segunda-feira, julho 31, 2006

Outras Leituras IV - (“Aos que vão nascer ...”)

“É verdade, vivo em tempo de trevas
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrível notícia.

Que tempos são estes!
Uma conversa sobre as árvores é quase um crime
Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade.

(...)

Dizem-me : come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando
Roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água falta a quem morre de sede?

Apesar disso eu como e bebo!

Também eu gostaria de ter sabedoria.
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
Retirar-se das querelas do mundo e passar
Este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência
Pagar o mal como o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los.
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!

É verdade, vivo em tempo de trevas!...

(...)

Vós, que surgireis do dilúvio
Em que nos afundámos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo de trevas
A que escapastes.

Pois nós, que mudamos mais vezes de país que de sapatos
Atravessámos as guerras (...), desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta!

E afinal sabemos:
(...)
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.

Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência...”

Excertos do Poema “Aos que vão nascer” – Bertholt Brecht

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Assim, nós, nos dias de hoje, pedimos indulgência ... Será que saberemos merecê-la neste silêncio, à vista de tantos massacres e iniquidades?!...

quinta-feira, julho 27, 2006

Outras Leituras III – Um Brinde em Tormes


“... e a tia Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de cadeira – quando D.Teotóneo, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava:

- “Esta é toda particular e entre nós... Brindo ao ausente! “

Esvaziou o copo, como em religião, pontificando. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam-se – eu dei o braço à tia Albergaria. E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos que lhe valiam a alcunha de “Dr. Agudo”:

- “Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca...”

E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotóneo, que arrastara Jacinto para entre as cortinas duma janela, e discorria, com ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom Teotóneo considerava o Jacinto como hereditário, ferrenho miguelista – e na sua inesperada vinda ao solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para a Restauração.

E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio duma influência rica, nova, nas eleições próximas, e nascente irritação contra as velhas ideias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Dr. Alípio Mello Ribeiro, que repunha a chávena na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o Dr. Agudo:

- “Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo?...

Muito sério, Mello Ribeiro chegou o seu grosso bigode à minha orelha:

- “Até corre, como certo, que o Príncipe D. Miguel está com ele em Tormes!...”

E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alípio – tão agudo! – confirmou:

- “É o que corre... Disfarçado em criado!”

Em criado? Oh, Santo Deus! Era o Baptista!

Justamente, Ricardo Velloso veio, puxando do seu cigarrinho, para acender no meu charuto. E o bom do Rebello logo invocou o seu testemunho – pois não corria, que o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?

- “Disfarçado em lacaio! ...” – confirmou logo o digno Rebello. (...)

Jacinto, que se libertara do velho D. Teotóneo, e ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim desabafar:

- “Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias ... “

Imediatamente, sem se conter, Mello Ribeiro acudiu:

- “É conforme o que V. Exª chamar “boas ideias”...

E eu agora, furioso com aquela disparatada invenção, que cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, intervim, vivamente:

- “Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas. Então vamos arranjar duas mesas... O D. Teotóneo há-de querer cartas...”

Eça de Queiroz – in “A cidade e as Serras”
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“Empanturrados de civilização”, (e de blogs! ) não se atrevam os meus (minhas) amigos(as) à subir à serra para fazer política, neste tempo de pousio! É que, andam por aí, em cada esquina do País, muito esqueletos nos armários e briosos “Drs. Agudos” muito ciosos das (suas) boas ideias ...

Joguem antes o voltarete...

terça-feira, julho 25, 2006

Outras Leituras II - (Como quem cava ...)

... “ Quando eu era pequeno, havia lá em casa, no cimo de um lameiro, uma costeira que era só fraga; o meu Pai, na vessada, grangeava também aquele bocadito, que nunca deu sequer feijão-chícharo. Só com dez anos, sem conhecer ainda o pavor dos retalhos de tempo, perguntava-lhe eu, já cansado:

_ “Mas porque é que se cava também isto?...”

E ele, como quem sabia uma verdade eterna:

_ “Para se acabar o dia...”

