domingo, dezembro 28, 2008

Granítica esperança...

Colapsam as palavras e despenham-se na voragem
Das paisagens geladas. Lonjuras que apenas os ventos
Ousam. Pressente-se o grito perdido das fragas
Em simulacro de dor.

Vã a tentativa para além do azul coalhado
E das farripas de bruma que incendeiam os vales
Como bocas sinuosas de dragões em danças guerreiras.
Ou monges brancos em penitências aladas no milagre
De todas as lembranças...

Fantasmagorias soltas debruçadas sobre as casas
Perdidas. Solidões de cabras balindo a urze
E as magras tetas. Ventres que se abrem nas encostas
Em presépios de abandono... Lá no alto a íngreme
Penitência das dores e de todas as promessas.
Pagãos que somos.

Guardamos o inesperado. E a rocha parideira.
E colhemos no restrito núcleo de afectos o gosto
Do vinho que bebemos. Confortados. E a água
Que calamos. E agitação febril dos olhos.
E dos sonhos.

Imensos na granítica esperança tatuada no rosto
Vivo dos homens.

Em cada esquina de solidariedade e luta...

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Votos de feliz Ano Novo.
Com esperança em melhores dias. Apesar de tudo...

sábado, dezembro 20, 2008

Feliz Natal...

“Eis vens tu, velha festa mansa,
e ao meu peito de outrora comprimida
queres ser consolada. Queres que te diga:
Tu és ainda a ventura de outrora
e eu de novo criança escura e abro os olhos calmos em que brilhas.
Sim, por certo. Mas então quando eu o era e bela me assustavas,
quando as portas saltavam - e a tua tentação maravilhosa
já não reprimível por mais tempo
se atirava sobre mim como o perigo
de alegrias impetuosas: mesmo então, sentia-te eu a ti?

Em volta de cada objecto a que lançava a mão,
havia brilho do teu brilho. Mas, de repente,
dele e 'da mão surgia uma coisa nova, coisa tímida;
vulgar quase, chamada posse. E eu assustava-me.
Oh, como tudo, antes de eu tocar, jazia puro e leve nos meus olhos!
E mesmo aliciando à possessão,
inda o não era. Inda não lhe aderia
o meu agir; a minha incompreensão;
o meu querer que fosse alguma coisa que não era.

Era ainda clara
e aclarava os olhos.
Não caia ainda, não rolava,
inda não era a coisa contraditória.
E eu ficava hesitante em fre
nte ao milagre de não possuir”...

Rainer Maria Rilke – in "Poemas" – Atlântica Editora – 1958
Tradução Paulo Quintela
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Feliz Natal!...

Tem sido um privilégio a vossa presença amiga.
Até breve.
Beijos e Abraços
BachOratoriaNatal

terça-feira, dezembro 16, 2008

E a Grécia aqui tão perto...(ou tão longe!)

“É toda a Grécia e não apenas o seu governo que vive um dos mais difíceis momentos da sua história contemporânea. Praticamente ninguém chega a compreender o que realmente se passa nas ruas da capital e outros grandes centros urbanos, qual é a verdadeira razão dos protestos espontâneos, desta guerrilha urbana, de que os jovens são os principais actores.

E quase ninguém se interessa por saber quais sejam as causas mais profundas que levam milhares de jovens, a enfrentar, durante dias seguidos, as forças especiais da polícia(...). Como é possível? Interroga-se muita gente (...).

É, em grande parte erróneo, sustentar que estes acontecimentos são resultado da crise económica mundial. É impreciso porque a economia grega sofre, desde há bastante tempo de falta de investimentos, de privatização de empresas públicas, de flexibilidade laboral, que leva ao crescimento cada vez maior da taxa de desemprego e o aumento do custo de vida. A Grécia faz parte da zona euro, mas sobrevive graças, em boa parte, a uma economia subterrânea muito importante.

Esta tese perde muito sentido se se considerar que os jovens em revolta são menores ou estudantes universitários que não estão, em todo o caso, submetidos de maneira directa às consequências da crise económica. Pelo contrário, são muitas vezes vítimas do consumismo. No seio da contestação em Atenas está também a “geração dos 700 euros” que, em todo o caso, representa apenas uma minoria no movimento de jovens.

O que mais impressiona nisto tudo é a reacção do mundo político. A surpresa das primeiras horas foi acompanhada de declarações banais(...). Como se o despedimento massivo de milhares de trabalhadores, o sistema anacrónico de ensino ou a reforma da Educação pretendida pelo governo não fossem, para eles próprios a raiz da violência (...).

Como se não fosse igualmente violência ... a violência de uma "televisão-lixo", os escândalos e a corrupção, o afundamento dos sistema de saúde, de pensões, a perda de milhares de jovens na idade de Alexis (o jovem assinado pela polícia) todos os anos, em virtude de acidentes provocados em estradas, como não se vêem em países do terceiro mundo.

