quarta-feira, maio 30, 2007

terça-feira, maio 29, 2007

Razões de sobra para a Greve Geral...

Com insistência de picareta, uma frase teima em moer-me. “O Mundo está perigoso”, dizia Victor da Cunha Rego nas suas celebradas crónicas “os dias de amanhã”, que durante anos subscreveu no “Diário de Notícias”. Jornalista da velha guarda e inabalável defensor da democracia portuguesa, os seus apontamentos eram de grande lucidez, que, em muitos aspectos antecipavam, o curso da nossa vida colectiva. Que excelentes crónicas se perdem, com a sua falta...

Escrevo assim, em plena consciência das minhas limitações, impressionado pelos mais recentes sintomas de degradação da nossa democracia. Como admitir-se, por exemplo, que a delação constitua fundamento de procedimento disciplinar, no âmbito da administração pública?!...

Refiro-me, como por certo advinham, aos lamentáveis práticas, que a comunicação social refere estarem a passar-se na Delegação Regional do Porto, do Ministério da Educação. Não entro na discussão de detalhes. Basta-me a génese: a delação e o “zelo” dos poderes subalternos em agradar aos chefes... Será que teremos regressado práticas de “bufaria” de má memória e ao espírito “pidesco” que enegreceram anos da nossa vida colectiva?!...

A questão é tanto mais relevante quanto é certo que o próprio Governo não tem pudor em entrar nesta pulsão autocrática de limitação das liberdades cívicas. O despacho do Ministro das Finanças sobre as listas dos funcionários públicos que entrem na greve geral de amanhã é eloquente. Determina o Ministro a criação de uma base de dados para inscrição na Internet com o “número total de trabalhadores e o número total de trabalhadores ausentes por motivo de greve”, sendo que a determinação de Sua Excelência deverá ser cumprida até às 11,30 horas de cada dia de greve, com actualizações, até ás 16 horas, do mesmo dia...

Estranhas medidas estas. De facto, ao arrepio da Constituição da República e da lei da greve, o despacho do Ministro tem como pressuposto que os trabalhadores sejam obrigados a informar se aderem ou não à paralisação. O que não corresponde nem ao espírito e letra das leis da República. Assim, apenas numa perspectiva de intimidação, se pode compreender este afã controleiro do Ministro, pois não impendendo sobre os trabalhadores o dever de informação, às 11.30 da cada dia não poderão os serviços da administração pública concluir os motivos da ausência dos funcionários: se por motivo de greve ou qualquer outro...

Trata-se de uma lista numérica e não nominativa, dir-me-ão - parecendo ser essa a argumentação do Governo – pelo que, não sendo conhecidos os nomes dos funcionários abrangidos, estará salvaguardado o direito individual de cada um poder ou não aderir greve geral. Será?!...

Pois bem, será concebível que os serviços da Administração Pública, em dia de eleições, promova a organização de listas dos funcionários que pretendam exercer o seu direito de voto? Não neste ou naquele partido, mas o exercício do direito de voto, simplesmente... Seria considerado uma aberração democrática, sem dúvida!...

Pois, “mutatis mutantis” é o que acontece no caso - uma aberração democrática! Na realidade o direito à greve e o direito de sufrágio têm exactamente a mesma dignidade constitucional. Um e outro estão incluídos no mesmo acerbo de direitos, liberdades e garantias, que o Estado de direito deverá respeitar e promover e que a Constituição da República Portuguesa consagra no seu Título II, sob a epígrafe, exactamente, de “direitos, liberdades e garantias”.

E que, portanto, deverão ser exercidos em plena liberdade de juízo pessoal, sem interferências ou limitações dos governos ou quaisquer outras...

Parece pois óbvia que esta ânsia do Governo em pretender, antes de tempo, conhecer o número dos trabalhadores em greve, mais não foi que uma inadmissível intimidação (por certo vã) com objectivo de procurar impedir os funcionários públicos do seu legítimo direito à greve...

