sexta-feira, agosto 18, 2017

Dvorak - Romance for piano and violin, Op.11

FRAGMENTOS XLVII

(...)
Assim concluía o Alferes, sem que para tal fosse intimado, num tempo outro, ainda na flor dos dias, quando, balançando-se entre o voluntarismo romântico da deserção e a palavra venerada do “senhor Gomes”, o velho marinheiro, revolucionário e desterrado, “meteu na ordem” as suas verduras revolucionárias e lhe esfriou as veleidades de deserção e a empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha.

FRAGMENTOS XLVII

Pois é, Maria Adelaide, na acção dos homens, é muito curta a distância que separa a coragem da cobardia, a glória do vitupério, a celebridade do ostracismo, o amor do desamor, ou a vida da morte e muito estreita também a linha que separa os “deveres” que vinculam e os“ direitos”, que libertam e cada um colhe ou paga de tributo à sociedade, bem se sabendo que bastas vezes uma ligeira oscilação, um capricho cerzido sabe-se lá em que acaso, ou dimensão, para que, na consciência do homens, a “realidade”, seja lá isso o que for, fique de “pernas para o ar” e o que ontem era tido como verdade hoje não passe de harpejo de dúvida quando não mesmo reverso de graníticas certezas que nos aguentam inteiros e de pé. Por vezes uma aragem, uma leve agitação das asas de uma colorida borboleta é suficiente para que, no outro lado da Terra, se houver condições para tanto, pois também as coisas e os acontecimentos são eles e as suas circunstâncias, se desencadear violenta tempestade, como hoje em dia, no tempo real desta descosida narrativa, bem se sabe, face ao reino pletórico da física quântica e seus extraordinários efeitos e feitos, que aceleram o tempo e nos lançam em permanente regurgitar de “acontecimentos” que nos submergem e, onde tantas vezes, naufragamos, mergulhados na espuma dos dias.

Calo-te o gesto e a palavra, Maria Adelaide, pois que, depois de me zurzires com o epiteto de neo-realista serôdio, pretendo evitar-te a tentação fácil de vires agora acusar-me de devoto da “post modernidade” e de um certo “relativismo moral” em que todas as ideias e valores morais se equivalem, de tal forma que nada justificará que neles nos detenhamos mais que a breve avaliação do prazer que nos proporcionam, e nos lancemos assim, sem norte, a celebrar um “hedonismo” de pacotilha para consumo imediato, pronto a usar e a descartar. A verdade, porém, é que, Maria Adelaide, tanto na literatura, aquela que é de facto literatura e não enjeita a “responsabilidade”, palavra malquista, como na vida, existem veios profundos e seres fecundos que, se não determinam eles o tempo longo da narrativa literária ou o “devir” da história, lhe conferem, porém, o rosto e a inteligibilidade, uma espécie de esteio ou pedra angular que dão sentido à narrativa ou à expressão da vida, bem se sabendo que não é a singularidade das coisas que transforma, mas a raiz delas e a seiva de que se alimentam ou a matriz em que se inscrevem. Captar, pois, a dialéctica das coisas perante o meio em que se inscrevem ou a actuação dos homens em sociedade é ler os sinais da sua evolução e naquilo em que os homens se distinguem das coisas, também os sinais da sua emancipação, enquanto ser social, o mesmo será dizer, a consciência de si próprio e do mundo que os rodeia.

Não julgues pois o Alferes, Maria Adelaide, e a sua aparente pusilanimidade, face ao seu desígnio e empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha, pois que, no processo de maturação das ideias, o auto conhecimento das limitações e contradições dos homens e a sua vontade de superação constituem a pedra de toque por onde se afere o carácter e a personalidade de cada um. Compreenderás, assim, por certo, quão fecunda terá sido, apesar de breve, a conversa do Alferes com o velho revolucionário, Senhor Gomes, marinheiro e desterrado, que, nos idos anos de 1936, provou o fogo dos deuses e perdeu e pagou, com seu corpo, nas prisões fascistas e, depois, com o degredo naquele “cú de Judas” que é a Tabanca, ele cujo crime foi a ousadia de, com outros camaradas de armas e ideais, pretender antecipar o tempo longo da História no sonho de uma Pátria livre e justa e, por ela se bater e perder, fazendo da Tabanca a sua Pátria, que outra não reconhecia, madrasta de seu Povo e fazedora de guerras contra os povos das colónias que oprimia.

Quem, pois, o insensato que insistiria em suas “verduras” revolucionárias e no “infantilismo voluntarista”, depois de conhecer a opinião autorizada do Senhor Gomes, forjada no terreno concreto da rebelião política e nos longos anos de degredo, em que pela firmeza de carácter e consistência de suas ideias, soube granjear o respeito de brancos e negros, e sua voz autorizada e sábia era procurada e seguida, quem porventura tão néscio que sobrepusesse, à razão e à sabedoria, os insipientes e imaturos passos de uma aventura inconsequente, que leituras apressadas e uma mente imaginativa e exacerbada alimentavam? Não por certo o Alferes, que bebera, com o leite materno, a veneração pelos velhos que, na falta de outras capacidades, sempre distribuíam bênçãos e bons conselhos.   

“A Revolução aqui em África é deles e tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal” e a frase, assim dita, com olhar cortante do velho revolucionário a atravessar-lhe a alma, ficou gravada como consigna ao longo da vida do Alferes, jovem oficial miliciano do Exército Português, Adjunto do Comandante da Companhia por acaso de graduação militar e estudante de Direito em Coimbra por passada larga de seus pais, ”aprendendo, aprendendo, sempre” com os livros e as lições de vida, dele e dos outros e, assim, ficando a saber que há “um tempo para semear e um tempo para colher” e que a História dos homens, em seu perpétuo rumor, não é uma linha recta, mas nada trava o seu turbulento fluir.

Sei de teu enfado, Maria Adelaide, bem sabendo eu qual o universo que te motiva e as razões pelas quais pacientemente me escutas. Nesta luta corpo a corpo em que esta narrativa (sem sujeito) se despenha existem umas “velhas contas”, apenas nossas, a ajustar e tu espreitas o momento. Que chegará, Maria Adelaide, maduro que esteja o tempo desta escrita circular, em que tu és o “alfa e o ómega” e a pedra angular que a sustenta.

 Mas, entretanto, regressemos à Tabanca. Temos um General à espera. E não é de bom-tom fazer esperar um General, tens razão!


Manuel Veiga  

quinta-feira, agosto 17, 2017

DEIXO QUE OS RIOS SECOS


Deixo que os rios secos e as tempestades de sons ausentes
Na memória de outros maios se inscrevam na saliva
Das palavras balbuciadas em que digo amor em fim de tarde.
E assim administrando amoras tardias em círculo de sol
Lábios ciosos destes gestos que se derramam inesperados
Frutos desprendendo-se de maduros ou chuvas
Em deserto absorvidas.

Viajo caminheiro sem pressas recostado nas bermas
Celebrando as sombras e as festivas giestas outonais
Sorvendo o mel das silvas soltando revoadas
Tordos espantados que riscam o abismo dos olhos.
E ai me perco nessa voragem matizada de cores quentes
Nos odores persistentes na humidade translúcida dos beijos
Na generosidade dos seios no declive dos lábios e no cio
Das colheitas e na sofreguidão de cestos antes das uvas-

E nas ondas que arrebatam e na ferida aberta
E nesta lava e neste de lume que me consome e nesta festa
Que explode em pulsão de madrugada.

"Gracias a la Vida!"


Manuel Veiga