segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Outras Paisagens I - Bolívia

Lema: “Morir antes que esclavos vivir”

Línguas -Espanhol, quíchua, aimará
Capital - La Paz, Sucre¹
Presidente - Evo Morales
Área- 1.098.580 km2
População (Julho 2000) - 8.586.443km²
Independência - 6 de Agosto de 1825
Moeda -Boliviano
(1) La Paz é a sede do governo,Sucre a capital oficial.

1 - A Bolívia situa-se na América do Sul, limitado a norte e a leste pelo Brasil, a sul pelo Paraguai e pela Argentina e a oeste pelo Chile e pelo Peru. Tem como capitais, Sucre e La Paz.

Na Bolívia desenvolveram-se grandes civilizações, a mais importante das quais foi a civilização de Tiahuanaco, que se tornou parte do império Inca no século XV.

Quando os espanhóis chegaram no século XVI, a Bolívia, rica em prata, foi incorporada ao vice-reino do Peru e mais tarde ao reino de La Plata.

A luta pela independência começou em 1809, mas a Bolívia permaneceu parte do império espanhol até 1825, quando foi libertada por Simón Bolívar, a quem o país deve o seu nome.

A Bolívia é um país interior, sem acesso ao mar. A ocidente está situada a cordilheira dos Andes; o pico mais elevado, o Nevado Sajama, chega aos 6 542 m de altitude. O centro do país é formado por um planalto, o Altiplano, onde vive a maioria dos bolivianos. O leste do país é constituído por terras baixas, cobertas pela floresta húmida da Amazónia.

As cidades principais são La Paz, Sucre, Santa Cruz de la Sierra e Cochabamba.

2 - A Bolívia, é um dos países menos desenvolvidos da América Latina e, ao longo da sua História, sofreu inúmeras revoluções e golpes militares.

Após décadas de lutas populares contra o colonizador espanhol, duramente reprimidas, com o seu apogeu nas rebeliões, de Túpac Katari (1780/82), lideradas por pelo mestiço Pedro Domingo Murillo, o sector crioulo, dominante na sociedade, usurpou o projecto independentista e copiou os modelos económicos e administrativos das potências europeias.

Assim, a transferência do poder político de Madrid não significou grande mudança para os “índios” e “cholos”. A “rosca”, grupo proprietários de minas (Patiño, Aramayo, Hochschild) e os políticos e generais ao seu serviço dirigiram a Bolívia como coisa privada, ou seja, como se fizesse parte do negócio de estanho.

Por outro lado, os interesses britânicos pelo salitre de Antofagasta e pelo petróleo do sul do País, provocaram guerras fratricidas com os países vizinhos: a guerra do Pacífico (o Chile contra a Bolívia e Perú – 1879/83) e a guerra do Chaco (Paraguai contra a Bolívia – 1932/35). Em resultado destas guerras, a Bolívia perdeu o acesso ao mar e cerca de três quartos do território. Entretanto, em 1904, as classes possidentes que dominavam o País, haviam vendido ao Brasil o Acre amazónico, completando-se de alguma forma o desmembramento territorial do País.

3 - Em 1951, culminando uma série de rebeliões sufocadas em sangue, após uma vitória eleitoral não respeitada, o Movimento Nacionalista Revolucionário liderou uma insurreição popular vitoriosa que levou à Presidência Víctor Paz Estenssoro. Em consequência, foi instituído o voto universal, foram nacionalizadas as minas de estanho, implantada a reforma agrária. Porém, devido à progressiva influência norte-americana na economia e na política cedo a revolução baqueou, tendo sido deposto Víctor Paz Estenssoro.

Entretanto, na década de sessenta, Che Guevara parte para a Bolívia, onde tenta estabelecer uma base guerrilheira para lutar pela unificação dos países da América Latina. Mas enfrenta dificuldades com o terreno desconhecido. Em 8 de Outubro de 1967 é cercado, capturado e executado, por soldados bolivianos na aldeia de La Higuera, sob as ordens de agentes da CIA.

Após a deposição de Víctor Paz Estenssoro, a vocação revolucionária do Povo boliviano voltou a manifestar-se com a eleição general Juan José Torres, (1971) em breve deposto por um golpe militar sangrento, liderado pelo coronel Hugo Banzer. Mais tarde, em 1978, após eleições que deram a vitória à coligação de centro-esquerda de Siles Suazo, o general Hugo Banzer foi deposto em novo golpe de estado, desta vez liderado pelo general Juan Peneda Asbún.

