sexta-feira, agosto 31, 2007

De vez em quando um poema...

"Filhos da época..."

"Nós somos filhos da época,
A época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas
Questões diárias, questões nocturnas
São questões políticas.
(...)
Os temas que abordas têm ressonância,
O que calas tem expressão
De um modo ou outro na política.

(Passeias pela floresta
e dás passos políticos
num chão político)

Também são políticos os versos apolíticos
E lá no alto a lua resplandece,
A lua já objecto não lunar.
Ser ou não ser, eis a questão,
Mas que questão, responde lá, então.
- Questão política.

Não tens sequer que ser um ser humano
Para adquirires significado político.
Basta seres petróleo bruto,
Matéria-prima, forragem substancial.

Ou mesa então de reuniões em cuja forma
Se apoiaram longos meses:
Na qual se negociou a vida e a morte,
Quadrada ou redonda.

Pessoas entretanto faleceram,
Morreram animais,
Casas arderam
E campos tornaram-se bravios
Como nos tempos de outrora
Muito menos políticos...”

Wislawa Szymborska (Nobel de Literatura 1996) – in “Paisagem com Grão de Areia”- Relógio d´Água.

Regressemos, então, fatalmente à política...

E anotemos que, com o afundamento da Ota, haverá um aeroporto em Fátima para o “turismo religioso”. Com o Estado a subsidiar a Igreja, como bem se presume...

Haja Deus!... E valha-nos a Virgem Maria!...

Até breve.

segunda-feira, agosto 27, 2007

"Noticias radiofónicas de Lisboa...."

De volta à realidade, ou seja, à estrada, o viajante olha para o céu. Está quente, como o asfalto, e parece uma bola de tão curvo. Certamente, curva-se assim para transpor a serra que tem em frente.

O viajante pára e olha o mapa. Se os seus autores não mentem, e isso não é verosímil, é já a serra de Mogadouro, o inóspito maciço montanhoso que bordeja Trás-os-Montes a Este, embora, entre Este e a raia, fique ainda o planalto mirandês. Mas ainda fica longe. Já se vê nitidamente, por entre a bruma, mas ainda muito longe. Antes ficam ainda o vale do rio Sabor e os montes de Soutelo e Penas Roías.

E, antes ainda, Peredo. Um povoado pobre, de casas velhas, que se reclina junto à estrada a seis quilómetros de Chacim (...). Peredo, tal como Chacim, é um povoado antigo e de renome. Durante o século passado (Sec. XIX), viveu da seda e conserva ainda daqueles anos heróicos, em redor das casas, algumas amoreiras. Mas a aldeia decaiu como todas as da zona e agora mal se vê gente nas suas ruas: um velho na soleira, outro sentado num tronco e duas crianças passeando de mãos dadas (...). O viajante, apesar disso, vê-a afastar-se com pena. Já sabe que até Soutelo não voltará a ver mais aldeias (...).

A paisagem é tenebrosa de tão árida. Oliveiras e sobreiros são já a única coisa que se vê, excepto algum ribeiro seco. Este ano, a seca até as pedras queimou. O viajante, angustiado, olha o céu e pede sorte. Se tiver uma avaria, os corvos comê-lo-ão.

Para o animar, liga o rádio. Costuma fazê-lo com frequência, quando atravessa sítios como este. Fá-lo para ter companhia e para que os quilómetros passem depressa. Mas não passam. A estrada, além de estreita, está cada vez mais sinuosa e mais cheia de remendos. Vê-se que há imenso tempo que nem alcatrão lhe deitam (...).

O rádio, entretanto, fala do estado do escudo português (da moeda, não do emblema). A sua saúde não é preocupante, diz alguém, comparado com as outras moedas europeias. Outro, pelo contrário, lamenta que o escudo não cresça mais. Menos mal, pensa o viajante, olhando à sua volta.

Agora, a estrada avista um rio ao longe. Deve ser o Sabor, embora não veja nenhuma indicação. O viajante atravessa-o sem parar enquanto ouve alguém, na rádio, a falar de tráfego. Pelos vistos, a esta hora, Lisboa está caótica. Quem diria, pensa o viajante.

Passado o rio Sabor, pois foi ele que ficou para trás (pelo menos, segundo os mapas) a paisagem tornou-se ainda mais inóspita. Ainda por cima, já nem oliveiras há. Só montanhas despidas e uma ou outra azinheira abrigada (...).

E um pombal. E outra encosta. E outro barranco à esquerda. À distância, alguns carvalhos e, no céu, uma abetarda. E o caminho que se alarga como se não fosse ter fim. Enquanto isto na rádio, o presidente da República (...) inaugura uma auto-estrada (longe daqui, evidentemente), a Bolsa continua a subir (tal como o escudo, parece forte) e o Sporting de Lisboa, que este ano aspira a tudo, comprou um jugoslavo por metade do que valem estes montes juntos (...).