Outras razões não houvessem, seriam razões de sobra para se ser solidário com a greve geral, declarada e promovida pela Confederação Geral do Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional!...

O Mundo está perigoso, de facto!...

quinta-feira, maio 24, 2007

O Futuro Incerto de Timor Leste...

Recentemente “The Economist” reconhecia explicitamente que a vitória de Ramos Horta, nas eleições presidenciais de Timor-leste é a primeira etapa de um projecto de poder que poderá completar-se nas eleições parlamentares de próximo mês de Junho. Xanana Gusmão, com o seu recém-criado CNRT, derrotará a Fretilin e alcançará o lugar de Primeiro-ministro. Esse o objectivo final...

De momento, essas eleições são o último escolho num plano concebido para reconduzir Timor-leste aos trilhos que a Austrália, os EUA e outros países pretendem, na defesa dos seus próprios interesses, passando por cima dos direitos do povo timorense.

Como tem sido denunciado por algumas vozes insubmissas, os meios de comunicação social internacionais têm desenvolvido uma estratégia à volta dos acontecimentos naquela ilha, que tem distorcido a realidade a favor do que mais interessa aos interesses que promovem.

Daí a apresentação do governo da Fretilin como a consumação de um “estado falido”, a que é indispensável “reparar o rombo”, palavras em que se embrulha a salvaguarda dos interesses neocoloniais da Austrália e dos seus aliados.O mau da fita nesta questão é o antigo Primeiro-ministro, Mari Alkatiri, que após uma brutal campanha nos média foi obrigado a demitir-se.

É, no entanto, é importante recordar o papel deste líder timorense, que se atreveu a bater o pé a instituições todo-poderosas como o FMI e o Banco Mundial, rechaçando os seus “conselhos” para aplicar uma política neoliberal, que hipotecaria o futuro de Timor-leste. Para além disso, não aceitou a chantagem australiana sobre a exploração dos importantes recursos naturais (gás e petróleo), que está a ser disputada pelos dois países...

Com semelhante perfil de estadista e de político, como estranhar, portanto, a virulenta campanha contra a Fretilin, mantida pelos meios políticos e jornalísticos australianos, que contrastou, aliás, com o apoio descarado à candidatura de Ramos Horta. O descaramento foi ao ponto de um jornal “The Australian” ter comentado que a renúncia forçada de Alkatiri era “uma boa notícia para as empresas australianas que pretendam fazer negócios em Dili”.

Por outro lado, a campanha eleitoral para a presidência mostrou como as elites políticas ligadas a velha oligarquia timorense e os antigos colaboradores da ocupação indonésia não regatearam esforços e apoios para derrotar o candidato da Fretilin. Até por cá, apesar da proclamada neutralidade oficial, foi mal disfarçada, nos meios “bem pensantes”, a simpatia pelas hostes de Ramos Horta...

De qualquer forma, o desenvolvimento do processo eleitoral demonstrou à saciedade que Timor leste não é o proclamado “estado falido” e que a vontade popular se mostrou em toda a sua verdade, com essa aliança de “todos contra a Fretilin”, mas dificilmente poderá articular uma alternativa política consistente para o futuro.

É muito cedo para antecipar as consequências da vitória de Ramos Horta. Mas não há dúvida, porém, que para os interesses australianos terão comodamente acesso aos recursos naturais da ilha e empresas estrangeiras irão lestamente a colaborar na “reconstrução do País” (sempre um alto interesse em qualquer parte do Mundo), o que será bom para a oligarquias locais, sempre dispostas a colaborar com os estrangeiros, em troca de umas migalhas...



ver: Txente Rekondo

terça-feira, maio 22, 2007

Virgin Mary Speaks-Our Lady Of The Internet-Perpetual Novena

"Chegou a hora de erguer novas paisagens, novos homens e novas mulheres. Chegou o tempo de vislumbrar novos horizontes. Estamos de pé, vigilantes, amadurecendo, noite e dia, a fertilidade e a rebeldia que nascem das entranhas da Mãe-terra...”

