domingo, outubro 28, 2007

Cem mil anos é agora?..

Esta manhã (26.10.2007), inesperadamente, entrei em estado de choque. Receei pelo meu pobre coração. Mais grave ainda. Receie pelos meus genes, por quem tenho, elevada estima. O caso não é para menos, como compreenderão. Eu explico...

Fiquei a saber, através do “Diário de Notícias”, que “a espécie humana pode vir a subdividir-se em duas”. E melhor que La Palisse, acrescenta o jornal que “as duas subespécies vão dar origem a uma classe superior e a uma inferior”...

Os descendentes da classe superior serão “altos, magros, saudáveis, atraentes, inteligentes e criativos”, enquanto que os descendentes das classes inferiores serão baixos, feios e pouco inteligentes, “uma espécie de goblins” (não sei que raio seja, mas não é certamente coisa boa!). Fundamenta-se o jornal nas últimas descobertas do especialista em evolução(?) Oliver Curry, da London School of Economics...

Entrei em pânico, garanto-vos!.. O meu pânico assumiu foros de catástrofe ao saber que os homens – da classe superior está bem de ver – “vão ter feições mais simétricas, o queixo mais quadrado, a voz mais profunda e o pénis maior...”

Pénis maior, já viram! Querem maior castigo?!... A natureza é madrasta, sem dúvida. Não poderia, ao menos, o pénis ficar fora da distinção de classes?!...

Acalmei quando, em segunda leitura, percebi que o risco é apenas para daqui a cem mil anos e que a espécie humana vai atingir o pico de evolução no ano três mil. Pus-me então a fazer contas, a partir do homo sapiens e dos milhões de anos desde então e suspirei fundo... Afinal, talvez os meus genes ainda se safem e o meu neto – uma terna criança de escassos meses - não esteja condenado a ostentar as orelhas de um goblin...

Fiquei mais confortado quando soube que “vamos mastigar menos” (isto deve ser música aos ouvidos de Sócrates) e “ficaremos com os maxilares menos desenvolvidos e com os queixos mais pequenos”. Pudera!...

E foi já com bonomia que recebi a explicação de que “não podemos prever exactamente o que irá acontecer, mas podemos fazer previsões com base no conhecimento que temos...”. Era o que faltava que não pudéssemos fazer previsões. Não vos parece o máximo rigor científico?!...

Melhor apenas o Zandinga!... Ou o argumento do laureado James Watson, de que bastará reparar num empregado de café para se concluir que os negros não possuem a inteligência dos brancos...

Claro que tudo isto é de gargalhada. Mas não são inocentes estas novidades. Os “fazedores de opinião” batem sempre a mesma tecla, com novos métodos, seguindo a linha do tempo. E a roupagem científica dá sempre jeito...

As fantasiosas mutações genéticas poderão ocorrer apenas daqui a cem mil anos. Mas tão bombásticas revelações são ideologicamente produtivas no presente. Escutem o murmúrio subliminar – as desigualdades estão instaladas na matriz biológica da natureza e inscritas no ADN da Humanidade...

A espécie humana está assim fatalmente condenada a divisão em classes. Já não apenas classe sociais, historicamente superáveis, mas “subespécies vão dar origem a uma classe superior e a uma inferior”, predeterminadas pela natureza...

Perante tamanha fatalidade, cientificamente proclamada, porquê lutar contra as injustiças? A natureza é injusta, porquê então preocupar-nos?!... Não será melhor conformar-nos e adaptarmo-nos ao sistema? E sobreviver, pois claro! Salve-se quem puder...

Há, porém, aqui, um pormenor intrigante. Foi a London School of Economics – uma escola de economia política - a difundir semelhantes teorias sobre a evolução da espécie humana. Compreende-se. A ciência é coisa demasiado séria para ser deixada apenas aos cientistas...

Bem melhor seria, porém, que os “sacerdotes” do mercado e os gurus do liberalismo económico, em vez de especulações à distância de milhares de anos, tomassem consciência do eminente “beco sem saída” que o capitalismo, de que são oficiantes, está a empurrar a humanidade...

quinta-feira, outubro 25, 2007

A propósito de "Fazedores de Opinião"...

