quinta-feira, novembro 29, 2007

Um Desafio - Liberdade!...

A Helena F. Monteiro hfm teve a amabilidade de nomear este blog com o prémio “Escritores da Liberdade”. Um pouco arredio, (porventura preconceituoso) quanto a este género de iniciativas, sinto-me incapaz de fugir a este desafio.

Invocando-se a Liberdade para homenagear este blog, sinto-me sobejamente gratificado pelos textos que aqui tenho publicado e que têm merecido o vosso esclarecido interesse. Por isso, aceito, com gosto, dar continuidade a esta corrente, celebrando a Liberdade, com um belíssimo soneto do poeta Bocage.

Não se importará a Helena – estou certo disso – que a esta celebração, associemos uma saudação aos trabalhadores da Administração Pública, que dentro de horas estarão em greve, na defesa dos seus legítimos direitos.


Liberdade...

“Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh! Venha... Oh venha e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!”


Manuel Maria Barbosa du Bocage

Passo o testemunho a:

António Melenas - pela sua amizade e em memória de seu irmão, José Augusto Gouveia;
Mr. Pickwick - porque a Liberdade não tem fronteiras;
Lícinia Quitério - porque a Liberdade é feminina e a Lícinia é uma poetisa da Liberdade.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Revista de Imprensa...

"Meia dúzia de lavradores que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente.

Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da fastfood, para fechar portas e mudar de vida.

Os cozinheiros que faziam no domicílio pratos e “petiscos”, a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações.
(...)
Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados. A solução final vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará...

Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado.

Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho;

e agem através pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
(...)
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
(...)
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.

Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.

Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.

Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
(...)
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.

Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há 30 anos? Proibido.
(...)
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
(...)
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta “produto não válido”, mesmo que vazia.

Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.

Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.

Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.

Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
(...)
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.

Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
(...)
Tudo isto, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente.

E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro!...”


António Barreto – in “Público” de 25.11.07

Perante isto que fazer?!... Matem-se! Ou revoltem-se!...

sexta-feira, novembro 23, 2007

Fragilidade(s)...

Réptil o grito
E o movimento rubro.
Ergue-se o gesto. De nada
Sobre o berço...

O corpo preso. Ainda.
E o rumor mudo. Da língua
Contra o muro...

Teimosa a vida
Que apenas a lágrima
Humaniza. E o riso...

António.


a partilha de uma terna fragilidade. com votos de bom fim de semana...

segunda-feira, novembro 19, 2007

Precários e... mal pagos!

Sabiam que do total dos 5 milhões e 200 mil portugueses no activo mais de um terço tem vínculos de trabalho precário?!... Porventura, imaginam essa angústia? É o ganha-pão de cada um preso pelo ténue fio da imprevisibilidade. Em nome da saúde económica das empresas - dir-me-ão alguns. A desvalorização social do trabalho, enquanto elemento de autonomia individual e de dignidade humana - respondo-lhes!... A servidão dos tempos modernos – trabalho com “muitos deveres e poucos direitos”... Uma questão de cidadania, portanto!...

O facto, porém, de um terço dos postos de trabalho terem um carácter precário permite também leitura de que grande parte da nossa actividade económica não gera grande valor acrescentado e, por isso, dispensa a qualificação profissional dos trabalhadores. O que naturalmente não se ajusta ao objectivo proclamado do Governo Sócrates que se proclama apostado numa estratégia de qualificação profissional e de “novas oportunidades”. Nem condiz com as parangonas do “choque tecnológico”...

Esta realidade é tanto mais preocupante quanto é certo que o relatório anual da Proudfoot Consulting, - um estudo de análise independente Universidade de Warwick sobre a produtividade - acrescenta motivos de preocupação sobre ao desempenho das empresas portuguesas.

O que célebre relatório vem dizer?!... Que as empresas privadas portuguesas desperdiçam 47 dias de trabalho por ano, que representam 5,5 por cento no produto interno bruto, correspondente ao prejuízo de 7626 milhões de euros para a economia portuguesa.

