terça-feira, setembro 30, 2008

Palavras Outras...



1.“Os fiéis do Deus-mercado parecem ter descoberto de repente as virtudes do Estado Social, devidamente adaptado aos valores da religião do lucro a qualquer preço, e que, em vez de apoiar os pobres, subsidia os ricos. Já tem um Papa. Chama-se Henry Paulson e cabe-lhe a duvidosa glória de ser um dos inventores do capitalismo de casino que agora bateu no fundo provocando a crise financeira que abala a Terra Prometida e arredores. Depois de 30 anos de especulador na Wall Street, Paulson chegou a Secretário do Tesouro e é dele a feliz ideia de pagar com 700 mil milhões dos contribuintes as dívidas e “activos tóxicos” acumulados por empresas falidas, acrescidos de “compensações” milionárias aos gestores que as levaram à falência, assim salvando fortunas como a sua, calculada em 500 milhões de dólares, a maior parte em acções da também falida Goldman Sachs. No Estado Providência neoliberal, quem paga quer as crises quer as soluções das crises do mercado são sempre os contribuintes. Lá como cá, chamam eles a isso (meter os lucros ao bolso e cobrar ao Estado as perdas) “auto-regulação” do mercado”.
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2.“Descubro pelos jornais o que, com boas e históricas razões, já sabia: sou eu (isto é, você, leitor) quem vai pagar os milhares de milhões de dólares de dívidas que levaram o banco Lellman Brothers (LB) à falência. A acrescer à factura que já nos estava (a mim e a si, leitor) a ser cobrada pelo também americano colapso do crédito hipotecário de alto risco (“subprime”, dizem eles) e às que iremos pagar a seguir pela cascata de falências financeiras que, depois dado LB, aí virão. A beleza do capitalismo especulativo na sua versão selvagem e neoliberal é que, quando um especulador global espirra, nós, os mal agasalhados, apanhamos uma pneumonia. E quando, como eles também dizem, “a economia real arrefece” nós é que tiritamos de frio. Parafraseando o Papa, “o amor (deles) ao dinheiro é a raiz de todos os (nossos) males”. Fosse eu dado a coisas “new age” e veria nesta tumultuosa espécie de neo-Grande Depressão uma mão astral. Não é que, algures além-túmulo (e, pelos vistos, aquém-túmulo) os maléficos utopistas Marx e Engels estão nesta altura a comemorar os 160 anos do Manifesto Comunista?”



Manuel António Pina - in "Por Outras Palavras" - Jornal de Notícias

sexta-feira, setembro 26, 2008

No outro lado do poema...

no outro lado do poema
aí onde a luz colapsa de tão negra
lá onde a palavra brota como lume no seixo
e o nada se faz fogo
inscrevo o nome das coisas...

e na luminosa obscuridade das palavras
e na tatuagem dos dias
e no estilete de bronze
que os deuses em seu desenfado
por vezes emprestam aos mortais
(re)escrevo as dores de meus pensamentos
resguardados da obscena exposição
de martírios, alegrias e de enganos...

e soletro em bebedeira de sentidos todos os rumores
e partilho o poema-outro
o que vem de fora
e de tão íntimo
se mistura no sangue cúmplice
e de tão grave se funde no desejo transgressor
em que vou

ardendo...

terça-feira, setembro 23, 2008

Até quando?...


Como se sabe, a farra especulativa da Wall Street e de outras capitais da finança provocou uma formidável crise financeira mundial, da qual, dizem os entendidos, ainda não saímos. As notícias, que tombam em tropel, dão-nos conta que, ao longo das últimas semanas, a AIG, a maior companhia seguradora do mundo, com um milhão de milhões de dólares em activos, esteve a poucos horas da bancarrota. Antes, fora a Lehman Brothers, um prestigiado banco de investimento com 158 anos de idade, com 639 mil milhões de dólares em activos e 613 mil milhões de dólares em dívidas, que caiu na maior bancarrota da história dos Estados Unidos. A Merrill Lynch, outro pilar dos bancos de investimento com mais um milhão de milhões de dólares em activos, conseguiu evitar a bancarrota, depois de ser engolido pelo Bank of América

Quando a crise da bancarrota estava na sua fase mais aguda, as autoridades bancárias dos Estados Unidos defenderam que teriam de ser os banqueiros a resolver o problema. Entretanto, dando o dito pelo não dito, o governo dos EUA providenciou mais 85 mil milhões de dólares para salvamento dos bancos. É um sinal de crise e de fraqueza do liberalismo reinante. Outros dizem, a vingança de Keynes e da intervenção do Estado...

