terça-feira, abril 29, 2008

Mireille Mathieu- Chant des Partisans subtitles

"Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência..."

Aos que vão nascer...

É verdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrível notícia.

Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,
Não estará já disponível para os amigos
Em apuros?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido)
Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água falta a quem morre de sede? E apesar disso eu como e bebo.
(...)
É verdade, vivo em tempo de trevas!

Cheguei às cidades nos tempos da desordem. Quando aí grassava a fome
Vim viver com os homens nos tempos da revolta. E com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
(...)

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer.
Mas os senhores do mundo
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

As forças eram poucas. A meta estava muito longe
Claramente visível, mas nem por isso ao meu alcance.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

Vós, que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundámos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo de trevas
A que escapastes.

Pois nós (...)
Atravessámos as lutas de classe, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.

E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.

Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.

Bertolt Brecht

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Sejamos então a terra. A semente. O húmus...
Viva o 1º de Maio!...

sábado, abril 26, 2008

Traz Outro Amigo Também - José Afonso

Aos meus Amigos(as)...

Em especial aos meus amigos(as) brasileiros(as) (saravah Olivier!) e de toda a Sul América pelo "tanto mar" que nos aproxima...

Lágrimas de Crocodilo, precisam-se!...

“O fascismo nunca existiu!...” A célebre boutade proferida, logo após o 25 de Abril, por um conhecido intelectual residente em França, onde tem cátedra universitária, tem sido recorrente na nossa comunicação social. E a carga irónica inicial, que subvertia o sentido literal do enunciado, fechou-se agora no seu significado facial, num claro propósito de branqueamento.

De facto, nos meios de comunicação social dominante, ao longo das últimas décadas, têm sido constantes as afirmações de que não houve fascismo em Portugal, no longo período de 1926 a 1974. Historiadores, sociólogos, politólogos e outros cientistas sociais juram a pés juntos que o regime não foi fascista, preferindo, em seus argumentos, expressões como “Estado Novo”, “antigo regime” ou “regime ditatorial”...

Porém, factos são factos. Que outro nome chamar a uma ditadura que edificou um Estado policial e totalitário e condenou à miséria, ao sofrimento, à ignorância e ao obscurantismo gerações de portugueses? Que outro nome dar à repressão criminosa com tribunais especiais, prisões políticas e campos de concentração e que não hesitou em assassinar, quando considerou ser necessário?!...

Como qualificar o gesto simbólico de Salazar manter, na sua secretária de trabalho, o retrato de Mussolini, junto do qual, aliás, se fez fotografar? Ou então ter proclamado três dias de luto nacional pela morte de Hitler? E, noutro plano, o apoio explícito ao ditador Franco durante a guerra civil de Espanha, sem o qual outro teria sido o resultado do conflito?

Que dizer do Estatuto do Trabalho Nacional e das diversas Corporações Nacionais, copiadas das instituições fascistas italianas, designadamente, da “Carta del Lavoro”? E as estruturas paramilitares, como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa, nas quais se procurava enquadrar e doutrinar a juventude, os trabalhadores e a sociedade em geral?

Parece óbvio que negando-se o fascismo, se procura desmentir a acção de todos os que heroicamente a ele se opuseram, desde a primeira hora e, assim, negar o “corte” estrutural na realidade sócio-política portuguesa, decorrente do impacto político da Revolução de Abril, que muitos gostariam tivesse sido, noutro contexto, “a evolução na continuidade” marcelista.

Claro que este “apagamento da memória” e este relativismo conceptual ou as proclamadas objectividades científicas de branqueamento do fascismo têm efeitos deletérios na sociedade portuguesa. Desde logo, o desmerecimento da política e o sentido lúdico da sua prática. Pois não era Salazar quem abominava a política e quem proclamava o “sacrifício” da governação?

O slogan fascista “se soubesses quanto custa mandar, gostarias mais de obedecer”, perseguia a sociedade portuguesa, desde as escolas aos locais de trabalho, como fundamento de conformação social.

