quinta-feira, junho 29, 2006

"Uma noite pelo menos..."

Estarei ausente até 10 de Julho.
Até lá deixo-vos com um poema que, em boa medida, diz do espírito deste blog (passe a presunção). O poeta é David Mourão Ferreira, a quem presto homenagem...


“Uma noite por ano   Uma noite pelo menos
assaltemos o céu e a Lua aprisionemos
Uma noite   Uma noite   Uma noite pelo menos

“Armas   Algemas   Cães   O que for necessário
Tragam-na dentro dum foguetão celular
E mantenham-na presa uma noite pelo menos

“Interroguem então a prisioneira Lua
Não lhe poupem o corpo a nenhuma tortura
Uma noite por ano   Uma noite pelo menos

“Veremos se confessa o que nem nós sabemos
Chicoteiem-lhe o peito   E fustiguem-lhe o ventre
Deixem-na toda em sangue uma noite pelo menos

“É preciso que saiba os recursos que temos
É preciso que aprenda   É preciso que a prendam
uma noite por ano   Uma noite pelo menos ... “



Grato pela vossa presença amiga!

sexta-feira, junho 23, 2006

Uma questão de ser ou não ser...

George Soros é um financeiro internacional que acumulou, durante as décadas de oitenta e noventa do século passado, uma fortuna fabulosa com a especulação bolsista. Nos anos mais recentes, em situação de “reforma”, vestiu a pele de filantropo. Criou a “Soros Fund Management” e uma rede mundial de fundações associadas e, como hobby, dedica-se agora a apoiar o que designa como “sociedades abertas”, em especial, as mudanças económicas e políticas no leste europeu...

No finais da década de noventa escreveu – “A Crise do Capitalismo Global – A sociedade aberta ameaçada“ - no qual faz uma crítica impiedosa e insuspeita ao sistema capitalista. Que não haja ilusões! O autor mantém, assumidamente, que não quer acabar com o capitalismo. Porém, considera – e é esta a tese central do livro - que o “capitalismo global, com a sua confiança exclusiva nas forças de mercado, oferece (...) um perigo para as sociedades abertas” (leia-se a democracia e o Estado de direito) e acrescenta que (...) “o fundamentalismo de mercado é, hoje em dia, uma ameaça maior à sociedade aberta do que qualquer tipo ideologia totalitária...”

Não é minha intenção fazer a apologia do livro ou do seu autor, embora reconheça que são esclarecedores, a diversos títulos, pois que, com inegável conhecimento de causa, desmontam os mecanismos da acumulação capitalista, de que “Marx e Engels, nos forneceram uma excelente análise, há 150 anos, melhor em certos aspectos, devo confessar, do que a clássica teoria económica do equilíbrio” (sic).

Se este assunto vem à colação é porque, no quadro do nosso País, é cada vez mais insistente e atrevida a arrogância com que os chefes dos grandes grupos económicos se abalançam contra o regime democrático, saído da Revolução de Abril. Um desses empresários, “com currículo e obra feita”, comprovados na excelsa circunstância de ser “o homem mais rico do País”, pretende até “promover um movimento de 20 ou 30 empresários”, visando a mudança da Constituição, de forma a permitir ao Estado “fazer coisas difíceis”.

Belmiro de Azevedo, pois é dele que se trata, considera existir uma “conjugação favorável dos astros” para tal mudança, uma vez que “temos um Parlamento, um Presidente da República e um Governo em sintonia sobre o que se deve fazer”. E acrescenta, paternal, que o chefe do maior partido da oposição, “ficaria muito mal na fotografia, se não der um contributo positivo”...

E qual o sentido da mudança? O magnata nacional é claro nos seus objectivos. Quer uma Constituição nova, que termine de vez com essa espúria ideia de que “o poder económico dever submeter-se ao poder político” e que, em Portugal, haja apenas uma estrutura de poder de Estado, composta por “um primeiro ministro, dez ministros e cem deputados”, se possível – não o diz, mas advinha-se – saídos do “partido único” do bloco central de interesses.

Compreende-se! O capitalismo caseiro, vociferando contra o Estado, não enjeita pretender moldar o regime político aos seus desígnios, de forma a colocar, sem rebuço, nem disfarce, o poder político na dependência do poder económico, com um sistema de governo fiel, venerando e obrigado aos seus interesses.