Mas enquanto a crise dos banqueiros produziu títulos sensacionais nas televisões e na imprensa mundial, com relatos dramáticos da agonia de um punhado de milionários e bilionários na Wall Street, os média do pensamento único deixaram de lado o drama real dos arrestos e despedimentos que afectam as vidas de milhões de trabalhadores. Centenas de milhares de milhões de dólares do Estado estão a ser repartidos pelos banqueiros por efeito de uma crise, que a sua ganância predadora provocou. Mas nenhum alívio, ou apoio financeiro, foi assegurado para as vítimas da indústria hipotecária da banca e dos seguros...

Nesta perspectiva, não deixa de ser significativo, que os media que choram sobre as agruras dos banqueiros ignore simplesmente um estudo recente intitulado “Estado do sonho: arrestado” (State of the Dream: Foreclosed), o qual demonstra que a crise dos arrestos nos Estados Unidos está a provocar a maior destruição de riqueza pessoal na história das comunidades afro-americanas e latinas.

Segundo o estudo, os mutuários afro-americanos perderam entre 71 e 92 mil milhões de dólares devido aos empréstimos contraídos ao longo dos últimos oito anos. Para a população latina é ainda mais elevado o valor das perdas que atinge valores na ordem entre os 75 e os 98 mil milhões de dólares.

Mas tão ou mais desastrosa que a crise financeira é a crescente crise da economia real. No meio da crise do crédito, foi anunciado que a produção industrial – a base do emprego e do rendimento das famílias – em Agosto caiu, nos Estados Unidos, o máximo dos últimos três anos. Houve uma diminuição de 1,1 por cento na produção das fábricas, das minas e serviços públicos. A produção automóvel caiu 12 por cento, a maior queda numa década. Mais de dois milhões de pessoas foram condenadas ao desemprego nos últimos 12 meses, elevando o total oficial para 9,4 milhões de desempregados.

Assim, por muito que os “sábios encartados” ao serviço do capitalismo global declarem não haver recessão, o contínuo crescimento do desemprego e o declínio da produção, sem consideração por quaisquer dos chamados “estímulos económicos”, demonstra exactamente o contrário...
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Entretanto, por cá, o Eng.º Sócrates clama, em comício político em terras de Guimarães, que nunca, em tempo algum “permitirá que o valor das pensões dos portugueses seja jogado na bolsa e entregue aos caprichos dos mercados financeiros...” . Leio que foi muito aplaudido, nesta passagem. Pudera!... Até eu, que não sou socialista, nem voto em Sócrates, aplaudiria sem rebuço...

Mas com o Eng.º Sócrates nunca fiando! É que, como qualquer (in)crédulo cidadão poderá verificar numa mera consulta a net, ao sitio da Segurança Social, 20,67% das reservas do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, ou sejam, mais 1.562 milhões de euros estão aplicados em acções, sujeitas às flutuações dos mercados financeiros e entregues “aos caprichos” do jogo da bolsa, exactamente o oposto do que o Engº Sócrates jura que não irá permitir...

Quem andará a enganar o Engº Sócrates? Ou, colocando a questão de outro modo – quem pretende enganar o Engº Sócrates?!... É que, como muitos se lembrarão, o seu Secretário de Estado da Segurança Social, ainda recentemente, anunciou que iria colocar mais de 600 milhões de euros na “gestão privada”... Esperemos que, entretanto, não tenham “voado” na gestão “parcimoniosa” do BCP ou de qualquer Lehman Brothers, entretanto falido...

Porque se assim foi, já foram...



ver O colapso capitalista

sexta-feira, setembro 19, 2008

Tecendo as cores...

Nada.

Apenas o Poeta na paisagem
E a majestosa gralha
Cuidando as penas depois da chuva.
Breve...

