quarta-feira, janeiro 17, 2018

SONHO E MÁGOA...


Benignos são os deuses que espelham
Sua majestade no coração dos homens
E dulcificam tempestades
No fogo dos poetas.

Néscios os homens que caminham rente
Aos pés e de olhar perdido
Receiam a nuvem
E gota de luz

E gemem as dores
Como funestas danças no corpo interdito
De auroras negras.

A liberdade é esta chama. Que busca
A inquietação dos anjos malditos
Em busca do barro redentor
E se glorifica eterno
Na fusão sonho
E mágoa

Emanação fruste
Que fecunda a Vida!...

Manuel Veiga


segunda-feira, janeiro 15, 2018

FRAGMENTOS LIV


Ao que vinha, pois, aquele bando de reguilas alfacinhas, capitaneado pelo corpolento “Bonanza”, “cabo da cifra”, posto em que o Exército, por suas específicas aptidões, o graduara  e lhe concedera os segredos e códigos das comunicações militares, que ele, “cabo da cifra” jurara preservar e manter segredo e, de regresso à peluda, voltaria operário tipógrafo da Imprensa Nacional, por cujas mãos e dedos hábeis e atentos olhos haveriam de passar, com minúcia, a composição e fotolitos das Leis, Decretos, Portarias e Despachos e outras minudências legislativas com que o Governo fascistóide e os restantes órgãos legislativos seus apêndices, estatuais e para-estatuais, Assembleia Nacional, Câmara Corporativa e Corporações, faziam publicar no “Diário do Governo” e bolsavam à profusão sobre o “pacífico e ordeiro” Povo Português, circunstância essa, que apenas ao “cabo da cifra” diz respeito, de ser operário tipógrafo e outras razões suas que para aqui não são chamadas, lhe permitiram adquirir aguda consciência de si e dos outros e alargada visão da vida, em que a solidariedade, os laços e cumplicidades entre os homens constituem, tantas vezes, alimento da vitória sobre as adversidades, bem se sabendo que aquilo que um homem produz, ou faz, forja, de forma imperecível, o seu carácter.

Coerente, pois, consigo e com as pulsões mais genuínas da sua personalidade, o nosso Cabo da Cifra, natural da Freguesia de Alcântara, na zona Ribeirinha de Lisboa, tipógrafo desde os 16 anos, na Imprensa Nacional, filho de tipógrafos e mais conhecido por Bonanza que pelo nome de registo, que o seu baptismo foram as correrias frente à Polícia nas ruas do seu bairro, onde granjeara a sua afamada alcunha e, ele mesmo, se sentia mais interpelado pela alcunha do que pelo seu quase esquecido nome, pois então o famoso Bonanza, cuja popularidade no Bairro de Alcântara lhe permitia conhecer “todo o Mundo”, dando-se conta que a sua vida estava a andar para trás, que é como quem diz, a celeridade do regresso à peluda comprometida pela teima do Capitão Mascarenhas de que “a sua Companhia” regressaria à Metrópole, se não intacta, pelo menos completa, tratou de ele próprio, à sua maneira, contribuir para resolução do imbróglio, em que o “caganças” do Capitão criara e parecia não ter fim à vista. E já que o métodos ortodoxos da hierarquia militar, a que o Capitão, na sua teima, naturalmente se submetia, não atavam, nem desatavam, haveria, em desespero de causa, que lançar mão de métodos menos ortodoxos e mais radicais, que, certamente, seriam bem mais eficazes, do que a “via-sacra” do Capitão Mascarenhas ou os salamaleques do Coronel “Cuequinhas de renda”, disso estava ele, Bonanza, completamente seguro.

