sexta-feira, março 24, 2017

Sobre a Actualidade do Filme “O Mundo a Seus Pés”


No filme de Orson Welles, O Mundo a seus pés” (Citizen Kane), o protagonista, magnata da imprensa, numa cena célebre, afirma categórico que os “leitores dos seus jornais pensam aquilo que ele decide que pensem”. O filme é de 1941, data anterior, portanto, à plena afirmação da televisão, a partir da década de cinquenta do século passado e, mais distante ainda, da divulgação da internet com toda a parafernália de meios de comunicação que as novas tecnologias permitem.

O filme, bem se sabe, é uma obra-prima. A frase, no entanto, assume uma importância simbólica que extravasa a dimensão de obra arte reconhecida e laureada. Na realidade, “decidir o que os outros pensam” constitui a mais absoluta afirmação de poder e a denegação mais radical dos fundamentos históricos da autodeterminação do individuo, que nos chega da civilização greco-romana e que, na idade moderna, se expressa na proclamação dos Direitos do Homem.

Era assim, portanto, em 1941. A imprensa, enfim, o meio de comunicação social na época dominante, almejava estabelecer o que os leitores (os cidadãos em geral) “deveriam pensar”; isto é, a visão do mundo era mediada e moldada pela lente multifacetada dos magnatas da imprensa. Naturalmente que os interesses da “imprensa livre”, então em efervescência, se articulava com os interesses pessoais, económicos e políticos de todos os “citizens kanes” desta vida, presentes, passados e futuros.

De facto, desde sempre os poderosos souberam quanto é perigoso o exercício da força e da violência físicas (sempre os escravos se revoltaram) e cedo compreenderam que mais eficaz que a coerção física seria domar o espírito e conquistar “livre” adesão dos indivíduos aos desígnios da dominação.

Essa, portanto, a função da ideologia e o papel dos aparelhos ideológicos, que a segregam e difundem, como que “oleando” os mecanismos de articulação e funcionamento da(s) sociedade(s) e do Estado de que, nos tempos modernos, a imprensa e a comunicação social constituem o paradigma, mas que estão longe de esgotarem os instrumentos de produção e difusão do poder ideológico.

Que poder é esse? O que é a ideologia e qual o seu papel? Que função para os chamados aparelhos ideológicos?
(...)
A especificidade da questão é que o poder mediático se realiza numa espécie de “submissão voluntária”. A interiorização subjectiva dos modelos e comportamentos sociais e, sobretudo, a interiorização do “olhar do outro”, que o poder mediático exponencia, transforma cada indivíduo no seu próprio vigilante.

O temor interiorizado “do que os outros vão pensar” (por não se frequentar tal o tal meio, conhecer a vida de tal celebridade, usar tal marca de vestuário, etc. etc.) constitui motivo de submissão voluntária à ordem estabelecida e ao consenso social, ou seja, constitui um poderoso e subtil elemento de sustentação (pela inércia) do sistema de poder.

Como romper o cerco?
(…)
Importará ter presente que, se é verdade que somos produto da sociedade, também somos nós, cidadãos, os produtores da sociedade que almejamos. Não somos meras marionetas de um jogo de forças, nem meros expectadores dos embates dos diversos poderes. Cada um de nós é co-autor da trama em que os poderes se tecem. E, portanto, o nosso silêncio e passividade, ou a nossa acção decidida irão contribuir para manter ou alterar o estado das coisas.

Afinal, onde “há poder há resistência”. E toda a resistência cria por si novas “formas do poder-saber”.

Quer dizer, os fundamentos de uma vida-outra.



Manuel Veiga 

SEARA NOVA nº 1725
Outubro 2016                                                                                             

                                                                      

quarta-feira, março 22, 2017

QUE O POEMA ARDA.


Quer o poeta luminosa epifania
Esquiva claridade a rasgar-se
Por dentro da sombra.

Prenúncio que seja. Ou apocalíptica
Razão absurda a desentranhar-se
Do nada. Flor desértica
Tatuada no dorso
Da miragem.

Ou suspiro de água a derramar-se
Nos balbuciantes lábios
Do silêncio.

Que o poema arda!

Manuel Veiga