sexta-feira, junho 29, 2007

Vilma Espín

"O exemplo de Vilma hoje é mais do que nunca necessário..."

Morreu Vilma. Viva Vilma!

Outras Personagens - Vilma Espin

Vilma Espin, faleceu, em Havana, aos 77 anos de idade.

Heroína da clandestinidade e combatente notável do exército rebelde, infatigável combatente pela emancipação da mulher e dos direitos das crianças. De acordo com a sua vontade, Vilma Espin foi incinerada e as suas cinzas depositadas num jazigo em Santiago de Cuba.

Nascida a 7 de Abril de 1930 em Santiago, Vilma Espin descende de uma família francesa de tradições democráticas. Foi a grande impulsionadora da luta contra a discriminação feminina e contra o machismo. Mariela, sua filha de 45 anos, sexóloga, herdou a sua luta...

Vilma Espin foi presidente da Federação das Mulheres Cubanas desde a sua fundação, em 1960; membro do secretariado político do Partido Comunista Cubano de 1980 a 1991; membro do Conselho de Estado e da Assembleia Nacional do Poder Popular desde 1976. Era a última grande figura feminina viva da revolução cubana...

“Morreu Vilma. Apesar de esperada a notícia não deixou de me comover. (...) O exemplo de Vilma hoje é mais do que nunca necessário. Dedicou toda sua vida a lutar em favor da mulher, quando em Cuba a maioria delas era discriminada como ser humano, como no resto do mundo, com honrosas excepções revolucionárias.
(...)
No nosso país a mulher emergia de uma das mais horríveis formas de sociedade, a de uma colónia ianque sob a égide do imperialismo e do seu sistema de exploração, no qual todo aquilo que o ser humano é capaz de criar era convertido em mercadoria.

Desde o surgimento, na história antiga, daquilo que se chamou exploração do homem pelo homem, as mães, os meninos e as meninas dosmais necessitados suportaram sempre a maior carga.

As mulheres cubanas trabalhavam nos serviços domésticos, ou em lojas de luxo e bares burgueses, onde, além disso, eram seleccionadas pelo seu corpo e pela sua figura. As fábricas ofereciam-lhes os trabalhos mais simples, repetitivos e pior remunerados...

Na educação e na saúde, serviços que eram oferecidos em pequena escala, sua imprescindível cooperação era realizada como professoras e enfermeiras, as quais apenas recebiam um nível de instrução médio.

O nosso País, com 1256,2 quilómetros de extensão, só tinha um centro de ensino superior, que se encontrava na capital, e mais para frente, algumas faculdades em centros universitários, em mais duas províncias. Como norma só podiam estudar nelas jovens procedentes de famílias com melhores rendimentos. Em muitas actividades, nem sequer era concebida a presença da mulher... Hoje as mulheres cubanas constituem 66% da força técnica do país e participam maioritariamente de quase todas as carreiras universitárias.
(...)
Fui testemunha, durante quase meio século, das lutas de Vilma. Não me esqueço dela participando das reuniões do Movimento 26 de Julho, na Sierra Maestra. Foi enviada finalmente pela direcção do movimento a uma importante missão na Segunda Frente Oriental. Vilma não se importava com o perigo...

Com o triunfo da Revolução, começa sua incessante batalha em favor das mulheres e das crianças cubanas, que fez com que fundasse e dirigisse a Federação das Mulheres Cubanas. Não houve tribuna nacional ou internacional na qual não participasse, apesar do longo caminho que houvesse que percorrer, em defesa de sua pátria agredida e das nobres e justas ideias da Revolução.
(...)
Os deveres revolucionários e seu imenso trabalho jamais a impediram cumprir suas responsabilidades como companheira leal e como mãe de muitos filhos...

Morreu Vilma! Viva Vilma!..”


Fidel Castro Ruiz

terça-feira, junho 26, 2007

Anatomia de um perdão fiscal...

