quinta-feira, julho 31, 2008

intelectuais com H grande...

ah, como eu gosto dos intelectuais com "H" grande
vindos directamente de Alcácer-Quibir
de olhos cansados de todas as causas!

na aguardente rasca (porra, o whisky está caro!)
emborcam absintos e river gauche
desempregados de todos os empregos
e famintos ferozes de todas as ideias (que lhes escapam...)

oh, Baudelaire! oh, fatal mal de vivre
decadentistas de rabo coçado
piscando a remela de águas furtadas (in)imaginadas
sobre o Sena...

oh, dor de donzelas purinhas arrependidas!
oh, caprichosa sorte do euromilhões que não chega!
oh, mazelas da pátria moribunda sempre adiada!
oh, monte carlo (que deus haja!) oh majestic!
oh, benfica que não ganha!

esta música cheira-me demodé (eheheh)
(im)potências de esguicho mal amado
anos 60 lobrigados de cacilhas
esterilidade de revoluções a metro
tigres de papel vendidos na feira da ladra!

não me lixem (com F grande). desistam!...
ou façam um blog político. (de preferência)

ou vão carpir mágoas para S. Bento como deputados...

terça-feira, julho 29, 2008

Uma pequena vingança...

Meu amigo Zeca, alentejano de Beja, era entroncado e moreno, de barba espessa e bem cuidada, de lábia pronta e ligeiro sotaque. Um desatino no engate, como já dei a conhecer. Quando jovens, eu vegetava à sua sombra, em contraste com ele, magricela e desengonçado. Calhava por vezes, que amiga tem amiga, sair sozinha dava então mau aspecto, de forma que sempre eu ia facturando uma namorada ou outra, à pala do meu amigo Zeca. Como pendura, está bem de ver...

Conhecemos na Praça da República, em Coimbra, em noites de fantasias várias, nos idos de sessenta. Em Lisboa, onde por razões idênticas, concluímos a licenciatura, aprofundámos a nossa amizade. O Zeca nunca casou, como sabem. Em verdade, receio que as únicas mulheres que verdadeiramente amou fossem a mãe e a irmã, pelas quais nutria desvelos comoventes.

E as restantes mulheres?! Bem, as restantes ou eram, foram ou para lá caminhavam... Não me perguntem para onde, que não me atrevo à curta palavra que o Zeca, sem rebuço, lhes chamava. Quando, em grupo famélico de lobos sem freio, alguém do nosso grupo comentava os hábitos mais ou menos “liberais” desta ou daquela, era certo e sabido que o Zeca desbocava: - “que Deus a faça cada vez mais e que a mim toque alguma coisa” – gargalhava.

Um predador este Zeca. Mas de uma generosidade espantosa e amizade à prova de bala!...

Quis o destino que uma tarde de Junho, já em Lisboa, em plena Feira do Livro, o Zeca embicasse com duas desprevenidas gazelas, que de stand em stand se bamboleavam...

- “Vamos àquelas!...” - atirou-me, felino em plena caçada. E meu dito, meu feito: passados minutos estávamos os quatro a comer pastéis de nata na esplanada do Parque Eduardo VII.

Eram a Diana e a Andreia, nomes fictícios, como calculam, pois à época ainda não haviam “dianas”, nem muito menos “andreias”, com que modismos posteriores vieram colorir o arco-íris dos nomes femininos. Naquele tempo, as mulheres eram todas santinhas, quer dizer, ostentavam, quase todas, gloriosos nomes de santas e mártires. Mas que importa agora o nome? Assentemos, portanto, que se chamavam Diana e Andreia...

Durante umas semanas, saímos os quatro. Umas matinées de cinema, umas idas à Sanzala, no Campo Grande, para umas tardes de calor tropical, umas saídas para a praia, etc. ... Enfim, todo o percurso de um engate “à maneira”. Com o Zeca como maestro, está claro. A determinada altura, porém, as coisas entre Andreia e o Zeca deixaram de funcionar, enquanto eu estava todo filado na Diana...

