca, em 20 de Janeiro, expressará mais opiniões sobre o conflito.

Entretanto, a Casa Branca reiterou hoje a chamada de atenção a Israel para que faça o possível para evitar vítimas civis, depois do bombardeamento à escola da ONU. E insistiu que, se os Estados Unidos querem que se acorde um cessar-fogo em Gaza, qualquer acordo deverá, no entanto, ser duradoiro e sustentável. E acrescentou que, mediante a visita da Secretária de Estado, Condolezza Rice, à sede das Nações Unidas, Washington quer demonstrar que está aberto a diversas fórmulas para se conseguir que cessem as hostilidades.

Por outro lado, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, qualificou este conflito como o momento mais negro do Próximo Oriente
e que esperava que se encontre uma base para um cessar-fogo imediato em Gaza. “Obviamente, depende do que façamos com (...) segurança de Israel e dos palestinianos - acrescentou.

Entretanto a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que até agora havia responsabilizado apenas o movimento integrista Hamas pelo conflito expressou hoje “profunda preocupação a situação da população civil em Gaza, que piora de forma crescente”.

Através de um comunicado o porta-voz do governo de Berlim, apelou a que se “garanta o abastecimento humanitário com bens, víveres e medicamentos à população da faixa de Gaza”.

http://www.palestinalibre.org/

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Dir-me-ão os mais cínicos que os objectivos de Israel estarão em vias de ser conseguidos. E que se trata agora de salvar a face e... as aparências!...

Prefiro acreditar que a consciência dos Povos e os protestos generalizados contra a iniquidade vão fazendo caminho. Apesar de tudo...

sábado, janeiro 03, 2009

Barbárie capitalista ...

A fonte é uma reportagem de TV, num dos canais nacionais, a propósito da crise financeira e económica que assola o capitalismo. Eis a história. Passa-se nos Estados Unidos da América do Norte...

Milhares de famílias da classe média foram despejados das suas casas, ou dito de outra maneira, das casas que consideravam suas. As habitações estavam, naturalmente, a ser pagas com empréstimos bancários de longo prazo, “generosamente” concedidos pelo sistema financeiro, que via nesses empréstimos uma forma de rentabilizar os seus capitais. Razões diversas, que o jargão “economês” reduz ao celebrado sub-prime, mas que o mais elementar bom senso deveria assinalar, sobretudo, a instabilidade do emprego e a quebra de rendimentos das famílias norte-americanas, determinaram a impossibilidade do pagamento das amortizações mensais.

Então a “benfazeja” banca, com a rapina de usurários vinda das alfurjas da História, tratou de executar as respectivas hipotecas, perdendo assim o direito às casas os honestos cidadãos, que um dia haviam sonhado como suas. Mas também – helás! – perdendo direito aos móveis e outros tarecos com que haviam, certamente, com sacrifícios vários, conseguido rechear as habitações, pois que foram penhorados para amortização das prestações, entretanto vencidas e que não puderam ser pagas.

Assim, muitas pessoas, como a reportagem denunciou, foram não apenas espoliadas de um tecto, como também ficaram apenas com a roupa que traziam no corpo. Mães e crianças no “olho da rua” e pais desesperados em nome do sacrossanto “direito de propriedade” e dos interesses do capital. Enfim, cenas saídas de um romance de Charles Dickens, nos alvores do século XIX... Em síntese, milhares de pessoas sem tecto e espoliadas dos bens e haveres que ao longo dos anos adquiriram, completamente abandonadas à sua sorte, como consequência lógica do funcionamento da sociedade capitalista e das regras de direito por ela estabelecidas.

Nada mais “natural” para um credor hipotecário do que executar as respectivas hipotecas, dir-me-ão... Mas a esses lembrarei que, como diziam os romanos, a justiça e a misericórdia andam juntas (“justitia et misericórdia comambulant) e que, em nome desse princípio, a doutrina jurídica considera não serem penhoráveis os bens indispensáveis à subsistência dos indivíduos, tais como equipamentos domésticos e instrumentos de trabalho. Ao que parece, a acrescer aos imensos dramas individuais e colectivos, anuncia-se também, com esta crise, uma chocante regressão cultural e civilizacional...

Neste itinerário de extorsão, estamos, no entanto, apenas no primeiro nível. Há mais, como se verá... Executadas as hipotecas, a banca ficou possuidora de uma enorme conjunto de imóveis, dos quais não extrai qualquer mais valia e, por isso, se torna urgente vender. Passava-se então a uma segunda parte do drama: as casas de onde tinham sido expulsos os seus compradores endividados são vendidas agora a preços de ocasião, a quem as possa pagar.

Sem prejuízo para a banca, naturalmente, que pelo menos em parte já terá reconstituindo o capital investido, no montante das prestações e juros pagos pelos espoliados. Tudo o que vem agora com venda das casas devolutas vem por acréscimo...

Temos então a lógica do capital em todo o seu esplendor: bons negócios como contrapartida “positiva” da desgraça alheia e a excelência do “mercado livre”, ou seja, o decantado “lado bom” do capitalismo a provocar a destruição de milhares de vidas que usufruíam a estabilidade possível e que, seguramente, acreditavam nas “virtudes” do sistema...

Face a barbárie em que balançamos, anda muita gente incomodada por um espírito ou outro, mais lúcido e insuspeito, invocar o pensamento de Marx para melhor analisar e compreender a crise actual do sistema capitalista. Tenho para mim, no entanto, que actualidade de Marx - e isso o torna tão “irritante” para tanta gente – não está apenas na actualidade da sua teoria económica e pensamento filosófico, mas reside, sobretudo, na circunstância de ter sido ele quem antecipou a ideia de que “mais que pensar o Mundo, é necessário transforma-lo”...

Tarefa a que todos somos convocados. E como se faz Cuba que não verga, perante o criminoso bloqueio dos Estados Unidos, expressão dos mesmos valores e da mesma política, que hoje espolia de suas casas milhares de cidadãos norte americanos...

Assim, pela sua resistência e ousadia de espinho cravado na garganta do capitalismo, pelo seu patriotismo e exemplo de solidariedade, julgo dever saudar Cuba e a sua Revolução, que perfez há dias 50 anos de luta e de sacrifícios, sem nunca perder o ânimo, nem nunca duvidar da vitória...

E, neste tempo de crises várias, singelamente, me declaro: “yó soy cubano...”