E, se assim pensou, melhor o fez. Antes porém de por à “prova de vida” a viabilidade de seus métodos, que é como quem diz, testar a sua eficácia prática, mediante o convencimento da sua utilidade por parte do Alferes, Oficial Adjunto do Comandante da Companhia por acaso de graduação militar e herói a contragosto desta narrativa a enredar-se em si própria, o brioso “cabo da cifra”, discutiu o seu plano de “salvação nacional”- passe o exagero, pois que a Pátria gemia então outras agruras e outras bem mais instantes lutas clandestinas – com seu bando de reguilas alfacinhas, tão ligados estavam eles, cabo Bonanza e seus compinchas, que mais pareciam ser irmãos siameses, não de sangue, como é evidente, mas tão umbilicalmente ligados, como se dedos unidos de mesma mão fossem, vínculos de tal forma cimentados que, ao gregarismo primário da sobrevivência perante os perigos da vida, em geral, e da guerra, em especial, acrescentavam ao dito gregarismo instintivo um mínimo de estruturação orgânica, que mantinha unido e sólido aquele bando de reguilas, mediante a livre aceitação da expressão específica de cada um no interior do grupo, elevadas assim as relações intergrupais a um patamar superior de consciência social, por muito que a post modernidade abjure tal palavrão e lhe negue fundamento científico, mas isso são contas de outro rosário que para aqui não são chamadas, pois que o cabo Bonanza e seu bando dispensam dissertações teóricas e justificações mal cozinhadas para serem as pessoas que são e fazerem aquilo que consideram dever fazer e sempre assim fora, desde a longínqua recruta, em desafio ao poder do Alferes, Comandante do Pelotão, que Alferes ainda não era, mas tão-somente Aspirante Oficial Miliciano, em palpos de arranha para conseguir dobrar-lhes a crista nos dias narrados desta narrativa redonda, em que se inscreve também o “baptismo” do soldado Assobio, que chegou ao Quartel com três dias de atraso, como encomenda extraviada e não seria, pois, agora, com um pé no barco e outro em terra rumo à peluda, que deixariam por mão alheias resolver problemas que eram seus e de seus camaradas de armas.

E, assim, determinados se apresentaram ao Alferes, fazendo-se eco de viva voz do mal-estar e revolta generalizada dos militares, pelo lance mal jogado do Comandante da Companhia de Cavalaria de, à viva força, pretender regressar com s “sua” Companhia completa, sendo porém sabido, de ciência certa, que o Alferes Valentim, morto, se estava a borrifar quanto ao seu destino, que é como quem diz porco morto, cevada ao rabo e, em caso algum, um homem morto, por muito que seja o respeito que os mortos devem merecer, poderá sobrepor-se à vida de uma centena, todos eles desejosos de regressarem, depois de mais de dois anos, metidos neste buraco negro, que é a guerra.

E, colhendo silenciosos aplausos dos seus compinchas, inflamando o discurso e o remoque e já que entre os oficiais desta Companhia parece não haver ninguém capaz de “safar” o capitão Mascarenhas, atascado na sua teimosia e excessiva vaidade, prejudicando, sabe-se lá por quanto tempo e com que consequências, o regresso de todos os militares da Companhia de Cavalaria, estamos nós – enfatizou – em condições de garantir, uma vez todos os militares da Companhia dentro do Uíge, que este não levantará ferro sem o corpo do Alferes Valentim estar também a bordo. Apesar do desgaste dos últimos dias e do pesar pela morte do amigo, o Alferes, não resistiu à gargalhada, face a tão ousada proposta e tão estapafúrdia ideia e, assumindo a pose de “oficial de cavalaria”, um tanto ou quanto abalada pela gargalhada e pela indisfarçável simpatia pelo grupelho mas vocês, suas abéculas, julgam que não tenho mais nada que fazer do que estar aqui a ouvir esse chorrilho de disparates? Punham-se a andar daqui! E num rebate, sabe-se lá ditado por que intuição ou pressentimento mas já agora poderão dizer-me como pensam levar a cabo tal façanha? Agora, era a vez de o grupelho sorrir e o Bonanza, solene, em surdina o Uíge com uma avaria na casa das máquinas não levantará ferro! E o Alferes, fingindo morder o isco ah, sim? E vais tu, minha “amélia”, vais tu e o Assobio, os dois de braço dado, à casa das máquinas do Uíge, roubam uns parafusos e está feito! Devolves os parafusos apenas quando o corpo do Valentim estiver a bordo. Ora, ora… se não têm nada mais sério a dizer, desandem!