Habitava eu, então, o apartamento de um militar em comissão de serviço, em Africa, que a troco do pagamento da renda, consentira que o irmão e uns amigos (nos quais me incluía) ocupassem o apartamento. Uma pechincha e um luxo. Havia mobília, cozinha, tv e gira disco e até uma pequena biblioteca, que o militar era dado a leituras... E polícia à porta, pois no prédio residia um ministro. Circunstância que, aliás, trouxe mais tarde a nossa desgraça, que dizer, nosso despejo sumário, como um dia contarei, se vier ao caso...

Por ora importa referir, que apesar de todo esse luxo, não havia maneira de convencer a Diana a conhecer o famoso apartamento. Que não, que sem a Andreia, nada feito! (vá lá entender-se as mulheres), de forma que não tive outra hipótese senão abrir-me com o Zeca e propor-lhe que retomasse o namoro com a Andreia, ao menos durante um fim-de-semana...

O Zeca ainda torceu o nariz, mas, na sua generosidade, soltou: “está bem, sou mais que teu pai; mas promete que não me deixas ficar mal e “comes” a gaja!...”. Confesso, que havia semanas que não pensava noutra coisa; porém, não era assim tão categórico quanto à certeza do desfecho. Mas, enfim, convenci o Zeca que sim, “que comeria a gaja!”...

Finalmente, a noite “D”. As meninas tiveram o talento de convencer a madre superiora de uma urgência familiar que as obrigava a ficar fora nessa noite e eis o quarteto (não o de Alexandria, é evidente... rss) no celebrado apartamento.

Na fase da cerveja e dos pregos tudo esteve bem. A Andreia e o Zeca estavam amorosos. Até pareciam um par de noivos, como irónica, a Diana sugeria. Findas as libações, a dança... Soltam-se emoções do gira-discos, na voz delicodoce de Adamo (lembram-se?). Tacticamente (ou não estivéssemos nós em terreno militar) escolhemos cada um de nós sua divisão da casa. Dançava-se já, sem música no gira-discos, em inércia de corpos em ebulição, segregando prazer por todos os poros. No encontro de coxas, das línguas, das mãos...

Eu sentia-me em glória nos sorrisos e nos doces lábios da Diana...

Inesperadamente, com um raio na electricidade da noite quente, o bater seco da porta de saída: o Zeca desaparecera e a Andreia estava debulhada em lágrimas!... Nunca percebi as razões, nem o Zeca alguma vez me contou. O certo, porém, é que receei o pior, que dizer, que a minha estratégia militar redundasse no maior fracasso e o crepitoso corpo de Diana ficasse apenas, mais uma vez, como promessa de batalha adiada!...

Uma dramática situação, de facto. Voltar ao lar nem pensar, soluçava a Andreia. Que explicação daria às freiras? Logo seguida do assentimento da Diana, que solícita lhe limpava as lágrimas. Eu descorçoava: a minha vida a andar para trás e elas não descolavam uma da outra. Aos beijinhos e outras pieguices...

De súbito, a Diana luminosa e salvadora: “Ficamos os três!...” E eu, gaguejando: “mas... mas... os três?!... como"?!..." E a Diana decidida: “ora, ficamos os três na mesma cama!...”

Ficamos!...

Um pequeno favor que devo ao meu amigo Zeca e que ele nem imagina...
E uma pequena vingança que os deuses me propiciaram!...

quinta-feira, julho 24, 2008

Marmoto de Alma...

É bom sonhar bandarilheiros de flores nos cornos da vida
E o sangue apenas mistério iniciático de donzelas...

É bom colher o pão nas manhãs frias em toalhas de linho
É que as espadas sejam apenas bainha ou rendilhados
Em feminis mãos de ternura plena e crochet de afectos...

Bom seria que o poema fosse apenas canção; e a canção
Fosse aurora de luz plena em cada canto onde se respire
E que os homens não matassem e as sirenes fossem sinos
De uma Páscoa em todas as línguas por igual seu mistério...

