quinta-feira, novembro 27, 2008

THOMAS JEFFERSON (1802)




Fantástico!... Como há 200 anos se previam as desgraças actuais!...
Este tipo era capaz de ser "comuna", não vos parece? rss

Bom fim de semana!

Beijos e abraços. Até já...

segunda-feira, novembro 24, 2008

Pensar o impensável...



“Tudo, portanto, era possível. Uma intervenção financeira maciça do Estado. O esquecimento das obrigações do Pacto de Estabilidade Europeu. Uma capitulação dos bancos centrais ante a urgência de uma retoma. A condenação dos paraísos fiscais. Tudo era possível porque se impunha salvar os bancos.

Durante trinta anos, o mais leve esboço de qualquer alteração dos fundamentos da ordem liberal, para, por exemplo, melhorar as condições de vida da maioria da população, teve contudo o mesmo tipo de resposta: isso é tudo muito arcaico; então não sabem que o Muro de Berlim já caiu?

E durante trinta anos a “reforma” foi aplicada, mas noutro sentido. No de uma revolução conservadora que entregou à finança fatias cada vez mais espessas e suculentas do bem comum, como os serviços públicos privatizados e metamorfoseados em máquinas de cash “criadoras de valor” para os accionistas. No duma liberalização das trocas comerciais que atacou os salários e a protecção social, obrigando dezenas de milhões de pessoas a endividarem-se para preservar o seu poder de compra, a “investirem” (na Bolsa, em seguros) para garantir a educação, prever a doença, preparar a aposentação.

Desse modo, a deflação salarial e a erosão das protecções sociais criaram e fortaleceram a desmesura financeira. Porque a criação do risco levou-a a proteger-se contra ele. A bolha especulativa apoderou-se muito depressa da habitação, que transformou em investimento. De forma incessante, voltou a inchar com o hélio ideológico do pensamento de mercado. E as mentalidades mudaram, mais individualistas, mais calculadoras, menos solidárias. A bancarrota de 2008 não é pois essencialmente de carácter técnico, susceptível de ser melhorada com paliativos como a “moralização” ou o fim dos “abusos”. É todo um sistema que cai por terra...

Em seu redor já se afanam os que esperam reerguê-lo, atamancá-lo, dar-lhe verniz, para no futuro próximo ele infligir à sociedade uma qualquer nova brincadeira de mau gosto. Os curandeiros que se fingem indignados com as (in)consequências do liberalismo são os mesmos que lhe forneceram todos os afrodisíacos - orçamentais, regulamentadores, fiscais, ideológicos - graças aos quais ele despendeu sem conta nem medida. Deveriam considerar-se agora desacreditados. Mas sabem que todo um exército político e mediático vai dedicar-se a branqueá-los.

Deste modo, Gordon Brown, o antigo ministro britânico das Finanças, cuja primeira iniciativa consistiu em conceder a “independência” ao Banco de Inglaterra, José Manuel Durão Barroso, que preside a uma Comissão Europeia obcecada com a “concorrência”, Nicolas Sarkozy, artífice do “escudo fiscal”, do trabalho ao domingo, da privatização dos serviços postais, aplicam-se desde já, segundo parece, a “refundar” o capitalismo...

O descaramento destes políticos decorre de uma estranha ausência. Pois onde se encontra a esquerda? A ambição da oficial - a que acompanhou o liberalismo, que desregulamentou a finança durante a presidência do democrata Bill Clinton, que desanexou os salários, com François Mitterand, e depois se pôs a privatizar, com Lionel Jospin e Dominique Strauss-Kahn, que cortou à machadada os subsídios destinados aos desempregados, com Gerhard Schroder, - consiste apenas, obviamente, em virar o mais depressa possível a página de uma “crise” de que é co-responsável...

Sem dúvida. Mas, e a outra esquerda? Poderá ela, num momento destes, limitar-se a desenferrujar os seus projectos mais modestos, úteis mas tão tímidos, sobre a Taxa Tobin, o aumento do salário mínimo, um “novo Breton Woods” e quintas eólicas? Durante as décadas keynesianas, a direita liberal pensou o impensável, tirando proveito de uma grande crise para o impor.