"Tudo que os fazedores de opinião apregoam como sagrado, nobre, intangível; o que dizem ser as características da nossa civilização, garantindo a estabilidade social ou promovendo o progresso material e moral, tudo isso é apresentado de forma a constituir poeira que se atira aos olhos dos outros para que não vejam a realidade das coisas.

Quando a revolução social é pregada como transformação principalmente económica, os conservadores tornam-se idealistas e acusam os revolucionários de só pensarem no estômago, de não se elevarem acima da preocupação mais inferior. E entoam hinos à espiritualidade da vida!

Se a revolução é pregada como transformação não só económica, mas política e moral, visando a modificação das instituições respectivas, os conservadores levantam os braços ao ar e manifestam, por todas as formas, o seu horror à tremenda catástrofe. Então é poeira às mãos cheias, atirada aos olhos dos ingénuos, dos simples, para lhes infundir a sagrada aversão de tais heresias e dos heréticos pregadores; e pede-se repressão em nome da defesa das instituições civilizadoras...

Como os ingénuos e os ignorantes são legião, não é difícil conseguir-se o que se pretende, tanto mais que vão ao encontro de hábitos, de ideias inveteradas e de preconceitos aos quais repugnam sempre inovações.

A sua tarefa é, sem dúvida, mais fácil que a nossa; mas não fora a força legal de que dispõem e que baptizam com o nome legítima, usando dela para se impedir a propaganda a que chamam, com toda a razão, dissolvente, porque tende a dissolver os privilégios de que gozam, não fora essa força e bem depressa, apesar das múltiplas dificuldades, se conseguiria desfazer preconceitos e que todos vissem claro...”
(...)

Se queremos revolução, é para que a moral social seja uma verdade (...); para que a justiça não seja campo onde o dinheiro e soberano para condenar pequenos gatunos e absolver grandes ladrões; (...) para que acabe tudo onde há humilhação, resignação dolorosa, revolta abafada em lágrimas, espírito de independência sufocado, acordo forçado, dissimulação, toda essa série de actos que reflectem o rebaixamento da personalidade e que se executam para não se ficar sem o ganha pão, para não se fazer sofrer os que se estimam, para não se ser banido como empestado e, quanto mais não seja, por instinto de conservação...
(...)

Porém, leitor observa e indaga e hás-de ver que todo este caudal de misérias morais tem como factor de grande importância, se não como causa directa ou indirecta, próxima ou remota, aparente ou oculta, a dependência económica. Pensa bem e reconhecerás que abolida ela, assegurada a existência a todos que trabalhem, esta vida de mentiras se transformaria para melhor e começaríamos então a praticar essa moral e esse civismo por cujo desaparecimento tanto tartufo se mostra agoniado, quando ouve falar em revolução social...”(...)


Emídio Costa – in “SEARA NOVA” – nº2 – 05.11.1921

Admito que ando um pouco preguiçoso. Espero que me desculpem. Em minha defesa, invoco a vantagem de vos dedicar leituras mais estimulantes...

sexta-feira, outubro 19, 2007

O Nariz Torcido...

“O Nariz Torcido...”

“O teu nariz avança insolentemente
No Mundo; inflama-se a tua narina...
É por isso, homenzinho altivo,
Rinoceronte sem chifres que tu és, que cais sempre
Para diante!
De tal modo que vemos sempre juntos
A altivez rígida e o nariz torcido...”


Frederico Nietzsche – in “A Gaia Ciência”
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Terminou a Cimeira Europeia? Que viva então a Cimeira!...

Entretanto, duzentas mil pessoas manifestaram-se no Parque das Nações, em Lisboa, pela dignidade do quotidiano...

Sabe-se lá onde mora a História!...
O pêndulo continua a balançar. Sempre!...

domingo, outubro 14, 2007

Trova do vento que passa

"há sempre alguém que semeia...canções no vento que passa"...

Anos de brasa....

São de brasa os anos de 1961/62. Como, aliás, toda a década de sessenta, no nosso País...Há greves operárias e camponesas de norte a sul. O 1º de Maio de 1962 é a maior comemoração de sempre, do Dia do Trabalhador, durante a ditadura fascista de Salazar e Caetano.