E quem ignora que tal magistério ainda hoje tem “cultores” na vida pública portuguesa? Pois não é verdade que nos mais altos lugares do Estado são ocupados por políticos que arrenegam ser “políticos profissionais”? E que a dita sociedade civil esta repleta de “génios” (políticos) que privam a Pátria do seu(s) talento(s) pelo desdém da política e pelo “sacrifício” da devoção à causa pública?

Claro que a isto tudo se associam ainda outros factores de descrédito, como as promessas não cumpridas e bloco central de interesses instalado na sociedade portuguesa. Mas digam-me, com este “caldo de cultura” e semelhantes modelos sociais, que esperar da juventude?

A mais completa indiferença, já se sabe... Mas então que não chorem lágrimas de crocodilo aqueles que são os responsáveis por tal estado das coisas!...

segunda-feira, abril 21, 2008

"25 de Abril, Sempre!..."

Derramam-se na cidade...

Rubros os mastros. E as colinas.
Nas ruas confluências
De abraços. E de pétalas...

Derramam-se na cidade rios e memórias.
E os murais...

Soltam-se os poetas.
Em gesto largo sobre o gume dos olhares
Maiakóvski – vindo de um Futuro grisalho
De tanta saudade e teimosia! –
Abre-se no palco...

E grita no seu jeito gutural e bárbaro:
-“Este é o meu Povo. Ainda!...”
A seu lado a Mulher de Vermelho
Soletra a lágrima da fome
E a criança loira das espigas...

E então
- palavra de cristal em riste! -
Arranca os olhos e rasga-se na febre
E vê agora a chama pitonisa
Erguendo-se na aurora dos dias que hão-de vir...

Na densa nuvem
A multidão ignara ri e chora...

E o velho caminheiro andrajoso -
De fadigas e da idade - sobe então ao mais alto mastro
E a(s)cende em lume o rubro das bandeiras...

Fremente em seu grito de sangue:

- “Viva a Liberdade!...”

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Vamos comemorar o “25 de Abril”. Sair à rua. Nas avenidas e praças do País. Talvez encontrem a Mulher de Vermelho no olhar firme de uma jovem mãe desempregada ou com contrato de fome (a prazo). Ou então Maiakóvski ébrio de cor. Ou o velho caminheiro levando pela mão uma criança...

sexta-feira, abril 18, 2008

SEARA NOVA - Outras sáfaras ...

Reconhecidamente, o sistema capitalista encontra-se em fase de perda; a constatação desta realidade não implica, porém, que possa estar iminente a sua superação. Como a experiência histórica demonstra, "o capitalismo não é um sistema destinado ao colapso, nem à harmonia eterna"...

Porém, a actual crise do sistema capitalista e o seu modo de funcionamento tendem a modelar as relações sociais e políticas, no sentido do aprofundamento sistemático das desigualdades sociais, que apenas pode ser imposto, mediante recurso a modernas formas de coerção.

Como tem sido notado, a democracia representativa tem servido, na perfeição, aos desígnios da actual fase de desenvolvimento capitalista, fundamentalmente, como elemento de agregação ideológica do sistema. De facto, nunca, porventura, como hoje, se falou tanto de democracia. Nem as liberdades cívicas e políticas foram tão enfaticamente proclamadas...

Uma e outras são apresentadas como a “coroação” do devir social e político da Humanidade, como se do fim da História se tratasse. Assim, em seu nome, se têm desencadeado as maiores barbaridades e se oprimem povos e Nações. E, entretanto, na “teatralização” da democracia, que se pretende impor, sem consideração pela história e pela cultura dos diversos povos, vicejam os valores do mercado e prospera o poder dos interesses económicos e financeiros do capitalismo mundial.
(...)

Esta será, portanto, a contradição actual. Por um lado, a proclamação enfática dos valores da liberdade e da democracia; e, por outro, os constrangimentos dos direitos individuais e colectivos dos cidadãos, determinados, naturalmente, pela natureza exploradora do capitalismo e sucessivas crises do sistema, que fazem cada vez mais vítimas e que é necessário manter conformadas...