domingo, maio 20, 2007

Outras Paisagens - Mães do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é um movimento político-social brasileiro que luta pela reforma agrária naquele país. Teve origem na oposição ao modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar, nos anos 1970, que preconizava a colonização forçada de terras devolutas em regiões remotas, com objectivo de exportação de excedentes populacionais

No passado dia 13 de Maio, as “Mães do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra” homenagearam todas as Mulheres que, no dia a dia, lutam por uma mundo mais justo e igualitário. Com a seguinte proclamação, de que se transcrevem excertos.

“Aos filhos e filhas da terra, em todas as Nações. Aos que não foram convidados para o banquete. Aos que, por séculos, esperam na fila da História. Não seremos espectadoras de um filme, esperando que a luz se apague. É tempo de acreditar na possibilidade de vencer a dor...

Erguemo-nos perante as mães que perdem seus filhos e filhas na guerra, nos massacres urbanos, no cano da espingarda, nos campos de concentração, nos actos de femicídio e genocídio, na violência doméstica, nas perseguições políticas, nas guerras. Erguemo-nos perante aquelas que perdem seus filhos e filhas por não terem leite, pão, terra e acesso aos conhecimentos acumulados pela humanidade...

Erguemo-nos pelas mães que deambulam com seus filhos e filhas em busca de um novo mundo. Erguemo-nos para clamar por justiça social e dignidade...

Erguemos as nossas mãos, nossas vozes e nossas consciências para convocar todas as mulheres trabalhadoras do Mundo a unirem-se contra os exploradores da terra, da vida, da nossa força de trabalho e de nossos corpos...

Dirigimo-nos aos que se dizem senhores do Mundo. Não pedimos a sua autorização para derrubar muros e semear flores e sonhos. Não lhe dedicaremos palavras ambíguas. Lutamos pela terra, pela água, em defesa das sementes e da biodiversidade. Lutamos pelo direito de decidir as nossas vidas , sobre os nossos alimentos, pelo direito ao trabalho, pelo nosso futuro e pela solidariedade entre os povos.

O “desenvolvimento e a modernidade” avançam sobre o Mundo e abrem feridas. Em seu nome se outorgam leis que põem em risco a Humanidade. Contra a deserto verde e a desesperança, rompemos o silêncio e denunciamos os que derramam cinzas sobre os sonhos e aprisionam as flores.

A vossa modernidade é obscurantismo e fome, por isso não serve. Não ousem, senhores, dar um passo mais com vosso projecto de morte. A manipulação criminosa da genética, das monoculturas, dos agro combustíveis atentam contra a soberania alimentar e contra a possibilidade ecologicamente correcto e socialmente justo.

Não permitiremos a destruição da Humanidade (...). Neste dia das mães, reafirmamos a nossa determinação em transformar o campo num espaço de esperança, alegria e sobretudo, de luta. (...) Queremos transformar o Mundo para que seja mais justo e igualitário (...).

Às mães do Mundo inteiro apenas resta organização e luta. Lutaremos incansavelmente contra o sistema neoliberal, que transforma os alimentos, a água, a terra, os conhecimentos e os corpos em mercadorias...

Chegou a hora de se exigir justiça e castigo aos responsáveis pela exploração, pelos genocídios, pelos massacres. Chegou a hora de erguer novas paisagens, novos homens e novas mulheres.

Chegou o tempo de vislumbrar novos horizontes. Estamos de pé, vigilantes, amadurecendo, noite e dia, a fertilidade e a rebeldia que nascem das entranhas da Mãe-terra...”

quinta-feira, maio 17, 2007

The Assassination of Robert Kennedy

"coragem moral é uma mercadoria mais rara do que a bravura na batalha ou uma grande inteligência”.