A notícia caiu-me na mesa com a imprensa de fim-de-semana. Nas páginas interiores, o jornal “Público” (Sábado, 23 de Junho, página 9) alertava que “uma desempregada quer processar o Estado porque um e-mail privado chegou à administração”... Luta titânica, pensei!... E, como compreendem, li até ao fim...

Em síntese. Uma fábrica, cuja marca ostenta o nome, certamente ilustre, de uma antiga família da alta burguesia do País, entrou em processo de liquidação por falência. Os trabalhadores – apesar de tudo, o “25 de Abril” existiu!... - procuram negociar os “salvados”, fazendo valer os seus direitos de indemnização pelos despedimentos.

E, neste quadro, uma funcionária enviou, em 18 de Março, aos serviços do Ministério das Finanças um e-mail questionando a circunstância de ter sido perdoada à empresa uma dívida fiscal de 600 mil euros. Poucos dias depois, a funcionária foi informada que o assunto fora encaminhado para a Secretaria de Estado do Tesouro e das Finanças. E nunca mais pensou no assunto, convicta de que a sua iniciativa haveria de cair onde acabam quase sempre as iniciativas cívicas deste género – no rol do esquecimento!...

Eis senão quando, a 11 de Maio, uma senhora doutora, administradora da empresa em causa, chamou a funcionária ao seu alcatifado gabinete, mostro-lhe cópia do e-mail, – faço notar! - enviado aos serviços do Ministério das Finanças e acusa a trabalhadora de falta de lealdade. Imaginem a cena e a doutora apopléctica...

A questão, porém, não se ficou pelo raspanete. Conta a trabalhadora ao jornal que “a doutora disse que eu tinha que ser penalizada e retirou 3500 euros à minha indemnização, como castigo pela minha irreverência e pela minha ousadia”...

Assim, sem mais. Para a solícita doutora (será de Direito?), não está em causa a veracidade e, porventura, o ilegítimo do perdão fiscal à empresa. Mas tão só a “irreverência e a ousadia” da funcionária, que pretendeu dos serviços do Estado o cabal esclarecimento. “Delito” que importava punir, com urgência. Por vontade imperial da senhora administradora. Sem ao menos o respeito formal pelas normas disciplinares e o direito constitucional de defesa...

Edificante, não acham?!... Mas existem, na notícia, outros aspectos não menos significativos do estado das coisas no nosso País...

Como admitir-se, por exemplo, sem um frémito de revolta, que o vínculo de confiança entre o Estado e os particulares seja quebrado e a correspondência de uma cidadã trabalhadora, certamente com os impostos em dia, seja conhecida na empresa em que trabalha(va) e colocada ao serviço da prepotência da sua administração?!...

Já se sabia que, hoje em dia – triste sinal dos tempos –, se verifica cada vez mais estreita osmose entre a política e os interesses económicos dominantes. Não surpreende, por isso, que o aparelho do Estado esteja, sobretudo, ao serviço dos grandes interesses dominantes, num processo de corrupção larvar, que vai inquinando a nossa vida colectiva.

Sabia-se mesmo, que, na administração pública, se notam, aqui e além, ressurgências de “bufaria”, de má memória. Para agradar ao chefe ou para ajustar contas com o colega... Mas descer a “bufaria” à pouca-vergonha de violar correspondência individual de uma trabalhadora para a colocar ao serviço dos interesses privados tão mesquinhos, vai uma distância inaudita...

Claro que a funcionária, após 22 anos de trabalho na empresa em questão, se encontra no desemprego. E com uns milhares de euros a menos na sua indemnização. E agora muito justamente se indigna. E brada que irá processar o Estado pelos prejuízos morais e materiais causados...

Esperem-lhe pela sorte...










sexta-feira, junho 22, 2007

Outras Leituras - Para um Manual de Etiqueta!...