Era o momento do tudo ou nada, bem percebendo o perspicaz “Bonanza” que a conversa passara a interessar ao jovem oficial miliciano isso é segredo nosso, não podemos dizer! E o Alferes, em fingida indignação, não podem dizer, mas querem que eu os leve a serio? São parvos, ou quê? Desembuchem! Ponham cá fora o que têm para aí maquinado! Insistiu o Alferes agora percebendo que alguma coisa se passaria entre o grupo que importava conhecer, pois o grupelho desenfreado, entregue a si próprio, por melhores que fossem as intenções, bem poderia estar a deitar lenha em fogueira acesa e acabarem todos por ficar chamuscados. E, perante o mutismo embaraçado, o Alferes fez peito e voz grossa então? Estou à espera! … Tratem de me contar tim-tim o que têm para me dizer… E o “Bonanza”, meditabundo, diremos se o meu Alferes der a palavra de honra que mais ninguém saberá! E o Alferes, apertando o cerco Palavra honra? Eu dar a minha palavra de honra? A vocês? Mas falamos de quê? Estamos na tropa ainda. Ou esqueceram-se disso? É vosso dever informarem-me de tudo! E num fingido tom de mágoa, quase num amuo, aliás eu julgava que era um dos vossos e tivessem confiança em mim, desde quando foi necessária a palavra de honra entre nós? Finalmente, as últimas palavras do Alferes, a puxarem para o sentimento, quebraram a resistência do grupo e o Bonanza”, acabrunhado, Ok, meu Alferes, vamos contar tudo…

E contaram. Em síntese, a maquinação da camarilha de reguilas alfacinhas em vista a manter o Uíge atracado no porto de Bissau, contava com a própria tripulação do paquete, cuja marinhagem, nascida e criada no Bairro de Alcântara, amigos do peito, portanto, do Bonanza e a sua trupe de reguilas alfacinhas, que juntos trilharam os mesmos trilhos e beberam pela mesma cartilha de “malandragem” se propunha provocar uma “avaria” na casa das máquinas, paralisando o navio pelo tempo que fosse necessário. A “coisa” estava de tal forma bem urdida e sofisticada que o próprio “Oficial Imediato do Comando” do paquete daria cobertura à conjura.

Enquanto o Bonanza falava, o rosto do Alferes espelhava a mais genuína perplexidade, que percorria diversos timbres, desde a incredulidade à plena adesão, pois se é verdade que o bom senso o fazia céptico, por outro lado, sabia que a “a fortuna protege os audazes” e entrava em euforia, não podendo contudo ignorar que a urdidura do bando de reguilas tanto poderia resultar em beleza, como constituir um retundo desastre e, neste caso, era certo e sabido que o feitiço se viraria contra o feiticeiro e, em primeiro lugar, contra o grupelho e matéria não faltaria para os incriminar, desde logo, o uso não autorizado das comunicações militares, usadas para o contacto com a tripulação do Uíge, mas também o Alferes Adjunto do Comandante da Companhia que, tendo tido da conjura conhecimento não lhe pusera cobro, dela não informara os seus superiores e então apanharia por tabela, apanhado na armadilha em que se deixara enredar.

Ora, última coisa que o Alferes desejaria, para si e os seus amigos, a dois passos de embarcarem rumo à peluda, era apanhar com a violência do RDM (Regulamento da Disciplinar Militar) no costado. E, então, o Bonanza, prevendo o embaraço e os receios do oficial, acelerou a pedalada, que é como diz a pressão ou acredita em nós e a Companhia embarca conforme está previsto, ou então o meu Alferes tem que ver-se com uma revolta generalizada, pois ninguém está disposto a ficar, nem mais uma hora e não vão ser as falinhas mansas do meu Alferes, nem as ameaças do nosso Capitão que nos irá convencer do contrário. E se não acredita, veja por seus ´próprios olhos, acentuou, arrastando o Oficial à janela com vista para a parada – em redor do edifício os militares da Companhia de Cavalaria, em grupos de rostos fechados ansiosos acompanhavam ostensivamente as diligências do Bonanza e seu grupo, cujo insucesso determinaria um nível superior de luta.

