quarta-feira, fevereiro 27, 2008

De Regresso às "Farpas"...

"SR. MINISTRO DO REINO

Ex. mo sr. ministro do reino:

O estado em que se acha em Portugal a instruc­ção leva-me a dirigir a V. Ex.a o seguin­te aviso:

Se a instrucção secundaria não fôr immediata­mente reformada, este ramo do ensino publico aca­bará dentro de póucos annos. A frequencia dos lyceus nacionaes, como V. Ex. a verá das respectivas estatisticas, diminue de anno para anno. Pouco tempo mais, e os alumnos terão desapparecido inteiramente.

Ainda uma derradeira experiencia e ninguem mais quererá em Portugal entregar ao Estado o ensino de uma creança. Esta abstenção é a mais vergonhosa das revoluções que podem atacar uma instituição. É a oppo­sição pelo desdem, é a revolta pelo desprêzo.

E no emtanto todos desejam instruir seus filhos; o numero dos alumnos propostos a exame augmen­ta extraordinariamente; os collegios são maus; os cidadãos são pobres; o Estado faculta a instrucção gratuita n'um collegio que deveria considerar-se mo­dêlo; pois bem: ninguem quer essa instrucção!
(...)
Quaes as razões d'este desprêzo pelo ensino offi­cial? As seguintes:

1° Porque não ha um edificio para as escholas,

2. ° Porque as casas em que ellas existem provi­soriamente são immundas, de um aspecto vicioso, relaxado, desmoralisador. (...) A direcção superior do estabelecimento intelligente e zelosa não tem meios de remediar este estado.

3º Porque o régulamento dos cursos torna extre­mamente arrastado e moroso o ensino.

4.° Porque os compêndios adoptados são geral­mente absurdos e offensivos da intelligencia e do senso commum.

5° Porque não ha salas de estudo, sendo os alu­nos inteiramente abandonados pelos professores depois da hora da aula.

6. ° Porque ha cêrca de quatro mezes de férias, os quaes juntos a trinta e seis quintas feiras e a varios outros dias feriados reduzem o anno lectivo a seis mezes de trabalho.

Para transformar este lastimoso estado do ensino se­cundario na primeira cidade do reino é urgentissimo:

1.º Que V. Ex.a mande levantar um vasto edificio com todas as condições de ventilação, de luz, de aceio e de elegancia, indispensaveis n'um estabeleci­mento de educação publica.

2.° Que os programmas sejam de novo discutidos e reformados.

3.º Que sobre as bases do novo programma se abra concurso, para os compendios que houverem de ser adoptados, perante um jury de professores de instrucção superior.

4º Que se estabeleçam as salas de estudo, nas quaes o alumno deverá applicar-se durante tres horas pelo menos em cada dia sob a direcção do professor respectivo.

5º Que a hora de entrada no lyceu seja às oito horas da manhã e a sahida depois das quatro, não sendo permitido a sahir do edifício antes do prazo indicado, sendo o seu tempo distribuído de modo que elle tenha em cada dia: três horas de licção; três horas de estudo; duas horas de gymnastica e de solfejo em três dias da semana e nos outros três dias duas horas de trabalho mecânico

6.° Que todos os professores sejam obrigados a permanecer no lyceu durante cinco horas, pelo me­nos, em cada dia.
(...)
É urgente para a regeneração intellectual e mora da raça nacional profundamente abatida, apathica, enfraquecida, indifferente, que dos nossos lyceus desappareça o dogmatismo, o classicismo, a rheto­rica, a metaphysica, a oratoria, a theoria grammati­cal. E que estes conhecimentos, abstractos e inuteis, sejam substituidos pelas noções da cosmographia, da anatomia, da mechanica, da hygiene, da econo­mia politica e da economia domestica.

Que as lin­guas vivas se apprendam no intuito principal de as entender e de as falar. Que as licções se tornem, quanto seja possivel, experimentaes e praticas. Que sejam obrigatorias as visitas de estudo ás grandes manufacturas, aos arsenaes, ás alfandegas, ás gale­rias e ás repartições do Estado nas grandes cidades, e nas provincias aós estabelecimentos fabris, ás quin­tas regionaes, ás grandes e ás pequenas lávouras.