Mas carregamos o destino de montanhas milenares e frias
Que abrem fendas em cada passo e explodem vulcão de fogo
Escondido nas catacumbas da dor e na violência do medo...

Quem justifica a morte? E no entanto a carregamos como filha
Às costas sem que sejamos mártires mas apenas homens...

Que me importa el matador? A espada negra a todos sacode
E gregários apenas nos une a dor passageira; sem outras dores
Nem outras fomes que não a nossa: marmoto de alma(s)...

domingo, julho 20, 2008

Nelson Mandela

Longo Caminho ...

“Longo Caminho para a Liberdade"...

Há muitos anos, quando era um rapazinho criado numa vila do Transval costumava ouvir os anciãos da tribo a contarem histórias sobre os bons velhos tempos antes da chegada do homem branco. Nesses tempos, o nosso povo vivia em paz, sob o governo democrático dos nossos reis e dos seus amapakati, que se movia livremente e cheios de confiança por todo o país, sem licença, nem impedimentos.

O país era nosso de nome e de direito. Ocupamos a terra, as florestas, os rios; extraíamos a riqueza mineral do solo e todas as riquezas deste belo país. Nomeávamos e organizávamos o nosso próprio governo, controlávamos as nossas próprias armas e organizávamos as nossas transacções e o nosso comércio. Os anciãos contavam lendas de guerras travadas pelos nossos antepassados em defesa da Pátria, assim como actos valorosos de generais e soldados nesses tempos épicos.

A estrutura e organização das antigas sociedades africanas neste país fascinavam-me muitíssimo e influenciaram grandemente a evolução dos meus pontos de vista políticos. A terra, na altura, o principal meio de produção, pertencia a toda a tribo e não havia propriedade individual de nenhuma espécie. Não haviam classes, nem ricos nem pobres e tão pouco a exploração do homem pelo homem. Todos os homens eram livres e iguais e nisto se fundamentava o governo.

O reconhecimento deste princípio geral encontrou expressão na constituição do conselho, conhecido como “Kgotla”, que governa os assuntos da tribo. O conselho era tão completamente democrático que todos os membros da tribo podiam participar nas suas deliberações. Chefe e súbdito, guerreiro e curandeiro, todos participavam e tentavam influenciar as suas decisões. Tinha tal peso e tal influência, que nenhum passo e alguma importância podia alguma vez ser dado pela tribo sem referência a ele.

Havia muito de primitivo e inseguro em tal sociedade e, certamente, não estaria à altura das exigências da época presente. Mas numa sociedade assim estão contidas as sementes da democracia revolucionária, em que ninguém será escravizado ou mantido em servidão e a pobreza, as privações e a insegurança não existirão mais.

É esta História que, ainda hoje, me inspira a mim e aos meus colegas na nossa luta política...
(...)
Diria que, neste país, a vida de qualquer africano o conduz continuamente a um conflito entre a sua consciência, por um lado, e a lei, por outro. Não se trata de um conflito exclusivo deste país. Ele põe-se a todos os homens conscientes, a todos os homens que pensam e sentem profundamente, em todos os países.

Recentemente na Grã-Bretanha, um par do reino, o Conde Bertrand Russel, provavelmente o filósofo mais respeitado do mundo ocidental, foi sentenciado e condenado por exactamente o mesmo tipo de actividades pelas quais me encontro aqui perante vós - por seguir a sua consciência em desafio da lei, num protesto contra a política de armamento nuclear implementada pelo seu próprio governo.

Ele não tinha outra alternativa a não ser opor-se à lei e sofrer as consequências do seu acto. Assim como eu. Assim como muitos africanos neste país. A lei tal como é aplicada, a lei tal como se desenvolveu durante um longo período da história, e especialmente a lei tal como é redigida e pensada pelos Nacionalistas é uma lei que, na nossa opinião, é imoral, é injusta e é intolerável. A nossa consciência manda-nos protestar contra ela, opormo-nos a ela e tentarmos alterá-la...
(...)
A lei transformou-me num criminoso, não pelo que eu fiz, mas devido àquilo que representava, pelo que pensava, por causa da minha consciência. Pode alguém admirar-se se tais condições transformarem um homem num fora-da-lei? Pode ser motivo de surpresa que tal homem, depois de ser posto à margem da lei pelo governo, esteja disposto a viver a vida de um marginal, como eu faço há vários meses, segundo as provas apresentadas a este tribunal?...