Outras Leituras XIV - "O mito Kennedy..." - J. Pilger

No dia 5 de Junho de 1968, pouco após a meia-noite, Robert Kennedy foi alvejado na minha presença no Ambassador Hotel em Los Angeles. Ele acabara de confirmar a sua vitória nas eleições primárias da Califórnia. "Vamos para Chicago e havemos de vencer ali!", - foram as suas últimas palavras, referindo-se à convenção do Partido Democrático, que nomearia como candidato presidencial.

Eu viajara com Kennedy através dos vinhedos da Califórnia, ao longo de estradas secundárias (...). Trabalhadores latino-americanos vomitavam devido aos pesticidas e os candidatos presidenciais prometiam-lhes que "fariam alguma coisa".

Perguntei a Robert Kennedy o que ele faria põe eles. – “Nos seus discursos”, disse-lhe, “é uma coisa que não fica claro”. Ele mostrou-se confuso: - “Bem, falo baseado na fé neste país… Quero que a América retorne ao que ela costuma ser, um lugar onde todos os homens têm uma palavra sobre o seu destino”.

O mesmo fervor visionário, a mesma "fé" nos mitos da América e no seu poder, têm sido pronunciados por todos os candidatos presidenciais de que há memória, mais pelos democratas, que começaram mais guerras do que os republicanos.

Os Kennedys assassinados foram exemplo disso. John F. Kennedy referia-se incessantemente à "missão da América no mundo", mesmo quando promovia a invasão secreta do Vietname, que provocou mais de dois milhões de mortos Robert Kennedy fizera a sua fama como um eficaz conselheiro do senador Joe McCarthy na caça às bruxas do comité de “actividade anti-americanas".

Como Procurador-geral, apoiou, com zelo, a guerra de seu irmão no Vietname e, quando John F. Kennedy foi assassinado, não teve pejo em utilizar o seu nome para ganhar a eleição como senador júnior por Nova York. Na Primavera de 1968, a sua fama de oportunista estava, portanto, com razão, consolidada na opinião pública...

Como testemunha de tais tempos e acontecimentos fico sempre chocado com as tentativas interesseiras de recuperar o mito dos Kennedys. Como acontece com livro recente de Gordon Brown ,“Courage: eight portraits” (...).

Segundo Gordon Brown, Robert Kennedy está colocado no pináculo da moralidade, seria um homem “movido pela angústia da injustiça, pelo desperdício de vidas, pelas oportunidades negada, o sofrimento humano". Além disso, - diz Brown - a sua “coragem moral é uma mercadoria mais rara do que a bravura na batalha ou uma grande inteligência”.

A verdade, porém, é que Robert Kennedy era conhecido nos Estados Unidos pela sua falta de coragem moral. Só em 1968, quando o senador Eugene McCarthy foi contra a guerra do Vietname, é que Kennedy mudou também a sua posição face à guerra. Tal como hoje, Hillary Clinton no Iraque, era um oportunista por excelência.

Ao viajar com ele, ouvi-o fazer citações de Matin Luther King e, no dia seguinte, estava já a utilizar expressões racistas, invocando a lei e a ordem...

Não é de admirar que o “legado” dos Kennedys atraia este Brown, deslumbrado por Washington. Também ele procura, em vão, apresentar-se como um político com sólidas raízes morais, quando, na verdade, como governante realizou uma agenda imoral de privatização de serviços públicos e financiou uma invasão ilegal (do Iraque) que já matou talvez mais de um milhão de pessoas. Ou que pretenda gastar milhares de milhões de libras no sistema de armas nucleares Trident.
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John Pilger é um jornalista galardoado e de méritos reconhecidos. Vive em Inglaterra, seu País de adopção. Durante cinquenta anos tem cumprido, com coragem, o que é cada vez mais raro na sua profissão: fazer o seu trabalho com honestidade e competência. Foi correspondente de guerra e tem publicados vários livros sobre temas se actualidade. É conhecido e apreciado, em todo o Mundo, pelos seus documentários sobre os crimes do imperialismo.




terça-feira, maio 15, 2007

"Meme" - "Acabou: palavra sem sentido..."

