sexta-feira, maio 30, 2008

Tese, antítese e síntese...


Dois blogs, que muito considero, colocam-me numa situação bem curiosa.

A manhã desafia-me a seis palavras com seis fotografias “ilustrando o que somos ou o que nos interessa”.

A mdsol desafia-me a deixar aqui seis “coisas que deteste”!

Compreendam o meu embaraço. Tese e antítese de mim? Como fazer a síntese de tão amáveis pedidos? Confesso-me incapaz. Uns dias o espelho devolve-me uma imagem de pessoa tolerante, amável, generosa, sensível, emotiva e responsável; outros dias, porém, o espelho castiga-me com severidade: colérico, autoritário, egoísta, vaidoso, arrogante e – tenho que reconhecer – vagamente cínico...

Espelho meu, espelho meu...

Existem, no entanto, por vezes, espelhos de cristal que nos devolvem rosto de nossos heróis e que ajudam a compreender o nosso. Como o que compartilho convosco, ali em cima...

Espero que gostem!...
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(Agora reparo - esqueci-me de me nomear como pretensioso!)






quarta-feira, maio 28, 2008

Em louvor de Magritte....


colhe o poeta a cor do sonho na paleta
com as nuvens sobre a esfera onírica porém presa
e na nesga rasgada sem saber se sai ou entra
o mar ao longe...

advinham-se corpos irreais em transparência
reclinados sobre colchas sem memória
como sombras pressentidas na luz imensa
que o dia clama...

talvez crianças caprichosas ou velhos faunos
desfaçam a cortina ou a subtil brisa os descubra
desnudados sem culpa ou sem remorso
bárbaros e puros...

talvez deste lado da paisagem onde beijos correm
como ondas e os dedos do poeta se deslaçam
o azul capriche no tempo breve e em suave tarde
apenas os corpos reinem...

segunda-feira, maio 26, 2008

Um (certo) olhar sobre a pobreza...

Retenho, da imprensa do fim-de-semana, uma notável entrevista do Prof. Alfredo Bruto da Costa ao jornal “Público” de Sexta-Feira, 23.05.08, na sequência do estudo por ele coordenado “Um olhar sobre a Pobreza”. Ficamos então a conhecer melhor algumas verdades que suspeitámos, ou que todos sabemos, mas que, expeditamente, varremos para debaixo do tapete, não vão as visitas enegrecer os nossos pergaminhos de País desenvolvido.

De facto, não se podem ter veleidades de progresso económico e social, quando, para além das elevadas taxas de desemprego, se fica a saber que 52,4 por cento dos pobres em Portugal vivem dos rendimentos do trabalho, muitos dos quais com contratos escritos nas empresas em que laboram. Não quero invocar, em contraponto, a “imoralidade” dos altos salários de gestores. Interessa-me apenas acentuar o que outros têm dito e que, pela voz digna e insuspeita de Bruto da Costa, ganha agora expressão mediática – a economia formal e o modelo económico, assente nos baixos salários, constituem as causas maiores da pobreza endémica no nosso País.

Bem sei, bem sei... Conheço o argumento da produtividade e da qualificação dos trabalhadores. "Os salários são aqueles que a economia permite, face ao seu perfil de produtividade", não se cansam de gritar ministros e os nossos (salvo seja) cavallieri da economia e da especulação financeira. E, de tanto repetido, o argumento colhe. Porém, não tem sustentação. Funciona apenas como filtro ideológico...

Faz ou não sentido a pergunta ingénua, quer dizer, a pergunta empírica, que tantas vezes se faz, de que os trabalhadores portugueses são bons lá fora e maus cá dentro. Porquê?!... Os trabalhadores, no processo produtivo, apenas dispõem a sua força de trabalho e a sua inteligência. Será que serão eles quem maneja os processos de organização do trabalho? Digam isso aos nossos empresários e serão, todos vocês que me lêem, imediatamente despedidos... Democracia na empresas?!... Pfff... “Patrão há apenas um; eu e mais nenhum” - essa a cultura de muitos nossos empresários, cujos quadros mentais se mantêm no alvores do século XIX.

E a formação profissional? Não foram milhões que entraram no País com vista a “elevar a competitividade da economia portuguesa”? Em vez disso, engrossaram os cofres e a especulação financeira de nomes sonantes, que viram multiplicadas, enquanto o diabo esfrega um olho, suas escandalosas fortunas. Quem sabe se não serão os mesmos que, hoje, alcandorados nos lucros de alguma empresa petrolífera, continuam sugar, até ao tutano, os fracos rendimentos dos portugueses, no preço dos combustíveis!...