O mestre das maneiras portuguesas (...) é simplesmente o sr. João Félix Pereira, médico, engenheiro civil e agrónomo. Vejamos algumas dessas leis que as crianças decoram para os seus exames e pelas quais os adultos se governam nas suas correlações sociais:

Para que um sujeito possa a todos os respeitos considerar-se um gentleman, acha conveniente o sr. João Félix:

1º - que ele faça a barba;
2º - que se não ponha à janela em mangas de camisa, nem com o pescoço descoberto;
3º - que quando cuspir o não faça sobre a cara da pessoa com quem fala (maxime se é uma pessoa de respeito!)
4º - que não tenha olhos em contínuo movimento;
5º - que nos jantares de etiqueta não limpe os ouvidos com o palito com que houver de palitar os dentes;
6º que não arrote à mesa.

O sr. João Félix especifica ainda, com escrúpulo pelo qual nunca lhe poderemos votar suficiente reconhecimento, que “diante de gente de respeito não se cortem as unhas”.

E assim é! Achando-nos na presença de pessoas que respeitemos, como verbi gratia: Sua Majestade el-rei, um príncipe estrangeiro, um embaixador ou uma rainha, o pôr-nos repentinamente a cortar as unhas – principalmente sendo estas as dos pés - poderia ser tido por acto menos palaciano.

Se o sr. João Félix nos permitisse um leve apêndice aos seus conspícuos preceitos, diríamos que cortar calos, nos parece também operação que, só em caso de muita necessidade, nos deveremos permitir no meio de grandes assembleias.
(...)
Tratando-se do modo de proceder à mesa do jantar faz o sr. João Félix Pereira duas observações muitíssimo sábias. A primeira é que “não tomemos pitadas de rapé pelo meio das coisas que estivermos comendo”.

Compreende-se todo o alcance desta advertência reparando-se, por um só momento que seja, nos equívocos a que poderia dar origem a concorrência do rapé com os acepipes, resultando, por exemplo, lançar-se a pitada sobre a salada e meter-se no nariz a beterraba.

A segunda advertência é que “nunca metamos bocado nenhum na boca enquanto não tivermos engolido o bocado antecedente”. Ninguém imagina sem o ter experimentado quanto importa ser cauteloso na matéria deste capítulo! Metendo na boca os bocados sem tomarmos a deliberação de os irmos sucessivamente engolindo, chegamos por espaço a uma indefinida aglomeração de bocados dentro da boca.

As pessoas que insistem por tenaz grosseria em não engolirem os bocados, que vão metendo consecutivamente na boca, caiem, ao cabo de alguns dias dessa terrível incúria, na dura necessidade de depositarem os bocados antigos, que tenham, entre a maxila superior e o maxilar inferior, a fim de receberem bocados novos.

Quando isto haja de se fazer convém que se tenha em vista o que o sr. João Félix discretamente consigna a respeito do cuspo, isto é: que tais esvaziamentos se façam, o menos que ser possa, sobre penteados das pessoas que nos cerquem e muito mais particularmente quando estas tenham tido a precaução de nos advertir que tais depósitos feitos sobre as suas cabeças lhe inspirem ideias asquerosas. Neste caso, toda a insistência da nossa parte correria o perigo de ser taxada de menos cortês” (...).

Ramalho Ortigão – in “As Farpas”.

Agora digam-me: o que mudou na alarvidade da burguesia nacional ?!...

Bom fim-de-semana. Divirtam-se. E tenham maneiras, pleaseeeee! ...

segunda-feira, junho 18, 2007

MST - Palavras de ordem

"a terra é um bem da natureza, deve estar apenas vinculada aos interesses do povo”...

A Terra a Quem a Trabalha!...

Outras Paisagens - 5º Congresso do MST

Realizou-se nos dias 11 a 15 de Junho, em Brasília, o 5º Congresso do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. Presentes 17.500 trabalhadoras e trabalhadores de 24 Estados do Brasil e 181 convidados internacionais em nome de 21 organizações camponesas de 31 países, entre outros amigos e amigas.

Foi tema central do Congresso discutir e analisar os problemas da sociedade brasileira e procurar alternativas para os problemas do Mundo Rural.