Os dinheiros do Estado não chegam para o gran­de augmento de despesa que este serviço demanda. É verdade isso, mas ha quanto tempo não chega o dinheiro do Estado para os gastos que elle empre­hende?! Não se está cobrindo o paiz todo de cami­nhos de ferro? Não será chegado ainda o momento, de olharmos um pouco para esta segunda viação: a viação do espirito?

O Estado em Portugal tira-nos da ignorancia ab­ccdaria para nos lançar em seguida n'uma ignorancia ainda mais perniciosa que a ignorancia dos anal­phabetos: a ignorancia resultante da falsa instruc­ção e da falsa sciencia.
(...)

De V. Ex.a
Alltigo amigo dedicado"
Agosto de 1875

Ramalho Ortigão - in “As Farpas” – Editor David Corazzi – 2º Volume- 1887

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Em português de lei. Para melhor apreciarem...

Solidário com a luta dos Professores. Mas será que as nossas Escolas apreciam Ramalho Ortigão?!...

sábado, fevereiro 23, 2008

Hasta Siempre

... encerrar, então, todos os prostíbulos!

... "as meninas não reformam o bordel"

...”as meninas não reformam o bordel!” previne-nos o consagrado V.P.V. na sua angustiada crónica de Sábado, 23.02.08, do jornal “Público”, zurzindo, como é seu timbre, os males da República e as requentadas receitas, agora pela serôdia voz da SEDES.

Pois não: as “meninas” limitam-se... a “ser meninas”!

Talvez, então, importe encerrar o prostíbulo para sarar os inquietos desabafos!...

Correndo riscos, que os nossos (in)orgânicos intelectuais abominam. Que resultam, porém!... Quod erat demonstrandum...
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“(...) A oferta da CIA a Sam Giaricana, chefe da máfia, e Santos Traficcante, líder do crime organizado de Miami, era quase simbólica: 150 mil dólares pela cabeça de Fidel Castro. Mas Giancana recusou-a: fá-lo-ia gratuitamente - a Revolução tinha expulsado os mafiosos de Chicago dos casinos, hotéis e prostíbulos de Havana.

- “Vamos fazê-lo à nossa maneira”! - proclamaram os mafiosos.

Mas dar um tiro em Fidel Castro, em Havana, depois da Revolução, não era tão fácil como fazê-lo numa rua de Detroit.

O laboratório da CIA, começou, então, a fabricar “remédios” contra o barbudo da Sierra Maestra, bastante diferentes da contundência habitual de gangsters como Giancana, que se iniciou na profissão como pistoleiro de Al Capone.

Talvez, por isso, nunca funcionaram: charutos impregnados de LSD, um creme hidratante que provocaria um enfarte, uma máquina radioactiva de raios X, que causaria um cancro incurável...

A série de fracassos de Giancana e dos seus encerrou a via da Máfia.

E nada mais se soube até que, em 1975, o gangster foi citado para prestar declarações perante a Comissão dos Serviços Secretos do Congresso para que relatasse os planos de assassínio de Fidel de Castro.

Nunca chegou lá... Foi assassinado quando saía de casa a caminho do Congresso...”

“O Homem que Nunca Morre”
– in “Expresso” – Revista – 23.02.2008
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Compreendam-me : “yó soy cubano!”... Sem angústias!

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Cheias e enxurradas....

Apesar das complicações e dos sofrimentos que poderá ter causado a alguns milhares de franceses, a inundação de Janeiro de 1955 teve algo de festa, mais do que de catástrofe. Antes de mais, ela deslocou certos objectos do seu contexto habitual, refrescou a percepção do mundo, inserindo nele pontos de referência insólitos e todavia explicáveis: pudemos ver automóveis reduzidos aos tejadilhos, lampiões truncados, só com a cabeça de fora a flutuar como um nenúfar, casas desmanteladas como cubos de crianças, um gato bloqueado durante vários dias em cima de uma árvore.