Miguel Torga – in Dário I

(Assim eu, agora, como quem cava para se acabar o dia ...)

sexta-feira, julho 21, 2006

Outras leituras...

“... Um dia o rei da Holanda, que os encantos de Madame Musard distraíam algumas vezes dos interesses da política neerlandesa para as conveniências da “Maison Dorée", encontrou-se com Citron, de passagem, no foyer de um teatro de boulevard. O soberano, incógnito, abraçou o filho pela cintura, com efusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

- “O menino vai daqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a Holanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a minha abdicação e vou lá dentro ao foyer dos artistas assiná-la. Aceite os meus parabéns...”

Citron, inclinado-se, agradeceu comovido e retorquiu:

- “Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já...

Foi essa a derradeira vez que o monarca dos Países Baixos viu o seu herdeiro neste mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz na Rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção que é melhor ser um “viveur” morto do que um rei vivo...” (Ramalho Ortigão – in “As Farpas” II Volume - Carta a Sua Alteza o Sereníssimo Sr. D. Carlos, regente em nome do Rei”.

Ora digam-me se semelhante episódio não constitui uma verdadeira lição de filosofia política...
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Nota:

Como é sabido, os meses de Verão são período de defeso na política. Também este blog, entrando na onda, vai aligeirar o tom. Durante os meses Julho/Agosto, “outras leituras” ocuparão este espaço. Ao ritmo incerto do tempo e dos livros que, pessoalmente, me solicitem... Claro que ficam para trás temas como Beirute e o Médio Oriente. Mas como poder falar de uma ferida em sangue, sem que a cólera tome conta da razão?!...

Com prazer, continuarei a ler e a comentar os blogs da minha afeição...

terça-feira, julho 18, 2006

“Ai, Timor ...” (ou o itinerário de um crime)

Ao que parece John Howard, chefe do governo australiano, revê-se no título de vice-xerife do Pacífico Sul, que lhe foi atribuído por George Bush. Recentemente, enviou tropas para as Ilhas Salomão e lança olhar imperial para a Papua-Nova Guiné, Vanatu e outras pequenas nações insulares da região.

Aliás a cumplicidade da Austrália na ocupação de Timor está profusamente documentada. Alatas e Gareth Evans, ministros dos Negócios Estrangeiros, respectivamente, da Indonésia e da Austrália, traçaram nos idos anos de 1980, o destino do petróleo de Timor. Assinaram o Tratado do Estreito de Timor, que permitia à Austrália explorar as reservas de petróleo e gás natural no mar de Timor Leste. No valor de milhares de milhões de dólares...

Este tratado sobre o petróleo entre duas nações, sem que nenhuma delas tenha qualquer legitimidade histórica ou moral sobre o mar de Timor Leste, levou especialistas internacionais em direito marítimo a classificar tal acordo uma verdadeira espoliação – seria “como adquirir material a um ladrão!...”

Timor Leste é um Estado independente. Graças, sobretudo, à coragem do seu Povo e à tenaz resistência dirigida pela Fretilin. Em 2001, verificaram-se as primeiras eleições democráticas, que legitimaram o poder político. Nas eleições regionais de ano passado 80% dos votos foram para a Fretilin, dirigida por Mari Alkatiri, um patriota convicto, que se opõe a privatização os recursos naturais de Timor Leste e às interferências do Banco Mundial...

Muçulmano secular e laico, num país largamente católico apostólico-romano, Alkatiri é, sobretudo, um anti-imperialista que enfrentou as exigências arrogantes do governo da Austrália para uma partilha leonina dos benefícios do petróleo e do gás natural no estreito de Timor...

A 28 de Abril último, um grupo do Exército timorense amotinou-se, ostensivamente. Uma testemunha, repórter de uma rádio australiana, afirmou que estavam envolvidos oficiais americanos e australianos. Tempos antes, a Igreja Católica, com falsos pretextos de perca de privilégios escolares, instrumentalizou as populações, numa arruaça contra o governo legítimo.