A União Indiana havia, pouco antes, recuperado Goa e libertado o denominado Estado Português da Índia. Começa a Guerra Colonial em Angola. Verifica-se a tentativa de assalto ao quartel de Beja por um grupo de militares e civis. José Dias Coelho – o pintor mais tarde celebrado na canção de Zeca Afonso – militante comunista, é assassinado pela PIDE. Ocorre a espectacular fuga da prisão de Caxias de um grupo de dirigentes do Partido Comunista Português.

Em Lisboa, na sequência da proibição da comemoração do “Dia do Estudante”, intensificam-se as lutas estudantis, dando início a uma prolongada greve que alastra às outras academias. Mais de 1500 estudantes são presos...

Adriano Correia de Oliveira, então a estudar em Lisboa, regressa a Coimbra e está presente em todas as lutas académicas. Canta baladas, fazendo o canto participar na luta. Em 1963, Adriano está a viver na República “Rás-te-Parta”, onde funcionará a sede da candidatura democrática às eleições da Associação Académica. Grava um disco emblemático: “Trova do Vento que Passa”, poema de Manuel Alegre e música de António Portugal.

O general Humberto Delgado é assassinado pela PIDE. Luandino Vieira, escritor angolano, com o romance Luuanda, ganha o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores que, por esse motivo, é assaltada pelos esbirros da Legião Portuguesa e fechada pela PIDE.

Para Adriano a “canção é uma arma”... Canta por esse País fora, sempre solidário com as lutas e anseios do Povo Português. Depois do 25 de Abril, o seu compromisso de cidadão solidário com as causas mais nobres e justas prosseguiu, ganhando, se possível, ainda mais forte intensidade. E a sua voz forte e bem timbrada, constitui uma referência ao serviço da revolução dos cravos e um exercício de cidadania que ainda hoje aponta caminhos do futuro.

António Correia de Oliveira faria, este ano, 65 anos, colhido que foi, pela morte, aos 40.

Que a força do seu exemplo e a sua mensagem perdurem no coração daqueles que foram seus camaradas e amigos, ou daqueles que simplesmente se professam seus admiradores...

quarta-feira, outubro 10, 2007

Ética republicana...

Como bem sabe, a “ética republicana” anda bastante lassa. Uma vez por outra, porém, o País político finge-se de pudores. Um discurso presidencial. Uma entrevista de um respeitável bonzo. Ou um artigo de um qualquer angustiado publicista. Ficamos então a saber que o País vai mal. Que a corrupção alastra. Que o bloco central de interesses corrói o regime e avilta a República...

Pode até acontecer que juristas desassombrados, em lugares institucionais de relevo, se não calem e tenham a coragem de afirmar que “desde que o Presidente da República alertou há um ano para a necessidade de intensificar o combate a corrupção se verificou uma “involução” nessa luta” (Director do DCIAP de Coimbra – in “Público” de 5.10.07). Ou que tenham a honradez de proclamar que o novo Código de Processo Penal – instrumento jurídico decisivo – serve apenas para enfrentar as chamadas “bagatelas penais”, mas não serve para o combate à criminalidade violenta ou altamente organizada e, em especial, a corrupção.

Pode ser que tudo isto aconteça. E, apesar de tudo, acontece. Raros, mas nem todos os homens se vergam, nem todas as instituições se calam. Ou demitem... No entanto, passada a onda e o frémito, a cálida morabezza dos costumes ocupa o espaço e o conúbio indecoroso entre os negócios e a política ganha em lucro(s) privado(s) o que perde em pudor(es) públicos...

Há até quem diga, com algum escândalo, que os “lobbies se apoderaram dos órgãos vitais das decisões do Estado”. O mesmo é dizer que o Estado deixou de servir os interesse geral do País para estar ao serviço dos interesses privados. Os mais poderosos, como bem se deduz...

Porém, apenas se surpreende quem quer. Quem não se lembra do célebre “Compromisso Portugal”? Confrontem com a prática governativa do governo de Sócrates. Os “grandes desígnios” do governo (socialista), mais que no sufrágio ou nas promessas eleitorais, foram ditados nas célebres reuniões do Convento do Beato. E que são escrupulosamente cumpridos, ponto por ponto. Na obsessão do deficit, no desemprego, nos baixos salários, na legislação laboral, nos lucros da especulação financeira.