Neste contexto, é reconhecida a indiscutível “plasticidade” do sistema capitalista, quer dizer, a sua permanente adequação às condições históricas concretas. Por isso, a dominação capitalista não se exerce, presentemente, na derrogação ostensiva dos direitos, liberdades e garantias, que constituem acervo histórico da Europa e do chamado mundo ocidental.

Pelo contrário, como se referiu, estes valores são exacerbados e apresentados, como modelo, urbe et orbe, enquanto que, no terreno concreto da sua aplicação, estes mesmos direitos são objecto de usura permanente, em nome da sustentabilidade do sistema e da superação do seu declínio.

E, se é certo que os Estados democráticos - até agora suporte e destino da cidadania e dos direitos individuais e colectivos - ainda prevalecem, a verdade é que estão cada vez mais condicionados pelas razões e pela lógica do capitalismo global. Ora, como bem se sabe, a lógica do dinheiro e do lucro não se compadece muito bem com as “minudências” da democracia...

Claro que em Portugal, país periférico do sistema capitalista mundial, as razões expendidas projectam-se de forma ainda mais explícita. O desenvolvimento económico implica acumulação de capital e a esse objectivo se têm sacrificado os salários e o emprego sobre os quais se faz recair a factura da recuperação da economia.Nestes termos, em obediência à cartilha neoliberal e às proclamadas restrições económicas e financeiras, são os direitos sociais que estão na primeira linha de ataque.

Nada de novo, porém.

Na óptica do liberalismo dominante, é expectável que sobre os trabalhadores e os direitos sociais, recaíam os custos da recuperação da crise da economia. A novidade será a “violência da receita” e o fosso, cada vez maior, das desigualdades económicas e sociais que semelhante receita provoca e a consequente insatisfação e a revolta dos cidadãos.

Talvez aqui, portanto, residam as causas da usura permanente dos direitos cívicos e políticos e este processo gradual de cerceamento das liberdades e esvaziamento da democracia, a que se assiste. A coerção social, face à violência da crise do sistema, irrompe pelo núcleo central de direitos políticos que constituem o cerne da cidadania, limitando os seus efeitos e restringindo a acção cívica dos cidadãos.

Os exemplos não faltam.(...)


In SEARA NOVA - nº 1703 – Primavera de 2008.

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Bom fim-de-semana.

Exorto-vos a outras sáfaras. Leiam, assinem e divulguem a revista de intervenção cívica SEARA NOVA.

Saiu o número de Primavera 2oo8. Vale a pena...

terça-feira, abril 15, 2008

Direitos subalternos?...

Nunca, em anos recentes, se terá falado tanto dos “direitos fundamentais” da pessoa humana, como nos dias de hoje. Julgo, no entanto, que também, nunca como hoje, os direitos humanos terão sido tão despuradamente postergados.

Leio, entretanto, que a ONU, através do seu Conselho de Direitos Humanos, se propõe discutir, brevemente, um protocolo adicional ao Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos e Sociais, em cuja redacção terá tido papel destacado uma jurista portuguesa.

O referido Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos e Sociais, consagra direitos básicos de subsistência e desenvolvimento, como o direito à alimentação, a uma vida condigna, à habitação, a cuidados de saúde, à água, à segurança social, ao trabalho, à protecção da família.

Pretendeu este Pacto preencher uma lacuna, velha de 60 anos, da Declaração Universal dos Direitos do Homem, tendo em vista colocar em pé de igualdade os direitos económicos e sociais (direitos humanos de 2ª geração) com os direitos cívicos e políticos (direitos humanos de 1ª geração).

O protocolo opcional, de que agora de fala, pretende introduzir na ordem jurídica internacional a possibilidade dos cidadãos poderem queixar-se, junto dos órgãos próprios das Nações Unidas, contra os respectivos Governos, em caso de desrespeito dos direitos económicos e sociais. Como, actualmente é possível, nos casos de tortura, pena de morte, liberdade de expressão ou de religião e violação dos direitos cívicos e políticos (“habeas corpus”, por exemplo).