Todos estes objectos quotidianos apareceram de repente cortados das suas raízes, privados da substância razoável por excelência, a Terra. Esta ruptura teve o mérito de manter-se ao nível da curiosidade, sem ser magicamente ameaçadora: a toalha de água agiu como ilusionismo conseguido mas familiar, os homens experimentaram o prazer de ver formas modificadas, mas no fim de contas “naturais”, o seu espírito pôde manter-se concentrado sobre os efeitos sem uma regressão angustiada até à obscuridade das causas.


A cheia introduziu uma perturbação na óptica quotidiana, sem contudo a fazer derivar para o fantástico; os objectos foram parcialmente obliterados, mas não deformados: o espectáculo foi singular, mas dentro dos limites do razoável.

Qualquer ruptura um pouco pronunciada do quotidiano é uma iniciação à festa: ora, a cheia não escolheu nem deslocou apenas certos objectos, mas modificou a própria cinestesia da paisagem, a organização ancestral dos horizontes: as demarcações habituais cadastro, as cortinas de árvores, os alinhamentos de casas, as estradas, o próprio leito do rio, essa estabilidade angular que tanto facilita as formas de propriedade, tudo isso foi apagado, transposto do anguloso para o plano: não mais estradas, margens, direcções; apenas uma substância plana que não se dirige a parte alguma e que suspende assim o devir do homem, o separa de uma razão, de uma instrumentalidade dos lugares.

O fenómeno mais perturbador é, por certo, o próprio desaparecimento do rio: aquilo que está na origem de toda esta transformação deixou de existir, a água já não tem curso, a serpentina do rio, essa forma elementar da percepção geográfica que as crianças justamente tanto apreciam, passa da linha ao plano, os acidentes do espaço não têm já nenhum contexto, não há agora qualquer hierarquia entre o rio, a estrada, campos, os taludes, os terrenos incultos; a vista panorâmica perde o seu poder supremo, que é o de organizar o espaço como uma justaposição de funções.


É pois no próprio centro dos reflexos ópticos que a cheia vem introduzir uma perturbação.

(...) Paradoxalmente, a inundação deu lugar a um mundo mais disponível, manejável com essa espécie de deleite que a criança põe em servir-se dos seus brinquedos, em explorá-los e em extrair deles prazer. As casas deixaram de ser outra coisa que não cubos, os trilhos, linhas isoladas, os rebanhos, massas transportadas, e foi o barquinho, brinquedo superlativo do universo infantil, que se tornou o modo possessivo desse espaço estendido, desdobrado e não já enraizado.

Se passarmos dos mitos de sensações aos mitos de valor, a inundação guarda as mesmas reservas de euforia: a imprensa pôde desencadear muito facilmente uma dinâmica da solidariedade e reconstituir dia a dia a cheia como um acontecimento agrupador de homens.


Isso deve-se essencialmente à natureza previsível do mal: havia, por exemplo, algo de caloroso e activo na maneira como os jornais estabeleciam, com antecipação, o dia de máxima enchente; o prazo mais ou menos científico previsto para a eclosão do mal reuniu os homens numa preparação racional do remédio: barragens, diques, evacuações.

Trata-se da mesma euforia industriosa que leva a guardar uma colheita ou a roupa antes da tempestade, a içar a ponte levadiça num romance de aventuras, numa palavra, a lutar contra a natureza através da arma única do tempo.

Ao ameaçar Paris, a cheia pôde mesmo ver-se um pouco envolvida no mito de quarenta e oito: os parisienses ergueram barricadas, defenderam a sua cidade com a ajuda dos paralelepípedos contra o rio inimigo.

Este modo lendário de resistência exerceu uma grande sedução, apoiado por toda uma imagística do dique, da trincheira gloriosa, da muralha de areia que as crianças edificam na praia, lutando a toda a pressa contra a maré. (...) A imagem de uma mobilização armada, com o concurso da tropa, os barcos pneumáticos a motor, a salvação “das crianças, dos velhos e dos doentes”, a recolha bíblica dos rebanhos, toda a febre de Noé enchendo a Arca.


Porque a Arca é um mito feliz: a humanidade toma através dele as suas distâncias para com os elementos, concentra-se nessa tarefa e elabora a consciência necessária dos seus próprios poderes, fazendo emergir da própria infelicidade a evidência de que o mundo é manejável.”