A Helena teve a gentileza de me propor para mais uma interessante iniciativa nos blogs

Eis o texto que escolhi como “meme”:

- “Acabou! Palavra sem sentido.
Acabou-se, porquê?
Entre o acabar e o nada, que diferença há?
De que serve tanta coisa criada?
O que se cria desfaz-me logo em nada!
“Acabou-se!” Qual é disto o sentido?
É como se nunca tivesse sido,
Mas, como se fosse, segue em rodopio.
Quanto a mim, prefiro o Eterno-Vazio!...”


Goethe – in “Fausto”

Compreenderão, certamente, que suspenda esta corrente em homenagem ao S.,cuja perda muitos de nós sentem profundamente.

segunda-feira, maio 14, 2007

Meninos de oiro?!...

Manhã de domingo preguiçosa... Procuro motivos que quebrem a monotonia, vagamente cinzenta. Na atmosfera e nas letras que vão desfilando... A histeria mediática de Lagos, Fátima, a visita papal, os financiamentos brasileiros do partido do governo... Sorna, a agenda mediática prossegue, levando a água ao moinho onde se farinham os condimentos das emoções quotidianas...

Rapto de crianças aos milhares, crianças guerreiras em Africa, genocídio no Dafur, carros-bomba no Iraque, que matam crianças inocentes todos os dias... Quem se importa? Enfim, vivemos!... E emocionamo-nos, pois claro!... Num caso ou outro, apaziguamos a consciência numa qualquer marcha contra a fome... E, evidentemente, gritamos mais alto, cada um de nós, um qualquer grito indignado, que os media nos impõem...

Estava, portanto, nestas ruminações, (onde avultava a surpresa de um certo cinismo de considerar que a comunicação social, mais que o papel estruturante do Estado democrático, com que gosta de se enfeitar, outra coisa não pretende que aumentar as audiências), estava, portanto – dizia - nestas ruminações, quando deparo, em grande destaque, com o título de que um “reforço do Sporting ainda não ata os sapatos”...

Vindo de Braga, naturalmente, em cujo distrito crianças da sua idade são constrangidas a abandonar a escola para cozerem sapatos para multinacionais de calçado...

A notícia era empolgante! A briosa jornalista era pródiga no relato, indo ao pormenor de esclarecer que o miúdo “já não quer que a mãezinha lhe escolha a roupa para levar para a escola”. No entanto, com oito anos e “trinta quilos distribuídos por 1,30 metros” assinou (?) como “centrocampista” do prestigiado clube de Lisboa...

O miúdo considera-se normal, mas os dirigentes desportivos do categorizado clube entendem que não, que é digno das maiores atenções, pelo que irá treinar duas vezes por semana no clube, para o qual se mudará definitivamente com 11 anos...Por detrás (ou será por todos os lados?) uma empresa de mediação desportiva, que segundo a notícia, será compensada financeiramente pelo clube. Pudera!...

O pai está babado, como era esperado: “fiquei orgulhoso quando ouvi o pessoal do Sporting falar do talento do meu filho...”. E com razão!... O filho, conforme o relato, “com seis anos dava 30 toques seguidos na bola e o Cristiano Ronaldo contou que dava 100 aos doze anos...”. Imaginem o orgulho!...

O limite é, portanto, o céu! O próprio Bruno – esta a sua graça – na sua ingenuidade infantil, garante que quer ser como o Cristiano Ronaldo, “se possível melhor que ele...” e que se deixa influenciar pela televisão: “olho o Cristiano ou o Ronaldinho e tento ser igual”. Faz - é bom de ver - “golos de trivela” e gosta de “dar as pernas ao adversário”...