Não foi fácil para mim, durante este período passado, separar-me da minha mulher e filhos, dizer adeus aos bons velhos tempos em que, ao fim de um dia extenuante no escritório, podia animar-me com a perspectiva de me sentar com a família para jantar, e, em vez disso, encetar a vida de um homem continuamente perseguido pela polícia, vivendo separado dos que me são mais queridos, no meu próprio país...

Esta vida foi infinitamente mais difícil do que cumprir uma pena de prisão...

Nenhum homem no seu perfeito juízo escolheria voluntariamente tal vida, em vez da vida normal, em família e em sociedade, que existe em todas as comunidades civilizadas. Mas chega uma altura, como chegou no meu caso, em que em lugar do direito de viver uma vida normal, só pode viver uma vida de foragido, porque o governo decidiu usar a lei para lhe impor uma situação de marginalidade.

Fui forçado a esta situação e não lamento ter tomado as decisões que tomei. Outras pessoas serão forçadas de forma semelhante, por esta mesma perseguição policial e acção administrativa do governo, a seguir as minhas pisadas. Disso não tenho dúvida...”

.......................................................

Extracto das alegações de Nelson Mandela, no julgamento de 1962, em que foi condenado:

. a três anos de prisão por incitar o povo à greve;
. a dois anos de prisão por ter saído do país sem passaporte;
. cinco anos de prisão ao todo, sem possibilidade de liberdade condicional.

Nelson Mandela – in “Longo Caminho para a Liberdade” – Autobiografia – Ed. Campo da Letras.

quinta-feira, julho 17, 2008

sem qualquer morfema!...

No corpo do poema
Outro poema...

Que se escreve
Na caligrafia
Da vida
Sem qualquer morfema...

E se colhe
Em bocas de lume
Que a poesia
Também
Se come...

Concretos dias
Dessa fome...

Quando o poeta
Se liberta
E se faz apenas
Homem...
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... Refrescante. espero!

segunda-feira, julho 14, 2008

swanee river boogie

tomem lá disto...

Barack Obama

"Até para aqueles que, como nós, nos Estados Unidos da América (EUA) e no mundo, conhecem bem o sistema capitalista e as suas crises (...), os seus partidos políticos e seu processo de falsas eleições (...) é impossível não considerar a possibilidade de eleição de um presidente negro nos EUA - o centro do imperialismo e racismo mundial – como um evento histórico assinalável.(...)

Não é surpresa nenhuma que a grande maioria da comunidade negra dos EUA apoie a campanha de Obama. É surpreendente, porém, e revelador que tantas pessoas brancas também o apoiem. Mas se este apoio a Obama se manterá por parte da comunidade branca é uma grande incógnita. A senadora Hillary Rodham Clinton ainda está a tentar tirar partido disso e com Obama candidato do Partido Democrático, o senador John McCain e outros tentarão destruí-lo com uma campanha racista sem restrições...

Ainda assim, mesmo frágil e contraditório, é bastante encorajador para quem é progressista e está familiarizado com a profundidade e a prevalência do racismo nos EUA que dezenas de milhões de pessoas brancas tenham votado por um negro chamado Barack Hussein Obama, nas primárias do Partido Democrático. (...)

Obama, no entanto, não é um revolucionário e não constitui por isso uma ameaça ao sistema capitalista. Apesar de tudo, é difícil imaginar sinal mais dramático para o sistema do que o sucesso eleitoral de Obama (...).

Para Obama e os seus apoiantes influentes, a actual política norte-americana, apelidada de neo-conservadora, baseada no poderio militar da América imperial para recolonizar o Médio Oriente e dominar o mundo, tem sido uma catástrofe completa, diminuindo o poder da América imperialista. Obama e os seus apoiantes pretendem uma aproximação diferente. Obama reflecte mais a nova e emergente ordem capitalista transnacional, criada pela globalização imperial.