Compreendeu então o Alferes que estava cercado e que “a coisa” era mais séria que uma aventura inconsequente e que os acontecimentos corriam mais depressa e mais longe do que se apresentavam à primeira vista e, fosse qual fosse a sua decisão, sempre seria uma má decisão, na perspectiva da hierarquia militar que, bem ou mal, lhe competia representar. Porém, - o Alferes interrogava-se - não estivera ele, Alferes Adjunto do Comandante de Companhia de Cavalaria, com pé do lado de lá da fronteira prestes a desertar? E, se não fora a palavra sábia e a opinião autorizada do “Senhor Gomes”, forjada no terreno da rebelião política e nos longos anos de degredo “a Revolução aqui em África é deles e tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal”, muito possivelmente estaria agora, por ter medido mal o passo, metido numa aventura desastrosa, além de inconsequente? Essa experiência frustrada obrigava-o, assim a reflectir, com a necessária ponderação, sendo porém que a mesma pergunta vinha sempre à superfície, recorrentemente, a impor-se, cada vez mais, nessa luta de contrários, em que sua mente ardia, afinal que “autoridade” era a sua, ou que exemplo de bom senso decorria da sua vida que lhe permitisse travar a marcha de acontecimentos que outros consideram inscritos em sua dignidade de homens? Não ele, Alferes, por acaso de graduação militar, adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria que, além do mais, nutria pelo inconformado grupelho inegável simpatia.

Estava portanto o Alferes decidido a embarcar naquela aventura e, tendo bem presente que, uma vez que não estivera na génese dos acontecimentos para lhe imprimir seu desígnio, não podia, por isso, desistir de procurar controlar os seus efeitos e, assim motivado, esclareceu o grupo estou quase convencido a ficar de vosso lado, mas antes quero falar com o “Imediato” do paquete Uíge. E, então, o Bonanza, estendeu a mão ao Alferes, num forte cumprimento paisano, antes da continência militar trate o meu Alferes de convencer o nosso Capitão Mascarenhas, que eu trato do “Imediato”, dentro de minutos terá o que pretende.

E assim foi de facto. O oficial da Marinha Mercante em radio mensagem cifrada, confirmou o que havia a confirmar e “abriu” a conjura a outros desenvolvimentos que extrapolavam a iniciativa dos “reguilas alfacinhas” seguramente que o Governador e o Comando Militar da Província não desejam que se saiba em Lisboa de uma insurreição a bordo do Uíge, assim terminava a mensagem.

Entretanto, as diligências do Capitão Mascarenhas, acolitado pelo coronel “cuequinhas de renda”, estavam a produzir alguns resultados positivos, que longe satisfazerem integralmente a teima de não deixar para trás, abandonado, um oficial sob seu comando e, “pour cause”, longe também de gratificarem a sua vaidade, permitiam, no entanto, uma saída airosa, salvando-se a honra do convento, que é como quem diz a imagem do Exército e o orgulho e cagança do capitão de Cavalaria. Efectivamente, as dificuldades iniciais levantadas pelos Serviços Jurídicos do Estado-maior, sobre o cabal esclarecimento das “circunstâncias” do acidente, que havia vitimado o Valentim, foram ultrapassadas, sem dificuldades de maior, por acção do Oficial Adjunto, um Alferes miliciano, licenciado em Direito, mobilizado sem apelo, nem agravo para a Guiné como retaliação das autoridades escolares, pela destacada participação nas lutas académicas, que fez o que seria expectável, face ao seu percurso académico, ou seja,  fez a leitura adequada do “auto de notícia”, propondo o respectivo arquivamento sem mais diligências, fundado para tanto em “douto parecer”, que sabiamente engendrou, repleto de citações doutrinárias e jurisprudenciais que, no seu hermetismo calculado, o tornavam ininteligível para os broncos oficiais do Estado-maior, mas que conferiam, ao seu autor, autoridade intelectual indiscutível.