E o caprichoso melro circular
Em voo trinado
Assediando a árvore
E o sol ligeiro.

(Por certo o beijo...)

Apenas o melro e a gralha...
No céu...

E o anjo negro cavalgando a nuvem.

Assim eu descendo na asa do milagre
Sem outra grandeza ou glória
Ou outro instante de lume...

Apenas
A repentina gralha
E o voo do pássaro
Ou a neutra rosa
Afadigando-se em ser...

Talvez apenas o Poeta
Tecendo as cores da árvore
Na gravura da paisagem...


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Bom fim de semana! Até breve...

Beijos e Abraços

quarta-feira, setembro 17, 2008

“Um despautério..."

Está em discussão no Parlamento a proposta de lei de alteração da legislação laboral. Como se sabe, as linhas gerais da proposta de lei foram aprovadas em sede da concertação social, com a veemente oposição da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), mas com os votos do Governo e do patronato e a solícita aquiescência da UGT...

A nova legislação de trabalho, a entrar em vigor, constituirá um enorme retrocesso social, a que nenhuma pessoa ou instituição democrática, poderão deixar de dar-lhe empenhado combate. De facto, a legislação que se anuncia, vem postergar um princípio juridico o príncipio da igualdade, que se traduz, não em um qualquer igualitarismo sem sentido, mas em “tratar o igual como igual e o diferente como diferente, na exacta medida da sua diferença...”. Porque - importa acentuar - as leis nunca são neutras...

Como se recordou noutra ocasião, o(s) menino(s) de oiro e a esquerda, o poder social do senhor Belmiro de Azevedo, é infinitamente maior do que o de um(a) qualquer jovem, com contrato a prazo e salário de miséria, nas caixas registadoras de um dos seus supermercados...

Quando a nova legislação de trabalho se propõe facilitar os despedimentos individuais e dificultar a reintegração dos trabalhadores despedidos ilegalmente, sem que se conheçam sequer os meios processuais de impugnação do despedimento, é colocar todos os pesos da justiça no prato da balança do patronato. Isto é, tais propostas vêm subverter o equilíbrio das relações laborais e instituir a iniquidade e arbítrio do patronato...

A afirmação não é minha, embora com ela concordando integralmente. Socorro-me, nesta emergência, da opinião de juristas eminentes, de diversos quadrantes políticos e especialistas em matéria de direito de trabalho, em encontro de discussão pública, realizado, numa sala do Parlamento, promovido pela Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP).

É verdade que nova proposta legislação mantém a impossibilidade de despedimento sem justa causa e não alterou este conceito, como o patronato se bateu, pretendendo introduzir a inadaptibilidade do trabalhador, com fundamento de despedimento. Mas se isto é verdade, a nova legislação propõe-se alterar o procedimento de despedimento, que aumenta o risco de despedimento ilícito, sem posterior possibilidade de reintegração dos trabalhadores visados.

Basicamente, o novo Código do Trabalho visa diminuir, quando não acabar, com do processo disciplinar, prévio à decisão de despedimento. Na nova perspectiva, deixará de estar consagrada a obrigatoriedade das diligências instrutórias pedidas pelo trabalhador, cabendo apenas ao empregador decidir se haverá ou não de instrução do processo disciplinar. A prova passará para o tribunal, cabendo ao empregador o ónus da prova da justa causa invocada. A razão da alteração é uma alegada intenção do governo de desburocratizar o processo...

Porém, sustentam os juristas, o processo disciplinar não pode ser um “ritual farisaico” - é o principio constitucional do direito ao contraditório que esta em causa -, pelo que não pode ser assim ser desvalorizado, em nome de uma celeridade iníqua. Acresce, como também foi lembrado, que a suspensão do despedimento, no âmbito do processo, apenas pode ocorrer por iniciativa do empregador, o que “inviabiliza na prática a possibilidade de suspensão” de despedimento em causa.

Por outro lado, o trabalhador deixou de ter o prazo de um ano para requerer a impugnação do despedimento, que passou apenas para 60 dias. Excessivamente curto, dizem os juristas, tanto mais que nesse prazo de 60 dias se inclui o período de mediação laboral, que a lei impõe, caso o trabalhador pretenda ficar isento de custas judiciais...