Em 7 de Maio, o Primeiro Ministro Alkatiri descreveu os motins como uma tentativa de golpe de estado e que “forasteiros e estrangeiros” estavam a tentar dividir a nação timorense. Documentos da forças armadas australianas, entretanto conhecidos, revelam que o primeiro objectivo da Austrália é procurar acesso dos militares australianos “àqueles que podem exercer influência nas decisões de Timor Leste”.

Em 31 de Maio, a oportunidade australiana consumou-se. O Presidente Xanana Gusmão e o Ministro Ramos Horta – que se opõem ao nacionalismo da Alkatiri – convidaram as tropas australianas a ocupar a capital do País.

Sabe-se que o brigadeiro ido da Austrália para Timor, à frente de 2000 soldados, voou directamente para as montanhas ao encontro do major Reinaldo, líder da rebelião, não para o prender, por pretender derrubar o primeiro ministro democraticamente eleito, mas para o saudar efusivamente. Sem qualquer pudor. O “escândalo” passou-se à frente das câmaras de televisão ...

Como se sabe, Alkatiri foi obrigado a demitir-se do cargo de Primeiro Ministro. Em seu lugar foi nomeado Ramos Horta... Entretanto, Alkatiri é processado. E nos media australianos a sua personalidade denegrida e apresentado como um “ditador corrupto”. Enquanto faz caminho a ideia de que Timor Leste é um “Estado falhado”...

E ainda a procissão vai no adro, acreditem. Os abutres não ficarão por aqui. A próxima meta será a desarticulação da Fretilin, por divergências e lutas internas. Sem esse instrumento decisivo de organização, o Povo timorense ficará ainda mais vulnerável e “dócil” perante os interesses das potências regionais...

O vice-xerife tem sido eficaz, sem dúvida. O xerife aprova!... E assim se percorre o itinerário de um crime...

Ai, Timor!...

sexta-feira, julho 14, 2006

Os ossos de D. Afonso Henriques....

Como é conhecido esteve iminente o levantamento das ossadas de D. Afonso Henriques. Que a Senhora Ministra da Cultura travou! A tempo. O mérito da façanha – o levantamento dos ossos – é assunto que me escapa. Talvez a investigação antropológica pudesse dar uma preciosa contribuição para o déficit ou o conhecimento genes do guerreiro pudesse aclarar definitivamente a pulsão nacional para as vitórias morais, que o campeonato do mundo de futebol mais uma vez confirmou...

Estou, no entanto, tentado em dar razão à Senhora Ministra. Por razões, certamente, divergentes daquelas de Sua Excelência. A Senhora Ministra por excelsas razões de Estado - a autorização da operação passara à margem da sua magna autoridade! Eu - na minha atávica vocação de “velho do Restelo” – por recear que os avoengos ossos pudessem ganhar vida e o pai fundador da Pátria viesse de novo espadeirar. Agora, por certo, contra a fruta espanhola e os tomates da Comunidade Europeia...

Ironia à parte, julgo exemplar este episódio, misto de folclore científico e de drama burocrático. Vejamos os factos.

Explicaram os jornais, em grandes títulos, uma “investigação antropológica que iria traçar os possíveis retratos científicos (sic) do fundador de Portugal”. E com abundância de pormenores – como é próprio de lances decisivos! – os mesmos jornais descreveram os objectivos da operação, nem mais, nem menos que “reconstituir o rosto do rei, fazer a sua ficha científica através dos ossos, determinar a sua estatura efectiva, obter ADN para mais tarde comparar” (não se sabe bem com quê, nem com quem!...)

Eis se não quando, tudo preparado no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, instalado que fora à beira do túmulo todo o complexo equipamento, incluindo uma máquina de laser tridimensional de alta precisão, única na Europa e vinda directamente de Granada (imaginem a revolta dos ossos do Conquistador, se soubera a proveniência!) e a investigadora munida das não menos úteis licenças e autorizações dos serviços competentes do Ministério da Cultura, eis senão quando, já com o túmulo meio aberto, chega a ordem ministerial. Travar a operação!...

Que se passara?!... A Ministra concluíra que a operação científica não estava devidamente fundamentada? Falhara qualquer requisito técnico indispensável? O Gabinete de Sua Excelência, terá à última hora tido conhecimento de informações que fundamentassem tal drástica decisão?!...