Desde então, os golpes militares foram constantes. Sob a batuta dos Estados Unidos, até ao final do século, a política boliviana materializou-se por um circulo infernal de golpes de estado, governos conservadores e, por escassos momentos, governos de centro-esquerda. Na década de oitenta, no decurso do mandato de Siles Suazo, as persistentes práticas neoliberais na economia e a instabilidade política, provocaram, uma crise gravíssima materializada no trinónio crise-empobrecimento-protestos.

Em 1989, realizaram-se eleições das quais saiu vencedor o Movimento Nacionalista Revolucionário, com 24% dos votos. Em consequência de arranjos parlamentares, o Congresso elegeu Paz Samora para presidente, mediante acordo em formar governo de coligação com o velho ditador Hugo Banzer. Paz Samora promoveu uma ainda mais intensa política austeridade, conforme os cânones do neoliberalismo e as exigências norte-americanas.

Durante a presidência do presidente Sánchez de Lozada (1993-97) a Bolívia assinou um tratado de comércio livre com o México, tornou-se membro associado do Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) e procedeu à privatização da linha aérea estatal, da companhia de telefones, dos caminhos de ferro, da companhia eléctrica e da companhia petrolífera.

Nas eleições de 1997, o antigo ditador Hugo Banzer foi eleito presidente com 22% dos votos. Embora se propusesse aprofundar o sistema económico na perspectiva neoliberal, que vinha a ser seguida, não teve condições políticas para o conseguir. Em Janeiro de 1998, o país ficou paralisado com uma greve geral, contra o aumento de impostos e o preço dos combustíveis.

Assina, então, acordo com os Estados Unidos, mediante o qual são eliminadas 7 000 mil plantações de coca, a troco de ajuda económica e contrapartidas financeiras e, em Abril do mesmo ano, assina acordo com o Clube de Paris, obtendo um crédito de 941 milhões de dólares para financiar o seu programa de reformas económicas. Sem conseguir porém travar a degradação económica, política e social. Pelo contrário, aprofundou o modelo neoliberal na economia, com mais desemprego e miseria e os consequentes protestos e crises insurreccionais.

Em 2005, é então eleito Presidente da Bolívia, Juan Evo Morales Aima.

4 - Morales é de origem ameríndia, nascido no “pueblo” mineiro de Oruro, no gélido planalto ocidental.A sua etnia e a sua língua são o “aymará”. A exemplo de milhares de outros camponeses, no início dos anos oitenta, a sua família emigrou para este do País – Chapare - em busca de melhores condições de vida.

Morales, na infância, foi pastor de “llamas”. E, na juventude, fez parte, como trompetista, de uma banda local que amenizava os dias dos trabalhadores rurais subnutridos, que mascavam coca para se poderem manter de pé. Por essa época, terminou a sua educação secundária, mas não teve acesso à Universidade.

Desde cedo, porém, começou a actividade política, integrado no sindicato dos camponeses. Por essa altura, destacou-se como líder “cocalero” da região, participando activamente de marchas e lutas que os camponeses faziam contra as ameaças do então Presidente Hugo Banzér Suárez de acabar com as plantações de coca.

É sabido que, por detrás desta política de Hugo Banzer estava o acordo com os Estados do Unidos para acabar com aquilo que consideravam o celeiro da cocaína. No entanto, para os indígenas da região não era opção erradicar uma cultura ascentral, fonte do seu magro sustento, enraizada na sua forma de vida desde tempos anteriores à chegada dos espanhóis.

Por ironia do destino e vontade do Povo boliviano, Hugo Bazner Suárez, que chegou a Presidente depois de um violento e cruel golpe de estado, encontra-se auto-exilado nos Estados Unidos e Evo Morales é Presidente eleito da Bolívia.

O ano de 1997 pode ser considerado como ano chave para Morales, pois foi esse ano que se inicia a sua fulgurante carreira política até à Presidência do País. Nesse ano, é eleito para a Câmara dos Deputados, com uma vitória estrondosa de mais de 70% do votos do seu distrito eleitoral.