Para reverter a erosão da posição mundial dos EUA, Obama quer deixar de contar apenas com o poder militar; colocar um rosto mais simpático à América imperialista e melhorar a sua habilidade de competir economicamente com a China, Índia, Europa e América Latina.

A contradição é que os problemas do sistema capitalista são tantos e tão graves que Obama, mesmo com novas ideias, não os conseguirá resolver. O quase colapso do sistema bancário mundial no passado mês de Março, salvo apenas pela intervenção massiva da Reserva Federal dos EUA, não foi o fim da crise capitalista do crédito. Foi o começo de um novo sistema de crises no mundo capitalista que é provável venha a ser maior e mais violento que a Grande Depressão dos anos 30. A única questão é a velocidade a que a crise evoluirá e os eventos que afectarão o seu percurso.

O imperialismo norte-americano está preso em duas guerras que não consegue vencer, nem abandonar, com a possibilidade de uma guerra contra o Irão, antes das eleições do Outono. Por outro lado, para os trabalhadores as coisas têm piorado cada vez mais. A dimensão dos desapossados das suas habitações e o nível de despedimentos crescem a cada mês, apenas ultrapassado pelos preços crescentes do combustível e da comida.(...)Esta a realidade social com que Obama está confrontado.

E, no plano político, o problema mais frustrante poderá ser que, uma vez eleito, Obama fique cativo do horrível sistema que procurará servir como presidente. Aliás os ataques têm sido terríveis e, obtida a nomeação do partido democrata, Obama vem sendo apelidado de traidor, terrorista, de uma ameaça para a cultura ocidental, a civilização e a cristandade e para os valores “americanos”(...).

E se quer vencer as eleições terá de suportar tudo isto e sorrir porque não é realmente o apoio das massas populares que ele busca para chegar à Casa Branca. É a aprovação da classe dominante capitalista. (...)

Não há razões, de facto, para que a classe dominante dos EUA se questione sobre a lealdade de Obama. No entanto, esta classe não é lógica; é profundamente paranóica e vigilante como é sempre de esperar de uma classe de exploradores racistas e reaccionários e opressores, que construiu um império através da escravatura, colonialismo, guerra, roubo e repressão.

A classe dominante dos EUA está consciente do que fez e continua a fazer à população negra. (...) O racismo está bem vivo, mas Obama terá que fingir que é coisa do passado.

Admitamos que Obama é eleito presidente. Uma das primeiras iniciativas do próximo presidente dos EUA, seja ele qual for, será decidir sobre cortes massivos em programas sociais, incluindo Medicare (cuidados médicos), Medicaid (ajuda médica), Educação e Segurança Social. Estes cortes orçamentais irão processar-se quando os trabalhadores sofrem cada vez mais com a crise económica. (...)

Estas contradições políticas e sociais tornam assim difícil, se não fútil, que as pessoas mais progressistas trabalhem na sua campanha para fazerem avançar as suas propostas. Obama é alheio a pressão do movimento de massas. A pressão a que é sensível vem da classe dominante (...).

Na verdade, a única maneira pela qual as pessoas progressistas poderem defender Obama contra o racismo e o reaccionaríssimo, se e quando isso for necessário, é estando de fora e independentes da sua campanha e do Partido Democrático.

Terão de ser os activistas negros a tomar a liderança de explicar as contradições de Obama. (...) Fomentando organizações centradas na classe operária e na população anti-imperialista, independentes dos partidos da classe dominante. Isto é mais que essencial. É urgente.

Mais do que nunca, os trabalhadores estão perceber que as guerras no Iraque e no Afeganistão são os principais factores de agravamento da crise económica (...). A crise da guerra e a crise económica juntas, estão a formar as bases para a próxima fase da luta social, como movimento de protesto. O que poderá ter influência decisiva nas eleições de Novembro deste ano".