Nada disso. Ao que parece, apenas por disfunções internas de comunicação, a Senhora Ministra não fora formalmente informada!...Pelo que, como era de esperar, foi aberto o indispensável inquérito “para apurar responsabilidades”...

Eu não sei a Senhora Ministra bate na mãezinha! Não tenho, porém, dúvidas de que, pela sua fibra e vigor, merece ser considerada émula de D. Afonso Henriques. E talvez os seus ossos (quem diz ossos, diz massa encefálica!) – mais que as cinzas dos antepassados – merecessem estudo adequado....

O ridículo mata, convenhamos!...

segunda-feira, julho 10, 2006

Os irmãos da caridade...

Assiste-se, hoje em dia, a uma empolgante cavalgada filantrópica, anunciada com fanfarras tais que até parece que uma nova aurora se desenha no horizonte da humanidade, sob a consigna “milionários de todo o Mundo, uni-vos!...”

Ao serviço dos pobrezinhos, está bom de ver...

Como sabem, o exemplo vem de Bill Gates, urbe et orbe considerado o “homem mais rico do Mundo” e, como tal, o “maior filantrópico do Mundo”, a que agora vem juntar-se Warren Buffet – “o segundo homem mais rico do Mundo!...” – e, como tal, também filantropo de primeiríssima água, que terá oferecido à Fundação do primeiro qualquer coisa como 30 mil milhões de dólares. Para quê? Para que a caridosa Fundação Gates faça cada vez mais e melhor caridade...

Por cá, também temos os nossos filantropos! Inspirados no caridoso desígnio presidencial da “inclusão social”, onze empresários portugueses - da melhor nata (como se compreende) e, como tal, comovidíssimos com o insucesso escolar - apresentaram um projecto que irá salvar o País de semelhante drama. A fazer fé no solícito “Público”, o Presidente da República terá tido uma “reacção extremamente positiva”. Como seria de esperar...

Estes os factos. Agora a ideologia!

Sobre a matéria, um dos intelectuais orgânicos do nosso liberalismo caseiro, escreve, empolgado, que “a luta contra o socialismo tem de ser a demonstração de que, também nas áreas sociais, os privados são mais eficazes e produtivos na gestão dos sistemas que o Estado”. E esclarece, definitivo, que “bem mais importante do que isso é o sinal ideológico que está subjacente a iniciativas deste tipo”.(JMJúdice – in “Público” de 07.07.06)

Ao fim e ao cabo, se bem reparamos, o que está implícito em tais palavras (e, sobretudo, em semelhantes práticas) é que, para o capitalismo, a exploração e a caridade são as faces da mesma moeda: a exploração para fazer as grandes fortunas e a caridade para justificar a exploração, pois apenas é filantropo quem pode ...

Em verdade vos digo, que as fortunas de todos os filantropos do mundo “custam” centenas de milhões de explorados e esfomeados – a morte por falta de comida e cuidados de saúde de dezenas de milhares de pessoas por dia.

E quanto aos privados serem mais eficazes e produtivos estamos conversados. Quem poderá esquecer as endémicas doenças do sistema capitalista nas suas falcatruas e falências, com as brutais consequências económicas e sociais para milhares de pessoas.

Quem não se lembra, por exemplo, do enorme colapso da multinacional Eron e do seu presidente, Ken Lay, fanático da liberalização dos mercados e amigo de Bush (pai e filho), cuja falência fraudulenta deixou um monte de papel sem valor aos seus accionistas, dívidas no valor de 32 mil milhões de dólares e mais de 21 mil pessoas desempregadas, que para ela trabalhavam em todo o mundo.

Porventura, se tivesse tido sucesso nas suas falcatruas, Ken Lay seria hoje um emérito filantropo!... Na realidade, os seus crimes em nada buliram com o sistema que produz Bill Gates e Warren Buffett e, entre nós, os ilustres “empresários para a inclusão social”...

Almeida Garret, no século XIX, perguntava, quantos pobres seriam necessários para fazer um rico. Alguém hoje saberá responder?!...