A sua bancada parlamentar manteve-se sempre firme na defesa das camadas mais pobres da população e, em especial, dos “cocaleros”. Depois de graves incidentes em 2002, de que resultaram a morte de três militares, um polícia e quatro “cocaleros”, Evo Morales é afastado do Congresso, por pressão da Embaixada dos Estados Unidos.

Porém, em meados do mesmo ano, Evo Morales voltou com mais força e popularidade reforçada nas eleições gerais que então se realizaram. O seu partido - Movimento para o Socialismo ( MAS) - ganhou a quinta parte do Congresso, quando as sondagens apenas registavam 4% das intenções de voto. A Casa Branca ameaçou, então, retirar a ajuda financeira ao país, se os bolivianos elegessem o “cocalero” para governar o País. Debalde, porém...

Na sequência de poderosas manifestações promovidas pelo MAS, em Março de 2005, o Presidente Carlos Mesa demitiu-se. E nas eleições presidenciais de Dezembro desse ano, confirmou-se aquilo que era esperado. Evo Morales obteve 54% dos votos, frente aos 18% do seu rival, o conservador Jorge Quiroga, candidato dos norte-americanos.

Era a primeira vez na história que um índio sentava na cadeira presidencial, onde até agora se haviam sentado gerações de brancos. Logo nos seus primeiros dias como presidente eleito, Morales colocou a Bolívia como protagonista da cena internacional: - “São tempos novos. Este milénio para os Povos, não para o Império” – declarou numa reafirmação de patriotismo anti-imperialista

Fontes :

Guia do Mundo
Pesquisa web - Wikipédia



discurso de Evo Morales na Cimeira do Mercosul

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

"OPAS há muitas, ó palerma!..."

Como se sabe, Malthus advogou o princípio de que os “mais fortes devoram os mais fracos”. Aliás, na cruel a selecção das espécies, também as teorias de Darwin assentam em tal pressuposto. Sabemos, hoje, porém, que nem a natureza, nem a história funcionam nesse modelo mecânico e determinista. Pelo contrário, os modelos de retroacção (negativa e positiva), oriundos da informática e da cibernética, são hoje bem mais adequados ao conhecimento da natureza e da sociedade.

No entanto, o modelo malthusiano do mais forte devorar o mais fraco, enforma ainda hoje o pensamento da economia liberal e dos nossos fundamentalistas do mercado, que, nesta como em outras matérias, levam mais longe ainda as consequências de semelhante pensamento.

Assim, neste contexto, não posso deixar de considerar intrigante que, na badalada OPA da Sonae sobre a PT, sejam os dados da equação invertidos. Ou seja: a Sonae, o grupo menos forte, a pretender engolir o colosso Portugal Telecom. A menos que o senhor Belmiro de Azevedo seja, no caso, apenas testa de ferro (e o seu grupo económico mero instrumento) de capitais estrangeiros, sobretudo, espanhóis e franceses, interessados no desmantelamento da Portugal Telecom...

Desde logo, do Banco Santander, financiador da operação, no montante de milhares de milhões de euros; mas, também, da Telefónica - poderosa empresa espanhola de telecomunicações - e a France Telecom associada à Sonae do senhor Belmiro de Azevedo. Claro, que na operação todos ficarão a ganhar. Duvidoso é, porém, que seja o País a ganhar seja o que for...

De facto, o grupo Portugal Telecom, enquanto tal, tem a morte anunciada para saldar a colossal dívida, decorrente da OPA. Aliás, conforme declarações dos interessados, já se distribuem os “salvados”: a Sonae, em parceria com a France Telecom, pode integrar a Optimus e a TMN e controlar a TV-Cabo; para a Telefónica espanhola a totalidade do capital da “Vivo”, no Brasil, o que lhe proporciona condições de alargar a sua influência para toda a América Latina; a France Telecom, que ficará com a PT- Comunicações e, através dela, com a possibilidade de alargar os seus interesses em África. E, claro, para o banco Santander, os fabulosos lucros de toda a operação...

No entanto, sobre o essencial da questão, o Governo, não soltou sequer um balido. Que se tenha notado, apenas o lavar de mãos e a declaração de “deixar funcionar o mercado”. E, está claro, a pressão sobre as entidades reguladoras, que intervêm no processo, com o óbvio aplauso do senhor Azevedo, da Sonae.

Mas terá que ser assim, pergunto-me. Com os meios que detém, quer através da propalada “golden share”, quer mediante a participação da Caixa Geral de Depósitos, será – pergunto – que o Governo pode lavar a mãos?!...