Por isso, não me venham hoje com as tretas da produtividade! Quem, nas últimas décadas, mantém o País a saque, tem a produtividade que melhor o serve – a da exploração desenfreada ao mínimo custo económico. A ganância como princípio universal...

Pois não é verdade que uma das razões da baixa produtividade é os baixos salários?... “Ou se resolve o problema do rendimento das famílias de outra forma ou se declara que nos próximos 20 ou 50 anos os salários continuarão baixos” – refere, com ênfase, Bruto da Costa para acrescentar que (...) “os pobres que estão empregados, por conta própria ou por outrem (são problema) que não se resolve com política social, é um problema económico...”

Pois é. É, portanto, uma questão de paradigma social e de um modelo de desenvolvimento económico, que há muito que se esgotou - acrescento de minha lavra...

Recomendo a entrevista, enquanto o estudo não é divulgado (será que vai ser?). Ainda há pessoas assim. Que “não se resignam” e são consequentes com o que pensam. E que rompem com modelos oficiais da “inclusão social” e da caridadezinha reinantes, colocando o dedo na ferida e nunca deixando que a árvore esconda a floresta...

Boa semana!...

sexta-feira, maio 23, 2008

The Best Of Cats The Musical

memories...

No rescaldo do Maio 68...

Dona Ludovina que, na sua solicitude, o guiara, à chegada, nos meandros da Agência e, na generosidade da sua carne exuberante, velara pela educação sentimental do Rapaz, levou também muito a peito o robustecimento do seu espírito. Foi assim que o introduziu numa “selecta tertúlia” (palavra de Ludovina), depois de rasgados encómios ao seu (dele) talento literário.

Pontificava no grupinho um casal, recentemente regressado de Paris, onde no rescaldo de todos os Maios, proclamava, em beatitude, que a História estivera ali mesmo, na polpa de seus dedos. Ele era um homenzinho baixo e enfezado, a rondar os quarenta anos, de careca reluzente e de pêlos indiscretos, no nariz e nas orelhas. A barriga empinada e as pernas curtas emprestavam-lhe um ar de aranhiço prestes a armar a teia. O olhar líquido e redondo, por detrás de uns óculos de tartaruga, acentuavam-lhe a famélica postura da aranha à espera da presa...

O homem, porém, quando a cerveja escorria, de tudo falava. Nem era necessária plateia. Conhecia todos os argumentos. Entre os existencialistas e marxistas (peleja fora de moda, dixit) tomava naturalmente partido pelos primeiros. Discorria com ardor sobre o “nouvau roman”. O cinema e a “nouvelle vague” não tinham segredos. Também os estruturalismos de todos os matizes. Tratava por tu Althusser, Lacan, Foucault, Derrida. O homem era nitidamente um semiótico!...

A rapariga, - Cléo para os amigos - bastante mais nova, vivia em permanente devoção. Acendia-lhe os cigarros. Colocava o açúcar no café. Mexia e remexia. Carregava os jornais. Assinalava os artigos e notícias de interesse. Sacudia-lhe a caspa dos ombros. E eu sei lá o que mais não lhe faria!...

A moça era engraçadota, mas fisicamente desleixada, como era chic na sua condição. Num caderno sebento, de folhas azuis e linhas, escrevia seus poemas, onde quase sempre “a alma se encandecia nas torpezas do saber...”

Aconteceu que, um dia, o Rapaz, depois da Agência, na sua passagem pela leitaria, deparou com a Cléo sozinha, na mesa habitual. Explicadas as razões e, depois de minutos de conversa, palavra puxa palavra, olhar pede olhar, a ocasião faz o ladrão e estavam os dois falando de... sexo. E ela categórica comigo não te vale a pena não presto na cama e ele a dar-lhe não há como experimentar patati...patati...patatá e ela não se fez rogada e ele não pensava noutra coisa há semanas meu dito meu feito e meia hora depois estavam os dois na cama.

O Rapaz, que passara com distinção no estágio com Dona Ludovina, usou de todo arsenal de recursos aprendidos e inventou outros. A Cléo, porém, nada! Nem um gemido, nem um movimento, nem uma carícia, nem um esgar, nem uma palavra de estimulo, nem um fingimento. Nada, literalmente nada!... Um corpo inerte e amorfo. Apenas os olhos se reviravam nas pálpebras em cada assalto (frustrado, naturalmente).