Com efeito, em 1949, Friedrich Hayek, padrinho intelectual da corrente que deu à luz Ronald Reagan e Margaret Thatcher, explicou-lhe o seguinte: “A principal lição que um liberal consequente deve tirar do êxito dos socialistas é esta: a coragem de serem utópico, que ( ... ) torna possível todos os dias o que ainda recentemente parecia irrealizável”.

Assim sendo, quem proporá que se ponha em causa o âmago do sistema e o comércio livre? “Utópico”?!... Mas se agora tudo é possível, tratando-se dos bancos!...”

Serge Halimi – “Le Monde Diplomatique” – Edição Portuguesa – nº25 – IIª Série – Novembro 2008

quinta-feira, novembro 20, 2008

Fernando Pessoa - um inédito.

“Gosto do céu porque não creio que elle seja infinito. Que pode ter comigo o que não começa nem acaba? Não creio no infinito, não creio na eternidade.

Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba E que agora e antes d'isso ha absolutamente nada.

Creio que o tempo tem um princípio e tem um fim,
E que antes e depois d'isso não havia tempo.
Porque ha de ser isto falso? Falso é fallar de infinitos
Como se soubéssemos o que são de os podermos entender. Não: tudo é uma quantidade de cousas.

Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousa”.


Alberto Caeiro

In – “Razão Activa” - Nov./08 – Boletim da Fundação Internacional Racionalista
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Bom fim-de-semana...
Vou ali, já venho! Breve, breve...

Beijos e abraços

domingo, novembro 16, 2008

Palavra inóspita...

Talvez o caos seja apenas a rosácea
Antes do fogo que os dedos tecem no cinzel
E a pedra a absurda permanência da forma
Em si fechada...

Talvez a poalha do tempo fecunde novas cidades
E as ínfimas coisas se ordenem e expludam
Como corolas em delírios de cristal...

Talvez a vontade dos homens seja excesso
E rasgue as veias das galáxias
E o surdo rugir do mundo inunde a consciência
Dos escravos...

Talvez a Palavra seja inóspita
E os hinos sejam derrocada das muralhas...

quarta-feira, novembro 12, 2008

Palavras Outras - "Amanhã..."

"Sabemos menos do tempo do que o tempo sabe de nós. Mas o menos que dele sabemos já chega para sabermos que os próximos dias, os próximos meses, os próximos anos vão ser o tempo de uma grande insónia cercada pela noite que cresce. Hora a hora, minuto a minuto, surgem, por todo o lado, os indícios de uma desgraça que avança e cintilam os sinais de um pânico que corre.

Não são apenas as bolsas que caem, nem o desemprego que aumenta, nem as dívidas que crescem, nem os bancos que se afundam. É, antes disso e depois disso, a imagem fúnebre de um sistema financeiro que se devora a si próprio, devorando-nos e devorando a esperança, sem a qual a vida é empurrada para a morte.

Nesta “epopeia americana” que terminou em tragédia mundial, George W. Bush quis ser Aquiles, mas acabou num “Édipo de Guantánamo” que não conseguiu vencer a esfinge chamada Bin Laden (mas Gore Vidal diz: “Não precisamos de Freud. quando-se trata de Calígula”); Dick Cheney é um Creonte de petrolífera; Alan Greenspan, uma Medeia de Wall Street; John McCain, um Pátroclo tardio; Sarah Palin, uma Clitmnestra de casino (ou será Hécuba?). E Barack Obama é o Ulisses de uma Ítaca em chamas, com o mundo transformando na Penélope que o esperava.

E por todo o lado ouve-se o grito de Antígona a clamar pela justiça que desobedeça à injustiça que manda. Aqueles que durante anos aplaudiram, de Washington a Bagdade, a representação da peça, participaram no elenco, escolheram o teatro, serviram de ponto, desenharam o cenário, fizeram os figurinos, teceram o enredo, são agora os mesmos que se fingem surpreendidos com o desfecho: um desastre que começou a revelar-se na sua enormidade e que eles olham como se estivessem a ver o munido ao contrário.