Fora o episódio desta OPA passado em Espanha, ou em França, e não tenho dúvidas que os respectivos governos não se colocariam à margem. É que por lá, pesem embora as mesmas “regras do mercado”, que o senhor Sócrates invoca, perdura o sentido do interesse nacional e não são bacocas expressões de fundamentalismo liberal que vão iludir o “patriotismo económico”, que todos os governos devem aos respectivos países.

Por exemplo, em França, por ocasião do lançamento da OPA sobre a Portugal Telecom, a empresa italiana Enel pretendeu lançar também uma OPA sobre a empresa francesa Suez. O primeiro-ministro de França não hesitou em lembrar ao seu homólogo italiano que tal intenção seria “um ataque contra a França” e apressou-se a promover a fusão do grupo privado Suez com a empresa pública Gaz de France (GDF), de forma liquidar a pretensão dos italianos. Em consequência, a GDF, detida pelo Estado francês em 80,2% do seu capital, é segundo operador europeu, no sector do gás.

Mas também em Madrid, o “patriotismo económico” funciona. Na mesma semana do episódio francês, em Fevereiro de 2006, Zapatero reagiu de forma idêntica perante à anunciada aquisição, por parte da empresa alemã E.ON, de 30% do capital da espanhola Endesa, o maior operador espanhol no sector da electricidade.

Saindo em defesa do interesse nacional, o chefe do Governo espanhol foi peremptório a afirmar que “num sector tão estratégico como o da energia é do interesse geral do país possuir uma empresa espanhola” e, sem meias medidas, ameaçou limitar direito de voto do operador estrangeiro apenas a 5%. Apesar do sobreolho franzido de Bruxelas...

Porquê será diferente em Portugal?!...

Como se vê OPAS há muitas! Tal e qual como os chapéus... Alguns nem chegam a ser usados. Outros não passam de um “barrete”, que nos pretendem enfiar...

sábado, fevereiro 17, 2007

Arrependimentos?!...

Zbigniew Brzezinski, lembram-se?!... Foi Conselheiro de Segurança Nacional doa Estados Unidos, durante o Governo do presidente James Carter, entre 1977 e 1981. Nessa qualidade, foi o homem-chave na ajuda maciça aos “combatentes da liberdade” afegãos, mais tarde metamorfoseados em “talibans” e operacionais da Al Qaeda.

Entrevistado, em 1998, pelo Nouvel Observateur, que lhe perguntou se ele se arrependia daquela operação, Zbigniew Brzezinski, respondeu:

Arrepender de quê?!.. A operação secreta foi uma ideia excelente. Teve como consequência atrair os russos para a armadilha afegã. E você quer que eu me arrependa? (...). O que é que é mais importante em termos da história do mundo? Os Taliban ou a queda do império soviético? Alguns radicais islâmicos mais excitados ou a libertação da Europa central e o fim da Guerra Fria?”...

Como se sabe, a derrota da URSS e a saida em 15 de Fevereiro de 1989, não significaram a paz no Afeganistão. Os soviéticos abandonaram o País, ficando um enorme vazio... Foi, aliás, para preencher esse vazio que entrou em cena a Organização das Nações Unidas (ONU), abrindo espaço às empresas norte-americanas de petróleo numa região do Mundo, considerada um novo eldorado de hidrocarbonetos.

A partir de Junho de 1990, por exemplo, a empresa petrolífera Chevron estabeleceu-se na região; entre os assessores da empresa, Richard Cheney, ex-Secretário da Defesa, no governo de Bush pai e actual vice-presidente de Bush filho; e também, Zbigniew Brzezinski, está claro ...

Recordam-se estes factos para melhor se puderem enquadrar declarações recentes do nosso “herói”. Em 1 de Fevereiro de 2007, Zbigniew Brzezinski, foi ouvido na Comissão dos Negócios Estrangeiros do Senado. Declarações que deram algum brado na imprensa norte-americana, mas que órgãos da comunicação social portuguesa se limitaram a ... desconhecer! No entanto, vindas de quem vêm e proferidas no local em que foram, são certamente, declarações a ter em conta...