Apenas a mãe – qual "mulher de Atenas”!... - destoa neste coro: “ele ainda é muito pequenino!... Pode alguma coisa tal mágoa?!...

A mim salvou-me o dia... Saio à rua, com ressonâncias de José Afonso:

“O meu menino é d´oiro
É d´oiro o meu menino
Hei-de levá-lo ao Céu
Enquanto for pequenino"...

quinta-feira, maio 10, 2007

Un mauvais présage...

Será que a sociedade actual consegue tirar lições do horror e da desumanidade do passado e trabalhar por um futuro mais tolerante, justo e humano?...

quarta-feira, maio 09, 2007

Outras Personagens V - Ian Kershaw...

... no 62º aniversário da derrota do nazi-fascismo!

Passou, ontem, 8 de Maio de 2007, o 62º aniversário da vitória dos Aliados sobre o nazi-fascismo, que levou a Europa aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Parece-me adequado, assinalar a data com uma súmula de uma entrevista, dada ao jornal “Público” por um dos maiores especialistas da história do nazismo, Ian Kershaw. Dele a afirmação de que “sem a visão apocalíptica de Hitler a “solução final” é impensável”...

Ian Kershaw, sabe do que fala. É um académico de mérito, professor de História Moderna na Universidade de Sheffield, em Inglaterra. Kershaw foi o conselheiro de duas consagradas séries da BBC e autor de uma monumental biografia de Hitler, em dois grossos volumes.

Na entrevista em referência, o autor explica como foi possível pôr em prática, de forma quase secreta, a máquina de exterminação de uma “raça”. A perseguição dos judeus foi um processo sistemático de aniquilação física, que se tornou um programa global, cobrindo toda a Europa, durante a Primavera e Verão de 1942.

De facto, na Conferência de Wannsee, em 20 de Janeiro de 1942, ficou claro que todos os judeus seriam aniquilados; os que não conseguissem trabalhar sê-lo-iam imediatamente e os outros trabalhariam até à morte. Em qualquer caso, todos seriam mortos, mesmo aqueles que revelassem capacidade de sobrevivência aos trabalhos forçados. O objectivo, em suma, era a eliminação física de todos os judeus da Europa sob ocupação nazi, estimados em 11 milhões de pessoas.

O anti-semitismo biológico, que se desenvolveu no final do século XIX distinguia os judeus da raça “ariana”, através de características que alegadamente se encontrariam “no sangue”. E, por isso, era impossível mudar ou melhorar as características genéticas dos judeus, considerados, simultaneamente, inferiores e subversivos perante as raças “superiores”. Hitler acrescentou as estas teses racistas outro elemento crucial – a ideia de “redenção” nacional para os alemães, através da destruição dos judeus. Pode dizer-se que fez da eliminação dos judeus o pressuposto da salvação nacional do povo alemão.

O genocídio era possível sem Hitler, interroga-se o autor? Não, afirma peremptório. Sob um qualquer regime nacionalista teriam, sem dúvida, havido discriminação e perseguições. Mas Hitler era o mais radical dos radicais – como Goebbels disse “o mais inabalável defensor e porta-voz de uma solução radical” para a “questão judaica”. A sua autoridade era necessária para todos os passos essenciais no processo de extermínio...

Como foi possível manter-se o silêncio? Ninguém no exterior tinha ideia do que se estava a passar em Auschwitz e nos outros campos? Considera o autor que segredo foi mantido, através do uso de linguagem “camuflada”, entre o círculo mais próximo de Hitler. Falava-se, por exemplo, em “evacuação” ou “deslocação” dos judeus, em vez de se falar abertamente em extermínio. As ordens eram transmitidas oralmente em vez de serem escritas. A regra geral, estabelecida por Hitler, era a de que as pessoas só deviam ser informadas sobre aquilo que precisavam saber.