Claro que os trabalhadores têm as costas largas. E não faltam governantes e “inspirados” comentadores a culpar o mundo do trabalho pela fraca produtividade da economia portuguesa. E, em verdade, face à precariedade das relações laborais quem poderia estranhar um menor empenho?!... De facto, à primeira vista, poder-se-ia deduzir que o desperdício estaria intimamente relacionado com o carácter precário de um terço das relações laborais...

Porém, não é nada disso que o relatório anual da Proudfoot Consulting afirma. Na realidade, segundo o relatório, a fraca motivação dos trabalhadores é apenas o terceiro factor que contribui para o chamado trabalho não produtivo. Os factores decisivos, causadores do desperdício 7626 milhões de euros para a economia portuguesa, são precisamente a falta de planeamento e de controlo dos dirigentes e a impreparação das chefias.

Se os números do trabalho precário são lastimáveis do ponto de vista social, os números do trabalho improdutivo constituem verdadeiro libelo acusatório aos nossos ilustres empresários, tão lestos em parasitar o Estado ou na exploração do trabalho, (ou a arrotar postas de pescada) mas tão pouco diligentes nas tarefas que deles se exigem.

A falta de planeamento e controlo por parte de quem dirige as empresas é responsável por 40 por cento do desperdício na economia portuguesa. E outros 40 por cento do desperdício são da responsabilidade das chamadas chefias intermédias, com falhas de formação necessária para dirigirem trabalhadores e para utilizar os métodos mais eficazes para poderem alcançar os objectivos.

Claro que nada disto nos é estranho. Toda a gente tem consciência que os trabalhadores portugueses são produtivos “lá fora”. Porque não serão “cá dentro”?!...

E aqui chegamos. Quem, porém, nos fala disto?!... Será que célebre relatório da Proudfoot Consulting é lido em S. Bento? Ou em Belém? Deixem-me ser um pouco perverso - será que um dia veremos uns “Prós e Contras” sobre o tema?!...

quinta-feira, novembro 15, 2007

O seu a seu dono...

O célebre “Por qué no te callas?” percorre, com frémito, o mundo lusitano!...

Desde o mais boçal taxista, ao mais sofisticado comentador, não há ninguém que se dispense, na matéria, ter opinião. Para louvar – hélas! – o brioso feito do monarca espanhol, mandando calar o semi-índio que, no outro lado do atlântico, por vontade do seu povo, é presidente da República da Venezuela...

Compreende-se esta pulsão cor de rosa pelo Bourbon de Espanha, feito monarca por decisão do generalíssimo Franco... Hugo Chávez é feio, faz voz grossa e - pecado dos pecados! – não desiste de, por processos democráticos, alcançar uma sociedade mais justa para o seu povo. E para a América Latina. Nem que para isso tenha que enfrentar os poderosos e dizer algumas verdades duras como punhos...

Bom seria que a nossa complacente comunicação social, para além da leitura da imprensa cortesã, que se publica em Espanha, estivesse mais atenta a tudo o que se publica no País vizinho, sobre o incidente verificado no decurso da XVII Cimeira Ibero-americana.

De facto, se é verdade que todos os periódicos espanhóis ligados à corte cerraram fileiras para defender o monarca, importa também conhecer, por exemplo, que o diário El País, em editorial, mostrou preocupação pelo contínuos incidentes que o monarca protagoniza, defendendo que “a figura do rei não deveria estar por mais tempo no primeiro plano político”. Embora, no caso concreto, um pouco contraditoriamente, reconhecesse que o monarca “esteve no seu papel”.

Mas, para além do incidente, o que deveria, sobretudo, fazer reflectir os cidadãos interessados, são as duras acusações de vários representantes de países sul-americanos às empresas espanholas e a determinados comportamentos da diplomacia espanhola, nos respectivos países.

Por exemplo, quanto à intervenção a embaixada espanhola em Caracas no golpe militar contra Chávez, em 2002. Está provado que aquela embaixada recebeu instruções precisas do presidente Aznar, em convergência com os Estados Unidos, para apoiar o golpe. No entanto, Hugo Chávez era na altura, como hoje, presidente legítimo da Venezuela, eleito por sufrágio dos seus concidadãos.