Que diz o “nosso” homem, especialista de operações secretas e intervenções camufladas?!... Transcrevo, traduzindo do francês:

Um cenário possível para uma confrontação militar com o Irão implica que o malogro iraquiano seja sentido pelo povo americano, seguindo-se acusações responsabilizando o Irão por esse malogro; depois, por algumas provocações no Iraque, ou um acto terrorista em solo americano, do qual o Irão seria responsabilizado. Desta forma, poder-se-ia culminar com uma acção “defensiva” contra o Irão, que, no entanto, lançaria o isolamento da América, num imenso atoleiro, englobando o Irão, o Iraque, o Afeganistão e o Paquistão”

Avisadas sem dúvida, tais palavras. Porém, não deixa de ser chocante que o senhor Brzezinski tenha evocado, como prática normal, a possibilidade da Administração Bush poder organizar um atentado, em solo americano, para falsamente ser atribuído ao Irão, como pretexto para provocar uma nova guerra e a invasão daquele País. Assim, preto no branco...

Não sendo de presumir que Zbigniew Brzezinski se tenha arrependido do seu passado, como compreender tais declarações? Para muita gente, nos Estados Unidos, o antigo Conselheiro de Segurança Nacional terá pretendido lançar “um aviso à navegação” e alertar os partidários da intervenção no Irão para a reabertura na opinião pública do “dossier” do 11 de Setembro, segundo o qual aqueles atentados foram perpetrados por uma facção do complexo militar-industrial para provocar as guerras do Afeganistão e do Iraque. Assunto que, ao que parece, deixou de ser tabu para poder ser discutido abertamente pelas elites de Washington...

E por cá?!... Nós, por cá todos bem, atentos e obrigados! A cumplicidade nos famigerados voos da CIA aí está clamorosa, como uma indignidade...



Ver: voltairenet.org

domingo, fevereiro 11, 2007

Outras leituras XII - "Poluição Ambiental e Social"

Hoje este espaço abre-se, mais uma vez, à participação de outros blogs. Pelo prazer da partilha. E pela cumplicidade das razões. A palavra ao Sérgio, do blog "Diafragma" .

Poeta da imagem e das fotos, o Sérgio é também lúcido observador da realidade social, no qual se advinha uma apurada consciência cívica.


É sabido que muitas empresas evitam tratar os resíduos poluentes resultantes da sua actividade despejando-os directamente nos rios, mares ou até em terrenos vizinhos. Esta atitude tem uma única razão, que é a de evitar os custos inerentes a um tratamento adequado, o que reduziria os seus lucros.

Com a crescente preocupação relativa à preservação do ambiente, esta prática tem vindo a ser legislada em todo o mundo e hoje em dia, uma empresa que polua o ambiente está por isso sujeita a pesadas multas. Em termos económicos, o que isto significa é que as empresas são obrigadas a reduzir os seus lucros investindo numa área que não tem directamente a ver com a sua produção, mas sim com técnicas e processos destinados a evitar a poluição ambiental.

Ora não deixa de ser estranho e significativo que, em contrapartida, não exista nenhuma legislação que impeça essas mesmas empresas de produzirem um outro tipo de poluição tão importante ou mais que a ambiental, e a que poderia chamar de “poluição social”, vulgarmente conhecida por desemprego.

É que, de facto, os motivos que levam uma empresa a evitar investir em processos que impeçam a poluição ambiental são exactamente os mesmos que a levam a fechar uma fábrica num país para a abrirem noutro onde a mão de obra é mais barata. Tanto num como noutro caso os motivos são única e exclusivamente uma redução de custos e respectivo aumento do lucro, só que neste segundo caso nenhuma legislação a impede de o fazer, provocando no entanto uma enorme poluição social.

Com isto não se pretende pôr em causa a razão de ser de qualquer empresa, que é obviamente a de produzir lucro. Só que, da mesma forma que se proíbe a poluição ambiental custe isso o que custar a uma empresa, não se compreende que não haja uma protecção igualmente cuidada e a nível global para impedir a produção de poluição social.

A pergunta no fundo é a seguinte: até que ponto é legítimo que uma empresa coloque por exemplo 1.000 pessoas no desemprego num dado local, para ir obter uma acréscimo de lucros de por exemplo 15% noutro país? Se se proíbe por exemplo uma empresa de curtumes ou de corantes de lançar detritos para um riacho que provocam a morte de centenas de peixes, porque razão se aceita que uma outra empresa, a funcionar de forma estável e com lucro num dado país, coloque centenas ou milhares de pessoas no desemprego para ir fazer o mesmo com maior lucro para outro país?