Larry Holmes, membro do Secretariado Nacional do “Workers World Party” - in “Seara Nova” – nº 1704 – Verão 2008.







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sexta-feira, julho 11, 2008

Agora mesmo...

Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também...
Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou. Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
[despedir-se

A Terra gira e nós também. A Terra morre e nós também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida. As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento. É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Ámen


Manuel Alegre – “30 Anos de Poesia” – Publicações D. Quixote

quarta-feira, julho 09, 2008

W.A. Mozart - Requiem (KV 626) - Dies irae

dies irae...

"Dos Pincipados Eclesiásticos..."

Somente nos resta discorrer acerca dos principados eclesiásticos: nos quais todas as dificuldades são anteriores à propriedade: porque se adquirem ou por valor ou por fortuna, e em um e outra se mantêm; porque são sustentados por antigas instituições religiosas que ganharam tal poder e qualidade que têm os seus príncipes no estado, seja qual for o modo com que procedam e vivam. Só estes possuem Estados, e não os defendem; súbditos, e não os governam: e os Estados, apesar de indefesos, não lhes são tirados; e os súbditos, que não são governados, não se preocupam com isso, nem pensam que possam libertar-se da sujeição.

São, estes, então, os únicos principados seguros e felizes. Mas porque são regidos por razões superiores que a mente humana não atinge, deixarei de falar deles; porque, sendo levantados e mantidos por Deus, constituiria ofício de homem presunçoso e temerário discorrer acerca deles.

Todavia, se alguém me perguntasse de onde provém o facto de que a Santa Sé tenha chegado a tanta grandeza no plano temporal que, antes de Alexandre, os potentados italianos, e não só aqueles que em rigor mereciam o nome, como todos os barões e senhores, ainda o mais mínimo, a prezavam pouco no âmbito temporal, e agora intimida um rei de França, o expulsa da Itália, e arruína os venezianos: direi que se trata de coisa que, apesar de bem conhecida, me não parece supérfluo voltar a recordar. (...)”


Nicolau Maquiavel – in “O Príncipe” – Guimarães Editores – Filosofia & Ensaios

Per omnia secula seculorum...

Concord(at)emos, pois!...

domingo, julho 06, 2008

o vermelho e o trigo...

No fundo da terra há sempre
Um húmus insuspeito, uma semente, uma promessa...

Talvez um parto...

Talvez um grito,
Ou uma dor por abrir...

Talvez uma tensão na hora de soltar-se...

Há sempre na noite
Um dia imprevisível, uma esperança calada...

Há sempre uma morte que se faz vida...

Há sempre o vermelho e o trigo...

Sabe-se lá quando pode explodir uma flor...

sábado, julho 05, 2008

Ella Fitzgerald : One note Samba (scat singing) 1969

uma "gordinha" a sério ... rsss

O meu amigo Zeca ao "ataque" na net...

O meu amigo Zeca, alentejano de Beja, economista, solteirão impenitente e bon vivant veio de visita, um destes dias, cá a casa...

O Zeca apareceu - imaginem! - acompanhado da Mitó. Claro que minha mulher e eu próprio ficamos radiantes. A Mitó e a minha mulher são amigas de infância e ambos temos sincera amizade por um e pelo outro. Esclareço que, se o Zeca alguma vez esteve tentando na vertigem do casamento, foi seguramente com a Maria Antónia...

A Mitó, porém, tem um filho, produto de um breve casamento com o Peter, um inglês que a nossa amiga descobriu na bruma londrina, quando, finda a licenciatura em Germânicas, foi para a Grã Bretanha aperfeiçoar seu inglês e curtir o desgosto pelo Zeca...

O rapaz saiu moreno e trigueiro, em vez da loira cabeça e da pele deslavada do Peter. Costumo irritar minha mulher, quando a (des)propósito gracejo que o filho da Mitó é o inglês mais parecido com um alentejano, que eu alguma vez conheci. Tenho então resposta agastada : “Lá estás tu com as tuas parvoíces. A Mitó e boa rapariga!”... Como se eu dissesse o contrário!...