Por outro lado, Daniel Ortega, acusou directamente a diplomacia espanhola de intervir nos processos eleitorais da Nicarágua e de colaborar com a direita naquele País para evitar o triunfo da Frente Sandinista.

Deveriam também ser motivo de grande preocupação as denúncias feitas contra a União Fenosa, acusada de utilizar métodos dignos de gangsters na América latina. Ou a palavra honrada do “moderado” Presidente Néstor Kircher ao criticar, com dureza, a abusiva actuação das empresas espanholas na Argentina.

A nossa comunicação social, que rasga as vestes e se cobre de cinzas, perante o qualificativo de “fascista” lançado por Chávez a Aznar, acha bem que Aznar, então presidente do Governo de Espanha tivesse chamado a Chávez “novo ditador”, ou tivesse falado do “regresso ao nazismo”, ou tivesse acusado o Chávez de ser defensor do “abuso, a tirania e o empobrecimento”, entre outras expressões de igual teor.

Juan Carlos Bourbon, monarca de Espanha, em gesto imperial, pretendeu fazer calar Chávez. Mas porque se sentiu ofendido com as criticas de Chávez a Aznar? Em verdade, como, cada um de nós, deve qualificar alguém que apoia golpes militares para destruir as instituições democráticas? Na Venezuela, ou de qualquer outro País...

Tenho, para mim, que o gesto irado de Juan Carlos de Bourbon, tentando fazer calar o Presidente venezuelano, usurpando as funções de quem presidia à reunião e ausentando-se depois, não abonam a seu favor como chefe de Estado.

Talvez, por essas e outras, se levantem, em Espanha, cada vez mais vozes, reclamando a instituição da III República.

domingo, novembro 11, 2007

Outras Personagens - Paul Tibbets!...

O nome de Paul Tibbets, diz-vos alguma coisa? Não?!... E o brigadeiro-general Paul Warfield Tibbets Jr., da aviação norte americana, que faleceu, beatificamente, em sua casa, no passado dia 1 de Novembro, em Columbus, Ohio? Ainda não?!... E a manhã soalheira de 6 de Agosto de 1945? E Hiroshima? E a primeira bomba atómica deflagrada sobre populações indefesas? E Nagasaki três dias depois?!... E as cem mil pessoas que morreram imediatamente à explosão, diz-vos alguma coisa?!... E milhares e milhares que morreram nos dias, meses e anos seguintes?!...

Tibbets foi o escolhido justiceiro da barbárie moderna. Quarenta e seis segundos depois de ter saído do bojo do “Enola Gay” – a super fortaleza voadora assim designada – a bomba atómica (carinhosamente baptizada de “Litlle Boy”) explodiu a seiscentos e cinquenta metros do solo, com a força de trinta e cinco mil toneladas de dinamite. “Ground Zero”, assim se disse então, da cidade devastada de Hiroshima...

Paul Tibbets treinara durante meses para a missão. Como, aliás, toda a tripulação por ele escolhida. Era, por isso, piloto experiente, como se compreende. Numa manobra de grande perícia, desviou o avião da linha perpendicular do lançamento e fê-lo picar abaixo do cogumelo nuclear e, a muitos quilómetros de distância, a explosão sacudiu o super avião, como se uma bomba antiaérea tivesse deflagrado a ali ao lado...

Seis horas depois aterrou, em Tinian, ilhas Marianas, donde partira na madrugada anterior. Missão cumprida! Tibbets e toda a tripulação foram condecorados...

Para a apressar o fim da guerra – diz-se – e vergar o Japão!... Mas a besta nazi entrara em colapso e o Japão sem meios para resistir mais que escassas semanas. Hoje, está historicamente comprovado que a bomba atómica, mais que o fim da guerra e a derrota inevitável do Japão, visava conter a União Soviética.

Assim o compreenderam, antes de todos, Oppenheimer, Einstein e Fermi, os cientistas que inventaram a bomba atómica, batendo na corrida o aparelho científico nazi, que tentava também construir a bomba atómica para oferecer a Hitler...