Entretanto, há mais de uma década, capitalistas da estirpe de George Soros não hesitam em denunciar que “o fundamentalismo de mercado procura abolir o processo de tomadas de decisão colectivas (e como tal políticas) e impor a supremacia dos valores de mercado sobre todos os valores sociais e políticos”.

Na perspectiva do autor, o desenvolvimento económico exige a acumulação de capital que, por sua vez obriga a existência de baixos salários e de elevadas taxas de poupança. E isso consegue-se mais facilmente com um governo autocrático, capaz de impor a sua vontade, do que com um governo democrático, sensível aos desejos do eleitorado.

“Aliás – esclarece, de forma crítica, G. Soros – há quem afirme que é necessária uma certa forma de ditadura para que o desenvolvimento económico se desencadeie...” É, seguramente, nessa onda do “Governo forte” que os nossos capitalistas “com currículo e obra feita”, se revêem...

Uma questão de escala, - dir-me-ão os mais optimistas - no cotejo dos nossos capitalistas com outros bem mais lúcidos e... ricos! Uma questão de dimensão cultural e humana – acrescentarei por minha conta!...

domingo, junho 18, 2006

O Futebol e os Poetas...

Clamando por “um golo português” insinua o nosso deputado-poeta, num belíssimo artigo, publicado no jornal “Público” de 17-06-2006, que o Mundial, transmitido pela TV, ajusta contas com a globalização, nas suas manifestações de patriotismo à volta das selecções de futebol. Em tom épico, que define um estilo e um talento, escreve o poeta que “mesmo que as elites se esqueçam das raízes (...) os povos, instintivamente, através das suas selecções, dizem o seu nome e a sua identidade...”

Bem sabemos nós que os poetas pressentem percursos e sendas, desvendando o sentido encoberto na gramática do tempo e dos lugares, em luminosos lampejos de clarividência... Assim, gostaria que o poeta M. Alegre, que merece da minha parte a maior admiração - para além do gosto comum pelo futebol – pudesse ter razão.

Mas a globalização tem armadilhas que os incautos poetas, por vezes, se deixam enredar...

O Mundial de Futebol, mais que a amável imagem dos povos, reacendendo, com seus ícones e ritos, o fervor do patriotismo aviltado, cumpre exemplarmente a sua função de “re-estruturação ideológica” requerida pelos interesses do capital internacional, na sua expressão globalizadora.

O neoliberalismo económico, o conservadorismo da lei e da ordem, o post modernismo cultural suscitam novas práticas de produção simbólica, face a volatilização das “paixões ideológicas” que a globalização capitalista dinamitou. Assim, surge ao nível mundial uma nova retórica (ideológica) - lúdica, jubilosa e turbulenta – cuja principal função consiste em obstruir a compreensão das lógicas de exploração contemporâneas, ocultando os verdadeiros antagonismos sociais, em cada País e à escala mundial.

Mais que um mero “escapismo”, como por vezes se admite, os grandes eventos desportivos (para além do negócio que lhe está associado) têm a função estruturante de imprimir no imaginário colectivo a aceitação do estado das coisas existente. Numa ideologia difusa que se apresenta na sua pureza como essencialmente não ideológica.

Mas a noite é de festa! As cores nacionais ganharam ao Irão. Celebremos, por isso, a festa. Com um poema de Ricardo dos Reis, que não dizendo o que escrevo, diz sobre o assunto, mais do que imaginar se poderia.

“Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo....

(...)

Ardiam as casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes
Violadas, as mulheres eram postas
Contra muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez...

(...)

O jogo de xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

(...)

Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro
Imitemos os persas desta história
E, enquanto lá por fora
Ou perto ou longe, a guerra, a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença...

terça-feira, junho 13, 2006

Lafayette, Lafayette!...

“A felicidade da América está intimamente ligada à felicidade da Humanidade!...”, proclamava o francês Lafayette, por volta de 1777, a bordo do navio “Victoire”, rumo à América, em apoio das colónias revoltosas do domínio britânico.