Claro que era impossível manter um segredo total. A diferentes níveis do regime circulavam rumores, embora mais em relação a fuzilamentos em massa no Leste, do que às câmaras de gás. E muitas pessoas conseguiam deduzir que se estavam passar coisas terríveis, embora possivelmente a informação concreta sobre os gazeamentos só chegasse a alguns.

P0r outro lado, a tentativa dos nazis de enganarem as vítimas teve algum sucesso. Isto era conseguido dizendo-lhes à chegada que tinham que tomar um duche e, depois, levando-os para as câmaras de gás disfarçadas de chuveiros... Mas era impossível manter um segredo total. Houve rebeliões em alguns campos. E a revolta no Gueto de Varsóvia aconteceu porque os judeus, que conheciam o que estava a acontecer em Treblinka e sabiam o que os esperava se fossem deportados.

Poderiam os aliados ter feito alguma coisa antes de 1945? É difícil definir exactamente o que sabiam os soldados aliados. Presume-se que os campos da morte, incluindo Auschwitz-Birkenau, não eram conhecidos dos soldados aliados. O choque dos soldados do Exército Vermelho, no momento da libertação de Auschwitz, ou dos americanos na libertação de Dachau, e dos britânicos quando chegaram a Bergen-Belsen foi enorme. De facto, os soldados não estavam preparados para o horror que encontraram.

No entanto, os governos aliados sabiam do genocídio, desde 1942. A BBC divulgou notícias sobre experiências com gás, no final de 1943. E, no Verão de 1944, os americanos tiraram fotos aéreas de Auschwitz, mas estavam mais interessados em bombardear o complexo industrial em Monowitz, nas proximidades...

Permanecem dúvidas, no entanto, sobre se a aviação aliada teria capacidade para inutilizar a linha de comboio para Auschwitz. De qualquer forma, os aliados decidiram que a melhor maneira de acabar com as perseguições aos judeus era acabar com a guerra o mais depressa possível...

O Holocausto foi um acontecimento sem precedentes na História da Humanidade, concebido pelo Estado e executado por métodos industriais e precisão burocrática, para exterminar completamente um grupo étnico, apenas por causa da sua identidade étnica. Distingue-se de outros genocídios terríveis pela chocante patologia de uma certa modernidade e pela prova, mais que evidente, do débil fio da civilização.

Será que a sociedade actual consegue tirar lições do horror e da desumanidade do passado e trabalhar por um futuro mais tolerante, justo e humano?...

segunda-feira, maio 07, 2007

Deixem o homem trabalhar...

Como se sabe, o Presidente da República, último garante da Constituição e do regime democrático, proclamou, perante o País, em sessão solene na Assembleia da República, a tese de que as comemorações da Revolução de Abril, seriam uma penosa rotina. E que, portanto, importaria “inovar”...

Ao presidencial bocejo, respondeu solícito, o Primeiro-Ministro, garantindo que o discurso do Presidente fora “adequado às circunstâncias”, o que deixa advinhar que, também para ele, Eng.º José Sócrates, as comemorações do “25 de Abril” são uma democrática sensaboria...

Compreende-se o enfado do Presidente, acolitado pelo Primeiro-ministro, na circunstância!... E, no entanto, “malgré lui”, a Assembleia da República é o local privilegiado da política, onde a vontade soberana do Povo se exprime na legitimidade da representação parlamentar. Mais do que isso: é o lugar simbólico da democracia em todo o seu esplendor...

Ao que tudo indica, porém, Sua Excelência considera a política, não como expressão nobre de devoção ao País, ou um desígnio de serviço público, mas antes o “mal necessário”, que os espíritos iluminados pela beatitude das virtudes do mercado, não poderão dispensar.