O viajante, angustiado, volta a olhar ao longe. Só de vêem montanhas, cada vez mais solitárias e secas. E mais montes. E mais encostas. Durante vários quilómetros, que nunca mais acabam, a estrada continua a subir. Não há nada atrás. Nem carros. Nem colmeias. Nem uma simples árvore com sombra, onde possa descansar um pouco. Só montes e o céu azul e o som do rádio de Lisboa (...).“

Júlio Llamazares – in “Trás-os-Montes – Uma Viagem Portuguesa”.

Boa continuação de férias. Cá dentro...

sábado, agosto 18, 2007

Max Roach Clip - drum solo over Marthin L.King speech

"I had a dream..."

Outras Personagens - Max Roach

Com 83 anos, faleceu, em Nova Iorque, Max Roach. Dizem os especialistas que foi um dos maiores músicos de jazz. Os seus companheiros consideram-no o maior baterista de sempre. Dele se diz te afirmado que “nunca se pode escrever o mesmo livro duas vezes” para sublinhar a importância de se explorarem sempre novos caminhos...

Nasceu em New Land, Carolina do Norte, nos Estados Unidos. A sua família, porém, mudou-se para o Brooklyn, quando Roach tinha apenas quatro anos. A mãe era cantora de música gospel. Com dez anos, Max Roach já tocava bateria em bandas deste género musical. A sua primeira grande apresentação, porém, foi em Nova Iorque, aos dezasseis anos, substituindo Sonny Greer, numa performance com a Duke Ellington Orchestra.

Cresceu nos clubes de Harlém.

“Quando era pequeno, em Nova Iorque, trabalhávamos sete dias por semana, sem parar” – contou, em 1997, ao Washington Post – “Tocávamos das noves da noite às três da manhã; depois arrumámos as coisas e íamos para os clubes after hours das quatro às nove da manhã...”

Na década de 1940, Max Roach era já famoso no mundo do jazz, tocando com músicos como Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Desistiu, porém, de estudar composição na Escola de Música de Manhatan, depois de um professor lhe ter dito que tinha uma técnica incorrecta. “A maneira como queriam que tocasse – explicou mais tarde – era óptima, se eu quisesse uma carreira numa orquestra sinfónica, mas eu funcionava na Rua 52”

Foi dos primeiros bateristas a tocar o estilo bebop e actuou em bandas lideradas por Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Thelonious Monk, Coleman Hawkins, Bud Powell e Miles Davis.

Em 1960, Max Roach compôs e gravou, com a cantora Abbey Lincoln, (com quem foi casado) ,"We Insist! Freedom Now suite", uma suite destinada às comemorações do centenário da "proclamação de emancipação", de Abraham Lincoln. Porém, a inclusão da sua obra na lista negra da indústria fonográfica norte americana teve como objectivo impedir que o baterista contribuísse, com a sua arte, para a experiência de luta de emancipação dos negros norte americanos.

Esta obra – "Freedom Now" - constitui um dos momentos mais fortes do activismo político de Max Roach contra a segregação racial e em defesa dos direitos dos negros, tendo sido proibida na Africa do Sul, no regime do apartheid.

Foi na Festa do Avante, em 1979, que Max Roach se estreou em Portugal. Ruben de Carvalho – citado pelo “Público” de 18.08.07 – afirma, a propósito: “para além da música, interessava-me, obviamente, em Max Roach a sua intervenção social, tanto pedagógica, como política...”

Mais tarde, em 1995, Max Roach actuou, no celebrado festival “Jazz em Agosto”, da Fundação Calouste Gulbenkian...
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Deixo-vos, ao som do melhor jazz, por mais alguns dias...

Max Roach

sábado, agosto 11, 2007

Postal de férias...

Em pousio, nas delícias do Portugal profundo, os rios da minha infância são agora areias por onde despontam raízes e ervas, que teimam ainda... O tempo - “esse grande escultor” – deixa, inevitavelmente, marcas nos rostos, nas coisas e nos próprios sentimentos. Em cada passo, arrima-se o gosto ácido dos frutos, como se o mel silvestre e as amoras fossem apenas o gesto esquecido de colhê-los... Os caminhos, como se sabe, são, tantas vezes, o percurso inverso da alma!... Por isso, a lógica das emoções, assume, por momentos, o proscénio de mim, mas acalmo, célere, o sonho e o frémito. Sorrio complacente e subo à espuma dos dias...

À superfície, a (i)realidade impõe-se, incontornável (palavrão em moda). A dona televisão, gaiteira, devolve-me ao mundo nas pistas do “Portugal positivo”... Espampanante, nos seus cinquenta anos (bem?) vividos, a televisão pública, cavalgando o suor da volta a Portugal em bicicleta, trepa às veredas ignoradas do país, num exercício ridículo de auto promoção, disfarçado no propósito de divulgação do popular desporto e, explicitamente, também dos “valores nacionais”...

Com bivaque e aboletamento em cada local de paragem...