A tudo isto há a juntar a morosidade do julgamento (há processos que duram anos), pelo que o mais que certo é que um despedimento ilícito não se resolva na reintegração do trabalhador lesado; tanto mais que uma inovação de duvidosa constitucionalidade permite ao empregador opor-se à reintegração, pagando o dobro da indemnização devida.

Nesta breve síntese de malfeitorias importa ainda referir que, com a nova lei de trabalho, é alargado o período experimental, que passa de 90 para 180 dias, em que cada uma das partes pode rescindir contrato sem aviso prévio. Este alargamento do período experimental constituiu uma exigência patronal, introduzida à revelia da comissão que elaborou o livro branco das relações laborais, o qual esteve na base da discussão na concertação social.

Assim, se o novo Código do Trabalho for aprovado, um trabalhador pode ser despedido ao fim de seis meses, sem receber qualquer indemnização. Como se compreende, o empregador nem precisará, portanto, de lançar mão do expediente dos contratos a prazo, pois pode prosseguir os mesmos objectivos, pagando menos encargos sociais e ficando com as mãos livres para despedir livremente.

Nesta matéria específica, choca particularmente a “marca” política que lhe está na génese. Ou seja, trata-se de uma “contrapartida” ao patronato pelas penalizações nas contribuições sociais dos contratos a prazo (de 23,75 para 26,75 por cento), que irão beneficiar dos descontos, mantendo no entanto a precariedade no período experimental alargado.

E como, curiosamente, não são as alteradas normas do contrato a termo, nem sequer nos contratos de curto prazo, em breve teremos o Engº Sócrates a anunciar, ufano, nas televisões, a diminuição dos contratos a prazo, escamoteando a realidade de aumento da precariedade do trabalho, por força do alargamento de prazo do período experimental, bem mais favorável ao patronato.

“Um despautério” lhe ouvi chamar... Uns trampolineiros políticos, apetece acrescentar...

domingo, setembro 14, 2008

Solidariedade com a Bolívia...

Parecem muito claras as motivações da instabilidade política e dos atentados que presentemente assolam a Bolívia.

A elite económica e os políticos de direita, que predominam nas cinco províncias orientais, não aceitam que o governo legítimo do País pretenda controlar a economia e redistribuir o rendimento nacional a favor dos mais pobres, extinguindo privilégios e que, ao mesmo tempo, devolva a cidadania ao Povo, conferindo gradualmente autonomia às comunidades indígenas, exploradas e marginalizadas em 183 anos de história.

Acresce que, embora num quadro de economia mista, Morales tem promovido uma política de intervenção económica, socializando actividades e sectores económicos considerados mal geridos ou geridos contra o interesse nacional. Esta política, naturalmente, tem resistências nas classes abastadas bolivianas.

Por outro lado, a etnia índia do Presidente Evo Morales causa engulhos na minoria branca e europeizada, até agora com o monopólio da actividade política, aliás dominada por regimes antidemocráticos e o esbulho da riqueza nacional. Expressões como “macaco”, índio infeliz” e “índio porco”, usadas pelos governadores da oposição para agredir Morales, são bem reveladoras das boas maneiras, cultivadas pelas elites bolivianas. E, no entanto, a minoria branca não ultrapassa 15% da população, sendo que 60% e constituída é constituída por índios quechúa e aymara.

Segundo o FMI, quando Morales foi eleito, em Dezembro de 2005, a Bolívia era o país mais pobre da América do Sul, com 60% dos seus 9 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza e 38% em extrema pobreza; o desemprego atingia os 12%, com 40% de sub-empregados e o rendimento dos indígenas 40% inferior a dos não indígenas.

Entretanto, nos dois anos e meio de governo Morales, este quadro começou a mudar. O Governo boliviano tem aumentado as receitas do Estado, revendo os acordos de exportação de gás e petróleo com o Brasil e a Argentina, desvantajosos ao país e estabelecendo o controle estatal sobre a exploração dessas riquezas. A Bolívia passou a deter 85% dos lucros e suas exportações dobraram de 2005 para 2006, chegando a 4,9 mil milhões de dólares...