Remanescia, no entanto, um intransponível obstáculo ao embarque imediato a Companhia de Cavalaria, se não inteira, pelo menos completa, que, nem os nobres apelidos da família Mascarenhas, nem as mesuras do Coronel, Comandante do Batalhão de Cavalaria, urbe et orbe, conhecido como “coronel cuequinhas de renda” se mostravam capazes de ultrapassar, pois esbarravam na força das coisas e na teimosia dos factos e, no caso, o factor determinante era a impossibilidade do médico legista e os serviços funerários se encarregarem do corpo fúnebre do Valentim, face avalanche de óbitos que a guerra despejava naqueles serviços, com os gavetões frigoríferos a abarrotar e bem se sabe que, se na vida,  os homens poderão ser uns mais iguais que outros, na morte, porém, há uma igualdade de facto, pelo que cada um terá que esperar a sua vez, assim o declaravam firmes o médico-legista e os seus funcionários e se alguém pretende que seja diferente, então que esse alguém venha ele próprio tratar do “servicinho”. E quem, se atreve a brincar com a morte, mesmo entre aqueles que por profissão ou dever de ofício, com ela lidam todos os dias?

Estava, por isso, o capitão Mascarenhas prestes a aceitar a proposta do Gabinete do Comandante-geral, permitindo o embarque de regresso da Companhia, mediante garantia de que o corpo do Valentim, transportado de avião para Lisboa chegaria a tempo de, após o desembarque de regresso, a Companhia poder prestar-lhe as respectivas homenagens fúnebres. Ele próprio, Capitão Mascarenhas, conforme previsto no acordo de cavalheiros, permaneceria em Bissau, vigilante sobre o acordado e assim garantir a satisfação do ponto de honra que Oficial de Cavalaria não deixa nenhum dos seus homens para trás.

Assim o disse o Capitão Mascarenhas ao seu oficial adjunto, por acaso de graduação militar o Alferes miliciano, herói a contragosto desta narrativa, que, num sorriso, algo mefistofélico (aprendiz), respondeu quem sabe? Talvez o Valentim ainda se “despache” a tempo e possamos regressar todos juntos. O que importa agora é tratar do embarque da Companhia. E perante o olhar inquiridor do Capitão quem sabe se uma avaria salvadora bordo do Uíge não permitirá ao Valentim apanhar o barco.

E, assim as cousas ditas e interditas se passaram. Embarcou a Companhia de Cavalaria, em seu tempo próprio, no paquete Uíge de regresso à Lisboa. Ficara o capitão Mascarenhas, que Oficial de Cavalaria não deixa nenhum de seus homens para trás. Com ele o seu fiel “escudeiro”, o soldado “Assobio” e o corpo do Valentim à espera de ser encerrado num caixão de chumbo. As marés esperavam o levantamento das âncoras e o balançar solto do barco. O paquete porém não se erguia. Assim o exigia o próprio Oficial da Marinha Mercante Portuguesa, Comandante do elegante paquete Uíge, pois que se oficial de Cavalaria não deixa nenhum de seus homens para trás, também marinheiro que se preza, não deixa nenhum homem em terra, no seu desejo de embarcar!

Não constam desta narrativa mal cerzida, as razões do Comandante do Uíge, nem das suas eficazes diligências. Mas, passadas menos de 24 horas do embarque da Companhia de Cavalaria, foi glorioso ver a elevarem-se no escaler, os restos mortais do Valentim, coberto o caixão com a bandeira nacional, ladeado pelo Capitão Mascarenhas e pelo soldado "Assobio" em posição de sentido e impecável continência militar e os soldados e marinheiros perfilados na amurada do barco, em uníssono, enorme e emocionado Hurraaaaaaa!

Por esses dias, uma notícia discreta, no jornal República: “O Uige atolado “na lama” da Guiné, atrasa regresso de tropas”.

Novos tempos se aproximavam…


Manuel Veiga

sexta-feira, janeiro 12, 2018

COMO SE MÁGOA FORA (editado)


Sorvo o vento no búzio do tempo
Glória sem eco que me devora...

Alinho ternura no arco sem volta
De doce ventura...

Denso perfume que se acende em lume
Na ilusão de arder…

Ausência rola como se mágoa fora
Fingindo não ser...


Manuel Veiga

“POEMAS CATIVOS” – Poética Edições – pág. 34
Maio 2014