Dir-me-ão que essas pessoas são indemnizadas, mas isso na prática corresponderia a aceitar que se matassem os peixes no exemplo acima, desde que a empresa poluidora pagasse uma taxa. Porque no fundo as indemnizações não resolvem minimamente o problema da poluição social. Funcionam apenas como um pagamento extra e único com que a empresa tem de contar na sua contabilidade, para que as autoridades locais aceitem toda essa poluição local.

Não sendo eu legislador, penso no entanto que algo de muito errado se passa por detrás deste fenómeno, a ponto de ele ser aceite aparentemente em toda a Comunidade Europeia, como resultado lógico e “saudável” da competitividade.

Sei no entanto que este tema é extremamente complexo e envolve certamente muito mais vertentes que o da competitividade, como por exemplo a solidariedade e a concorrência, apenas para referir dois deles.

Porque não permitir por exemplo essa deslocalização apenas nos casos de falência, por exemplo, impedindo os que se fazem com empresas estáveis e com lucro? Porque não dedicar a essa análise o mesmo cuidado e rigor usado nas aquisições internacionais, por forma a impedir a criação de posições dominantes por parte de um dado grupo?

É esta a minha pergunta que gostaria de ver analisada.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

"Os Grandes Portugueses" - Parte II

Volto ao tema, com alguma irritação, porque, mais uma vez, me revelei ingénuo. Tempos atrás, escrevendo sobre este assunto, julguei eu que o “Botas”, a enfileirar nos “grandes portugueses”, não passaria de um “fait divers” a apimentar o concurso, ou como acicate à participação na votação, entretendo o pagode...

Noto hoje que se trata de uma operação, bem urdida, de branqueamento da sinistra figura da História contemporânea, que foi Salazar. Sobre o pretexto de um inocente concurso, nesta poderosa ofensiva mediática, emerge Salazar como mago das finanças públicas o libertador de Portugal dos males da guerra, a quem os portugueses devem estar eternamente gratos. Quem, porventura, assistiu, na Televisão pública, num destes fins de semana, aos copiosos elogios com que foi ungido, sabe do que falo...

Esquecem, porém, os seus epígonos que Salazar, mais que a tacanhez das “finanças equilibradas”, representa décadas de fome e miséria, doenças endémicas, analfabetismo e atraso económico, em proveito de latifundiários e retrógrados capitalistas.

Que Salazar foi responsável por uma guerra colonial sem sentido, nem esperança, que terminou sem honra; que o “grande português” foi assumido mandador de torturas aos presos políticos e da morte de alguns opositores, entre os quais mais conhecido será o General Humberto Delgado. Que a sua liberdade era a liberdade dos facínoras e dos eufemísticos “safanões a tempo” sobre a quem ousasse contestar a sua política, nas ruas ou simplesmente nas urnas...

É, por isso, ignóbil que, nesta ofensiva ideológica, Salazar possa ombrear com Álvaro Cunhal. Como se o carrasco pudesse ombrear com as suas vítimas. Como se fosse possível qualquer simetria entre a torpeza e a dignidade...

São os salazaristas de diversos graus que teimam nesta afronta. Compreende-se a intenção: atribuir a Salazar qualquer suposta semelhança com Álvaro Cunhal é imputar ao ditador algum mérito, alimentando-se, assim, o mito salazarista da heroicidade e da dignidade do combatente comunista. Como parasita estranho, em corpo saudável...

Porém, entre o resistente heróico e o carrasco não há qualquer equivalência possível, para um olhar isento. E - como vi escrito algures – quem quiser introduzir qualquer equivalência entre ambos “ou é ignorante, ou está intoxicado pela propaganda pós-salazarista (que por aí corre e engrossa) ou é irremediavelmente burro...”

Termino com excertos de uma carta de Álvaro Cunhal para a sua irmã, datada de 1 de Março de 1966, por ocasião da morte do pai...

O teor da carta é bem eloquente quanto ao seu inexaurível humanismo.

Minha muito querida irmã:

Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando, a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho. A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.

Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamente amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã.

À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdoem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão margas situações.

Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!
(...)
Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.

Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.

Com a imensa ternura do teu irmão



Álvaro”

domingo, fevereiro 04, 2007

Uma "crassa asneira"...