Por isso, andam cada vez mais de cabeça para baixo para tentarem vê-lo direito. Num tempo tão despossuído de si mesmo, é natural que já nem haja consciência da tragédia que por todo o lado nos envolve como o ar que respiramos. E essa inconsciência, essa ignorância, essa irresponsabilidade são o mais trágico do trágico.

O tempo sabe mais de nós do que nós sabemos do tempo. E o que ele sabe de nós diz-nos que os próximos anos vão ser terríveis: de incerteza, de insegurança, de perigo, de medo, de ansiedade. Aqueles que, ainda há pouco, se vestiam de um optimismo triunfante e calculista cobrem-se agora de um pessimismo cobarde e assustado. Sabemos que, como é costume, quem vai sofrer mais são os mais inocentes, aqueles que têm menos culpas. Sabemos que os autores do desastre são os que estão a recato dele e dos seus horrores, sem consciência, sem vergonha, sem compaixão - e com dinheiro inesgotável.

Sabemos que a vida será um alfabeto de dor, com o qual escreveremos o texto da mudança. Sabemos que voltaremos a passar por essa “confusão cruel e inútil” de, que um dia falava George Steiner falando da História. Quando esteve em Lisboa, da última vez, o autor de “Errata” disse, sobre o que se estava a passar, palavras de que ninguém quis ouvir nem o som, nem o sentido. Ele afirmou: “Espanta-me que os pobres não se revoltem...”

E acrescentou que estranhava, quando todas as manhãs abria o jornal, não ver lá escrito que “tinham assassinado um daqueles empresários que encerram fábricas e depois se metem nos seus jactos privados para ir passar férias a Barbados”. Steiner ecoa neste seu comentário violento o antigo clamor dos profetas judeus do Antigo Testamento, que faziam da cólera uma ameaça e só depois um presságio.

Hoje, o vento mudou e tudo muda com ele. Lemos os jornais de todo o mundo e percebemos que cada jornalista passou a ser, mesmo sem o saber ou sem o querer, um São João que, nos seus vaticínios, promete um Apocalipse que não surgirá, como o outro, no fim dos tempos: este apocalipse é iminente, instantâneo, vertiginoso. Virá amanhã, logo à tarde, agora mesmo.

Mas, com à inconstância de tudo, não é impossível que um dia destes se anuncie o regresso ao Génesis primordial, onde do caos se gerará a luz e, sob ela, se criará de novo o mundo"


José Manuel Santos – in Suplemento “Actual” – Jornal “Expresso” de 8.11.08

segunda-feira, novembro 10, 2008

Sim, podemos!...

Que o gesto seja faúlha na bigorna
E prenúncio da batalha
Por agora...

E o canto clamor dos homens
Larva ainda...

Que o surdo rumor do Mundo e os dias
Sejam a inquietante superação das horas
Na esperança breve das coisas
Que colhemos...

E a dissonante música seja eco na anca dos escravos
E os punhos sejam tela no olhar
Dos timoratos...

E que o Tempo germine
E que os sonhos tenham asas...

E então. Sim...
Podemos!...

sexta-feira, novembro 07, 2008

SEARA NOVA ...




Editorial - Portugal e a crise...

“A crise financeira no coração do sistema capitalista mundial é o mais marcante acontecimento do momento presente. A enorme injecção de dinheiros dos contribuintes norte-americanos na Wall Street, as falências de grandes bancos e outras instituições de crédito que já se verificaram nos EUA, as falências e ameaças de outras que ocorrem nalguns países europeus, as “nacionalizações” de emergência contrariando todos os dogmas neoliberais que os respectivos governos defendiam, o “aqui d' el rei” dos grandes da UE, são tímidas expressões da dimensão de tal crise.

