sexta-feira, maio 18, 2018

"Do AMOR e Da GUERRA - Fragmentos"...


 “O autor não existe. É um ponto neutro, uma emergência ou, porventura, um cruzamento de possibilidades por onde perpassam os filamentos de uma trama, que não sabe bem como encenar-se. Nem muito menos é um manipulador que, por detrás do pano, se esconda e, na obscuridade do proscénio, desenhe os lances da dramatologia em que se joga a contragosto, pois que, se autor fora, assumiria o registo linear da forma e da escrita, como redenção ou glória. E, então, porventura, obra seria – sabe-se lá se poema, se novela…

Nem o tempo, nem o espaço existem, devorados naquela noite de relâmpagos e medos, os corpos em chaga e lama e o dilúvio tropical despenhando as atrocidades da guerra num buraco negro, de que não há refúgio. O absoluto Nada (tangível) no arrepio da alma transida e a tempestade soberba, fazendo da metralha um bailado mortífero, fantasmagórico, replicando fogos-de-artifício perdidos, que, como bálsamo, emergem da noite, miasmas da memória em chama, atiçados no nó em que os corpos se enrolam, sem outra saída que não seja o desesperado desejo de diluir-se na noite ou fundir-se na água.

Então a fuga redentora, inconsciente, provinda do fundo do medo, físico e viscoso, para os dias primaveris da infância e o cálido regaço materno, como quem ajusta contas, em desespero, no deve e haver da vida. E na agitação febril, sobre os gritos, os trovões e o metralhar das armas, o incêndio do sonho ganha então asas e entretece um murmúrio de luz inesperada no olhar do menino perdido, elevando-se na noite negra…”
 (…)

Manuel Veiga
“Do AMOR e Da GUERRA – Fragmentos”



"SEJA BEM VINDO QUEM VIER POR BEM" !...



terça-feira, maio 15, 2018

ORLA DO TEMPO...


 Orla do tempo
E bainha das coisas perecíveis
Na maceração dos dedos.

Todas as esperas se declinam
Em ausências.

Apenas o fio de Ariane
E a frágil teia e a oscilação
Da memória.

E o sopro do Acaso. Apenas.

Nada perdura.
Todas as devoções cristalizam
E todos os vagidos
São grito. Sufocado.

(Ou nostálgica melodia)


Manuel Veiga





quinta-feira, maio 10, 2018

Do AMOR e Da GUERRA - Fragmentos - Lançamento




 Sábado, 2 de Junho às 16:00 - Palácio Baldaya
Estrada de Benfica, 701 - Lisboa


"A deliciosa simplicidade da obra inicia-se com a primeira frase do livro: “O autor não existe”. Assume-se assim o autor como um ser fora da história ou de somenos importância. O livro inicia-se, assumindo-se de forma desafiante como se não houvesse um narrador humano, e onde o próprio livro ganha essa especialidade. É assim que a obra ganha vida e forma no palco da imaginação e vive das emoções criadas pelo enredo.

E o enredo é fantástico, tanto pela remanescência das memórias de um escritor que se revela, mesmo não existindo autor, mas também por se afirmar um livro maduro e enredado nos saberes da vida, que fala por si num espaço temporal de memória, no espaço que lhe couber, para acolher personagens, com liberdade plena para serem moldados e caracterizados pelo leitor, deixando à sua mais ímpia imaginação, as feições, gestos e anatomias, sem que isso altere o rumo da história.
(…)
O livro veste o leitor com os seus atributos, e o seu conteúdo torna-se aliciante na leitura. Cresce e ganha forma, como os seus personagens na construção da história. E porque não há autor, é o livro que veste o corpo de um ser que viveu uma trilogia social, entre dois regimes e o teatro de uma guerra. Fragmentos  rasga o convencionalismo da escrita e fala como gente que vive o que escreve, semeando as emoções reais daquilo que efectivamente é importante no enredo.
(…)
A guerra na Guiné, talvez a maior das fobias coloniais para os soldados portugueses, contrasta no seu absurdo, com a absurda realidade da tentativa de transformar em máquinas de guerra, gente simples e pacífica que simplesmente tenta sobreviver num país decadente e inerte, despejando-os num palco de um outro mundo, sem uma justificação coerente, onde tanto fere a razão de tal facto como a metralha. E neste espaço se embriona a revolta interna das consciências da simples gente, que se sente usada num conflito que não é seu e que nele resgata as memórias da sua origem.

Um conflito armado que gera conflitos existenciais que forçosamente mudariam o discurso literário e filosófico de toda uma sociedade e mentalidade emergentes. Fala-nos assim este livro, numa escrita inovadora, moderna e atraente, desmistificada e que motiva, mesmo ao leitor mais passivo, o interesse pela leitura.
(…)
Uma obra extraordinariamente criativa pela forma como estruturalmente é apresentada e que deliciosamente nos prende do início ao fim."

Raúl Ferrão, escritor

(Posfácio)