Rolland Barthes – in “Mitologias” – Edições 70
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O mundo é manejável, dão-se conta disso?!...
Que outras enxurradas nos animem, então!... Aquelas que o País precisa!...

domingo, fevereiro 17, 2008

Capitalismo e Democracia...

O sistema capitalista encontra-se em fase de perda de dinamismo. A constatação desta realidade não implica, porém, que possa admitir-se estar iminente a sua superação ou, até mesmo, que esta seja previsível. Como a experiência histórica demonstra, “o capitalismo não é um sistema destinado ao colapso inelutável, nem à harmonia eterna”

Porém, a actual crise do sistema capitalista e o seu modo de funcionamento tendem a modelar as relações sociais e políticas, no sentido do aprofundamento sistemático das desigualdades sociais, que apenas pode ser imposto, mediante recurso a modernas formas de coerção.

Nunca, porventura, como hoje, se falou tanto de democracia. Nem as liberdades cívicas e políticas foram tão enfaticamente proclamadas. Umas e outras são apresentadas como a “coroação” do devir social e político da Humanidade, como se do fim da história de tratasse e, em seu nome, se têm desencadeado as maiores barbaridades e se oprimem povos e nações... E, entretanto, na “teatralização” da democracia, vicejam por todo o mundo os valores do mercado e prospera o poder dos interesses económicos e financeiros do capitalismo mundial.

Claro que a democracia representativa tem inquestionável valor intrínseco, que importa defender e aprofundar. A questão, porém, é que pessoas insuspeitas reconhecem ser muito ténue “a ligação do capitalismo à democracia”e se interrogam em que medida a democracia é compatível com os valores do mercado.

Esta será, portanto, a contradição – por um lado, a proclamação enfática dos valores da liberdade e da democracia; e, por outro, os constrangimentos dos direitos individuais e colectivos dos cidadãos, que , face às sucessivas crises, importa manter a todo o transe, conformados e submissos.

Neste contexto, é reconhecida a indiscutível “plasticidade” do sistema capitalista, quer dizer, a sua permanente adequação às condições históricas concretas. Por isso, a dominação capitalista não se exerce, presentemente, na derrogação ostensiva dos direitos, liberdades e garantias, que constituem acerbo histórico da Europa e do chamado mundo ocidental.

E, se é certo que os Estados democráticos – até agora suporte e destino da cidadania e dos direitos individuais e colectivos – ainda prevalecem, a verdade é que estão cada vez mais condicionados pelas razões e pela lógica do capitalismo global. Ora, como bem se sabe, a lógica do dinheiro e do lucro não se compadece muito bem com as “minudências” da democracia...

Claro que em Portugal, país periférico do sistema capitalista mundial, as razões expendidas projectam-se de forma ainda mais explícita. O desenvolvimento económico implica acumulação de capital e a esse objectivo se têm sacrificado os salários e o emprego sobre os quais se faz recair a factura da recuperação da economia. Nestes termos, em obediência à cartilha liberal e às proclamadas restrições económicas e financeiras são os direitos sociais que estão na primeira linha de ataque.

Nada de novo, porém.

Na óptica do liberalismo dominante, é expectável que sobre os trabalhadores e os direitos sociais, recaiam os custos da recuperação da crise da economia. A novidade será a “violência da receita” e o fosso, cada vez maior, das desigualdades económicas e sociais que semelhante receita provoca e a consequente insatisfação dos cidadãos.

Talvez aqui, portanto, residam as causas desta usura dos direitos cívicos e políticos e este processo de gradual cerceamento das liberdades e esvaziamento da democracia. A coerção social, face à violência da crise do sistema, irrompe pelo núcleo central de direitos políticos que constituem o cerne da cidadania, limitando os seus efeitos restringindo a acção cívica dos cidadãos.

Neste contexto, é de sublinhar a importância da CGTP-IN, Confederação Nacional dos Trabalhadores Portugueses, na defesa dos direitos sociais e políticos dos trabalhadores e dos cidadãos em geral e cujas conclusões do recente Congresso se saudam...

Memória Viva de Marx

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Outras Leituras - "O Príncipe..."