Digam-me lá, se por mais esforçado, alguém naquela situação poderia resistir e completar a função?!... Pois bem, o Rapaz desistiu. Desistiu e... nunca mais apareceu na Leitaria e naquele cenáculo de saber e cultura...

Agora, à distância, receia o Rapaz ter sido, no tamanho daquela frustração literário-erótica, que ficaram definitivamente soterradas suas veleidades literárias. E, claro, por causa de semelhante embaraço a Pátria perdeu um intelectual eminente e a Literatura (com maiúscula) um epígono consagrado. Um outro prémio Nobel, quiça!...

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Tempos depois, o Rapaz contou a cena ao seu amigo Zeca, alentejano de Beja, “bon vivant” e economista do Quelhas, como faz questão de acentuar:

- “É bem feito! quem te manda a ti andares com intelectuais?!” - soltou numa gargalhada! - “Não sabes que as mulheres para a cama devem ser burras?!...”

O Rapaz embatocou. Mas passados uns momentos, já recomposto, meio sério, meio a rir, perguntou:

- “E se forem burras e intelectuais?!...”
- “Então é a desgraça completa! Não te invejo a sorte!...” – rebolou-se o Zeca, babado de gozo...

O meu amigo Zeca é um tipo bem caçado, reconheçam!...

quarta-feira, maio 21, 2008

Brubeck - Take 5 (live 2004) - part II

take five, take me...

"Espelho meu, espelho meu..."

Nem cânticos, nem glórias. Que favores
Não tenho. Calados em meus gestos...

Sou rio seco. Ou além os montes desertos
Que ao longe atraem, mas que de perto
São pedras rolantes apenas. Cuidando o sopro.

E nessa miragem me despenho. Inteiro.
Que de mim apenas o voo a que me afoito
Sem asas de falcão. Nem alvos de permeio.

Mas fervoroso nos dados em que me jogo.

Sou nada ou o infinito – queiram ou não!
De resto – é como digo:

Pés descalços e olhar altivo.
E as rosas que colho e os frutos que semeio...

Amores e desamores. E o peito aberto!...

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Bom feriado! E bom descanso...

segunda-feira, maio 19, 2008

"Os deuses das pequenas coisas..."

Há uns dias que tenho um “cliente” muito especial à minha janela. Um pardalito desajeitado e ladino (ou será pardaloca?) teima em fazer-me negaças. Com regularidade de fazer inveja, salta para o parapeito e põe-se, de fora, a olhar-me em desafio...

Se me levanto, ou lhe falo, arranca de lá um grosso manguito e desanda. Se me concentro e finjo não lhe ligar, trata de me provocar com um atrevimento inaudito. Suspendo, então, as teclas e os códigos e, impávido, fixo-me nas suas cabriolas...

Olha-me então (pressinto-o terno) de cabeça inclinada, dá umas bicadas imaginárias, “amanda” uma substancial borradela e... asas para que vos quero! Como um risco de fogo, atravessa a poalha doirada e, entre guindastes e fios, lá vai ele, perdendo-se, sobre o Mar da Palha!...

E, assim, por dias sucessivos. E, quando me falta, confesso, dou comigo a cismar tragédias...

Para me ver livre desta “praga”, pensei oferecê-lo a alguns blogs “filosófico-rokeiros” (da pesada), que por aí vicejam. Ou talvez a alguma menina mais doce, que, no intervalo dos seus desenfados poéticos, dos seus amores e desamores (ou de suas dores e paixões) pudesse afagar-lhe as penas e apurar-lhe o luzimento...

Mas não posso. Que droga!... Estou acorrentado à minha danação. Tenho que aguentar o meu calvário. Sussurram-me os deuses das coisas simples ser o espírito de uma jovem rapariguinha drogada que, com a minha moedinha diária, ajudei a matar...

Seja para desconto dos meus pagãos pecados! Que são muitos...

Igor Stravinsky's Firebird - Infernal dance

infernal mesmo! da "pesada", reconheçam...

sexta-feira, maio 16, 2008

Vantagem (ou inconveniente) em saber-se latim...