Escassos anos após os primeiros tiros, o general George Washington escrevia: “A nossa causa é nobre, é a causa da Humanidade”!... Em vésperas da Revolução Francesa, Rousseau constatava que “o homem nasceu livre e por toda a parte está agrilhoado”! Porém, os americanos são quem, em primeiro lugar, pega em armas para conquistarem a sua liberdade e, enquanto se batem, explicam ao mundo o sentido da sua luta, na célebre “Declaração de Independência”.

Eis alguns excertos significativos (na impossibilidade da sua transcrição integral):

“(...) Consideramos como verdades evidentes por si mesmas que todos os homens nascem iguais, que o seu Criador os dotou de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a procura de felicidade ;

“Que, para garantir estes direitos, os homens instituem Governos, cujo justo poder provém do consentimento dos governados;

“ Que, se um Governo, qualquer que seja a sua forma, vier a não ter em conta estes fins, o povo tem direito de o modificar ou abolir e de instituir um novo governo (...);

(...)”O governo que reina sobre a Grã-Bretanha é uma história de injustiças e de usurpações reiteradas que visam directamente o estabelecimento de uma tirania sobre os nossos Estados (...);

(...) “Ele (o Governo britânico) submeteu os juizes ao império exclusivo da sua vontade;

(...) “Ele manteve entre nós, em tempo de paz, exércitos permanentes, sem consentimento das nossas assembleias;

(...) “ Ele (...) dá assentimento a seus pretensos actos legislativos que :

. autorizam o acantonamento no nosso solo tropas em número importante;
. poupam-lhes, por simulacros de processos, qualquer punição pelos (seus) assassínios;
. (...) asfixiam o nosso comércio com todas as partes do mundo;
. (...) suspendem as nossas próprias assembleias e declaram-se investidos do poder de legislar em nosso nome (...);
. suprimem as nossas leis mais preciosas e modificam nos seus princípios fundamentais a forma dos nossos governos (...);
(...) “Ele pilhou os nossos mares, devastou as nossas costas, queimou as nossas cidades a aniquilou a vida do nosso Povo(...)”.

A liberdade e de igualdade estão, portanto, inscritas na génese da nação americana. Será certamente por essa circunstância que, ainda hoje, tantas pessoas, em todo o mundo, considerem que o seu futuro e a sua felicidade dependem estreitamente do futuro e da felicidade da democracia americana. Porém, o sonho americano, tão generosamente revolucionário, está maculado logo a partir da sua origem. Liberdade e igualdade, sim! Mas não para todos!...

Para satisfazer os estados do sul, os próceres da independência americana eliminaram da Declaração da Independência o parágrafo que condenava o tráfico de negros!... E, assim, os partidários da independência podem proclamar que “todos os homens são livres e iguais”, mas nesse preciso momento privam mais de cem mil africanos do seu direito de liberdade e de igualdade!

Como, pois, se poderá estranhar que, na constituição de vários estados norte-americanos, fosse inscrito, logo na origem, o princípio de que “o direito de propriedade está acima de qualquer sanção constitucional”?!... Direito de propriedade que inclui, o direito de possuir escravos. Naturalmente... Cem anos depois serão perto de quatro milhões de negros que a democracia americana mantém como escravos! E, nos dias de hoje, os descendentes destes escravos são mais de vinte milhões, para quem a igualdade não passa de uma panaceia...

A liberdade e a igualdade são irmãs gémeas, fruto do mesmo parto revolucionário. Porém, a história revela que cedo a igualdade foi preterida em favor da liberdade de possuir! A igualdade caiu do berço! ... Foi necessário o decurso de cerca de século e meio de história, para que, noutro País e noutro contexto, a liberdade e a igualdade recebessem novo impulso revolucionário. Mas isso são contas para outra oportunidade...

E o que resta hoje do sonho americano?! Atrevo-me admitir que Thomas Jefferson e os restantes pais da pátria da grande nação americana, corariam de vergonha pela ocupação do Iraque, pelas torturas as torturas e humilhações do seu exército, pelo o rapto, transporte e detenção pela CIA de cidadãos estrangeiros, pela situação dos detidos em Guantánamo, excluídos dos mais elementares direitos de defesa e pelas escandalosas violações das suas próprias liberdades constitucionais...