O principado é causado ou pelo povo ou pelos grandes, conforme um ou outros tenham a ocasião de seu lado; porque, vendo os grandes que não podem resistir ao povo, começam a fomentar o prestígio de um dos seus, e fazem-no príncipe, para poder à sua sombra satisfazer os apetites. O povo, também, vendo que não pode resistir aos grandes, cria a reputação de um, e fá-lo príncipe, a fim de que a sua autoridade o defenda.

Aquele que chega ao principado com a ajuda dos grandes mantém-se com mais dificuldade do que aquele que o atinge com a ajuda do povo; e isto porque, uma vez príncipe, se encontra no primeiro caso cercado de muitos que se julgam seus iguais, e a quem, por isso, não pode nem comandar, nem manejar a seu talante. Mas o que chega ao principado pelo favor popular, encontra-se sozinho no poder, e tem em torno ou nenhum ou pouquíssimos que não estejam dispostos a obedecer-lhe. Além disso, não se pode satisfazer aos grandes sem injúria de outrem, e ao povo sim; porque o objectivo do povo é mais honesto que o dos grandes, desde que o destes é oprimir e o do povo não ser oprimido.

Junte-se, ainda, que, contra o povo que lhe seja inimigo, não tem o príncipe defesa, por ser ele composto de muitos; e que, contra os grandes, se pode garantir por serem poucos. O pior que um príncipe poderá esperar do povo que lhe seja inimigo, é ser abandonado por ele; mas dos grandes, se inimigos, não só deve temer ser abandonado, mas também que eles o ataquem; porque, possuindo melhor visão e mais astúcia, sobra-lhes sempre tempo para se salvarem e procurarem insinuar-se junto daquele que esperam seja o vencedor.

Impõe-se ainda ao príncipe que viva sempre com o mesmo povo, enquanto bem pode acontecer que não esteja sempre com os mesmos grandes, desde que pode fazê-los e desfazê-los rodos os dias, e tolher-lhes ou dar-lhes, a seu talante, a reputação.

E para melhor aclarar este ponto, direi como os grandes se poderão considerar sobretudo de duas maneiras. Ou são governados de modo que em tudo estejam dependentes da fortuna do príncipe, ou não. Aqueles que ao príncipe se obrigam sem cupidez, devem ser honrados e amados; os que o não fazem, deverão ser considerados de dois modos: ou procedem assim por pusilanimidade e natural defeito de ânimo, - e então deverá o príncipe utilizá-los, sobretudo aos que são de bom conselho, para que na prosperidade o honrem e na adversidade não sejam de temer.

Mas quando não se liguem senão por artifício e por motivo de ambição, é sinal de que pensam mais em si mesmos do que no príncipe; e desses se deve o príncipe guardar e temer, como se se tratasse de inimigos declarados, porque sempre, na adversidade, ajudarão à sua ruína.

Deverá, portanto, aquele que se torne príncipe, mediante o favor do povo, conservá-lo seu amigo; o que lhe será fácil, desde que o povo nada lhe pede senão que o não oprimam...”

Nicolau Maquiavel – in “O Príncipe”- Ed. Guimarães Editores.

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Houvessem "príncipes" hoje em dia!...
Mas temos apenas “maquiavéis” de sarrabulho...

sábado, fevereiro 09, 2008

As bastonadas do Bastonário...

Deixo o nosso engenheiro nas suas “ingenharias” de agente técnico, lá para os lados da Covilhã e da Guarda, que seus intelectuais (in)orgânicos se afadigam a limpar, como “causa sua”, varrendo-as para debaixo do tapete, como verduras da juventude, quando, reconhecidamente, são questões sérias de ética profissional...

E porque de higiene se trata, prefiro falar-vos das bastonadas do Bastonário, que grosso e alto, denunciou perante as mais altas instâncias do Estado, os males da nossa República. Um verdadeiro serviço público. Que nunca “a voz lhe doa...”

Excertos do discurso do Bastonário da Ordem dos Advogados na Abertura do Ano Judicial, em 29-01-2008:

“(...) Na sequência das transformações democráticas, económicas e sociais decorrentes da Revolução do 25 de Abril de 1974, fizeram-se leis progressistas e generosas em matéria de direitos e garantias individuais, de entre as quais emerge, naturalmente, a Constituição da República Portuguesa, mas as suas concretas aplicações esbarraram sempre (...) com a incapacidade do sistema judicial em assimilar o sentido progressista e humanitário dessas leis.