Para estimular a industrialização e reduzir o desemprego, concedeu, através concurso, a exploração da mina de Mutun à empresa siderúrgica indiana, com proposta de investir 1,5 mil milhões de dólares e mais 2,5 mil milhões em 8 anos. Por outro lado, foi celebrado um acordo económico com o Irão que prevê o investimento de 230 milhões de dólares na instalação de uma fábrica de cimento e mais 1,1 mil milhões em energia, agricultura e indústria alimentícia. Com o Irão, imaginem!...

Na área social, Evo Morales anunciou uma reforma agrária, propondo-se a expropriação de 14 mil hectares de terras, a maioria não cultivada. Foram, por outro lado, feitos substanciais investimentos na Educação e parte das receitas provenientes da venda de gás natural reservadas à melhoria da situação social dos mais pobres, em particular, os idosos pobres.

Para consolidar as reformas necessárias, é necessária, no entanto, uma nova Constituição. Aprovada pelo Congresso, com abstenção da direita, não foi aceite, porém, pelos governadores insurrectos. Exigem mais autonomia – o controle da distribuição dos recursos dos hidrocarbonetos produzidos localmente (82% do gás do país),o fim das pensões financiadas com parte dos rendimentos do gás e rejeitam “in limine” a nova Constituição.

O governo de Morales e seus adversários concordaram com a realização de um referendo revogatório, no qual o povo poderia manter ou afastar o presidente, governadores de departamentos e perfeitos das províncias. O resultado foi favorável ao governo central. Morales obteve 67% dos votos a favor e venceu em 95% das 112 províncias. O apoio popular a Morales é indiscutível. A direita, no entanto, continua em pé de guerra. Claro que semelhantes resultados não agradam ao “império”. Manifestamente, a Bolívia inclina-se para o “eixo do mal”...

As manifestações se intensificaram, numa escalada de violência que chega ao bloqueio de estradas para impedir a chegada de alimentos às cidades, incêndio de edifícios de instituições do governo central – destruição de documentos públicos, ataques a aeroportos, estações de comboios, locais de reuniões de indígenas e, por fim, explosões de gasodutos e cortes no envio de gás para o Brasil –, visando paralisar as exportações. Como é evidente, tendo em vista provocar o caos e criar um ambiente propício para um golpe de Estado.

Assim vai a Bolívia... Semelhante “espectáculo” já foi visto, infelizmente, noutros locais do Mundo. No Chile, por exemplo. São, no entanto, outros os tempos. A solidariedade dos povos sul-americanos funciona. A Bolívia vencerá...

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ver Luiz Eça

quarta-feira, setembro 10, 2008

Variações sobre Magritte...



encruzilhada de todos os caminhos (geometria de almas)
vieste com tua irmã - as duas de tempo vendado
como amantes sem rosto celebrando Magritte...

estilhaço os vidros para que a paisagem
ocupe todo o espaço de meu corpo anjo negro de mim
suspenso na ponte dos dias e da memória...

perdura o abandono dos dedos soltando a brisa
e o feitiço da lua sobre a copa dos pinheiros
na serenidade do corpo distendido...

multidão esvoaçante sobre os telhados (subtil a luz doirada)

veneração pura na magia negra do ventre em triângulo de cor no vértice dos seios perfumados de azul...

soberba luz faminta no olhar da fera (indiferente ao drama)
apenas vida na espera - fogo consentido da fêmea ao longe adivinhada...

domingo, setembro 07, 2008

Pink Floyd - Money

money is the gas...

Cynthia McKinney (USA) - Uma candidatura alternativa...

Cynthia McKinney, uma corajosa ex-congressista negra eleita pelo Estado da Geórgia, tornou-se numa das mais importantes activistas e líderes da esquerda norte-americana e dos movimentos progressistas no país. A sua militância contra a guerra no Iraque, pela destituição do presidente George W. Bush, em defesa das vítimas do furacão Katrina e na denúncia do papel do governo no desalojamento de milhares de pessoas, valeu-lhe o rótulo de “demasiado negra e radical” para passear nos corredores do Congresso.

Por esse motivo, foi expulsa não uma, mas duas vezes pela direcção do Partido Democrata, o qual, tal como o congénere Republicano, é um partido do imperialismo. O ano passado, McKinney cortou definitivamente os laços com os Democratas.