Alguns dos cientistas, que estiveram envolvidos no projecto Manhattan, face a dimensão apocalíptica de Hiroshima e Nagasaki, cedo lamentaram a sua invenção; outros, foram mais longe e, vencida a guerra, contribuíram para por termo ao monopólio nuclear dos Estados Unidos, trabalhando a favor da União Soviética, por entenderem que assim reduziam as probabilidades de novos ataques nucleares.

E, assim, décadas de “guerra fria” fizeram com que nunca se tivesse chegado à “guerra quente” por medo da catástrofe nuclear. Equilíbrio de terror, sem dúvida, mas em qualquer caso o equilíbrio de forças nucleares fez com que a Humanidade fosse poupada à tragédia.

Paul Tibbets nunca foi dado a tais rebates de consciência. Pelo contrário, em insólito fulgor patriótico, face a dimensão apocalíptica da tragédia que provocara, disse a Truman que cumpriu a sua missão, sem quaisquer hesitações ou dúvidas. E repetiu-o vezes sem conta. Era atroz perder tantas vidas, reconhecia. Mas enquanto as guerras existirem “é melhor ganhá-las que perdê-las!...”

E receio bem que Tibbets não esteja só. E que o desejo de ganhar guerras se sobreponha à vontade de evitá-las. Hoje o equilíbrio nuclear está desfeito. Mas quem se atreve a afirmar que o Mundo está mais seguro?!...

Paul Tibbets ficará na História. Esperemos que não seja pelos piores motivos...

A propósito – depois do Iraque, o Irão diz-lhes alguma coisa?!...

terça-feira, novembro 06, 2007

"ESQUERDIREITA"

A edição deste post é suscitada pela interpelação do meu amigo Jorge Castro que, no contexto da simpática cadeia que corre na blogsfera, se propõe conhecer “qual a frase que se encontra na 5ª linha da página 161 do livro”, que eu ando a ler!..

Já imaginaram a sensaboria?! Não pretendo fugir às regras, mas já viram o enfado que será declamar, em serão familiar, frases do género: - (...) “as ilusões de esquerda sobre a democracia parecem particularmente audaciosas no momento em que se apresentam como exigência de “autogestão operária”, ou como extensão da democracia ao processo produtivo (...)”.

Por isso, em lugar da linha 5ª linha da página 161 de “As Aventuras da Mercadoria – para uma nova crítica do valor”- Ansel Jappe – Ed. Antígona, proponho-vos a leitura integral do poema “ESQUERDIREITA”.

O timbre “anarca” do meu amigo ficará plenamente salvaguardado e os meus amáveis leitores(as) sem motivo para (me) fugirem...


ESQUERDIREITA

“A esquerda da minoria da direita a maioria
Do centro espia a minoria
Da maioria de esquerda
Pronta a somar-se a ela
Para minimizar
Numa centrista maioria
Mas a esquerda esquerda não deixa.
Está à espreita
De uma direita, a extrema,
Que objectivamente é aliada
Da extrema-esquerda.

Entretanto
Extra-parlamentar (quase)
O Poder Popular
Vai reactivar-se, se...

Das cúpulas (pfff!) nem vale a pena
Falar, que hão-de
Pular!

Quanto à maioria de esquerda
Ficará – se ficar – para outro poema...”


Alexandre O´Neill
pág. 81 – “Anos 70 – Poemas Dispersos” – Ed. Assírio & Alvim

Espero que o Jorge (e todos vós) me releve a falta de não proceder a novas nomeações.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Cérebro Transparente?!...

Há mais de trinta anos, ouvi da boca de um expert norte-americano que a mensagem publicitária deve explodir no cérebro “como uma bala”. A metáfora, de uma eficácia arrepiante, exprime a vocação totalitária do consumo, a que todo o Desejo, Vontade, Emoções e Sentimentos são submetidos pela força prodigiosa da publicidade e do marketing...