O espectáculo, porém, se bem repararem, é pungente! Digno, aliás, das comemorações. Décadas atrás, Ramiro Valadão, no seu longo consulado à frente da RTP, não teria produzido melhor...

Um apresentador, qual “calinas” (saravah, Henrique Viana) saído do teatro de revista, é o dono do programa: a pose empastelada, a piada de mau gosto, a ignorância alarve e atrevida perdem agora porque são a “realidade”. Acolitando, quais borboletas encandeadas, as meninas do programa (salvo seja) são incansáveis, desfazendo-se entre os sorrisos para o cantor pimba e o concurso da pedalada em seco, isto é, em bicicleta inamovível, sem outro desígnio que não seja o cobiçado prémio em jogo...

Em simultâneo, o desfile das celebridades locais. A gravata de seda do presidente da Câmara, o patati patatá do desenvolvimento local, a doutora da cultura (cultivando o perfil e a pose), o “ilustre” da terra, o emigrante de sucesso (arrotando sentenças), o padre, a orquestra, o grupo folclórico, o doce, o chouriço e o vinho (honra lhe seja). Enfim, toda a panóplia do país castiço, que teimam que Portugal seja...

Num dos programas, como centro da atracção, saltou (em sentido literal) uma exibição em cama elástica. Basbaques, subindo aos céus... Noutro, um brioso jogo do pau... Querem maior excelência?!... Pelo jogo do pau é que lá iremos, estou certo disso...

Não vos falo do figurão (ou da figurinha) tutelar do grupo: cabelo de bom corte, camisa último grito, aberta até a braguilha (passe o exagero) e a floresta capilar em exibição à boa maneira do melhor de Paulo Portas (lembram-se?), em proselitismo acelerado das virtudes do jogo do pau e das tradições nacionais...

Tivera eu algum poder e bater-me-ia, de imediato, para que o ensino da matemática fosse substituído pelo jogo do pau, pelo menos três vezes ao dia. Imaginem a robustez intelectual dos nossos jovens... E o mesmo, aliás, quanto aos saltos em cama elástica, que, decididamente, fazem falta nas nossas escolas, em substituição do ensino da filosofia... Qual Hegel, qual Kant?!... Não há como um bom salto em cama elástica para ver longe e alto! E é radical que baste, pelo menos bem mais que as corridinhas do nosso Primeiro-ministro...

Este o paradigma do “Portugal positivo”... Eu sei que, neste texto, há traços de exagero. E que, por entre a panóplia de banalidades, o programa pode(ria) contribuir para elevar a auto estima de terras e pessoas ignoradas, que, por vezes, irrompem subvertendo os cânones do programa festivo. Como aquele homem, curtido pelo tempo e pela vida, que no contexto do programa, não se inibe em afirmar que melhores vão os tempos hoje na sua terra “com banho diário e almoço todos os dias...”

Embalo a trouxa das minhas ruminações. Que posso eu acrescentar a tão luminosa síntese do percurso do País, nas últimas décadas?!...

Desligo, por isso, a TV e, beatificamente, prossigo “em na busca do (meu) tempo perdido”...

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Aprecio muito o vosso convívio, mas, por mais alguns dias, é difícil poder frequentar os vossos blogs. Beijos e abraços. Até breve...

quinta-feira, agosto 02, 2007

De regresso às "Farpas". Sempre...

"Sabia-se que o Tribunal da Boa Hora era o “santuário da justiça”, onde vários senhores advogados ganham a vida defendendo quotidianamente, com a maior eloquência e o maior ardor, a santa causa dos oprimidos - e, bem assim, a causa contrária!...

No dito santuário, uma multidão de ociosos assiste todas as manhãs à glorificação de um que roubou o seu patrão, ou esfaqueou o seu companheiro e a respeito do qual um magistrado, vestido de toga, exclama:

Nunca, senhores jurados, nunca, desde o principio da minha longa e obscura carreira no foro, tive a honra, em cumprimento da augusta missão que a lei me confere, de erguer minha débil voz em favor de ente mais desgraçado, mais inocente, mais vil e ferozmente ultrajado por seus inimigos, do que aquele que vedes neste momento sentado ali - com “lágrimas na voz”, apontando o réu com um gesto trémulo e antigo: - "naquele banco!...”

Viva comoção! O Sr. advogado bebe alguns golos de água e leva um lenço aos olhos...

E algumas mulheres, de xaile traçado para o ombro, com os punhos fincados nos quadris, levantadas nos bicos dos pés, espreitando por cima da multidão, ao fundo do tribunal, ouvindo estas palavras referidas ao seu conhecido Pêra de Satanás, choram...

Então, um inexperiente, enternecido, pergunta:

- “Foi este o que levou as facadas?!”
- “Não, o malvado que as levou fugiu... para o outro mundo!... Este coitadinho foi o que as deu!...”


Ramalho Ortigão – in “As Farpas” – Volume VII

Ainda bem que a justiça fechou para férias, não vos parece?! E eu com ela...

Volto dentro de dias.