As consequências estão à vista. As nossas cadeias estão cheias de pessoas oriundas principalmente dos sectores mais desfavorecidos da população. Temos uma das mais elevadas taxas de reclusão de toda a Europa senão mesmo a mais elevada. A pobreza e a exclusão social são as principais causas dessa triste realidade.

(...) Nas cadeias portuguesas, pessoas cumprem penas de dias de prisão, unicamente porque não têm recursos económicos para pagar a multa que substituiria essas penas. E como não têm dinheiro pagam-nas com a liberdade.
(...)
Há um sentimento generalizado na sociedade portuguesa de que o sistema judicial é forte e severo com os fracos e fraco, muito fraco e permissivo com os fortes. (...) Fazem-se negócios de milhões com o Estado, tendo por objecto bens do património público, quase sempre com o mesmo restrito conjunto de pessoas e grupos económicos privilegiados.


E muitas pessoas que actuam em nome do Estado e cuja principal função seria acautelar os interesses públicos, acabam mais tarde por trabalhar para as empresas ou grupos que beneficiaram com esses negócios.

(...)Existe na sociedade portuguesa um sentimento generalizado de que a corrupção e o tráfico de influências - dois dos delitos que mais ferem o Estado de Direito – se entranharam nas estruturas do Estado. Não há uma obra pública, seja qual for o seu valor, que seja paga, a final, pelo preço por que foi adjudicada. É sempre superior. (...)

Na Assembleia da República (...), nos seus gabinetes e corredores, circulam interesses de duvidosa legitimidade, envoltos em opacidade e mistério e que não raro se traduzem em opções legislativas, que ninguém compreende e ninguém esclarece.
(...)
Quem faz leis no Parlamento não pode estar ao mesmo tempo a aplica-las nos tribunais. Quem faz leis não pode ter clientes privados eventualmente interessados nessas leis, pois senão pairará sempre a suspeita legítima de que muitas delas possam estar mais voltadas para os interesses dos clientes de alguns dos legisladores do que para o interesse público e o bem comum.(...)”

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Quanto às “ingenharias” do nosso engenheiro, “se cá nevasse, fazia-se cá ´squi"!...

Valha-nos o sol. Não se deprimam. Bom fim-de-semana!...

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Revista de Imprensa - "Dicionário newspeak empresarial"...

O bem estar dos trabalhadores é importante para nós: “Vamos instalar vending machines no hall para não terem desculpas para ir ao café”.

A segurança dos nossos trabalhadores é uma prioridade: “Se essa porta não estivesse fechada vocês passavam o dia todo na rua a fumar”.

A mobilidade é um imperativo da produtividade: “Devemos ir para onde a mão-de-obra seja mais barata”.

A deslocalização é um imperativo logístico: “Os albaneses trabalham mais barato que vocês e ficam mesmo ao pé de Itália”.
(...) .
Nesta empresa, o mais importante são as pessoas:Custa-me imenso despedi-los a todos”.

Precisamos de libertar uma parte da nossa mão-de-obra: “Vamos despedir 200 tipos”.

Precisamos de reduzir os custos fixos: “Vamos despedir 200 tipos”.

Temos de apostar na flexibilidade: “Vamos despedir 200 tipos e contratar uns brasileiros a recibo verde”.

As promoções têm de ser fruto do mérito:As mulheres que engravidem podem esquecer a promoção”.

Os imigrantes têm óptima formação e forte espírito de equipa: “Como os ucranianos não estão legalizados não podem apresentar queixa”.

Precisamos de apostar no outsourcing:Não temos dinheiro para pagar aos nossos técnicos”.

Precisamos de vestir a camisola:Este ano não vai haver aumentos”.

O esforço de reengenharia está apenas a dar os primeiros passos:Ainda não. sabemos quantos empre­gados vamos despedir”.

Vamos iniciar um processo profundo de reestruturação: “É provável que sejam quase todos despedidos”.
(...)
Precisamos de sangue novo: “Como é que se chama aquela rapariga de mini-saia e óculos vermelhos que es­tava a sorrir para mim?” .