Hoje, não é motivo de escândalo!... Mas, então, éramos jovens, tínhamos sonhos e não bebíamos Coca-Cola!... Foi, assim, por nós considerada tão elucidativa imagem como mais um exemplo “prático” da urgência em mudar o mundo... Para que o Homem, liberto das contingências da exploração social e das manipulações do consumo, pudesse, enfim, assumir-se, sem culpa, nem pecado, na reincarnação de Eros e a publicidade não fosse mais que a celebração da Poesia...

Surpreendi-me nestas lucubrações ao ler, no semanário Expresso (27.10.07), que a revista de economia norte-americana Forbes – uma revista de negócios -publicou recentemente um artigo entusiástico sobre os avanços das neurociências, com o sugestivo título (em tradução livre) “À procura do botão/interruptor das compras”.

O artigo em causa não saiu, obviamente, por acaso, mas sim na sequência de um crescente interesse nos meios norte-americanos por este assunto. O Expresso cita, a propósito, uma variedade significativa de artigos sobre o tema e esclarece que a Forbes, “que não brinca em serviço”, segue com atenção o que passa nos laboratórios de investigação das neurociências.

Porquê? Porque estas pesquisas tentam perceber o que acontece no nosso cérebro quando este é sujeito a determinados estímulos. E, claro – diz o Expresso“o facto de as empresas poderem configurar os seus produtos ao conhecimento preciso do que se passa no cérebro do consumidor, é algo cujo potencial só pode ser aliciante”, já que permitirá a perfeita adequação dos produtos ao consumo. E o conhecimento dos impulsos cerebrais permitirá “carregar no botão das compras de cada um de nós, individualmente...”

Por isso, a Forbes – acrescenta o semanário - voltou à carga com novo artigo, desta vez intitulado “Este é o seu cérebro quando faz uma compra”. Este segundo artigo da Forbes terá sido motivado pela publicação de um texto da revista científica Neuron, na qual um grupo de estudiosos revela que, fazendo um scanning - com uma das mais recentes tecnologias disponíveis, o FMRI (Functional Magnetic-Resonance Imaging) – ao cérebro de um indivíduo se “conseguia determinar se ele iria fazer, ou não, uma determinada compra”.

Esclarece ainda o Expresso que os autores do artigo científico em questão pertencem a algumas das mais prestigiadas escolas dos Estados dos Estados Unidos e que trabalham numa nova área de investigação designada “neuroeconomia”. Esta nova “ciência” combina as contribuições das neurociências, da economia e da psicologia na perspectiva de definir, entre outras questões, os padrões de comportamento dos indivíduos na tomada de decisões de consumo...

Como se compreende, os artigos são cautelosos quanto à possibilidade de as “lojas em geral” terem capacidade para “olhar” para dentro do cérebro dos consumidores – “não só pelo custo proibitivo das máquinas que o fazem, como pela sua inadequação aos espaços mais comuns”-, mas garantem que os resultados obtidos permitem já não só compreender melhor os mecanismos da tomada de decisão dos consumidores “como prefiguram claramente o futuro que se prepara”.

Enfim, se eles o dizem...

E, com toda a naturalidade, referem que grandes empresas como a General Motors, por exemplo, têm vindo a utilizar tecnologias de visualização do cérebro em tempo real, para estudarem as reacções dos consumidores perante determinadas imagens específicas (carros, dinheiro, etc.).

Entretanto, a dimensão orwelliana agrava-se quando se fica a saber que tais tecnologias de “leitura do cérebro” serão, num futuro não muito distante, também “passíveis de serem exploradas e aplicadas em contextos muito diversos, como a política e a cultura...”

Eis, pois, o anúncio antecipado da derrota de Eros e do fim da autodeterminação do Homem que, desde os helénicos, tem percorrido História como promessa de realização plena...

Perante isto, que posso dizer-vos?!... Que a metáfora da explosão da bala deixou de fazer sentido?!... Ou que ainda hoje não bebo Coca-Cola?!... Ou dizer-vos da fatalidade do absoluto “Triunfo dos Porcos”? Ou, pelo contrário, proclamar que continuo acreditar na urgência em mudar o Mundo?!...