Como, por certo, morreriam de vergonha por saberem que a Presidência da grande nação americana pode ser conquistada e exercida por um candidato que teve menos votos que o candidato “derrotado”... Como, certamente, se indignariam por saberem que grande número dos seus compatriotas, não são capazes de identificar ou assinalar o seu próprio país no mapa mundial, apesar de fervor patrioteiro dos seus actuais líderes...

Entre a sonho e a história é uma longa caminhada, em que a nação americana se esqueceu, ou no mínimo ofuscou, o brilho fundador dos seus pergaminhos democráticos... A longa lista de atropelos à democracia e aos direitos humanos está nos antípodas dos valores democráticos proclamados...

Conta Claude Julien, no seu livro “O Sonho e a História – dois Séculos de América” (Ed. Arcádia), que cidadãos americanos, em Nova Iorque, foram convidados, na rua, a assinar um manifesto político. A maioria recusou, porém, indignada. No entanto, o texto que lhes foi submetido era uma cópia da Declaração da Independência, cujo conteúdo se lhes afigurou subversivo e anti-americano.

América, América!...

quinta-feira, junho 08, 2006

“Les enfants de la Patrie ...”

Passaram setenta anos sobre a tomada de posse do Governo da Frente Popular, em França. Em Portugal, como era previsível, a efeméride passou despercebida. De facto, quem entre nós, em tempo de hegemónico poder (dito) socialista, de acólitas cooperações presidenciais, de “roteiros” de exclusão, percorridos entre os hossanas e as promessas de costume, quem - perguntava eu – em tempo “futebolês” patrioteiro, com bandeiras desfraldadas nas janelas e acacianos dislates, iria “perder tempo” recordando um dos momentos históricos mais promissores da humanidade?!...

Nem comunicação social, nem Governo, nem Parlamento, nem sequer partidos políticos de esquerda!... Lembro-me apenas de ter lido, nas páginas de um diário, um artigo de opinião sobre o assunto, subscrito aliás por um comunista pouco considerado!...

E, se na lógica dos interesses direita e dos instrumentos institucionais das suas políticas, faz sentido esta omissão, dói, porém, que nem um murmúrio escorresse das paredes (de vidro) dos partidos de esquerda! Razões?! Claro que há múltiplas “sem razões”, que o Povo paga, desde 25 de Abril de 1974!... Os tempos, de facto, não têm, em Portugal, corrido a favor da unidade...

E, no entanto, a unidade de esquerda foi possível!... Em França, na sequência da iniciativa, em 1934, de Maurice Thorez, Secretário Geral do PCF. Que a esquerda francesa, tanto quanto nos é dado compreender, celebra agora. Com razão!...

Na realidade, a vitória eleitoral, em 3 de Maio de 1936, do “Rassemblement Populaire”, aliança política entre o Partido Socialista (SIFO), o Partido Radical e o Partido Comunista, abriu promissoras alamedas, que ainda hoje iluminam o horizonte em que nos projectamos, pois constituiu ainda momento decisivo de avanços sociais...

Contrariamente ao que se poderia pensar, o PCF, apesar de profundamente empenhado na Frente Popular e no seu programa, decidiu não fazer parte do Governo, remetendo-se ao papel decisivo da mobilização popular...

Emblemática da política do Governo da Frente Popular é a circunstância, por exemplo, ter integrado, como ministras, três mulheres – Suzanne Lacore, Cécile Brunschvicg e Irène Joliot-Curie – quando em França ainda não era reconhecido o direito de voto feminino (apenas instituído em 1945).

Como em diversos outros planos, os 100 dias do Governo da Frente Popular, em França, mudaram a vida em todo o Mundo!... Quem hoje se recordará que são fruto dessas lutas a liberdade do exercício dos direitos sindicais, a semana de 40 horas de trabalho ou esse direito tão “natural” – ao tempo uma verdadeira revolução! - como o direito a férias para todos os trabalhadores?! ...

O direito a férias pagas tem um registo comovente: proporcionou a “festa” de milhares de franceses terem visto o mar pela primeira vez, como a obra de Robert Cappa, Cartier-Bresson (fotógrafos), ou cineastas como Jean Renoir documentam, com tanta sensibilidade...

Outras razões não houvera, portanto!...

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Em França, milhares de franceses, durante os meses de Março e Abril deste ano, encheram as ruas, batendo-se contra o contrato de primeiro emprego. E ganharam... E agora assinalam a experiência de um Governo de Unidade Popular!