Eis alguns dos compromissos assumidos:

“Comprometemo-nos a prosseguir na organização do Povo para que lute pelos seus direitos e contra as desigualdades e as injustiças sociais. Por ele, pelo Povo, assumimos os seguintes compromissos:

1. Articular-nos com todos os sectores sociais e as suas formas de organização para construir um projecto popular, que enfrente o neoliberalismo e as causas estruturais dos problemas que afectam o Povo brasileiro.

2. Defender os nossos direitos contra qualquer política que intente retirar direitos conquistados.

3. Lutar contra as privatizações do património público, (...) e pela nacionalização das empresas públicas que foram privatizadas.

4. Lutar para que todos os latifúndios sejam expropriados e prioritariamente as propriedades de capital estrangeiro e dos bancos.

5. Lutar contra (...) a queima dos bosques nativos para expansão dos latifúndios; exigir dos governos acções concretas para restringir essas práticas criminosas contra o meio ambiente; combater o uso de agro tóxicos e monoculturas em grande escala de soja, cana-de-açúcar, eucalipto, etc.

6. Combater as empresas transnacionais que pretendem controlar as sementes, a produção e o comércio agrícola brasileiro, entre outras, Monsanto, Syngenta, Cargill, Bunge, ADM, Nestlé, Basf, Bayer, Aracruz, Stora Enso; impedir que continuem explorando a nossa natureza, a nossa força de trabalho e o nosso País.

7. Exigir o fim imediato do trabalho escravo e a hiper exploração do trabalho e o castigo dos responsáveis; todos os latifúndios que utilizam qualquer forma de trabalho escravo devem ser expropriados, sem nenhuma indemnização, como prevê o Projecto de Lei já a aprovado no Senado.

8. Lutar contra toda a forma de violência no campo, assim como contra a criminalização dos Movimentos Sociais; exigir o castigo dos assassinos – mandantes e executores – dos lutadores e lutadoras da Reforma Agrária, que permanecem impunes e com processos parados no Poder Judicial.

9. Lutar por um limite máximo do tamanho da propriedade da terra. Pela demarcação de todas as terras indígenas (...); a terra é um bem da natureza, deve estar apenas vinculada aos interesses do povo”...


Há mais Mundo para além da Ota, não vos parece!...

quinta-feira, junho 14, 2007

“Jamais!... Jamais!...”

Como é sabido qualquer discurso nunca é apenas o que diz: é também aquilo que revela, para além do corpo de sinais, em que se materializa. E, se é assim na literatura, na fotografia, na culinária, na publicidade ou na moda, é sobretudo na política, onde se adensa, com especial vigor, “a voz decorativa” do discurso...

Não cabe no âmbito destas linhas desvendar as diversas leituras possíveis da célebre expressão do Ministro Mário Lino, para além da evidência de um certo exibicionismo, porventura, produto da cultura de pechisbeque dominante, que leva a procurar aparentar-se o que se não é, ou a pretender afirmar-se o que não se possui...

Enfim, o estilo faz o homem, como é sobejamente reconhecido...

Mas para além do estilo, importa-me a substância. E, neste plano, recordemos que a expressão do Ministro foi proferida na defesa acalorada da construção na Ota do novo aeroporto e que a escolha das palavras –“jamais, jamais”!...- ditas em francês, acentuou o efeito conotativo da determinação do governo. A localização do aeroporto fora da Ota?!... Nunca, jamais, em tempo algum...

E, no entanto, passados escassos dias o Governo, pelo mesmíssimo ministro, recua e determina novos estudos, admitindo agora considerar a opção do campo de tiro de Alcochete.

Como compreendem, sou um dos milhões de portugueses que não tem opinião sobre o assunto. Acrescento até que a matéria é sobejamente árida e especializada para não motivar as minhas preocupações intelectuais... Falam-me em milhões euros e dezenas de grossos volumes de estudos entretanto feitos e fico apenas perplexo, como qualquer português que paga impostos...