Reconhece-se, sem dificuldade, que o sistema está um pouco desequilibrado. De facto, na opinião pública dominante e na ideologia jurídica será mais grave ser vítima de tortura ou de violação da liberdade de expressão, do que ser vítima de fome crónica. O protocolo, portanto, visa colocar as duas gerações de direitos humanos ao mesmo nível.

Saúda-se, portanto, a iniciativa. Mas os juristas pouco contam na matéria. O que conta, sobretudo, é a vontade política e bem sabemos, quanto a política é prisioneira dos interesses económicos. E, nesta perspectiva, será fácil convencer as opiniões públicas que é “mais fácil aos governos assegurar o voto, do que a alimentação”... Pois não é verdade, que tantas vezes se afirma (e aceita!) que os direitos económicas, sociais e culturais são de realização progressiva e que, como custam dinheiro, a sua realização depende dos recursos disponíveis?

Os direitos civis e políticos foram separados à nascença dos direitos económicas, sociais e culturais. Os direitos chamados direitos cívicos e políticos foram considerados os direitos do “ocidente”, preocupado com as liberdades, enquanto os direitos económicos e sociais foram considerados com “direitos do socialismo”. Portanto, subalternos...

Querem melhor exemplo que a nossa realidade? Portugal, com a Revolução de Abril, não necessitou de qualquer “protocolo opcional” para consagrar os direitos económicos e sociais na ordem jurídica portuguesa. Ainda hoje, apesar dos sucessivos golpes, que foram outras tantas revisões, a Constituição da República Portuguesa, mantém os direitos económicos e sociais no acerbo dos direitos fundamentais, ao lado dos direitos cívicos e políticos. E com a mesma força vinculativa, que decorre directamente da Constituição, sem necessidade de qualquer lei ordinária mediadora...

E, no entanto, os nossos Presidentes da República (todos eles), que no acto solene da tomada de posse juram “cumprir e fazer cumprir a Constituição”, ostensivamente a têm desrespeitado por omissão, por não promoverem e defenderem os direitos económicos e sociais, como seria mister da sua alta magistratura...

As razões? Não tenho dúvidas que são ideológicas, encobertas pelos persistentes e insistentes argumentos de natureza económica. Os argumentos de natureza económica, deixam, porém, a descoberto a singela realidade de que ninguém contabiliza (e ainda bem) os custos que a realização dos direitos cívicos e políticos...

Mais que obra de juristas, o reconhecimento na ordem jurídica dos direitos económicos e sociais é resultado da luta dos trabalhadores e dos Povos e se, presentemente, voltam a ordem do dia será porque a realidade mundial assim o exige. E ainda bem que voltam, pois poderão constituir um valioso instrumento de luta política.

Como o próprio FMI reconhece, em todo Mundo centenas de milhares de pessoas são vítimas da fome. A situação tornou-se explosiva, em grande parte da humanidade, com o recente aumento dos preços dos cereais, que a actual crise do capitalismo mundial, veio desencadear.

Haverá, por isso, que “anestesiar” a situação, projectando para os fóruns internacionais a questão dos direitos económicos e sociais, como direitos fundamentais. O que, com evidência, revela que a "ideologia é a relação inversa com a realidade"...

Milhões de pessoas passam fome? Crianças dizimadas por má nutrição?!.. Dá-se-lhes o direito de protestarem na ONU contra os seus governos...

Reconfortante, não acham?!...

sexta-feira, abril 11, 2008

Violeta Parra - Gracias a la Vida

Gracias a la vida!

Em louvor da vida...

Gosto de gente. De pessoas anónimas, por vezes próximas, respirando no mesmo ritmo. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nadas que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que “exigem” que os soltemos, de tão intensos!...

Gosto de gente anónima. Dos seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do meu Povo!...

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue e o cepticismo cria raízes. E uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surge, tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada, que nos humaniza e reconforta. Que nem sempre estamos disponíveis para ver. E que outras vezes, porém, guardamos em refrigério de alma!