Confesso a minha dificuldade em continuar a bater na criatura, isto é, a escrever sobre o Governo de José Sócrates. Não por qualquer animosidade contra o primeiro-ministro e, muito menos, por falta de matéria. Porém, considero que o Governo e o partido de que emana atingiram o "grau zero” da política. Interrogo-me, por isso, se valerá a pena gastar mais cera, ou dito de outra forma, se não valeria mais gastar as células cinzentas (ou o que delas resta) para matérias mais gratificantes. Escrever poemas para gozo próprio, por exemplo...

Mas, por vezes, surgem, na estreita galáxia política em que vegetamos, um ou outro comportamento, uma ou outra palavra, que, por insuspeitos e inesperados, iluminam, esplendorosamente, as pobres sentenças, que sobre Sócrates e o seu Governo possamos proferir, ou tenhamos proferido. Ora, atentem nas doutas e sábias palavras do Presidente do Partido Socialista, Dr. Almeida Santos, em recente entrevista ao Diário de Notícias...

Passo em claro os elogios a José Socrátes e ao seu Governo. De facto, embora me pareça que a força de tais encómios não seria desdenhada, como culto de personalidade, por um qualquer candidato a Kim Il Sung, (de má memória), não é de todo expectável que o Dr. Almeida Santos fale mal do Governo e do seu primeiro-ministro.

Porém – reconheçam! – é bem eloquente que um distinto jurista afirme, sem rebuço, que “a Constituição é uma coisa, mas as suas possibilidades (...) é outra...”, ou que o Presidente do Partido Socialista garanta que o seu partido, “não é fiel à sua matriz” (...), pois que “a matriz esgotou-se...”. Ou que o mesmíssimo Dr. Almeida Santos afirme que “estamos prisioneiros da União Europeia (...) e dos Governos, nomeadamente, dos Estados Unidos, que mandam no mundo...”.

Claro que, por entre o diáfano véu destas palavras, perpassa o perfume dos interesses que dominam a política doméstica e lhe definem os contornos. Tantas vezes em escritórios de advogados famosos...

Querem melhor prova de que o PS, ostentando a honrada sigla socialista, de punho erguido e rosa escarlate, bateu no fundo?!...Querem síntese mais esclarecedora? Querem mais clara confissão, pela voz autorizada do seu presidente, de que o PS baqueou, completamente. Querem melhor evidência da rendição do Partido Socialista às políticas de direita e aos interesses económicos dominantes da política mundial?!...

Não vos peço que acreditem em mim, ou naqueles que nas ruas, aos milhares, protestam e gritam que os velhos odres se encontram esfarrapados. E que a mistela, que se pretende impingir como o vinho da modernidade socialista não passa de uma mistificação. Mas, por favor, peço-vos que acreditem na palavra ilustre do Presidente do Partido Socialista, Dr. Almeida Santos!...

Perante esta realidade que importância tem o cigarro aceso do senhor primeiro-ministro, entre as cortinas (in)discretas de um avião de passageiros?!... É “só fumaça e o Povo é sereno”, como dizia o outro, que Deus tenha. O grande líder já pediu desculpa e prometeu que nunca mais iria fumar. E nós desculpamos, está claro!...

Mas importa, apesar dos brandos costumes, não deixar que a árvore esconda a floresta...

Ou seja. A comunicação social e quem nela manda, não podendo ridicularizar Hugo Chávez, face aos interesses em presença na visita do primeiro-ministro à Venezuela e tendo que apresentar serviço, virou-se para o elo mais fraco – ou seja, Sócrates!... E todos, jornalistas e Governo terão ficado felizes, pois que o fait divers teve a vantagem suplementar de, por momentos que seja, fazer esquecer brutais e indignas propostas do novo Código do Trabalho e os protestos que se avizinham...

Persiste, no entanto, um probleminha, que anda a formigar comigo. É o à vontade do primeiro-ministro ao justificar a sua atitude de mau fumador (mau pagador de promessas eleitorais sabíamos que era) com a falta de conhecimento concreto do teor da lei antitabagismo, que o seu governo propôs e fez aprovar.

Claro que o Eng.º Sócrates está mais vocacionado para “inglês técnico” do que para o latim. Magnífica ocasião para o Dr. Almeida Santos, que sabe latim e toca guitarra, lembrar ao primeiro-ministro de Portugal que “scire leges non hoc est verba earum tenere sed vim ac protestam”, o que, na língua de Camões, significa “conhecer as leis não é fixar as suas palavras, mas a sua força e o seu poder...”. Que a todos obriga, como os romanos também ensinaram...