Para algumas pessoas a morte de Alexis não justifica a destruição nas ruas de Atenas (...) “Um acontecimento trágico como a morte de Alexis não pode ser utilizado como pretexto para desencadear uma violência cruel” – disse o primeiro-ministro grego, ameaçando com a aplicação severa da lei.

Karamanlis engrossou a voz face aos jovens. O dirigente socialista Giorgos Papandreou, ainda que bem mais prudente nas palavras, está no mesmo comprimento de onda, quando condena as desordens e os ataques ao “Estado de direito”, culpando os conservadores pelos acontecimentos. O jogo político, o duelo bipartido continua com as declarações convenientes, sem que ninguém no mundo político ponha a questão: porquê esta contestação? (...).

A raiva dos estudantes e evidentemente devida ao assassinato do jovem Alexis. (...) Mas a cólera de Atenas é, sobretudo, devida em grande parte por ausência de um futuro digno, pelo desemprego que bate à porta, antes mesmo do diploma, agora que o presente não se apresenta com saída, marcado por um nível de instrução vazio e a degenerescência da relação entre o estudante e o ensino.

Sem falar na atitude da policia perante os jovens. Os insultos, os controles, os abusos de poder, os maus-tratos são o dia a dia, num país de estado policial com longa tradição, herdeiro da direita mais dura (...).

A amplitude dos confrontos é também devida à falta de um plano por parte das forças da polícia, que estão presentes e ausentes ao mesmo tempo. As forças da polícia anti motim atacaram com gás lacrimogéneo, mas a dor e indignação eram tão grandes e fluxo de estudantes que se manifestavam espontaneamente tão importante que a situação se tornou incontrolável. Era evidente que as forças da ordem estavam, de acordo com as palavras de seus dirigentes, numa posição “defensiva”, demonstrando assim indirectamente a “má consciência” pelo governo pelo assassinato do adolescente.

A polícia não conseguiu defender nem os símbolos da globalização como bancos, MacDonnald´s, boutiques de luxo, edifícios do governo, nem muito menos armazéns e lojas daqueles que se encontravam a beira da falência, por causa da crise económica. Assim, se a reacção dos jovens gregos é cegueira compreensível, a da polícia e a do governo de Atenas e também cegueira, mas sobretudo cegueira incompreensível”.


Pavlos Nerantzis, in “il manifesto”, 10 Dezembro 2008

(Traduzido do francês)
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Entretanto, jovens gregos começaram a armazenar pedras, rochas e pedaços de mármore trazidos de Salónica, Corfu e Creta e estão a vendê-las - três pedras por um euro - a manifestantes, (cujos pais vivem na opulência ao estilo de Hollywood), mas unidos, aos jovens desempregados, pelo desejo comum de as arremessar à polícia.

Confesso-me, apesar de avó babado, tentado a comprar uma meia dúzia de pedras (virtuais, está bom de ver...)

É que os mesmos jornais que me trazem estas notícias são os mesmos que referem aumentar, entre nós, o número de jovens e adolescentes que se auto mutilam. Uma violência mais caseira, bem de acordo com os nossos brandos costumes...

Valha-me D. Sebastião (alegre), na sua imensa glória de salvar a Pátria. Sem insurreições. Nem pedras, naturalmente...

Que a revolução também cansa...

sábado, dezembro 13, 2008

Outras Personagens - Baltazar Gárzon

Tive o privilégio de assistir, passado dia 11 de Dezembro, na Casa do Alentejo, em Lisboa, a uma conferência proferida pelo juiz espanhol Baltazar Gárzon, promovida pela Fundação José Saramago, comemorativa dos 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Para os mais distraídos, direi que o juiz Baltazar Gárzon tem um brilhante curriculum como magistrado ao serviço das causas mais nobres, como defensor das vítimas de crimes de genocídio e crimes contra a humanidade, promovendo reabilitação moral e social das vítimas e movendo perseguição jurídica contra os seus verdugos.

Dos processos mais conhecidos, ressaltam a prisão e julgamento do ditador Augusto Pinochet e, presentemente, o processo em curso sobre as vítimas do franquismo, entre as quais o poeta andaluz Garcia Lorca que, como se sabe, foi fuzilado às mãos do fascismo espanhol, acrescentando o seu nome ilustre a milhares de outros.

Claro que é sempre gratificante poder ver uma inteligência luminosa em pleno voo, sem o mínimo de vedetismo ou afectação, em dias em que proliferam tantos ídolos de barro, ávidos de protagonismo social. Mas para além da individualidade e da empatia que estabeleceu com as largas dezenas pessoas presentes, quero partilhar convosco duas ou três ideias, que especialmente me impressionaram.

Que os tempos vão difíceis para a causa dos direitos humanos, é uma realidade que todos sabemos. Porventura, também não haverá dúvidas entre nós que, cada violação dos direitos do homem, no mundo actual, é sempre percorrida pelos poderosos interesses económicos mundiais, que manietam os Estados e corrompem pessoas e instituições.