Consta por aí que o primeiro ministro, em debate parlamentar, terá deixando cair, visando o senhor Cravinho, deputado da República e personalidade de largo currículo, que as suas propostas de lei sobre o combate à corrupção, seriam, em aspectos decisivos, uma “asneira”...

Entretanto, também o senhor Pacheco Pereira, comentando a decomposição da Câmara Municipal de Lisboa, sujeita a investigação policial, a que não escapa o próprio presidente, com uma vereadora e altos quadros da administração municipal constituídos arguidos em processo de corrupção, terá desabafado que “o PSD até hoje na Câmara de Lisboa só fez asneiras” (DN – de 01.02.07, pág.13.).

Temos, pois, que dois dos mais altos expoentes da política nacional, com indiscutível influência na modelação da sociedade portuguesa, (quer por força da acção governativa, quer por força da opinião publicada), erguem a “asneira” como categoria significante no léxico político.

Claro os políticos se dão, por vezes, ao luxo de “asnear”. Quem o não sabe?!... Julgo, porém, que esta irrupção, no espaço político, de um certo desbragamento do discurso, não engrandece a política e os seus agentes. Enfim, parece que os nossos políticos (teóricos e práticos), teimam em empurrar-nos para uma espécie de “grau zero” do discurso, onde o “sentido” (nobre) da política é evacuado em nome do “efeito” mediático da palavra vazia...

Procurarei ser mais claro. É sabido que um dos factores que acentuam os sintomas de crise da democracia representativa reside naquilo a que alguns autores designam pela “captura do poder de sufrágio”, querendo com isso significar que o poder, assente no conceito de soberania popular, acaba por ser “aprisionado” pelos interesses mais poderosos da sociedade. Nos alvores da democracia representativa eram práticas como o caciquismo, o voto de “cabresto”, a falsificação dos cadastros, o voto dos mortos ou os diversos compadrios políticos, que mantinham à tona os mesmos interesses, pessoas e grupos.

Entretanto, estes métodos refinaram. Hoje, os mesmos objectivos estão presentes no financiamento do partidos, na sofisticação do marketing, na osmose entre a política e os interesses económicos, nos custos financeiros das companhas eleitorais, etc. etc., podendo, certamente, afirmar-se que o paradigma da “captura do poder de sufrágio” se mantém, ainda mais vivo e actuante que há um século ou dois atrás.

Tanto quanto me é dado compreender, é neste fenómeno, inerente ao funcionamento da democracia representativa, que residem o gérmen e o caldo de cultura, onde a corrupção viceja. Por mais e melhores leis que a República produza, serão sempre os homens a aplicá-las. O impoluto Catão, em Roma, acabou mal, como se sabe; e, hoje, mais do que nunca, os tempos não estão de feição para políticos impolutos...

E, assim, emerge, ao que julgo, o cerne da questão, ou seja, a fiscalização e o controlo democrático de exercício do poder, como elemento essencial do regular funcionamento das instituições, acima de quaisquer interesses privados. Como a natureza humana é aquilo que é e, como diz o Povo, “a ocasião faz o ladrão”, imaginem o regabofe que seria (ou teria sido), se a Câmara Municipal de Lisboa não tivesse composição plural, ou seja, se o seu funcionamento não pudesse ser permanente escrutinado e participado pelas forças políticas da oposição...

A verdade, porém, é que, quer o PS, quer o PSD, têm anunciado projectos de lei que subvertem completamente o funcionamento das Câmaras Municipais e a sua composição plural. Fundamentalmente, o que está em causa nesses projectos de lei, é eliminar o direito das populações a elegerem directamente os seus mandatários naquele órgão autárquico, ao atribuir ao cidadão eleito para o cargo de presidente da Câmara o poder absoluto de escolha dos vereadores, naturalmente, da mesma cor política.

Parece evidente, que a promiscuidade entre os interesses económicos e a actividade autárquica, terá melhores condições de germinar, quando apenas uma única força política exerce, sem controlo efectivo, os momentos cruciais das decisões políticas e administrativas.

Sendo assim, porquê, então, manter estes projectos legislativos?! O senhor primeiro ministro, na sua fogosa intervenção, nada esclarece sobre este candente tema e, também, sobre o assunto, o senhor Pacheco Pereira nada diz, apesar da sua qualificada (e escutada) opinião.

Perante a realidade que nos cerca, não será “crassa asneira” aprová-los?!...