A 12 de Julho último, McKinney e a activista de origem latina Rosa Clemente, foram escolhidas pelo Partido Ecologista para se candidatarem à presidência e vice-presidência dos EUA, respectivamente. A nomeação por parte dos ecologistas coloca McKinney nas assembleias de voto de 20 Estados. Isto não é coisa pouca num país onde a classe dominante montou um sistema que levanta enormes obstáculos ao surgimento de argumentos eleitorais independentes e alternativos aos dos dois maiores partidos.

A campanha protagonizada por Cynthia McKinney vai buscar grande parte das suas propostas ao programa provisório do ainda embrionário Partido da Reconstrução, formado por activistas de Nova Orleães e do Golfo do México, os quais, junto com grupos de todo o país, exigem justiça para os sobreviventes do Katrina e a reconstrução das regiões da Costa Sudeste da América do Norte.

O programa reivindica, entre outras coisas: igualdade de direitos para os negros norte-americanos; realojamento dos deslocados do Katrina; políticas eficazes de emprego, saúde e habitação; fim da política racista e da repressão policial; fim do complexo militar-industrial; retirada imediata do Iraque.

McKinney declarou-se igualmente contrária à ocupação do Afeganistão e a qualquer envolvimento dos EUA num ataque ao Irão, e expressou claramente a sua solidariedade para com a luta do povo palestiniano. Quanto às questões envolvendo o Zimbabué e o Darfur, a candidata pôs a nu os contornos reaccionários da intervenção de Washington no continente africano.

A Campanha de Cynthia McKinney vai enfrentar grandes dificuldades na medida em que esta eleição presidencial apresenta aspectos que a diferenciam das antecedentes. Barack Obama é o primeiro negro a ser nomeado candidato por um partido do sistema, e, assim, pode mesmo vir a ser o primeiro presidente negro dos EUA. Muitos estão compreensivelmente entusiasmados com a hipótese, particularmente os afro-americanos. Independentemente do quanto Obama se possa a aproximar das posições da direita conservadora, certo é que os eleitores negros se vão mobilizar procurando concretizar uma esperança que a maioria julgava impensável há apenas um ano atrás.

Para além dos eleitores negros, muitos votarão em Obama por razões, que consideradas no contexto histórico norte-americano, são progressistas. Muitos outros não vão votar em Obama pelo inverso, ou seja, porque o seu nome induz que o candidato é muçulmano, ou simplesmente porque é negro. Raça, ou o que muitos de nós chamamos de “questão nacional”, joga nas eleições deste ano um papel central.

A possibilidade de triunfo de Obama pode ainda ser um sinal de que o período político dominado pela reacção ultra-conservadora, que provocou fortes recuos entre a classe trabalhadora e enfraqueceu o movimento revolucionário, está a chegar ao fim.

Acresce um lado negativo a estes desenvolvimentos contraditórios. Caso Obama venha a ser eleito, o que é ainda de todo incerto, a classe dominante nos EUA terá um político negro que os pode ajudar a salvar o conturbado império. Uma administração com Obama como face de um Estado imperialista pouco ou nada muda no fundamental da questão, mas enquanto mistificação assinala toda uma nova situação.

Independentemente de quem venha a ganhar as eleições, a magnitude da crise mundial do imperialismo, centrada nos EUA, vai desafiar todas as forças que partilham uma orientação socialista, anti-imperialista e comprometida com as classes trabalhadoras. As condições materiais para o ressurgimento do movimento operário e da luta dos trabalhadores nos EUA pode em breve atingir níveis próximos dos registados na década de 30.

A luta não pode ficar confinada à arena eleitoral, especialmente quando os capitalistas dominam inteiramente esse processo. A campanha de McKinney lança as bases para uma aliança radical entre latinos, negros, asiáticos, nativos americanos, sindicalistas e progressistas, imigrantes e sectores afectos à luta pelo socialismo e apresenta um enorme potencial de crescimento. Pode ajudar a trazer para as ruas uma linha política de luta de massas”


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Larry Holmes é colaborador do jornal norte-americano Workers World e da revista Seara Nova, podendo conhecer-se um artigo do autor, sobre este tema, no nº1704 - Verão 2008.

quinta-feira, setembro 04, 2008

“Não há festa como esta!...”