Mas é bom ver estas convicções reafirmadas na palavra de alguém que, com a autoridade (e o risco) da sua vida, tem confrontado os liames negros desse conluio. Com a superioridade moral de quem a defesa dos “direitos do homem” não pode ser mera proclamação retórica, mas antes um compromisso prático de vida. E, por isso, o seu escrúpulo e a decência em não ultrapassar a fronteira da iniquidade, mesmo quando estão na mira os mais ferozes verdugos, respeitando neles os direitos e a sua (in)dignidade homens.

São assim os homens íntegros. Não promovem o “justicialismo”, mas perseguem a realização da Justiça! Sem arrogâncias, nem idealismos deslocados. Mas com a determinação de quem sabe que o combate jurídico-penal, em defesa dos direitos do homem, não é mais que o culminar de outros combates cívicos e políticos ao alcance de cidadãos comuns. Que, porém, não cedem, nem se calam...

Como as “Mães da Praça de Maio”, na Argentina, que durante anos a fio, mantiveram permanentes manifestações públicas, para exigirem, aos poderes políticos, notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar naquele País.

E que, nesta reunião, se soube, pela voz afectuosa de Pilar del Rio, que o juiz Baltazar Gárzon, homenageou, fazendo com elas, na Praça de Maio, o mesmo percurso de dor e luto...

Há momentos, assim, reconfortantes. Que nos apaziguam e nos reconciliam com a Humanidade. Por sabermos que, para além de nós e do cinzentismo da realidade imediata que nos cerca, há homens e mulheres determinados que não se cansam, nem cedem na luta por uma Humanidade mais livre e justa...

Foi para mim, nesta quadra, uma íntima e pessoalíssima prenda de Natal, acreditem-me...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Palavras Outras - Guy Debord



1 - “O espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.”

2 – “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos. Tudo o que era directamente vivido se afastou numa representação”.

3 – “O espectáculo não pode ser compreendido como o abuso de um mundo da visão, o produto das técnicas de difusão massiva de imagens. Ele é bem mais uma Weltanschauung tornada efectiva, materialmente traduzida. É uma visão do mundo que se objectivou.”

4 – “O espectáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si própria. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores”.

5 – “A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do “ser” em “ter”. A fase presente da ocupação total da vida social pelos resultados acumulados da economia conduz a um deslizar generalizado do “ter” em “parecer” de que todo o “ter” efectivo deve tirar o seu prestígio imediato e a sua função última. Ao mesmo tempo, toda a realidade individual se tornou social, directamente dependente do poderio social, por ele moldada. Somente nisto em que ela não é, lhe é permitido aparecer.”


Guy Debord – in “Sociedade do Espectáculo”

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Rito(s) de passagem...

Talvez este regresso seja voo de milhafre
Planando contra o vento.
Ou estultícia em filtrar o tempo
Em meus dedos...

Talvez seja vertigem. Talvez pequenas coisas
Em profusão descendo como os braços do salgueiro.
Ou moinhos em canto d´água.
Ou a pedra da soleira...

Talvez o eremitério seja a brusca passagem das horas
Já passadas. E murmúrio de oração em lábios já finados...
Talvez mulheres de negro embiocadas
Penélopes sem viagens. E epopeias de silêncio...

Talvez as cálidas mãos dos homens. Agora
Pousadas sobre a mesa e o pão repartido.
E a criança atónita espreitando o ritual do vinho
Nas gargantas ressequidas.

E o delírio da festa. E as colheitas...

Talvez os corredores da memória
Sejam espaço afadigado em estertor de ave
Já sem ninho. E que no entanto teima o calor das penas...

Talvez o vento se solte em novas profecias.

E todos os rostos venham em coro
Entoar bênçãos em teu nome.

António...

segunda-feira, dezembro 01, 2008

deixo que os rios secos...

deixo que os rios secos e as tempestades de sons ausentes
na memória de outros Maios se inscrevam na saliva
das palavras balbuciadas em que digo amor
em fim de tarde...

assim administrando amoras tardias que recolho
em círculos de sol de lábios ciosos - gestos inesperados
como frutos desprendendo-se de maduros -
ou chuvas de deserto...

viajo caminheiro sem pressa recostado nas bermas
celebrando as sombras e as festivas giestas outonais
sorvendo o mel das silvas soltando revoadas de
tordos espantados que riscam o abismo dos olhos...

e aí me perco - na entrega matizada de cores quentes
nos odores persistentes na humidade translúcida de beijos
na generosidade dos seios no declive dos lábios -
cio de colheitas na sofreguidão dos cestos antes das uvas...

ondas desbragadas que subjugam - ferida aberta ou lava
ou lume que consome - e festa que explode
em clarão de madrugada...