Falo-vos de uma viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré, tempos atrás. Na curta distância, cenas para um retratista, que não sou! - o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta.

Nada diferente de outras viagens. Até que uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face as intempéries e os balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!).

Acomodou-se a “minha” jovem Madalena (era, de certo, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse sua “divina” maternidade, a jovem soltou da blusa o seio (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dádiva...

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Ternuras caladas e inesperados silêncios. Orações pagãs em cada sorriso. E a minha alma cansada e entoou, então, um cântico de louvor à vida!...


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Bom fim semana!...
Retemperem energias. Para a semana há mais...

segunda-feira, abril 07, 2008

Do “horror económico” à “miséria” da política...

O célebre especulador financeiro George Soros, no seu livro “A Crise do Capitalismo Global – A sociedade aberta ameaçada”, após crítica documentada ao capitalismo global e à ideologia que a suporta, profere a seguinte interrogação de ressonâncias dramáticas: “Qual a dose de mercado que a democracia pode suportar?...”

A resposta à pergunta torna-se necessária e urgente, pois são recentes os tempos em que a chamada economia de mercado era o alfa e o ómega da democracia... Contudo, a realidade é bem outra. Nem o desmantelamento do muro de Berlim foi o “fim da história”, nem democracia e capitalismo são os tais “irmãos siameses”, que se alimentam da mesma seiva e cujo desenvolvimento é base da prosperidade e bem estar da Humanidade...

E, se é verdade que o desígnio político da Europa ocidental do pós-guerra, por pressão da alternativa socialista da URSS, (independentemente dos juízos de valor que tal “modelo” possa merecer) foi a tentativa de encontrar, entre esses dois pólos, o equilíbrio adequado, no contexto da realização do chamado “Estado Providência”, hoje, não há dúvida, que esse equilíbrio se rompeu a favor do mercado e dos poderosos, que beneficiam da globalização da economia mundial.

Com o cortejo de horrores e corrosão moral, que salta aos olhos dos mais cépticos e que os mais cínicos não ignoram...

Na sua brutalidade, o neoliberalismo e a ideologia da globalização abalam os alicerces da sociedade, assente até agora no trabalho e nos valores sociais que lhe são inerentes... O carácter predador do capitalismo, com a subida espectacular das cotações e lucros das empresas, a descida dos salários, benefícios e subvenções sociais, o aumento do desemprego tem como reflexo a decomposição das sociedades, com a marginalidade e o crime a assumirem, em todo o mundo, proporções endémicas ...

Na pátria do capitalismo, por exemplo, no Estado da Califórnia, - novo eldorado das tecnologias da informação e de empresas mundiais de enorme sucesso - as despesas com as prisões ultrapassam o orçamento total da educação; cerca de 28 milhões de pessoas, (mais de 10% da população!) vivem em edifícios ou em bairros protegidos por guardas armados, com os quais os norte-americanos gastam duas vezes mais dinheiro para se protegerem que o Estado gasta com a polícia...

Estamos, pois, no domínio de plena irracionalidade social...

Qual o papel do Estado e da política nesta nova emergência?!... Refere George Soros, na obra citada: “para dizer a verdade, a ligação entre capitalismo e a democracia é bastante ténue. O capitalismo e a democracia obedecem a princípios diferentes: no capitalismo o objectivo é o lucro, na democracia é a autoridade política (...) e os interesses supostamente servidos são também diferentes: no capitalismo, são interesses privados, em democracia é o interesse público”...

Nenhuma novidade. O que, porventura, tem significado é a circunstância de se tratar de afirmações de um dos mais destacados cavaleiros das especulações bolsistas, convertido à voluptuosidade do filantropismo.

E, se a globalização capitalista põe em crise a ideia de Estado, a crise do Estado é indissociável da crise política e da crise de cidadania... De facto, nunca como hoje, se falou tanto em direitos humanos e direitos fundamentais dos cidadãos. E, também, em tempos recentes, nunca como hoje, os direitos fundamentais foram tão preteridos... O que demonstra, à evidência, que a ideologia é a “expressão invertida da realidade...”.