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Bom fim de semana...

quarta-feira, maio 14, 2008

Tchaikovski - Casse-noisette (Nutcracker) - Valse des fleurs

a valsa das flores. vocês merecem...

Ballet no camarote...

Suzette amava pequeno-burguesmente o ballet...

Sobre o estirador, Margot Fontaine e Ruldolf Neuryev, em grande cartaz e grande estilo, alimentavam a fantasia quotidiana da doce Suzette. E se o mito “fala”, como um tal Rolland Barthes teimou em afirmar, então o ballet constituía a pulsão mas secreta, a fantasia mais terna, o sonho mais colorido da doce Suzette! ...

Pela undécima vez, Suzette se apropriou do rapaz para, com olhos em alvo e coração devoto, lhe relatar o espectáculo que vira, recentemente, em Paris, terminando sempre com a sacramental promessa: - “um dia levo-te ao ballet!...”

A doce Suzette era esguia e fina como vime, pronta a partir-se ao primeiro sopro. Vista de trás a doce Suzette era apetecível. Formas, apesar de tudo, bem delineadas. Mas vista de frente, a Suzette - meu Deus! - a doce Suzette não tinha outro encanto que não fosse a graça de ser mulher...

Debaixo do camiseiro florido apenas uma breve sugestão de seios – Suzette era aquilo que se chamávamos “uma tábua de engomar"!... E a minha ternura pela doce Suzette impede-me de vos descrever o rosto - algo de mitológico, entre uma equídea figura e uma ave de rapina. Imaginem!...

O rapaz, porém, tivera sorte. Uma estrutura envidraçada, separava os “criativos” dos “gráficos” da agência de publicidade em que ambos trabalhavam, de forma que ele, da sua secretária, estava permanente em linha com a parte de trás de Suzette, balançando-se, debruçada, perna à frente perna atrás, no trabalho minucioso do estirador (ainda não haviam computadores). E, lá no alto, as figuras tutelares de Margot Fontaine e Ruldolf Neuryev!´...

(Aqui vos confesso que o rapaz, na brisa de seu desejo, por mais que uma vez se soltou do seu trabalho de “copywriter” para desfrutar, secretamente, a elegante ondulação daquele corpo...)

Um dia, inesperadamente, a doce Suzette, numa euforia desusada, intimou-o: “no Sábado, vamos ao ballet! e não admito desculpas!...”

Foram.

Sobrava espaço no elegante camarote do teatro S. Luís. (Soube mais tarde o rapaz que assinatura era de um tio de Suzette, quadro superior no SNI)!... Mas que importava no momento?!... A Suzette estava eufórica e até o rapaz, usualmente tão comedido, se soltava em sorrisos, agradecimentos e palavras elogiosas, perante a feerie da matinée...

Enfim, o bruuuá do momento chegou!... O espectáculo ia começar. As luzes, lentamente, diminuíam de intensidade!... Aos primeiros acordes da orquestra, as mãos, discretas primeiro, ousadas depois, tomaram conta do doce corpo da doce Suzette. O arfar melodioso dos beijos de Suzette, prolongava as tonalidades da música de Tchaikovsky...

Então, debruçada sobre o espaldar, no enlevo do bailado, em delírio estético-erótico, a doce Suzette oferecia-se, erguendo, até à cintura, o vestido de cambraia vermelha. Que o rapaz desfrutou, como fauno sequioso vindo dos confins da música. E, assim, suspensos sobre o infinito, fundindo-se na vibração da música e da dança, se amaram e, ao menos dessa vez, se redimiram da “alienação”da publicidade.

Confesso-vos, que nunca houve "Quebra-Nozes" mais apreciado!...
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Passados anos, numa das últimas vezes que o rapaz foi ao S. Luís, surpreendeu-se a olhar da plateia para o camarote deserto, absorto, num sorriso irónico-nostálgico, de que foi acordado pela cotovelada da Mulher: - “por onde andará essa cabecinha?!” – disse, fixando-lhe o olhar como que a ler-lhe a alma.