Aliás, para ser completamente claro, tenho como adquirido, como qualquer português minimamente informado, que, na localização do novo aeroporto e nos milhões e milhões de euros que estão subjacentes à sua construção, se medem interesses poderosos e a eficácia dos diversos lóbis... Mas isso é um sintoma da “modernidade” capitalista em que estamos envolvidos...

Interessa-me, porém, o significado político deste recuo...

Que terá acontecido para tão radical alteração no discurso? Aconteceu “apenas” que, no mesmo dia do recuo do ministro, o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) entregou formalmente ao Presidente da República, Cavaco Silva, um estudo que defende as vantagens da localização do aeroporto na campo de tiro de Alcochete...

A partir daí, o ministro “baixou a bolinha”, passe o plebeísmo! Aliás, o presidente a CIP não de coibiu em afirmar que o estudo fora combinado, há três meses, com o primeiro-ministro que “se comprometeu que não iria tomar entretanto posições irreversíveis”; porém, na sua arrogância patronal, não mediu plenamente o alcance político das suas palavras, pelo que “fontes do gabinete do primeiro-ministro” desmentiram atabalhoadamente e a garantiram – imaginem! - que o Sócrates se limitou a “tomar conhecimento” da realização do estudo...

Significativamente, já antes o Presidente da República havia alertado para a necessidade de uma “discussão aprofundada” sobre a localização do empreendimento – podemos ficar descansados, o Presidente da República vela por nós...

E nesta onda vogamos... Ressalta, gritantemente, que nesta mudança de opinião do Governo de Sócrates foi determinada pela “palavrinha” do Presidente da República e, antes dele, ou para além dele, da vontade da CIP...

Pretendem discurso político mais claro, para além da política?!... Basta ler os sinais. Quem decide no País, quem?!... Não necessariamente o Governo...

terça-feira, junho 12, 2007

Batata quente...

A Vida de Vidro lançou-me um novo desafio. Desta vez, em forma de “batata quente”. Os seus textos são sempre inteligentes e sensíveis, pelo que me lisonjeia o convite...

1 - Referências.

Os livros de adolescência, aqueles a que recorrentemente regresso sem saber, pois que eles contribuíram para moldar o carácter e definir a minha visão do mundo. A escolha? Será possível a escolha?... Entre outros, os que de momento me ocorrem...

“A Servidão Humana” - Somerset Maugham
“Os Thibault” – Roger Martin du Gard
« O Admirável Mundo Novo » - Aldous Huxley

2 – Livros entre mãos.

“O Livro do Meio” – Armando da Silva Carvalho e Maria Velho da Costa
“O Longo Caminho para a Liberdade” – Biografia de Nelson Mandela
“As Farpas”(que me têm deliciado) – Ramalho Ortigão.

3 – Passo a “batata quente” aos meus mais recentes “favoritos”...

MaquiABel&J.B
Bonnie
Dovoar

domingo, junho 10, 2007

Para uma criança acabada de nascer...

Abre-se o tempo sem mácula ainda
Apenas a placenta é viva
E a dor...

E a ternura que brota sem medida!...

Abre-se o espaço
E o berço
E as infinitas mãos festivas...

Frágil a matéria em que somos
Que apenas o nome nos distingue

António!...

quarta-feira, junho 06, 2007

"Bom dia, Vietname!..."

Bom dia, Vietname!...”. Lembram-se?!... Filme de 1965, descreve a dura aventura de Cronauer, um “disc jockey” em Saigão, num mundo à beira da loucura, em plena guerra. Uma comédia à medida de Robin Williams...

Destacado pelo exército para fazer um programa de rádio, Adrian Cronauer, a personagem principal, em doses massivas de humor irreverente e corrosivo e das músicas que a jovem geração contestatária então entoava nos E.U.A, subvertia completamente a “verdade” oficial da guerra e virava a vida de pantanas. Os soldados adoram-no. Os altos comandos sentiam-se ultrajados!...