Sintomático, neste plano, que o Presidente se considere “não político”, quer dizer, um político “não profissional”, ignorando a velha máxima romana de que a política, na sua mais nobre expressão, é “otium”, mas nunca “negotium”. (Não quero cometer a indelicadeza de chamar à atenção presidencial para a utilidade em saber-se latim - como alguém, em tempos, terá lembrado - mas seria espectável um pouco mais de história... política!)

Que ele, Presidente, não goste como o 25 de Abril tem andado a ser celebrado, compreende-se, portanto. Se bem analisarmos, há muitos como ele. Com a vantagem, porém, de ter a comunicação a seu favor, para chamar a necessidade de “inovar”, em nome da juventude, pois claro!...

Entendo-o, perfeitamente, acreditem!... Querem coisa mais passadista que uns jovens capitães derrubarem um regime a cair de podre?!... Que Sua Excelência, consequentemente, teve o cuidado de ignorar na sua sapiente oração...

Acresce que, na Assembleia da República, apesar das gravatas e dos salamaleques, ainda se vêem nas lapelas muitos cravos vermelhos... Orquídeas, senhores, são bem mais expressivas da ideologia pequeno burguesa do sucesso a todo o custo, em que estamos mergulhados. Abaixo, portanto, os cravos vermelhos!

E, mais a mais, há discursos, na Assembleia da República, imagem!...

Discursos diversos, desencontrados nos seus objectivos e propósitos, cada um dos partidos teimando em dizer das suas razões, sem maneira de dizerem todos a mesma coisa! Como, por certo, mais agradaria a Sua Excelência, desde que, naturalmente, todos dissessem o que ele, presidente, entende que deveria ser dito, pois, bem se sabe, a diversidade gera confusão nas cabeças e as revoluções são sempre uma desarrumação da ordem bem alinhadinha.

E justiça se lhe faça, o nosso presidente é por um País arrumadinho, como demonstra no afã dos seus roteiros da inclusão. Sem lugar para heróicos capitães, nem para a pulsão libertadora e igualitária da Revolução de Abril...

Uma chatice, de facto, esta persistência nas comemorações do 25 de Abril!...

Sobretudo, nas ruas, nas escolas, nas agremiações de cultura e de recreio, nas autarquias locais, nas cidades e nos bairros, ampliando a celebração da memória, mas também o impulso para o futuro... Ali, ao lado, onde mora a juventude desempregada e sem rumo, o reverso dos jovens “topo de gama” com que a Sua Excelência nos acena...

Como eu compreendo, pois, o Presidente da República nesta sua cruzada de “inovação”...

Aliás este fervor estará certamente alicerçado em sólidas opções de juventude. Como se sabe, na altura própria, Sua Excelência não esteve implicado no 25 de Abril, nem nos seus antecedentes, nem nos seus imediatos consequentes. Teve para tal boas razões: estava a estudar!...

Talvez, por isso, não goste dos festejos de Abril tal como se têm realizado. Com discursos plurais na Assembleia da República, com muita gente nas ruas, com muito barulho e palavras de ordem reivindicativas e irreverentes...

Desta forma, como poderá o homem trabalhar, não me dizem?!...

terça-feira, maio 01, 2007

A Mulher de Vermelho

rasgam-se as cortinas e sob o foco a Mulher
esguia como o tempo liberto. o punho
erguido ao céu da praça cheia e às canções!
Maiakovski grita em métricas guturais
“abram alas ao futuro que perpassa nas dobras
do manto vermelho!...”


a Mulher inclina-se em dignidade soberba
segura na mãos a flor dos dias e nos olhos
o fervor prenhe de lonjura e de distância
e a palavra ousada nos lábios escarlate
como a túnica...

inflama-se o tempo...

uma criança soletra liberdade
nas pétalas desfolhadas do cravo rubro
que a mãe lhe dera com o leite
e o pai sorri com os imaculados dentes
da fome. com o grito. com a guerra.

e ergue o punho à Mulher de Vermelho
que o acolhe no seu seio de cristal...

viva o 1º de Maio!