Como vem sendo o notado, “os negócios conseguem inspirar um respeito e um temor (...) que manifestamente coíbem a imprensa e a televisão”, de que, aliás, são genericamente propriedade. Como conhecer, portanto, o que se passa no interior dos ministérios, que definem as orientações governamentais sobre a economia? Porventura alguma vez chegam ao conhecimento público?...

E como compreender que sejam interesses privados organizados a promover estudos para grandes investimentos públicos (de a questão da localização novo aeroporto é apenas um exemplo)? Ou então, (quando a desvergonha não tem limites), que pensar do facto de serem escritórios de advogados, ao serviço do poderosos interesses privados, a redigir próprios diplomas legais, que melhor servem os interesses que representam?Ilustres advogados, aliás, (ou engenheiros) distribuídos pelas bancadas parlamentares do dito bloco central. Ou instalados no directórios dos partidos do poder! Ou melhor ainda, ex-governantes retirados da “maçada” da política...

Não se trata aqui da velha questão da “mulher de César”! Não existe República sem republicanos. Como também não existe ética política, sem homens íntegros. E de pouco valem piedosas intenções presidenciais (ou outras) sobre a “transparência” da vida pública, enquanto o Estado não se libertar dos interesses que o condicionam. E dos governos que o colocam ao serviço de uns poucos... Como o “rotativismo” das últimas décadas bem demonstra...

Descontado o exagero apocalíptico, alguém duvida “se por acaso caísse do céu a transparência que o Dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso”... (VPV – in Público de 07.10.07).

O que era bem feito, reconheçam...

terça-feira, outubro 02, 2007

Outras Leituras - Raul Proença

"Um amor (quase físico) pelas ideias..."

Muitas vezes pergunto a mim mesmo como foi possível que tantos que se dizem republicanos aderissem tão prontamente às ideias fascistas, ou pelo menos se revelassem como seus simpatizantes.
(...)
A explicação é que, para eles, a República é um simples agregado de nove letras, numa fórmula cabalística - embora muitos (que não eles) estejam dispostos a morrer por ela heroicamente. O amor à liberdade, as crenças democráticas - que estão muito acima dessa coisa miserável que é a República quando esta não realiza a Democracia - sentiram-se abaladas ao primeiro embate, na sugestão do primeiro êxito, como esses caules frágeis dos arbustos que não suportam as primeiras ventanias. Ora resistir aos embates do êxito é que constitui a prova real da verdadeira convicção - só assim podemos certificar-nos das profundidades, a que a árvore ideológica fez descer as suas raízes.

A verdade é que nenhuma das suas ideias (na maior parte) corresponde a uma necessidade viva. Neles tudo se passa - quer estejam a favor da liberdade ou contra ela - no domínio das ideologias inconsistentes. A liberdade foi uma etiqueta que eles colaram no seu vestuário, não uma necessidade sentida pela sua própria alma. As suas ideias são fluidas, incorpóreas, indecisas e oscilantes, como essas nuvens que flutuam em contornos indecisos, tomando, segundo os acasos atmosféricos, a forma dum animal fantástico, dum palácio ou dum navio flamejante.

Não pergunteis que força íntima as impele, que realidade está por trás delas: é o vento que as impele. Vivem apenas uma vida fictícia, uma vida de empréstimo. Postas num plano exterior à vida íntima do espírito, não mergulham nele as suas raízes, não tomam dele as suas energias, não recebem ali a sua organização concreta. Por isso, os acontecimentos encontram esses homens sempre dispostos a todas as abdicações e transigências - contanto que lhes fique nos lábios, com o sabor da última mentira, o último flatus vocis.

Quantos poucos de nós, aqueles que nos dizemos intelectuais, temos independência e firmeza de espírito!... Quantos poucos de nós nos mantemos intransigentemente numa atitude intelectual e resistimos ao succés, à moda, ao snobismo, às correntes dominantes, aos puros impulsos duma emotividade superficial e transitória!...

Quantos poucos de nós, finalmente, têm isto a que poderei talvez chamar - um amor quase físico pelas Ideias?!..

Raul Proença - in Seara Nova, N.· 81, de 1 de Abril de 1926


Estarei ausente do vosso convívio durante uns (breves) dias.
Até lá deixo-vos na (boa) companhia de Raul Proença.