É incontestável que a crise que se desenvolve no sistema capitalista tem a sua principal manifestação na esfera financeira, mediante a financeirização da vida económica nesta sua fase da globalização. Mas é ingenuidade situar a crise apenas no sistema financeiro ou atribuir a sua origem à ineficácia dos instrumentos de regulação ou à ganância do capital financeiro. Sem dúvida que aqueles falharam rotundamente e que é chocante ver as fortunas pessoais fabulosas que alguns gestores acumularam ou os elevados lucros especulativos do capital financeiro, umas e outros frequentemente a coberto de fraudes contabilísticas.

As crises capitalistas têm quase sempre a sua primeira manifestação na esfera financeira. Mas se agora olharmos não apenas a realidade superficial, descortinamos que se vem acentuando uma típica crise de superprodução, em que os mecanismos da reprodução capitalista foram alimentados por um artificial crescimento do mercado, principalmente através de uma desmedida e especulativa expansão do crédito.

Que dimensão vai atingir esta crise? Será que as anunciadas injecções de dinheiros públicos nas instituições de crédito privadas serão suficientes para normalizar o sistema financeiro mundial e os dos países mais afectados? Que áreas geográficas serão mais atingidas, quando a Europa parece estar apenas na primeira fase de contaminação e as designadas potências emergentes parecem menos contaminadas?

Num mundo tão globalizado como o actual, a regulação do sistema económico e financeiro, ainda que não ultrapassando contradições, o carácter autofágico ou a enormidade da exploração social de tal sistema, torna-se uma necessidade. A presente crise, especialmente pela sua vertente financeira, evidencia o carácter de tal exigência n
plano global. Será que os países poderosos estão disponíveis para a busca de soluções democráticas que envolvam toda a comunidade internacional? Vem-nos à memória as opções negativas do FMI, do Banco Mundial ou dessa instituição tecnocrática e ultra liberal que é o BCE ... Mas é certo que a mesma comunidade internacional foi capaz de criar a FAO, a OIT, a UNESCO...

E em Portugal?
(...)
Estas dificuldades, que atingem também as classes médias, recaem em especial sobre os trabalhadores e reformados, com os respectivos rendimentos reais médios a baixar e com aumento das situações de insegurança (desemprego, emprego precário, insuficiência dos cuidados de saúde ou da acção social pública, insegurança civil).
(...)
Na política social e nos campos económico e cultural são frustrantes os resultados da governação dos três últimos anos. Quão distantes se encontram as promessas da campanha eleitoral da realidade nos dias de hoje! O aparelho de Estado continua a revelar-se burocrático, pesado e em muitas áreas de escassa eficácia. Temos um país cuja estratégia é imposta pelo neoliberalismo dominante, a qual é responsável pela crescente perda de esperança do povo.

Se a alienação da consciência colectiva tão firmemente estimulada pelos poderes e pela maioria da comunicação social pode conduzir a uma diminuição das defesas perante comportamentos que agridem a democracia, o murmúrio de contestação às injustiças sociais e a resposta laboral firme às agressões dos poderes político e económico são os factores principais que poderão contribuir para a mudança de políticas que permitam melhor defender Portugal perante a crise mundial que se adivinha ainda longe do fim.

Não se subestima que, quaisquer que sejam as opções e as orientações, nunca será fácil vencer as enormes dificuldades que o país atravessa. Não só a crise europeia e mundial é forte condicionante das políticas portuguesas. Também a subordinação à UE, a política neoliberal e anti-social que esta prossegue, o leque de problemas que o alargamento a 27 criou, a dependência do euro, são questões que limitam a busca de caminhos para uma evolução mais favorável de Portugal.

Seja como for, só um alargado consenso social e político em torno da política nacional, do qual os trabalhadores não podem ser arredados, propiciará condições para o renascer da confiança e da esperança. O optimismo não renascerá de palavras de circunstância. Advirá de um conjunto de orientações compatíveis com a matriz constitucional. É tempo de dizer: não agridam mais a Constituição da República”
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