Mas retomando o fio. O Zeca está a ficar entradote. Engordou. As pálpebras pesadas denunciam cansaço das noitadas e dos excessos da culinária, de que o Zeca é expert... (Ainda lambo os beiços com a perdiz estufada e feijoada de lebre que, algum tempo atrás, o Zeca preparou para um grupo de amigos no seu apartamento debruçado sobre o Tejo).

Perante o seu ar “carregado” não resisti à provocação - “Tens que te “aviar”, pá!... ” - disparei-lhe, acentuando os subentendidos.

O Zeca encolheu os ombros fixou-me, num olhar sonolento, semi desdenhoso: - “Gajas é que não me faltam, que é que tu julgas?!...”. E, triunfante: - “Até na net, se me der na real gana!”...

E eu, roendo-me num gozo antecipado: - “Não me digas que agora te ficas por “virtualidades”... Com franqueza, pá. Estás mesmo a ficar velho...”

Então, o Zeca soltou uma inesperada gargalhada: - “Mal tu imaginas!... Tenho uma boa para te contar!..” E, como as mulheres se aproximavam, acrescentou, prudente, perante a minha curiosidade: - “Conto-te depois de almoço!...” .

E contou. Entre dois cálices de conhaque, uma sonolenta partida de xadrez e a voz cálida de Ella Fritzgerald em fundo, enquanto as mulheres cirandavam pela casa e tricotavam uma dessas conversas infindáveis, alheias a tudo, que não seja ouvirem-se, o Zeca contou esta “estória”deliciosa.

O Zeca manteve, algum tempo, assíduas e tórridas conversas na net com uma menina, residente algures no País. Trocaram fotos e promessas. O Zeca, porém, tipo experiente e fiel ao seu princípio que “elas que hão-de vir comer à mão” recusou sempre fazer a distância do encontro. Mas confiante, persistia no namoro.

- “ Que queres? A tipa era gordinha e tu bem sabes que não resisto a uma gordinha!...” – acrescentou, em confidência.

“Claro, Zeca, claro!... quem poderá resistir a uma gordinha?!... – gargalhava eu, ansiando pelo desfecho...

Na primeira oportunidade, a moça vem a Lisboa. De véspera, colocara o Zeca de sobreaviso. Mal chegou deu conta do hotel e do número de quarto onde se instalara. O Zeca afiou o dente...

E lá foi ele perante o telefonema solícito e ansioso da “gordinha”. Confessou o Zeca que à entrada do hotel teve um pressentimento. Estava fora dos seus esquemas passar ao ataque completamente às escuras ... - “E se a gaja... e se... e se...”– inquietava-se, fantasiando cenas macacas...

Mas avançou afoito. Subiu descontraído o elevador. No fundo do corredor o almejado campo de batalha. Do outro lado da porta, o convite sedutor de uma voz feminina: - “Entra, a porta está aberta...”

Nesta altura, o Zeca ria até a exaustão, como o bom humor que o caracteriza. Espapaçada na cama, nua como uma odalisca, derramando em cascata banhas sobre a colcha, a “gordinha”, com toneladas de peso, abria-se, concupiscente, ao “pobre” Zeca. Uma monstruosidade, garantiu-me...

Sacudido pelo riso, apenas pude balbuciar : - “E como te safaste, pá. Imagino que não não foste cair-lhe nos braços...” ; e, a apurar a picardia, gargalhei : “ou será que caiste de queixos!...” -

“Como me safei?!...” - retorquiu, inspirado: “Jurei-lhe que era gay e saí, sem olhar para trás, mal tive ocasião...” - rematou, bebendo o resto do conhaque.

Assim me contou o Zeca, sem tirar nem pôr. Para seu (e meu) desalmado gozo...
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Mais tarde, saíram juntos como chegaram, o Zeca e a Mitó. A minha mulher foi à janela vê-los partir e regressou com um sorriso misterioso: - “Sabes que o Zeca segurou a mão da Mitó e partiram de mão dada?!..” disse-me, enquanto levantava os cálices. “Quem sabe se não será desta!...”- suspirou, esperançosa...