Para mim o filme, para além de outros méritos, ficou como ilustração exemplar da inversão de valores inscritos nas verdades dominantes e nos poderes estabelecidos, sejam eles poderes militares, poderes políticos ou... poderes mediáticos!...

Compreenderão o que pretendo dizer.

Quem ouve e vê as nossas estimáveis RTP, SIC e TVI, ou lê a nossa imprensa, aliás reverentes e zelosas imitadoras do que “lá fora” se diz ou escreve, ficou a saber que, por capricho do ditador Hugo Chávez, foi encerrada a RCTV- Rádio Caracas, o que constitui um golpe inaudito contra a liberdade de imprensa.

É essa a mensagem. A decisão do governo do Governo de Hugo Chávez foi resultado de um capricho antidemocrático, sem qualquer justificação ou fundamento... Aliás, tudo o que actualmente se passa na Venezuela, não resulta de outra coisa que não sejam os humores ou o mau dormir de Hugo Chávez...

Acontece que o Presidente Chávez, agrade ou não às nossas impolutas vestais da liberdade de informação, foi eleito pela maioria do seu povo, que na sua política anti-imperialista se revê e apoia. E a decisão de por fim às emissões da RCTV-Rádio Caracas, está escorada em sólidas razões jurídicas e... políticas!

A RCTV-Rádio Caracas foi criada em 1953, por William H. Phelps, homem de negócios dos Estados Unidos, residente em Caracas. Entretanto, em 1987, sob a presidência de Jaime Lusinchi, do partido conservador Acção Democrática, foi publicado um decreto, estabelecendo que as “concessões para transmissão e exploração de televisões e frequências de rádio serão deliberadas por um período de 20 anos”; e, pelo mesmo decreto, são reduzidas à duração de 20 anos as concessões atribuídas até então.

Assim, nos termos da lei venezuelana, anterior ao Governo de Hugo Chávez, a concessão atribuída a RCTV-Rádio Caracas terminava, imperativamente, em 27 de Maio de 2007. É certo que o governo poderia ter renovado a licença. Mas não o fez. Mas não é isso o que acontece em todo o Mundo? Os governos soberanos não avaliam permanentemente o desempenho das concessões de serviço público e agem em conformidade?

E se as emissoras (instalações e equipamentos) são de propriedade privada, o espectro radioeléctrico é de domínio público (como o ar ou a água) e, portanto, vinculado ao bem-estar colectivo.

Por acaso o Mundo tremeu, ou se indignou, quando em 1976, Andrés Pérez, o então social-democrata Presidente da Venezuela, suspendeu o mesmíssimo canal de televisão por alguns dias por “difundir notícias falsas ou tendenciosas”?!.. Ou quando, em 1980, Herrera Campins, democrata-cristão, o fechou por vários dias, acusando-o de “sensacionalista”?!.. Ou quando, no ano seguinte, foi de novo suspenso, por emitir cenas de pornografia “hard core”?!... Ou quando, no mesmo mandato do presidente democrata-cristão, foi novamente a RCTV-Rádio Caracas colocada fora de serviço “por ridicularizar o presidente de forma humilhante”?! ...

Escandalizou-se o Mundo com estas decisões? Por acaso a nossa imprensa e solícitas televisões tiveram o profissionalismo de informar?...

Cai agora o “Carmo e a Trindade” porque o Governo de Hugo Chávez não renova a preciosa licença! A democracia venezuelana corre riscos de morte, proclamam inflamados. Cínicos! O peruano Alan Garcia acaba de fechar dois canais de televisão e três estações de rádio: Canal 15, Canal 27, Rádio Ancash, Rádio Miramar e Rádio Armonia. Algum escândalo internacional?!...Que sufoco! Não há pachorra...

À falta de outros méritos, apetece abrir a janela e gritar – “Booooooooom dia, Vietnameeeeee!”...

Como catarse!...