A Festa do Avante, promovida pelo jornal do Partido Comunista Português, celebra-se, anualmente, na Quinta da Atalaia, no Seixal, com a participação de milhares e milhares de pessoas, de todas as idades e condições sociais, vindas de todos os cantos do país (e muitas do estrangeiro) para três dias de encontro e confraternização.

“Não há festa como esta” dizem, com razão, os seus promotores e militantes. E não apenas pelos seus eventos culturais (com o melhor que se produz no domínio da música – para todos os gostos - das artes plásticas ou da literatura), ou por esse mosaico de gostos e paladares que são a culinária e os vinhos nacionais, ou pela multifacetada expressão do artesanato regional, ou pelos exaltantes momentos de participação política.

Claro que haverá sempre diversos olhares sobre a Festa. É natural que haja. Apenas a engrandecem aqueles que por preconceito, ou por função e missão, dela desdenham. Mas para quem, com olhar límpido, quiser ver não poderá ignorar o imenso sortilégio que a Festa do Avante exerce sobre quem a frequenta, independentemente, das opiniões políticas.

E é caso para nos interrogarmos sobre as razões de semelhante sucesso, numa sociedade eivada de um anticomunismo larvar, permanentemente instigado pelos aparelhos de dominação ideológica – na comunicação social, nos modelos de sociais, nos padrões de consumo, na política, na profusão das imagens que encharcam o nosso quotidiano.

Porque razão o “efeito” Festa do Avante excede o horizonte da mera militância política e seduz tanta gente? Digam-me. Tenho, porém, claro que a Festa do Avante é antítese perfeita da chamada “sociedade do espectáculo”, em que andamos mergulhados. Dai as razões do seu sucesso...

Deixem que tente explicar-me. Como sustenta Guy Debord, as modernas condições de produção apresentam-se como uma imensa acumulação de espectáculos, onde “tudo o que até então era directamente vivido se afastou numa representação”.

Assim, o espectáculo será, no dizer deste autor, “ao mesmo tempo o resultado e o projecto do modo de produção existente”. Sob todas as suas formas particulares - informação ou propaganda, publicidade ou consumo, ou divertimentos - o espectáculo constitui o modelo da vida socialmente dominante, numa “afirmação omnipresente da escolha já feita na produção e no consumo”.

Forma e conteúdo do espectáculo são, assim, a justificação total das condições e dos fins do sistema de produção existente. Numa frase lapidar, “o espectáculo será o discurso ininterrupto que a ordem dominante faz sobre si própria, ou seja, o seu monólogo elogioso”, .

O processo de alienação será permanente: quanto mais o espectador contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. “A exterioridade do espectáculo em relação ao homem concreto revela-se nisto - os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta”.

Pois bem, a Festa do Avante escapa a tal lógica. A Festa do Avante pertence literalmente dos seus construtores. É trabalho voluntário que ergue os seus pilares. Trabalho livre, sem salário. Com o tempo e a forma que cada um escolha, motivado apenas pelo desejo de “fazer” a festa. Trabalho desalienado, portanto. Que subverte do sistema de produção dominante, pois é demonstração prática (precária que seja) de que outro modo de produção é possível.

Por outro lado, a Festa do Avante pode ser usufruída sem mediação, nem filtros, por todos aqueles que nela participem. O espectáculo, (que Festa do Avante também é) e as imagens que projecta na sociedade portuguesa e, em especial, em que têm o privilégio de nela participar e compreender, correspondem à vivência real dos homens concretos, como “discurso” alternativo à ordem social alienante.

Por momentos, nos três dias da festa, será a libertação do Desejo e do Sonho, (“de focinho pontiagudo”), sondando os dias do Futuro. E a vida real de milhares pessoas, alargando o horizonte da consciência social de cada um e o caudal da consciência colectiva de que é possível uma vida melhor.

Gosto, sim, da Festa do Avante. Muito. Como paradigma de uma sociedade diferente. Mais justa, solidária e fraterna. Como lampejo da Utopia, que as mãos, a luta e o suor dos homens, libertos das contingências de modo de produção dominante, um dia poderão erguer...