E nós?!... Nós, por cá, tudo bem!

sábado, junho 03, 2006

Ratzinger versus Willy Brandt?! ...

Como sabem, o actual Papa é alemão. Também Willy Brandt é (foi) de nacionalidade alemã. Um e outro foram coevos da tragédia da Segunda Grande Guerra. O Papa foi agora à Polónia. Na oportunidade, seguindo os passos de seu antecessor polaco, alargou a visita ao campo de concentração de Auschewitz. A este propósito, a nossa imprensa, dita de referência, apressou-se a comparar a atitude do Papa ao gesto de Willy Brandt, quando em 1970, na sua visita à Polónia, furou o protocolo e se ajoelhou, em silêncio, junto ao monumento das vítimas do levantamento de Varsóvia.

- “Onde estava Deus nesses dias?! Porque ficou silencioso?!...” - terá exclamado agora o Papa, na oração, vergado ao peso da realidade histórica de Auschewitz.

Não sabemos o que Deus terá respondido, mas qualquer agnóstico poderá afirmar que Deus estava onde sempre esteve : mas não, certamente, a impedir as actuais matanças, seja no Dafur, na Palestina ou no Iraque ...

Deixemos, porém, a teologia e as convicções de cada um. Relevam aqui apenas as palavras do Papa, ao afirmar que estava em Auschewitz como “filho do povo alemão, sobre o qual um bando de criminosos subiu ao poder (...) com o resultado desse povo ser usado e abusado como instrumento deles, da sua sede de destruição e de poder...”

Temos que, na perspectiva do actual Papa, o Estado nazi foi apenas um “bando de criminosos” e os alemães suas vítimas. Quem somos nós para duvidar?!... Se o Papa o diz, assim seja! Em qualquer caso, sempre se poderá acrescentar que vítimas, sim, sem dúvida, mas vítimas que sobreviveram, obedecendo...

E quanto às restantes vitimas?!... O Papa referiu algumas, especialmente os judeus, ciganos, polacos e russos! Mas, sintomático, esqueceu os “ateus” comunistas e... os homossexuais.

- “ No fundo – esclareceu o Papa – esses criminosos nazis, ao quererem eliminar o Povo judeu, queriam matar Deus que chamou Abraão, que falou no Sinai (...) e, em última análise, queriam destruir a fonte da fé cristã e substitui-la por outra da sua invenção - a fé na lei do homem, na lei dos poderosos...”

Na circunstância, o que impressiona é este “egocentrismo” que insinua ser, afinal de contas, o cristianismo o alvo final da barbárie nazi – que, em última análise, queria matar a “fonte da fé cristã”- e não as vítimas dos fornos crematórios, judeus e outras etnias, gente com pais, mães, filhos e filhas, irmãos e sobrinhos, namorados, namoradas e amigos... Gente real, em suma!...

Ratzinger, em vez de pretender rescrever a história dos nazis, fazendo-os passar por um movimento contra Deus, (quando, pelo contrário, estes se afirmavam pelo cristianismo contra o materialismo judaico-bolchevista), poderia esclarecer onde estava a sua católica Baviera, quando aí germinou e cresceu o partido nazi, ou por que razão Hitler morreu católico, dado que ninguém no Vaticano teve a ideia de o excomungar...

Em contraste, Willy Brandt foi um resistente e, tanto quanto se sabe, ateu. Fugiu da Alemanha nazi, mudou de nome e esteve várias vezes a um passo de ser preso e deportado para os campos de concentração. Era, como o actual Papa, alemão! Apesar de ter combatido, pela acção concreta, o nazismo, ajoelhou-se em silêncio perante a barbárie cometida em nome de seu Povo. Fê-lo sem palavras, sem rodeios, sem desculpas...

Em rigor, não poderemos estranhar que Ratzinger, na sua juventude, durante o nazismo, não tenha sido um resistente. Ao fim e ao cabo, à nossa escala, a maior parte de nós, também não foi, no nosso País. Mas não deixa de ser incómodo, que actualmente o Papa, noutro contexto, tenha afirmado que “era impossível ter resistido”, o que significa que, para Sua Santidade, era impossível ser como Willy Brandt ...

Decididamente, ontem como hoje, Ratzinger não é Willy Brandt! ...