Temos uma forte consciência do papel social da nossa empresa:Estamos a tentar obter uns subsídios”.
(...)
Precisamos de renovar a lógica de organização da empresa:Vamos mudar o nome dos departamentos”.

Estamos a repensar a missão da empresa:Pagámos uma fortuna a uns consultores para desenhar um novo logótipo”.

Devíamos fazer um brain storming: “Não faço ideia”
(...)

Temos de repensar o nosso core business: “Tecnicamente estamos na falência”.

Precisamos de aumentar o share of mind da nossa empresa:Ninguém sabe que nós existimos”.

Fizemos um realinhamento estratégico:Pagámos uma fortuna a uns consultores que nos provaram que os consultores anteriores a quem tínhamos pago uma fortuna se tinham enganado redondamente”.

José Victor Malheiros - in “Público” de 05.02.08
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Consta que o Ministro das Finanças determinou a imediata aplicação em todos os serviços públicos destes princípios, tendo em vista o aumento da produtividade dos trabalhadores da administração pública.

E que nas “lojas do cidadão”, estão ser distribuídas edições luxuosas, em papel de bíblia, deste código de boa gestão, tendo em vista o exponencial aumento do PIB nacional.

Reconheçam que é obra!...

sábado, fevereiro 02, 2008

Máscaras e Tambores...

O senhor Presidente da República, com um sorriso mefistofélico, aconselhou os políticos a descontraírem-se nestes dias de Carnaval. Levemos à letra a sábia palavra de Sua Excelência e sigamos o exemplo dos políticos – descontraiamo-nos, pois!...

Sugiro, então, que depois de saboreados os corsos, pernas nuas e bundas falsamente brasileiras, no recanto da famílias, ao serão, enverguem máscaras e trajes, encenando este “infernal” diálogo...


MEFISTÓFELES:
(...) Ouves os tambores?

FAUSTO:
Guerra outra vez? Não agrada aos melhores.

MEFISTÓFELES:
Em guerra ou paz, eu sei o que é melhor:
Da circunstância proveito tirar,
Ao momento propício dar atenção. Ele chegou? Fausto, deita-lhe a mão!

FAUSTO:
Poupa-me a esses enigmas, por favor! Explica-te! Diz já o que há a fazer!

MEFISTÓFELES:
A minha viagem deu p'ra notar
Que está em apuros o bom do imperador. Já o conheces. Quando o divertíamos,
Falsas riquezas na mão lhe metíamos,
Pensava que o mundo era seu.
(...)

FAUSTO:
Erro fatal.

(...)

MEFISTÓFELES:
(...)Gozou como podia,
E agora o reino caiu na anarquia:
Grandes, pequenos, todos guerreando,
Irmãos perseguindo-se, matando,
Atacam-se castelos e cidades,
Guildas e nobres em luta, inimizades,
Bispo, povo e cabido desavindos,
Olham-se e pronto!, já são inimigos.
'Té nas igrejas morres, e diante
Das porras corre risco o viajante.
Cada um mais ousado se mostrava;
Viver? Não, defender-se! - E a coisa andava.

FAUSTO:
Andava - coxeou, caiu, ergeu-se,
Deu duas cambalhotas e perdeu-se!

MEFISTÓFELES:
E ai de quem ousasse censurar!
(...)
Mas um dia os melhores disseram: Basta!
Os mais capazes erguem-se, p' ra exigir:
Mandará quem a paz nos garantir!
Não o pode, não o quer o imperador?
Eleja-se outro, pr' o reino salvar,
A todos dando segurança
Num mundo novo, de mudança,
Que paz e justiça venha casar.

FAUSTO:
É conversa de padres.

MEFISTÓFELES:
E padres foram
Os que a anafada pança defenderam.
Mais que ninguém se meteram na alhada.
Cresce a revolta? A revolta é sagrada,
E o nosso imperador, que o céu lhe valha!,
Marcha talvez pr' a última batalha.

FAUSTO:
Que pena! Tão bom! E inspira confiança.”

(...)

JOHANN WOLFGANG GOETHE – in “FAUSTO” – Ed. Circulo dos Leitores.