E, naquele instinto de leoa, que o rapaz tão bem conhece, sem outra palavra ou esperar resposta, a Mulher segurou-lhe a mão, que manteve quente, entre as suas, até ao final do espectáculo!...

domingo, maio 11, 2008

“A Globalização da Pobreza”


Ao que consta, Henry Kissinger, célebre político e universitário norte-americano, que durante décadas esteve na ribalta da política mundial, terá afirmado que “quem controla o petróleo, controla as nações; quem controla os alimentos, controla as pessoas”. Julgo serem de evitar sempre análises simplistas. Mas a cínica afirmação, esclarece, porventura, muitos dos aspectos da actual crise económica mundial.

Deixemos de lado, a questão do petróleo, cujo controlo tem servido de pretexto para guerras e conflitos, como bem sabemos. Fixemos apenas na questão da fome e do progressivo empobrecimento dos países dependentes do capitalismo mundial.

Como vem sendo notado, a humanidade encontra-se numa crise económica e social, de uma escala sem precedentes. Muitas economias nacionais estão em colapso e o desemprego aumenta em flecha. A fome agrava-se na Africa subsaariana, no sul da Ásia e em muitas regiões da América Latina.

Michel Chossudovsky, num livro conhecido, - “A Globalização da Pobreza” - considera haver dois aspectos interrelacionados que determinam a actual crise alimentar global. Em primeiro lugar, a reestruturação económica global que tem contribuído para baixar o nível de vida, tanto nos países em desenvolvimento, como nos países desenvolvidos.

Em segundo lugar, as condições de pobreza de grandes massas humanas têm sido exacerbadas e agravadas pela recente subida nos preços dos cereais que, nalguns casos, chegaram à duplicação do preço dos produtos alimentares básicos. Estas brutais subidas de preços resultam, sobretudo, do comércio especulativo nos produtos alimentares.

De facto, os rendimentos dos agricultores, tanto nos países ricos como nos países pobres, são espremidos por um punhado de empresas globais agro-industriais, que controlam, simultaneamente, os mercados de cereais, os abastecimentos agrícolas, as sementes e os alimentos processados. E, no entanto, a agricultura mundial tem, pela primeira vez na história, a capacidade de satisfazer as necessidades alimentares de todo o planeta.

Assim, a “globalização da pobreza” – contrariamente, ao que é veiculado na comunicação dominante - não é fenómeno recente; pelo contrário, é consequência do processo de reestruturação do “mercado livre” do início dos anos 80 e das brutais reformas económicas imposta pelo FMI – Fundo Monetário Internacional aos países do Terceiro Mundo ou em vias de desenvolvimento.

A partir dos anos 90, a crise alargou-se a todas as regiões do mundo, incluindo a América do Norte, a Europa ocidental, os países do antigo bloco soviético e aos “países recém-industrializados” do sudeste asiático e do extremo oriente.

A pobreza e a subnutrição crónica são condições inerentes ao sistema capitalista. As recentes subidas dos preços alimentares contribuíram apenas para exacerbar e agravar a crise alimentar. A proclamada “nova ordem mundial” alimenta-se, fundamentalmente, da pobreza de muitos para benefícios de uns poucos...

Como consequência, há milhões de pessoas em todo o mundo que se encontram impossibilitadas de adquirir alimentos para a sua sobrevivência. Segundo a FAO, o preço dos cereais aumentou 88% desde Março de 2008. O preço do trigo aumentou 181% num período de três anos. O preço do arroz aumentou 50% nos últimos três meses...

Estes aumentos brutais dos preços dos alimentos estão a contribuir, sem qualquer retórica, para a “eliminação dos pobres” através da “morte pela fome”. Pessoas descartáveis, portanto. Modernas formas de genocídio, com que o capitalismo “brinda” a Humanidade...

Kissinger, na sua brutal afirmação, arrisca-se a figurar como inspirador dos modernos campos de extermínio, não vos parece?! ...






quinta-feira, maio 08, 2008

Orquesta Sinfonica Juvenil Simon Bolivar - PROMS 2007

... no âmago do Desejo - uma legenda!

Uma legenda...

dizem-me velhos alfarrábios
que na natureza nada se perde e tudo se transforma
assim eu cadinho de emoções cultivo meu jardim
no desprendimento da água que corre
sem saber se é vida ou letal veneno ...

e da interrogação guardo apenas o momento
breve que seja ou fantasia adiada sem remorsos
pagão de mil desejos como frutos
ou condensação de calcários...

não me queixo, nem lamento
nem ufano me exponho a glórias fúteis
sei que para além de ti e de mim um qualquer lavoisier
no âmago do Desejo irá inscrever um dia a legenda
que o sonho se ergue do sonho calcinado...

quarta-feira, maio 07, 2008

Cegueira Lusa...