Acontece aos melhores, filosofei para os meus botões...

quarta-feira, julho 02, 2008

"O(s) menino(s) de oiro" e ... a esquerda!

Enfastia-se o Primeiro-ministro quando lhe lembram que a sua acção política vai mais longe que qualquer outro governo de direita na ofensiva contra as camadas mais frágeis da sociedade. E que o Código do Trabalho é um retrocesso histórico inadmissível, para alguém que se enfeita com lantejoulas socialistas. E, então, empertigado, assume pose de “menino de oiro”, acusando quem o critica, à esquerda, de lhe estarem a passar atestados de (mau) comportamento político.

Mas lá diz o ditado: quem não quer ser lobo não lhe veste a pele!... Por que isto de ser de esquerda é mais que mera proclamação. Revela-se nos comportamentos, atitudes e nas opções políticas. E, se é verdade que, de uma perspectiva de esquerda, depois de ganhas as eleições, do nosso Eng.º Sócrates nada haverá esperar, porque nada resta de promessas, surpreende, apesar de tudo, a encarniçada sanha contra o mundo do trabalho, que o novo Código alimenta e instiga.

Até porque, na oposição, defendia o Eng.º Sócrates princípios opostos aos que agora promove...

Trágica constatação: o direito do trabalho atravessa um dos períodos mais sombrios da sua breve história. Bem sabemos, que esta situação afecta praticamente todos os países. Na Grã-Bretanha, em França, na RFA, na Itália, em Espanha, por todo o lado, a precariedade ganha terreno e as organizações sindicais, as instituições representativas dos trabalhadores, a contratação colectiva e os grandes direitos colectivos, conquistados através de dura luta, são ostensivamente apoucados e permanentemente aviltados.

Triste consolação nossa os males dos outros - País que somos em risco de rotura do tecido social, com a pobreza endémica a subir às classes médias e os baixos salários a alargar o leque da miséria física e moral e a atrofiar a economia...

Bem sei que o debate está inquinado. O patronato e o Governo, acolitados pela UGT e pelos tenores da comunicação social, “formataram” o pensamento na matéria, num espartilho de ideias, fora das quais não subsiste qualquer razoabilidade - - “são os de costume, fora do tempo e da modernidade, anti patrioticamente, a pretenderem impedir o desenvolvimento do País...”

Mas não há girândola festiva, nem encenação, nem traição de classe, nem pretensas alegações ao combate de precariedade que façam esquecer a verdade elementar de que é a hiper valorização do lucro e do reforço do poder patronal nas empresas, que o novo Código vem servir, rompendo o equilíbrio histórico estabelecido. Ou seja, o novo Código de Trabalho vem dar cobertura jurídica, legitimar e estimular o primado da economia sobre a política, nas relações de trabalho...

Ponto nevrálgico de distinção entre a esquerda e direita. Que o Eng.º Sócrates, evidentemente, faz questão de ignorar...

Porque importa recordar que as leis não são neutras. E que o poder social do senhor Belmiro de Azevedo, por exemplo, é infinitamente maior do que o de um(a) qualquer jovem, com contrato a prazo (mesmo por três anos em vez de seis) e salário de miséria, nas caixas registadoras de um dos seus supermercados... Será a mesma a sua capacidade negocial das relações de trabalho?! Digam-me...

Por isso, sejamos claros. Não há, em matéria de legislação de trabalho, que invocar a “equidade”, (como pretendem governo e patronato) mas perseguir a “justiça”. Como qualquer homem ou mulher de esquerda saberá a igualdade perante a lei não e sinónimo de igualitarismo. Mas significa “tratar o igual como igual e o diferente como diferente, na exacta medida da sua diferença...”

Essa a matriz legal e constitucional do nosso direito de trabalho, reduto essencial dos ideais libertadores de Abril. Que o novo Código do Trabalho vem romper. Pela mão solícita do Eng.º Sócrates, “menino de oiro” da direita, está bom de ver...

E como o dia a dia, infelizmente, demonstra!...