Haverá apenas a acrescentar que são medo da despromoção social, da perda de emprego e de direitos sociais, que alastram nas sociedades capitalistas e “a angústia que eles inspiram”, quem torna os cidadãos dóceis e conformados. Mas cujo cerco, por entre dificuldades e incompreensões, os trabalhadores e os povos de todo Mundo, convictamente, se propõem romper.

Como demonstram, à escala nacional, as mais recentes manifestações dos trabalhadores portugueses...

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Um texto da “pesada”, certamente!...

Ah, pois! ... Julgavam que “isto” ficava pelos poeminhas?!... rss

Beijos e abraços.

sexta-feira, abril 04, 2008

(Des)ajeitando um poema...

Declina este silêncio a voz da tarde
Que sobre o Tejo embala caravelas.
Guindastes frios chorando primaveras
Aventuras em farrapos pelo molhe...

Cravo e canela. Era outrora miragem
Do sangue o que é hoje azul perdido.
Não era glória: era apenas o sentido
De partir sem receio de ancoragem ...

Não mais bandeiras desfraldadas na janela
Nem olhares cativos em cada espera
Do marinheiro em louros celebrado...

Ó Pátria minha, agora! Mimética altivez
Em tempo prisioneiro do deserto de Fez:
- Sonho de sonho, ora perdido, ora achado...

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Bom fim de semana...

terça-feira, abril 01, 2008

Na outra margem...

Gosto de locais e pessoas com carácter. Por vezes, são apenas ligeiríssimas marcas, que traçam as linhas de fractura da “arqueologia” dos tempos sociais sobrepostos. No outro lado do rio, Cacilhas ou a Trafaria, são dois desses locais de culto.

Ontem almocei em Cacilhas. Almoço de Domingo de famílias completas - avós, filhos e netos à mesma mesa. O encontro semanal das solidões compartilhadas no breve espaço da refeição. Incontornáveis aqueles rostos-testemunha, abertos ao exorcismo da memória. Os velhos de rugas marcadas e de olhar alto, órfãos de Alex e de Bento Gonçalves, perscrutam a minha mesa, com a altivez e dignidade. São velhas árvores que morrem de pé!... Os filhos saídos do bojo dos estaleiros ou do arsenal, barcos carcaças nas margens do progresso e da reconversão económica, afogam na espuma da cerveja, a utopia mobilizadora de outrora. Os filhos, adolescências sem fronteiras - a cidade do outro lado, em incursões nocturnas e brinco na orelha. A ganga, agora, é “t shirt” em algodão de feira!...

( Donde esta minha dor?!...)

Corria em passo de trote (qual cavalo amestrado em picadeiro) o empregado de mesa. Não andava de pressa, corria mesmo, em passo de corrida, cadenciado, sem um momento, sequer, perder o ritmo por entre as mesas. Ligeiramente corcunda. Quarenta anos, talvez!... Longe o tempo de “marçano”, subindo escadas e galgando ruas com os caixotes de mercearia às costas. Empregado de mesa era seguramente uma promoção social...

Fixei-me no homem, seguindo as evoluções circenses de pratos e travessas. Tentando (re)escrever, na minha fantasia, o percurso da sua vida e vislumbrar onde o homem teria chegado na sua determinação, se porventura tivesse sido “outra pessoa”, quer dizer, tivesse tido outras condições de vida. Enfim - desabafava eu intimamente – “o homem é ele e a sua circunstância”. E, talvez, por aí me ficasse, descendo ao peixe grelhado e ao vinho branco...

Então, minha mulher que conhece os meus silêncios e, por formação, a morfologia da repressão e do medo, intromete-se no meu desvario: - “já imaginaste os estalos que este homem apanhou em criança para, nesta idade, correr assim, com tanto zelo?!”...

(Uma gorjeta calará a minha angústia?!...)