O blog Cegueira Lusa promove um interessante jogo, que consiste na votação do melhor blog do mês. Conforme José Carreira refere, em amável comentário, o "Relogiodepêndulo" mereceu a distinção do melhor blog do mês de Abril. Agradeço ao amigo José Carreira e aos meus votantes a distinção, que seguramente não terá correspondência em potenciais eleitores... rss


Grato.

domingo, maio 04, 2008

In illlo tempore: um melro...

O rapaz, nesse dia, fizera gazeta!...Que raio de ideia essa de ir à Escola, quando no alto dos negrilhos caprichavam mil cores de um sol primaveril, prenhe de desejos, sabe-se lá de quê!...

Coaxavam rãs no regato e soltavam-se lírios selvagens nas encostas. Mas nem uns nem outros, naquele dia, mereceram mais que um pedra atirada, fazendo silenciar os juncais...

Os lírios, sim, estivera tentado!... Sabia que mereceriam um beijo longo e doce e os dedos nos cabelos, que tanto o arrepiavam de afecto, quando os despejasse no regaço da mãe, com desprendimento: - “toma, mãe, colhi para ti!”...

Mas que justificação daria?!... Não, mais valia prosseguir ...

O destino era um melro negro e cantador, que o desafiava todos os anos, entre silvados, e que era motivo de chacota lá em casa, com o “Zé Fardela”, na sua ternura boçal, a espicaçar, trocista: -“ Já acertaste com o melro, Manel?! Querem ver que o sacana do pássaro ainda vai fazer o ninho no teu buço e, mesmo assim, não és capaz de o descobrir!...”

Enchera-se, portanto, de brio o rapaz. Desta vez, tinha que ser. Mas ninguém saberia. Aquilo era desafio solitário : de homem para melro!...

Esgadanhou as mãos em silvados, trepou frondosos freixos e, titânico, prosseguiu manhã fora. Na ponta dos galhos o melro, com seus trinados, desatinava-o, na sua malvadez trocista. A cada aproximação, sem se dar por achado, o melro voava cada vez mais longe...

Frustrado, adormeceu sob a copa protectora de uma árvore centenária durante minutos, que, no sono, foram horas. Levantou-se inquieto e, qual melro alvoroçado, ergueu-se espavorido...

Então, sobre a sua pobre cabecita de castanhos caracóis, o esvoaçar inesperado do casal de enamorados melros. Lá estava o ninho, ali mesmo, sem dar por nada, como se fora dádiva do Céu...

Durante toda a Primavera, o rapaz vigiou seu tesouro secreto. E ainda hoje se emociona com o cantar trocista dos melros na sua memória! Ironicamente, sabe agora que “aquilo que é verdadeiramente nosso, em nossos braços vem cair”, como a mãe lhe dizia para acalmar juvenis ansiedades...

Hoje, porém, os lírios são outros. São lírios da eterna saudade!...

sábado, maio 03, 2008

A raça da direita... e a tibieza do PS.

Recentemente a Direita chumbou, na Assembleia Municipal de Lisboa a atribuição do nome de Rogério Ribeiro a uma das Ruas da Cidade. Não seria um nome oportuno! Era o nome de um homem de paz, de um dos mais notáveis artistas plásticos contemporâneos.

Hoje contudo, apresentou e aprovou, na Assembleia da República, o voto de pesar pelo desaparecimento do Cónego Melo, uma personagem sinistramente beata, que até entre os sectores progressistas da Igreja causava calafrios.

Com a sua morte, o país não ficou mais pobre, nada de bom no nosso passado recente lhe é devido. Lamenta-se a morte, claro. A morte de alguém nunca deve ser motivo de regozijo , mas as honras públicas devem estar reservadas àqueles que a colectividade quer mostrar como exemplo. Por isso, não se justifica o voto do PS na Assembleia da República. Não é verdade que a aprovação deste voto de pesar não aqueça nem arrefeça. ...

Quanto ao visado, frio está e frio permaneça, porque fria e cruel era a sua visão do mundo.

Em suma, a Direita mostra a sua raça e o PS a sua desorientação!


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Publicado por meu amigo O MARQUÊS DA PRAIA E MONFORTE em

http://palaciodomarques.blogspot.com/